estudos:barbaras:fenomeno:intelectualismo-realismo
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| + | ====== Intelectualismo e Realismo ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **§ 1 A crítica simétrica do intelectualismo e do realismo** | ||
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| + | * O propósito de Merleau-Ponty desde a Introdução de La structure du comportement consiste em compreender a relação entre consciência e natureza, situação em que a psicologia se vê tomada entre um criticismo que faz da natureza uma unidade objetiva constituída diante da consciência e uma ciência que situa a consciência na natureza segundo um modo causal, cabendo então determinar em que medida essa relação pode ser adequadamente definida por um dos termos da alternativa; | ||
| + | * Tomar à letra o pensamento objetivo, sem lhe impor questões que ele mesmo não formula, deixando que o retorno à experiência só se justifique pelos próprios impasses desse pensamento | ||
| + | * O percurso que reconduz à experiência desenvolve-se em dois momentos, sendo o primeiro a psicologia da forma, que questiona a ontologia naturalista pressuposta por toda psicologia, caracterizando a relação do organismo com seu meio como compreensão e visada de um mundo circundante, | ||
| + | * O papel do filósofo é levar esse movimento de superação da hipótese causal até suas últimas consequências, | ||
| + | * A aproximação com a ciência justifica-se na medida em que esta já pratica fenomenologia, | ||
| + | * O desvio pela psicologia da forma seria inútil se não permitisse repensar a consciência transcendental, | ||
| + | * Merleau-Ponty deve mostrar, em movimento descendente, | ||
| + | * A conclusão de La structure du comportement afirma que a coisa natural, o organismo e o comportamento próprio e alheio só existem por seu sentido, sentido que ainda não é objeto kantiano nem representação nem intelecção | ||
| + | * Essa nova significação da consciência transcendental, | ||
| + | * Enquanto a primeira obra se situava no terreno da objetividade para evidenciar o fracasso das ontologias naturalistas, | ||
| + | * O ponto de vista externo da primeira obra visava sobretudo denunciar o realismo, ao passo que o ponto de vista interno da experiência perceptiva, liberado pela psicologia da forma, orienta a crítica da segunda obra contra o intelectualismo | ||
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| + | **§2 O pressuposto dualista da Phénoménologie de la perception** | ||
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| + | * Essa dupla crítica atravessa toda a Phénoménologie de la perception, cujos capítulos seguem um ritmo constante de descrição de um campo de experiência, | ||
| + | * O procedimento de afastar sucessivamente realismo e intelectualismo, | ||
| + | * A recusa de todo pressuposto libera um novo espaço teórico que, no entanto, não é pensado até o fim, apenas circunscrito pelo afastamento simétrico de realismo e intelectualismo, | ||
| + | * Merleau-Ponty é citado por Sichère em Le corps de la philosophie quanto a esse hiato entre o terreno filosófico circunscrito e as categorias empregadas, o que faz da Phénoménologie de la perception um texto antes descritivo do que propriamente filosófico | ||
| + | * A experiência do corpo próprio, reveladora de abertura irredutível do sujeito ao mundo, recebe duas formulações distintas: de um lado, o corpo colocado em primeiro plano evidencia a irredutibilidade da experiência à dualidade sujeito-objeto, | ||
| + | * De outro lado, essa potência não é pensada até o fim, e Merleau-Ponty reflui para uma concepção realista, implicada por seu recurso à psicologia, tornando o corpo mediador do mundo para uma consciência que é ela mesma ser à coisa por intermédio do corpo | ||
| + | * O corpo acaba descrito apenas pela exclusão simétrica dos dois termos da oposição, não sendo sujeito nem objeto mas mediação entre ambos, mediação que não é pensada até o fim justamente por ser pensada como mediação | ||
| + | * Merleau-Ponty oscila entre concepção unitária do corpo e visão dualista que faz dele o meio da consciência, | ||
| + | * Na Phénoménologie de la perception a questão não é decidida: a união não é relegada ao irracional, como em Descartes, mas também não se opera a inversão que pensaria esse irracional como o próprio lugar da racionalidade | ||
| + | * A dificuldade reaparece com a noção de existência, | ||
| + | * Ao apreender esse poder de significação através da noção de existência humana, Merleau-Ponty a compreende como sujeito do movimento de transcendência, | ||
| + | * A ambiguidade se cristaliza na noção de consciência prepersonal, | ||
| + | * A submissão da experiência a categorias que ela na verdade contesta transparece na descrição do mundo percebido, exemplarmente no capítulo sobre o espaço, que busca revelar, contra o pensamento objetivo, um espaço antropológico e existencial anterior ao espaço objetivo | ||
| + | * Seguindo Binswanger, a expressão "cair de cima" não remete a relação analógica mas a uma direção existencial de significação que atravessa diferentes esferas regionais, o que se confirma na descrição de espaços antropológicos singulares como o do primitivo, para quem a esquerda é vivida como lugar do infortúnio | ||
| + | * A patologia e a primitividade revelam a experiência originária do normal, onde a espacialidade do objeto é inseparável de sua fisionomia, conclusão expressa na fórmula que antepõe as experiências expressivas aos atos de significação da pensée théorique e o sentido expressivo ao sentido significado | ||
