estudos:barbaras:experiencia:virada
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| + | ====== Virada ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: | ||
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| + | **A virada da experiência: | ||
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| + | * O empreendimento bergsoniano de buscar a experiência em sua fonte não podia deixar de se impor a Merleau-Ponty, | ||
| + | * a citação de Geraets segundo a qual essa orientação bergsoniana teria determinado em grande parte a leitura muito seletiva que Merleau-Ponty fez de Husserl | ||
| + | * o comentário de Merleau-Ponty sobre A imaginação de Sartre, vendo em Bergson um pressentimento do noema husserliano | ||
| + | * Nas duas primeiras obras, as alusões a Bergson dão a imagem de um pensamento dificilmente situável, tornando-se o rapprochement mais presente e a discussão mais aprofundada à medida que Merleau-Ponty elabora seu projeto ontológico | ||
| + | * o curso sobre A natureza e o capítulo Interrogação e intuição culminando numa confrontação entre Husserl e Bergson, tratados então em pé de igualdade | ||
| + | * Ao tempo da Fenomenologia da percepção, | ||
| + | * a crítica de Bergson influenciada por G. Politzer, cujo projeto de dissolução da psicologia denunciava a esterilidade científica das correntes clássicas por adotarem sem questionamento a atitude realista | ||
| + | * a crítica bergsoniana do espaço permitindo, ao contrário de Politzer, reencontrar o sentido originário da interioridade, | ||
| + | * Merleau-Ponty retoma essa crítica do bergsonismo por considerar que o realismo denunciado por Politzer é apenas a forma particular que assume, no campo da psicologia, o que Husserl chama atitude natural | ||
| + | * a citação segundo a qual Bergson subentendia o mundo objetivo como quadro lógico de suas descrições, | ||
| + | * Bergson tenta respeitar os traços fenomenológicos do tempo sob o conceito de duração sem conseguir alcançá-los, | ||
| + | * a citação segundo a qual, se em virtude do princípio de continuidade o passado ainda é presente, não há mais passado nem presente, sendo a consciência inteira no presente como uma bola de neve | ||
| + | * a necessidade de pensar, entre a consciência sintética e a coisa, um modo de unidade imanente à diversidade, | ||
| + | * O curso de 1948-49 sobre Matéria e memória testemunha a mesma atitude, visando Bergson restaurar o corpo em seu debate com o mundo, mas postulando a identidade do esse e do percipi sem apoiá-la numa consciência constituinte | ||
| + | * a citação segundo a qual Bergson não vê nem coloca o problema do cogito, colocando antes o ser total e nele recortando minha perspectiva | ||
| + | * a citação central da crítica merleau-pontiana sobre a cegueira de Bergson para o ser próprio da consciência e sua estrutura intencional | ||
| + | * Esse realismo é apenas a contrapartida de seu espiritualismo, | ||
| + | * a citação sobre o sujeito radicalmente diferente da objetividade e ao mesmo tempo radicalmente homogêneo a ela, simples diferença de substância | ||
| + | * a impossibilidade de pensar a articulação entre ação atual e memória, encerrado o sujeito num presente sem horizonte temporal ou num passado fantasmático | ||
| + | * A fecundidade fenomenológica do conceito de imagem é comprometida pela posição realista de uma Totalidade em si, à qual responde a cisão entre uma motricidade objetiva e um sujeito contemplativo | ||
| + | * a citação sobre o homem concebido, por preconceito herdado de Spencer, como poder animal de ação ao qual se superporia patheticamente uma faculdade dos longínquos | ||
| + | * Merleau-Ponty reconhecendo, | ||
| + | * A divergência se cristaliza na questão do tempo, capital para ambos os pensadores, sendo Bergson criticado essencialmente em nome de uma filosofia da consciência, | ||
| + | * O projeto de Merleau-Ponty é retornar ao mundo percebido em sua pureza nativa, exigindo isso uma reflexão metodológica prévia chamada redução, gesto essencialmente negativo de afastar o que obstrui esse retorno | ||
| + | * Husserl apresentando a redução como retorno a uma consciência transcendental diante da qual o mundo se desdobra em transparência absoluta, geste que herda a tradição idealista | ||
| + | * a determinação do mundo da atitude natural como universo de blosse Sachen e o retorno a uma consciência transcendental não mundana constituinte sendo as duas faces de um mesmo gesto | ||
| + | * A démarche merleau-pontiana consiste em cavar além dessa correlação rumo ao mundo perceptivo propriamente dito, apoiando-se em resultados da psicologia da forma e da fisiologia goldsteiniana | ||
| + | * o sujeito do comportamento não podendo ser confundido com o sujeito transparente dos atos objetivantes, | ||
| + | * Merleau-Ponty é pouco a pouco levado a questionar esses resultados, iniciando-se no começo dos anos 1950 um movimento que desemboca na perspectiva ontológica de O visível e o invisível, rompendo com a Fenomenologia da percepção | ||
| + | * a citação segundo a qual os problemas colocados na Fenomenologia da percepção são insolúveis porque ali se parte da distinção consciência-objeto | ||
| + | * o intelectualismo sendo agora julgado a verdade de toda consciência, | ||
| + | * O passo dado consiste em evidenciar uma correlação essencial entre as filosofias da consciência e uma ontologia sempre implícita, que Merleau-Ponty qualifica de ontologia do objeto | ||
| + | * a oposição pertinente não sendo mais entre consciência reflexiva e consciência encarnada, mas entre uma ontologia do objeto e uma ontologia de gênero novo que a leitura de Bergson permite explicitar | ||
