estudos:barbaras:fenomeno:carne
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| + | ====== Carne ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991// | ||
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| + | **Capítulo 1 A carne: o visível e o invisível** | ||
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| + | **§1 O quiasma** | ||
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| + | * A meditação de Merleau-Ponty parte do parágrafo 36 das Ideen II de Husserl, sobre a constituição do corpo próprio como suporte das sensações localizadas, | ||
| + | * Ao tocar a mão esquerda, encontram-se nela séries de sensações do tato localizadas mas que não constituem propriedades como a aspereza ou a lisura, sendo abstração falar da coisa física mão esquerda sem essas sensações, | ||
| + | * Produz-se assim uma espécie de reflexão em que os papéis não cessam de trocar-se, sendo cada mão sucessiva ou quase simultaneamente tocante e tocada, mão originariamente tocante e tocada, coisa senciente, sujeito-objeto, | ||
| + | * A distinção entre a mão como coisa física e o sentir que nela desperta é abstração operada sobre realidade mais profunda, refletindo-se o corpo, convindo a si mesmo, sem ponto em que não se apreenda já como percebendo, esboçando intimidade em vez de exterioridade | ||
| + | * Precisamente porque o sentir da mão esquerda é apreendido nela mesma, a reflexão não se realiza até o fim, permanecendo iminente, pois minha mão direita está sempre a ponto de tocar minha mão esquerda tocando as coisas mas nunca alcança a coincidência | ||
| + | * O ser-tocante e o ser-tocado, ao nível da mão, não são exteriores um ao outro mas o avesso um do outro, sendo o sentir, aqui o tato, realizado como corpo, e a dimensão da encarnação apenas o outro nome dessa exterioridade a si própria do sentir | ||
| + | * O corpo próprio revela um rapport consigo mesmo que não é de identidade nem de diferença, mais alto que a exterioridade do objeto físico por ser senciente, mais baixo que a pura interioridade da consciência por esse sentir ser encarnado, ou antes, ser sua própria encarnação | ||
| + | * Pode-se dizer agora, à letra, que o próprio espaço se sabe através de meu corpo, não sendo a encarnação contingente nem recobrindo relação externa entre o sentir e o corpo, pois assim o sentir não teria corpo, seria obra de pura consciência | ||
| + | * A experiência do tocante-tocado revela a quase identidade do sentir e de seu corpo, sendo corpo objetivo e corpo fenomenal como as duas faces de uma realidade mais profunda, significando que o sentir não é outro que seu corpo reconhecer que se produz como a própria presença do sentido | ||
| + | * Ao se dar um corpo, o sentir desce ao mundo, se faz mundo, sendo a essa condição que o mundo pode ser atingido como mundo, sendo o devir-mundo do sentir sinônimo do advento de um mundo sentido, não se distinguindo prestar-se à sensação de ser mundo | ||
| + | * É em virtude dessa parentela ontológica com o mundo que a consciência pode abrir-se ao mundo mesmo, havendo mais profundamente que a oposição entre consciência e objeto o advento irredutível de um mundo, não havendo rigorosamente senão o mundo | ||
| + | * O que vale para o tato vale, em virtude da unidade do corpo próprio, para a visão, que também se encarna, é visível, de visibilidade consubstancial a ela, produzindo-se do meio do mundo, o que equivale a dizer que advém como presença efetiva de um mundo visível | ||
| + | * Vejo o mundo: ele me tapa a vista, me envolve, me ultrapassa, não estando diante de mim mas ao redor de mim, de modo que esse envolvimento é por princípio irredutível a uma apreensão frontal, sendo preciso rejeitar os preconceitos seculares que colocam o corpo no mundo e o vidente no corpo | ||
| + | * A visão é evidência opaca do mundo, invasão que não pode ser dominada, presença que não pode ser posta a distância, retomando Merleau-Ponty a reflexão de [[sofia> | ||
| + | * A visão é habitada por uma não visão irredutível, | ||
| + | * A pertença da visão ao mundo, que impede pensá-la como posse intelectual, | ||
