estudos:barbaras:fenomeno:carne-da-idealidade
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| + | ====== Carne da Idealidade ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **A carne da idealidade** | ||
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| + | **A voz** | ||
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| + | * A escassez de textos consagrados à palavra no Visível e o invisível, interrompido no limiar dessa questão tida por mais difícil, obriga a uma reconstituição a partir de textos anteriores, ainda que neles o vocabulário não seja o do Visível e o invisível, retomando a ideia de que a ideia não aparece senão em transparência numa carne, sendo dimensão e não entidade, o que exige concluir que é em favor de uma nova carne que pode nascer a experiência da idealidade pura, a voz sendo o elemento próprio da expressão e da significância ideal | ||
| + | * a citação segundo a qual a reversibilidade que define a carne existe em outros campos de modo incomparavelmente mais ágil, capaz de atar entre os corpos relações que ultrapassam definitivamente o círculo do visível, entre os movimentos da garganta e da boca que fazem o grito e a voz, e a afirmação de que, como Malraux disse, ouço-me com minha garganta | ||
| + | * a propriedade da expressão vocal de se ouvir ao mesmo tempo em que é proferida, ouvindo-se por dentro, a carne vocal se apagando como corpo no instante em que se exterioriza e retornando a si no mesmo movimento | ||
| + | * a citação de Derrida sobre a transcendência aparente da voz, o corpo fenomenológico do significante parecendo se apagar no momento mesmo em que se produz, transformando em pura diafaneidade a opacidade mundana de seu corpo | ||
| + | * a distinção entre a visão, cujo acesso a si não se faz senão desdobrando um fora, o soi perceptivo se faltando antes de se atingir, e a reflexividade vocal, na qual a carne só se faz outra para se reencontrar a si mesma | ||
| + | * A voz realiza a reflexividade carnal sob o modo de uma quase coincidência sem que se deva sacrificar a carne sob pretexto de que a voz a sublima, o toque não se exercendo senão permanecendo ele mesmo intangível, | ||
| + | * a citação segundo a qual não me ouço como ouço os outros, a existência sonora de minha voz para mim sendo mal desdobrada, vibrando através de minha cabeça mais do que fora | ||
| + | * a manutenção de um oco entre falar e ouvir, a palavra significante permanecendo iminente na voz como a visão o era no corpo visível e o toque no corpo tangível | ||
| + | * A percepção já era carne, ao passo que o falar corresponde a um acréscimo de interioridade, | ||
| + | * a citação segundo a qual a linguagem é ele mesmo um mundo, um ser, tal como há o visível é preciso reconhecer que há a palavra | ||
| + | * a proximidade a si da carne, situando-a além da espacialidade mundana, não indo sem invisibilidade nem indicibilidade, | ||
| + | * A démarche de Merleau-Ponty consiste em retomar o entender aquém da oposição entre compreender e ouvir propriamente dito | ||
| + | * a citação segundo a qual compreender uma frase não é senão acolhê-la plenamente em seu ser sonoro, entendê-la, | ||
| + | * a citação segundo a qual, quando escuto, o discurso se fala em mim, me interpela e eu ressoo, me envolve e me habita a tal ponto que não sei mais o que é meu e o que é dele | ||
| + | * a afirmação de que a linguagem é tudo, pois não é a voz de ninguém, sendo a própria voz das coisas, das ondas e dos bosques | ||
| + | * a compreensão do sentido, por analogia à estrutura sensível compreendida por sua relação ao corpo, como estrutura invisível compreendida por sua relação ao logos, à palavra | ||
| + | * o abandono, no Visível e o invisível, da questão da motivação original do signo, o que expõe o limite da Fenomenologia da percepção, | ||
| + | * a citação segundo a qual o ser natural repousa em si mesmo enquanto o Ser de que a linguagem é a morada não pode se fixar nem ser olhado, não sendo senão de longe | ||
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| + | **O sentido como articulação** | ||
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| + | * A análise da carne expressiva permite depreender a significação verdadeira da dimensão diacrítica do signo, a ontologia convergindo aqui com a linguística saussuriana ao lhe conferir um fundamento, nenhum signo sendo estritamente vocal ou situado em exterioridade, | ||
| + | * o sentido permanecendo, | ||
| + | * a diferenciação dos signos por sua própria unidade, quase identidade que é exatamente a diferença de que a identidade precisa para se afirmar como identidade exprimida | ||