| + | * Essa decisão está explicitada no capítulo Interrogação e intuição, mostrando Merleau-Ponty que a fenomenologia, | ||
| + | * a citação de Granel segundo a qual estabelecer que o sentido fenomenológico do Ser é a Presentação só pode ser compreendido se a Consciência for reconhecida como o Ser | ||
| + | * É nesse ponto preciso que o caminho de Merleau-Ponty cruza o de Bergson, pois a verdade da essência reside numa decisão metafísica que Bergson explicita em A evolução criadora, a saber, a noção de nada | ||
| + | * a citação sobre o desdém da metafísica por toda realidade que dura vir precisamente de que ela só chega ao ser passando pelo nada | ||
| + | * a citação segundo a qual, se passamos pela ideia do nada para chegar à do Ser, o Ser a que se chega é essência lógica ou matemática, | ||
| + | * O reprove essencial que Merleau-Ponty dirige à eidética husserliana é que, para possuir plenamente o eidos, seria preciso situar-se do ponto de vista do nada, o que contradiz o enraizamento essencial de todo pensamento | ||
| + | * a citação sobre reduzir verdadeiramente uma experiência à sua essência exigindo recuar ao fundo do nada | ||
| + | * o texto publicado em anexo confirmando que a passagem pelo nada é a raiz do objetivismo, | ||
| + | * A releitura de Bergson caminha junto com uma inflexão do sentido da redução fenomenológica, | ||
| + | * a citação segundo a qual é preciso habituar-se a pensar o Ser diretamente, | ||
| + | * a redução não sendo mais neutralização da tese de existência, | ||
| + | * De um lado, a crítica de Merleau-Ponty a Bergson denuncia seu positivismo em nome de uma filosofia transcendental; | ||
| + | * a citação segundo a qual Bergson tem razão em sua crítica ao nada, errando apenas ao não ver que o ser que obtura o nada não é o ente | ||
| + | * Essa inconsequência de Bergson decorre da orientação de A evolução criadora, atento sobretudo à imutabilidade da essência lógica, sem tematizar que essa imutabilidade procede da plenitude de determinação | ||
| + | * a citação de Lebrun segundo a qual o bergsonismo é menos crítica da metafísica que deslocamento de sua tópica, tendo o Ser apenas mudado de conteúdo | ||
| + | * a citação segundo a qual o aberto no sentido de buraco é Sartre, é Bergson, é o negativismo ou o ultrapositivismo, | ||
| + | * A abordagem merleau-pontiana do Ser no período de O visível e o invisível procede inteiramente desse cuidado de ir ao Ser sem nada interposto | ||
| + | * a citação sobre a filosofia do algo, algo e não nada, linha divisória entre a ontologia objetivista e a fenomenológica | ||
| + | * a nota inédita segundo a qual esse não-nada só dá o Ser eminente se se pensa a partir do nada, sendo preciso pensar a partir do não-nada, o Ser não-oculto | ||
| + | * Dizer que o Ser não sai do nada é compreender que permanece à distância, transcendente, | ||
| + | * a citação sobre a aparência sensível do sensível sendo o único meio de o Ser se manifestar sem se tornar positividade | ||
| + | * a citação sobre o verdadeiro nada sendo o Ser como distante e como não-oculto, | ||
| + | * O ser fenomenal se caracteriza por uma mistura originária do Ser e do nada, sinônimo de sua distância constitutiva, | ||
| + | * a conclusão do capítulo segundo a qual o imediato está no horizonte e só permanecendo à distância permanece ele mesmo | ||
| + | * Embora Bergson utilize o vocabulário da coincidência e da fusão, seria incorreto concluir que ele ignora essa distância interior ao Ser, exprimindo antes essa reivindicação sua ruptura com as doutrinas recebidas | ||
| + | * a citação segundo a qual o verdadeiro sentido da filosofia bergsoniana é menos eliminar a ideia de nada do que incorporá-la à ideia de Ser | ||
| + | * Isso explica a reavaliação a que a teoria das imagens é submetida nos textos dos anos 1950, representando ela, aos olhos de Merleau-Ponty, | ||
| + | * a citação sobre as coisas visíveis repousando em si mesmas, seu ser natural parecendo envolver seu ser percebido | ||
| + | * a citação sobre não haver coincidência real quanto ao ser do passado, mesmo na lembrança pura, havendo passado mas não coincidência com ele | ||
| + | * Bergson reconhece que a percepção pura é apenas de direito, correspondendo a um instante impensável nunca realizado, havendo portanto apenas coincidência parcial | ||
| + | * a citação sobre as dificuldades da coincidência não serem apenas de fato, devendo a verdade não ser definida pela coincidência total | ||
| + | * a citação sobre o que é uma coincidência apenas parcial, sendo antes recobrimento de um oco e um relevo que permanecem distintos do que fusão real | ||
| + | * A Natureza em Bergson não é apenas a coisa percebida fascinante da percepção atual, mas um horizonte do qual já estamos distantes, uma indivisão primordial e perdida | ||
| + | * a citação sobre o Absoluto se revelando muito próximo de nós, de essência psicológica, | ||
| + | * a duração sendo compreendida como ser nascente, unidade do Mesmo e do Outro, elemento onde se realiza a identidade do Absoluto e do finito | ||
| + | * A verdade mais profunda do bergsonismo residiria na tentativa de pensar essa virada como o próprio sentido da experiência humana, virada sempre já iniciada e nunca acabada | ||
| + | * a citação final sobre a luz nada iluminando se nada lhe fizesse anteparo, sendo o pré-humano o fundo de transcendência de que se alimentam a experiência e a ação | ||
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