| + | * A passagem da visão ao mundo não é passagem a seu outro, pois isso manteria ainda a alteridade da visão em relação ao mundo, não podendo a visão negar-se pelo mundo senão se essa negação não for radical, se ela se conservar nela mesma | ||
| + | * É paradoxalmente ao conceber de modo radical o devir-mundo da visão, como passagem da visão a seu outro, que se perde a radicalidade da encarnação, | ||
| + | * Dizer que o mundo me envolve é recusar a autonomia do sentido mas também excluir que o mundo subsista como puro fato, átomo de ser, sendo essa espessura já minha espessura, isto é, também transparência, | ||
| + | * O devir-corpo do percebente é devir-carne do percebido, tapando-me a vista o mundo mas de modo que a tela apresentada deixe transparecer profundidade, | ||
| + | * Trata-se de tomar à letra a fórmula husserliana de que a coisa é apreendida em pessoa, em sua carne, refletindo a carne do sensível, esse grão cerrado que detém a exploração, | ||
| + | * A análise do sentente-sensível revela que a reflexividade, | ||
| + | * O há do mundo não é o outro da reflexividade carnal, pois próprio desta é só advir se faltando, realizando-se apenas como surgimento de um mundo, que é como o lugar ou o ser desse manque, o rastro dessa iminência | ||
| + | * Há inserção do mundo entre as duas folhas de meu corpo, não alcançando o corpo objetivo o corpo fenomenal embora dele não se distinga como pura coisa, sendo por isso separados por toda a espessura do mundo, sendo o momento do manque não outro senão aquilo de que é manque | ||
| + | * Inversamente há inserção de meu corpo entre as duas folhas de cada coisa e do mundo, só chegando o mundo a parecer, a se fazer coisa, por estar tramado da potência significante do corpo, sendo as dimensões do parecer modalidades da vida carnal | ||
| + | * A carne é fenômeno de espelho, realizando a percepção unidade de proximidade e distância própria do reflexo, refletindo o mundo o si e permanecendo por isso em retraimento, | ||
| + | * A despossessão pelo mundo, em que a percepção se resume, é condição de toda possessão, sendo talvez pelo conceito de esquecimento que se alcançaria mais de perto o que Merleau-Ponty tenta nomear através da noção de quiasma | ||
| + | * O esquecimento não deve ser concebido como negação ou ausência mas como certo modo de presença daquilo de que é esquecimento, | ||
| + | * É precisamente essa a censura que Merleau-Ponty dirige incessantemente à apresentação husserliana da redução transcendental, | ||
| + | * O percebido, reapreendido através da noção de quiasma, pode ser descrito como o domínio de um esquecimento, | ||
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| + | **§2 O visível e o invisível** | ||
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| + | * O visível não se dá como significação, | ||
| + | * Há certo rapport entre visível e invisível onde o invisível não é apenas não visível mas onde sua ausência conta ao mundo, estando atrás do visível, visibilidade iminente ou eminente, apresentado justamente como o que não pode ser apresentado em pessoa | ||
| + | * O recurso às noções de visível e invisível visa definir o ser do mundo aquém da oposição entre fato e sentido, mostrando que o próprio do sentido é dissimular-se sob a forma do visível, e o próprio do visível é ser um modo de apresentação do sentido | ||
| + | * O sensível deve ser caracterizado não como negação imediata do sentido mas como negação-referência, | ||
| + | * O visível é apresentação de uma certa ausência, não porque se distinga, enquanto sensível, de um sentido do qual seria o signo, mas enquanto é essa apresentação, | ||
| + | * É de um único movimento que o sensível se afasta do em si e se distingue do sentido, pois colocá-lo como em si restauraria diante dele a positividade do sentido, e situar o visível mais alto que o em si impede o sentido de cindir-se daquilo de que é sentido | ||
| + | * Desvanece-se assim a oposição entre sentido e sensível, entre invisível e visível, que sempre repousa na decisão de pensá-los como entes, consistindo o ser do sensível justamente em não repousar em si mesmo como um ser mas em estar tramado de invisível | ||
| + | * O sensível é precisamente o meio onde pode haver ser sem que ele tenha de ser posto, sendo a aparência sensível do sensível o único meio de o Ser se manifestar sem tornar-se positividade, | ||