| + | * o sentido não se confundindo com os signos por ser o princípio que os organiza, mas também não sendo outro que eles, disjunção na conjunção | ||
| + | * A expressão deve ser apreendida como articulação, | ||
| + | * o princípio de equivalência que caracteriza o fenômeno sendo articulação antes da letra, exigindo distinguir graus de articulação sem comprometer a diferença fenomenal entre o sensível e o inteligível | ||
| + | * a exterioridade sendo uma fraqueza da articulação, | ||
| + | * a variação eidética não fazendo passar a uma ordem de essências separadas, mas dando um invariante estrutural cuja [[lx> | ||
| + | * A insistência na articulação vale essencialmente contra uma perspectiva positivista, | ||
| + | * o Ser não sendo outro que a própria teleologia expressiva, tendendo a uma realização que nunca acede à autonomia de um princípio organizador | ||
| + | * a carne como elemento a meio caminho entre o indivíduo espaço-temporal e a ideia, sem que se deva realizar esse elemento como atestação de um monismo ontológico | ||
| + | * a proposta de falar antes de um monismo fenomenológico, | ||
| + | * o quiasma entre o conceito de carne e o campo de experiência que ele tematiza, o conceito não podendo pretender possuir a experiência que o excede | ||
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| + | **Palavra e intersubjetividade** | ||
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| + | * A descrição da carne no nível perceptivo dava conta da aparição de outrem, mas nesse nível há antes experiência do mundo do que abertura a outrem mesmo, a exterioridade em que a carne sensível se realiza permanecendo negação mais do que atestação de uma outra presença, eu e outrem variando juntos como monde | ||
| + | * a citação segundo a qual os comportamentos instituídos não dão senão um outro em geral, difuso através de meu campo, mais uma noção do que uma presença | ||
| + | * É somente no nível da expressão que pode aparecer uma verdadeira intersubjetividade, | ||
| + | * a citação segundo a qual todo locutor não fala senão se fazendo por antecipação alocutário, | ||
| + | * a citação segundo a qual a linguagem me lembra que, monstro incomparável no silêncio, sou pela palavra posto em presença de um outro eu mesmo que cada instante de minha linguagem recria | ||
| + | * a experiência do diálogo em que as duas perspectivas deslizam uma na outra, a citação segundo a qual quando falo a outrem e o escuto, minha palavra é recortada lateralmente pela dele, eu me ouço nele e ele fala em mim | ||
| + | * A palavra sublima a intersubjetividade sensível mais do que a suprime, permanecendo minha palavra e mantendo a cisão entre mim e outrem no mesmo momento em que me abre a ele, outrem permanecendo o avesso inacessível desse corpo de que a significação precisa para se constituir | ||
| + | * a expressão não dando tanto acesso a um outro eu mesmo quanto a um elemento neutro onde me reflito, que porém porta em filigrana as consciências de que procede | ||
| + | * a palavra realizando, em sua ordem, a armação da intersubjetividade que caracterizava, | ||
| + | * o quiasma entre as consciências expressivas e o mundo cultural, tal como havia um quiasma entre as consciências sensíveis e o mundo percebido | ||
| + | * A palavra representa uma realização superior em relação à percepção, | ||
| + | * a citação segundo a qual é como se a universalidade do sentir cessasse enfim de ser universalidade para mim, redobrando-se de uma universalidade reconhecida | ||
| + | * a advertência contra tomar essa distinção para restaurar um dualismo, os gestos vocais não sendo signos voltados para si ou para um universo autônomo de significação, | ||
| + | * a afirmação de que não há distinção a operar entre o trabalho da pintura e a obra da linguagem, ambas mostrando o mundo segundo dimensões que, no nível da percepção, | ||
| + | * A palavra incarnada, a voz, não dá conta do universo da cultura em toda a plenitude de seu sentido, pois a idealidade se dá como subsistindo fora de toda comunicação efetiva, o que não significa que ela esteja livre de toda corporeidade, | ||
| + | * a citação segundo a qual a auto-suficiência da idealidade não põe o ser ideal fora da palavra, obrigando apenas a introduzir a mutação essencial que é o aparecimento da escrita, palavra de X a X que não é portada por nenhum sujeito vivo | ||
| + | * a escrita alargando o campo da expressão sem transcendê-lo completamente, | ||
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