estudos:barbaras:fenomeno:ontologia-cartesiana
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| + | ====== Ontologia cartesiana ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **Capítulo 1 A diplopia da ontologia cartesiana** | ||
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| + | * A análise da expressão e, mais geralmente, da cultura conduz, segundo um movimento regressivo, a uma interrogação sobre a significação da natureza em que se enraíza o mundo da cultura, sendo no curso sobre o conceito de natureza, proferido no Collège de France a partir de 1956, que o projeto de Merleau-Ponty se enuncia pela primeira vez em termos ontológicos, | ||
| + | * Merleau-Ponty aborda diversas filosofias da natureza, detendo-se particularmente nas concepções clássicas, pois, como indicam os projetos de plano para Le visible et l' | ||
| + | * Não se trata tanto de fundar uma significação nova da ontologia quanto de assumir o projeto ontológico já em obra nessa filosofia, sendo de uma meditação do cartesianismo, | ||
| + | * A filosofia cartesiana caracteriza-se por uma dualidade fundamental de ponto de vista, sendo o mundo essencialmente apreendido segundo a alternativa entre o Ser e o Nada, como puro naturado remetendo a Deus como puro naturante, sem falhas nem fissuras, portanto sem profundidade | ||
| + | * Essa Natureza, compreendida como mecanismo, corresponde ao ponto de vista do entendimento puro, a natureza da luz natural, ao qual corresponde a dualidade substancial entre pensamento e extensão, inerente à exigência de clareza e distinção, | ||
| + | * Ao manter a contingência do ato criador, Descartes mantinha a facticidade da Natureza e legitimava, sobre essa Natureza existente, outra perspectiva além da do entendimento puro, acessível pelo rapport vital que temos com nosso corpo e pela inclinação natural, cujos ensinamentos não coincidem com os do entendimento puro | ||
| + | * Com a descoberta da união, cognoscível apenas por si mesma, questiona-se a definição do Ser como puro objeto, pois não se pode deixar ao entendimento puro a definição do ser e do verdadeiro se ele não é capaz de conhecer o mundo existente, tornando a primeira e a sexta Meditação aparentemente inconciliáveis | ||
| + | * A solução proposta por Merleau-Ponty situa-se antes na herança de Malebranche do que na de Spinoza, correspondendo a dois modos simétricos de reequilíbrio do cartesianismo, | ||
| + | * O cartesianismo é atravessado por uma dualidade entre a Natureza como Objeto e a Natureza como Acontecimento, | ||
| + | * Há em toda parte a dupla certeza de que o ser é, de que as aparências são apenas sua manifestação e restrição, | ||
| + | * A tarefa da filosofia não é reduzir essa dualidade, pois não pode optar por um dos termos, já que cada um chama o outro, nem tentar liberar um terreno onde essa dualidade seria nula, pois é irredutível, | ||
| + | * A ontologia de Merleau-Ponty pretende realizar o que se exprime e ao mesmo tempo se ignora nas filosofias clássicas, formulando-se primeiro como compreensão dessa dualidade, essa espécie de diplopia ontológica, | ||
| + | * O vaivém das filosofias entre as duas perspectivas não seria então contradição no sentido de inadvertência ou incoerência, | ||
| + | * Há um equilíbrio cartesiano entre ciência e filosofia que não deve ser rompido mas antes reencontrado, | ||
| + | * Descartes, no entanto, fechou logo em seguida a dimensão do composto de alma e corpo, do mundo existente, do Ser abissal que havia aberto, não tomando posse dessa diplopia que o atravessa, sendo esse equilíbrio cartesiano o que Merleau-Ponty visa antes de tudo reencontrar e realizar, explicitando a presença do mundo de modo que ela integre em vez de excluir a possibilidade da objetivação, | ||
| + | * Tomar a medida dessa diplopia ontológica não pode consistir apenas em constatá-la, | ||
| + | * Nenhuma das duas perspectivas exprime a situação total, razão pela qual cada uma é conduzida a passar para a outra, mas se há uma verdade desse vaivém, essa verdade não reside na dualidade mesma, sendo antes a forma unilateral sob a qual cada posição se exprime que determina sua inversão no contrário | ||
| + | * O vaivém corresponde a uma situação mais profunda, a um modo de presença original do Ser, onde se enraíza a dualidade que chama quase inevitavelmente uma formulação rígida em termos de oposição, cuja significação verdadeira não reside, contudo, nessa dualidade | ||
| + | * É preciso superar a relação entre fato e essência como relação de oposição em proveito de um plano onde ela se revelará unidade, compreendendo cada termo como sua própria passagem ao outro, situando a essência aquém de sua oposição à existência e esta aquém de sua oposição à essência | ||
| + | * Se a verdade do vaivém não reside nos termos em que se explicita, resta que há uma verdade da dualidade, pois a oposição dever ser superada não significa que deva ser reduzida à pura e simples unidade, permanecendo a dualidade insuperável, | ||
| + | * Não se deve concluir que a existência ou a essência entreguem a chave última da situação, mas que o solo em que se funda o vaivém deve ser solo para essa dualidade, dando conta do fato de que as filosofias históricas se confrontam, apesar de tudo, com a escolha entre fato ou essência | ||
| + | * Se é verdade que a existência passa à essência, é ela mesma que realiza esse movimento e nele permanece igualmente retida, não passando portanto completamente a ela, sendo nesse sentido que uma dualidade subsiste, e inversamente, | ||
| + | * A verdade do movimento não reside mais na oposição dos termos do que em sua identidade imediata, devendo a diferença entre fato e essência ser concebida como diferença iminente, sempre já realizada mas também sempre em curso de realização, | ||
| + | * Essa perspectiva situa Merleau-Ponty a igual distância de uma filosofia que, reduzindo o mundo à sua essência, permanece prisioneira da dualidade e se depara com o problema do fato no instante mesmo em que crê tê-lo resolvido, e de uma filosofia dialética, ao menos de uma má dialética, que reabsorve a dualidade na identidade tematizando o vaivém como identidade dos opostos | ||
| + | * Justificam-se assim os dois eixos principais da longa parte introdutória de Le visible et l' | ||
| + | * Desse duplo confronto a fenomenologia husserliana sairá, contudo, vencedora, pois é incontestável, | ||
| + | * Husserl permanece, contudo, como Descartes, prisioneiro de um primado do objetivismo e, por conseguinte, | ||
| + | * Husserl representa assim, para Merleau-Ponty, | ||
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