| + | * O ser do sensível é o ser do subentendido, | ||
| + | * Conclui-se que a diferença do sentido é sinônima de sua identidade com o sensível, tratando-se de apreender a fenomenalidade como identidade sem sobreposição, | ||
| + | * A fenomenalidade é essa diferença pura, diferenciação mais do que diferença, em que o Ser não se cinde de si mesmo, ao fenomenalizar-se, | ||
| + | * O ser do fenômeno consiste em ser sua própria iminência, isto é, também sua própria ausência, sendo preciso falar, rigorosamente, | ||
| + | * Mede-se aqui mais claramente a relação de proximidade e distância que Merleau-Ponty mantém, por sua própria confissão, com a filosofia sartriana, tentando também Sartre pensar uma invisibilidade do sentido, o sentido como invisível | ||
| + | * Ao determinar essa invisibilidade como nada, Sartre restaura a oposição que busca superar, radicalizando-se a invisibilidade sob a forma de uma nadidade que mantém com o Ser relação de oposição ou negação imediata, tornando-se o invisível o outro absoluto do visível | ||
| + | * Pouco importa que a visibilidade seja compreendida como essência ou como nada: em ambos os casos a inscrição do invisível no visível é finalmente perdida, não havendo diferença, a esse respeito, entre a filosofia sartriana e a eidética husserliana | ||
| + | * Determinar o ser do sentido como nada é ainda pensá-lo como entidade, o que conduz a distingui-lo daquilo de que é sentido, sendo assim também perdido o ser do sensível, pois pôr o sentido em exterioridade em relação ao Ser é situar o Ser aquém do sentido | ||
| + | * Merleau-Ponty afirma partir de onde Sartre tem seu ponto de chegada, no Ser retomado pelo Para-si, sendo em Sartre ponto de chegada porque ele parte do ser e da negatividade e constrói sua união, enquanto para Merleau-Ponty é a estrutura ou a transcendência que explica | ||
| + | * Pensar o invisível como nada é finalmente perder sua nadidade, sendo justamente por ser sem mistura que a alteridade do nada se degrada em positividade, | ||
| + | * É na medida em que o desdobramento nunca é coisa feita, em que o nada não se cinde do Ser para o qual se porta reunindo-se para além dele, que sua nadidade se mantém, não tendo sentido a negação do nada senão se sua diferença em relação ao que nega permanecer inatribuível | ||
| + | * O Ser acede à presença por uma negação que é igualmente posição, devendo a visibilidade fundar-se num invisível que, para portar o visível à presença, deve estar do lado daquilo que nega, tratando-se de descrever o Ser como sua própria negação | ||
| + | * Há identidade do visível e do invisível que não é construída a partir de sua oposição mas repousa sobre negação que só se sustenta permanecendo confundida com o que nega, sobre transcendência que só se sustenta sendo apresentação de um inapresentável | ||
| + | * O invisível dá a significação verdadeira do nada porque jamais excede o visível que contudo nega, dando o visível correlativamente a significação verdadeira do Ser, pois sua positividade não consiste em reunir-se aquém de toda negação mas em ser prenhez ou latência do invisível | ||
| + | * A noção de invisível representa a verdade de uma filosofia do nada, tal como constituía a verdade de uma filosofia da essência, permitindo, concebida como a diferença dos idênticos, reapreender esse movimento de fenomenalização em que o fenômeno se constitui permanecendo inatribuível | ||
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| + | **§3 A carne como Visibilidade** | ||
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| + | * Essa análise da fenomenalidade em termos de visível e invisível, de quiasma ou entrelaçamento, | ||
| + | * A origem só é verdadeiramente ela mesma se permanece retida naquilo de que é origem, se é feita daquilo que constitui, só havendo aparição do mundo se é o próprio mundo que se desdobra, sendo seu próprio desdobramento, | ||
| + | * O mundo é esse ser que é seu próprio sentido, que tira de sua facticidade os possíveis segundo os quais se encarna, sendo preciso, diz Merleau-Ponty, | ||