| + | * O risco de empirismo torna-se então patente, pois multiplicar espaços conforme experiências espaciais distintas parece encerrar cada subjetividade em sua vida privada e substituir o cogito racionalista universal pelo cogito do psicólogo preso à sua vivência incomunicável, | ||
| + | * Contra essa interpretação empirista, Merleau-Ponty afirma que a consciência mítica não se esgota em cada uma de suas pulsações, | ||
| + | * A conclusão de que os espaços antropológicos se oferecem como construídos sobre o espaço natural, os atos não objetivantes sobre os atos objetivantes segundo a terminologia husserliana, | ||
| + | * A dificuldade culmina na fórmula segundo a qual a existência projeta ao seu redor mundos que mascaram a objetividade e a designam como fim da teleologia da consciência, | ||
| + | * Duas alternativas se apresentam: ou a objetividade é assinalada como fim da teleologia da consciência e o mundo perceptivo não pode mais ser caracterizado como natureza, ou o mundo perceptivo já é essa natureza sobre a qual se destacam os mundos antropológicos, | ||
| + | * A tensão da Phénoménologie de la perception revela-se aqui: Merleau-Ponty desvela um universo de experiência originária em que a objetividade só pode ter estatuto teleológico, | ||
| + | * A fórmula " | ||
| + | * Tudo se passa como se Merleau-Ponty não concedesse o bastante ao intelectualismo, | ||
| + | * O fracasso desse percurso revela o intelectualismo como a verdade da consciência, | ||
| + | * Renunciar à consciência intelectual não deve significar abandono da objetividade, | ||
| + | * É por meio da noção de cogito tácito que Merleau-Ponty tenta, na terceira parte da Phénoménologie de la perception, apreender a significação verdadeira do ser-no-mundo, | ||
| + | * A Phénoménologie de la perception não permite pensar essa situação em seu próprio nível, pois "há fenômeno" | ||
| + | * Esse primado do cogito corresponde a determinação insuficiente da noção de mundo, que não é explicitado a partir de si mesmo como unidade original entre ser e aparecer, mas entendido implicitamente como realidade em si, exigindo uma consciência para portar a fenomenalidade | ||
| + | * O cogito tácito é definido apenas negativamente, | ||
| + | * Uma epreuve de si por si é necessária para evitar o empirismo, mas essa presença a si não é conhecimento, | ||
| + | * Porque confronta primeiro a experiência à hipótese realista, Merleau-Ponty é conduzido a apreendê-la além de si mesma como experiência do mundo, submetendo-a a um cogito, de modo que a distância tomada em seguida frente ao intelectualismo, | ||
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| + | **§3 O idealismo de Merleau-Ponty** | ||
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| + | * A maioria dos comentadores reprovou Merleau-Ponty por ter ido longe demais em sua crítica ao intelectualismo, | ||
| + | * Ao contrário, conduzida sob o pressuposto da consciência, | ||
| + | * Por determinar a teleologia a partir da consciência, | ||
| + | * A intervenção de J. Beaufret no debate seguinte à conferência sobre o primado da percepção mostra-se premonitória ao afirmar que a ultrapassagem do empírico pertence ao próprio fenômeno, que a fenomenologia mantém contato com a coisa mesma e recusa explicações intelectualistas não para abrir à irracionalidade mas para fechar ao verbalismo, censurando em Merleau-Ponty não ter ido longe demais mas não ter sido suficientemente radical, permanecendo preso ao vocabulário do idealismo husserliano em vez de sair da subjetividade como fez Heidegger a partir de Husserl | ||
| + | * Não se deve concluir, porém, que a reprovação dos comentadores seja infundada, pois não há alternativa entre censurar os pressupostos intelectualistas de Merleau-Ponty e denunciar nele um irracionalismo do vivido: por não ir suficientemente longe na descrição do mundo vivido, é conduzido simultaneamente a ir longe demais | ||
| + | * Enquanto o vocabulário do intelectualismo é conservado, a descrição do mundo só pode se dar como negação pura e simples da consciência intelectual, | ||
| + | * A reprovação de desconhecimento da fenomenologia que Beaufret dirige aos detratores de Merleau-Ponty vale também para o próprio Merleau-Ponty, | ||
| + | * Como o fenômeno não é apreendido positivamente mas situado no cruzamento de uma dupla negação, é inevitável que esse não-lugar seja lido tanto como retorno a um sujeito intelectual quanto como retorno ao empírico, o que gera duas leituras distintas: uma leitura imediata, atenta à descrição do mundo percebido, que desemboca na acusação de irracionalismo, | ||
| + | * Merleau-Ponty permanece prisioneiro da dualidade entre reflexão e irrefletido, | ||
| + | * Inversamente, | ||
| + | * Uma verdadeira crítica da reflexão exige substituir a ideia de negação imediata por uma negação-referência, | ||
| + | * No nível da Phénoménologie de la perception, Merleau-Ponty permanece aquém dessas conclusões, | ||
| + | * Ali afirma que o estudo da percepção só podia ensinar uma má ambiguidade, | ||
| + | * Somente com Le visible et l' | ||
| + | * O que vale para a Phénoménologie de la perception em seu conjunto vale sobretudo para a parte relativa ao problema de outrem, exigindo um capítulo próprio, pois é nessa descrição da experiência de outrem que melhor se revela a insuficiência da perspectiva adotada na obra e, por conseguinte, | ||
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