| + | * Superam-se assim a oposição imediata entre empírico e transcendental, | ||
| + | * O mundo é Fato absoluto, contendo por isso tudo, inclusive sua própria possibilidade, | ||
| + | * A unicidade do mundo não significa que subsista em si como puro indivíduo mas que está na raiz de todo pensamento dos possíveis, cercando-se de um halo de possibilidades que são seus atributos, tendo como destinação natural ser e abraçar tudo o que se pode conceber de possível | ||
| + | * Como compreender então essa noção de carne que dirige toda a reflexão de Merleau-Ponty? | ||
| + | * Precisamente porque essa abertura ao mundo não procede de consciência positiva, o próprio mundo não pode ser circunscrito como ser que repousa em si mesmo para além da abertura em que advém, subindo o mundo à visibilidade ao mesmo tempo em que a percepção se faz mundo | ||
| + | * A noção de carne corresponde à decisão de pensar a visibilidade como ser, ou o Ser como visibilidade, | ||
| + | * A carne é o sensível no duplo sentido do que se sente e do que sente, não havendo sentido que não seja já sentir, nem sentir que possa subsistir em estado puro sem ser ele mesmo sensível, no sentido do que é sentido | ||
| + | * A carne é sinônima da visibilidade, | ||
| + | * A carne não é matéria, não é espírito, não é substância, | ||
| + | * Com a carne assim compreendida supera-se enfim a dualidade entre matéria e forma através da qual Husserl tenta compreender a intencionalidade, | ||
| + | * Em Ideen I Husserl descreve a intencionalidade como apreensão ou animação de uma camada hilética, constituída pelos puros data de sensação, que lhe confere função figurativa, sendo toda a dificuldade conciliar o momento da transcendência com o da presentação ou imanência | ||
| + | * Porque a hylè é primeiro posta aquém de toda manifestação, | ||
| + | * O momento do parecer é decomposto, situado de antemão aquém e além de si mesmo: pouco parecente na hyle, a coisa é por isso mesmo demasiado parecente na morphe, primeiro cortada do sentido que deve esboçar, a matéria é fadada a ser absorvida pelo sentido visado na apreensão | ||
| + | * Husserl tenta resolver o problema recorrendo à Ideia em sentido kantiano, sendo a doação perfeita da coisa apenas prescrita como Ideia, podendo assim a unidade inerente ao parecer conciliar-se com a indeterminação dos esboços, mas na realidade a infinidade da coisa é ainda perdida | ||
| + | * Porque cada esboço é apreendido de antemão do ponto de vista de sua cisão com a coisa, o infinito se reúne além de todo esboço e se fecha na Ideia, sendo a matéria compreendida como indeterminação em vez de determinabilidade positiva | ||
| + | * A significação verdadeira do infinito é assim perdida na medida em que é cindido do finito, sendo pensado como negação imediata do finito ele se converte numa posição em que sua infinitude se vê comprometida, | ||
| + | * O infinito verdadeiro deve ser o que nos ultrapassa, infinito de [[lx> | ||
| + | * O infinito não pode ser preservado, como o que jamais se apresenta, senão se pensado não como o que excede infinitamente toda apresentação mas como o que sempre já se apresenta, devendo permanecer, para Merleau-Ponty, | ||
| + | * Recorrer à noção de carne é finalmente superar a oposição imediata entre finito e infinito, compreendendo que a verdade do infinito se situa aquém dessa oposição, não sendo o infinito outro que o finito mas sua potência significante, | ||
| + | * A carne deve finalmente ser pensada como horizonte, designando exatamente o horizonte como ser, sendo este, quando Husserl dele fala, não coleção de coisas tênues nem título de classe mas novo tipo de ser, de porosidade, de prenhez ou de generalidade | ||
| + | * Quando Husserl caracteriza o horizonte como o que é possuído por cada estado de consciência, | ||
| + | * O vivido presente só tem verdadeiramente horizonte se passa nele, sendo antes esse horizonte e deixando por isso de ser vivido presente, permanecendo o horizonte horizonte apenas à condição de ser determinado em sua própria indeterminação | ||
| + | * Falar de carne é pensar a presença como horizonte, e não o horizonte como horizonte de uma presença | ||
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