estudos:barbaras:experiencia:corpo-carne
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| + | ====== Corpo e Carne ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: | ||
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| + | * O corpo é um ser ambíguo, coisa que é minha ou antes que eu sou, apresentando traços que tornam sua experiência incomparável à das outras coisas | ||
| + | * a impossibilidade de fazer o giro em torno do próprio corpo, que se apresenta sempre do mesmo lado, sendo comigo em vez de diante de mim | ||
| + | * o tato revelando uma sensibilidade que nasce em sua superfície, | ||
| + | * o movimento intencional imediato, bastando visar o fim para que o corpo aí se porte como por magia, brouillando a distinção entre sujeito e objeto | ||
| + | * Poder-se-ia objetar que essas são curiosidades psicológicas sem relação com a essência do corpo, dissolvida diante do entendimento numa representação determinada por condições objetivas, não havendo lugar para o corpo próprio na partição entre res cogitans e res extensa | ||
| + | * a união da alma e do corpo sendo, para Descartes, expressão de uma causalidade ocasional instituída por Deus, ainda que ele reconheça que a natureza me ensina estar com o corpo tão estreitamente confundido que componho como um único todo com ele | ||
| + | * a distinção cartesiana de três gêneros de noções primitivas na Carta a Isabel, sendo a união da alma e do corpo conhecida apenas pelos sentidos e pela vida ordinária | ||
| + | * A alternativa não é entre um reconhecimento silencioso do corpo próprio e um pensamento impotente diante dessa experiência, | ||
| + | * a questão do corpo tomando lugar preponderante na tradição fenomenológica, | ||
| + | * a incerteza de que a fenomenologia tenha desde o início medido o alcance da refundição exigida pela singularidade dessa experiência, | ||
| + | * a necessidade de compreender como a subjetividade própria do corpo não compromete sua exterioridade sem se confundir com uma consciência | ||
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| + | **O corpo subjetivo** | ||
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| + | * A filosofia de M. Henry se inaugura numa ruptura com o monismo ontológico que subordina todo dado à mediação do horizonte transcendental do ser em geral, revelando essa decisão as razões pelas quais o caráter próprio do corpo foi negligenciado | ||
| + | * a citação segundo a qual o monismo ontológico impediu constantemente a reflexão filosófica de se elevar à ideia do corpo subjetivo, pertencendo o corpo, em sua natureza originária, | ||
| + | * A análise se apoia na leitura que M. Henry faz de Maine de Biran, para quem a experiência do eu não é experiência de uma substância modificada por acidentes, mas prova de um poder de produção identificado com o sentimento de um esforço querido | ||
| + | * a citação sobre a personalidade começando com a primeira ação completa de uma força hiperorgânica que só é para si enquanto se conhece agindo livremente | ||
| + | * o esforço sendo autoafecção pura, dado a si mesmo sem exterioridade, | ||
| + | * a citação segundo a qual a profundidade dessa conclusão não reside em ter determinado o cogito como um eu posso, mas em afirmar que o ser desse movimento é precisamente o de um cogito | ||
| + | * Essa abordagem vale ao menos negativamente contra as filosofias que tentam constituir o corpo como objeto, mostrando o exemplo de Condillac que a mão exploradora, | ||
| + | * a mão se revelando a si mesma num poder de preensão que não pode ser dado no elemento da exterioridade, | ||
| + | * Essa imanência pura não deve ser compreendida como fechamento da consciência sobre si, sendo o sentimento do esforço necessariamente revelação de um termo que lhe resiste, a resistência sendo o modo pelo qual o mundo se revela originariamente | ||
| + | * o continu resistant de [[sofia> | ||
| + | * a citação de M. Henry segundo a qual, precisamente porque o saber de si do corpo originário não é temático, ele não é fechado sobre si, mas saber do ser transcendente em geral | ||
| + | * M. Henry distingue a sensação, já pertencente à exterioridade, | ||
| + | * a citação sobre dirigir nossos movimentos sobre e contra as coisas fazendo nascer em nós as sensações táteis que vêm recobrir a substância mesma do real | ||
| + | * as qualidades sensíveis sendo determinações do transcendente sem, no entanto, atingirem um em si, pois o ser do movimento é a subjetividade | ||
| + | * A vida do corpo faz parte da vida absoluta do ego, mas nossa experiência do corpo próprio não se limita a esse vivido imanente, exigindo compreender a unidade entre corpo transcendente e ego apesar de sua dualidade ontológica | ||
| + | * a distinção biraniana entre o corpo estranho, que oferece resistência absoluta, e o corpo próprio, que oferece apenas resistência relativa, definindo uma extensão interior | ||
| + | * a unidade do corpo transcendente sendo constituída pelo poder subjetivo que move as diferentes partes do espaço orgânico, sem que se deva concluir a uma identificação pura e simples | ||
| + | * M. Henry recusando extrair dessa proximidade uma dependência da subjetividade em relação à massa orgânica, lembrando a hierarquia ontológica do imanente e do transcendente | ||
| + | * Resta o corpo objetivo, unidade transcendente cuja articulação com a subjetividade M. Henry não resolve, evocando apenas a possibilidade de uma projeção do corpo subjetivo numa porção de extensão sem esclarecer suas modalidades | ||
| + | * A análise de M. Henry evidencia a insuficiência das filosofias que situam de saída o corpo próprio do lado da exterioridade, | ||
| + | * a experiência do esforço sendo aquela de um esquecimento de si, de uma alteridade no seio da ipseidade, não podendo ser reduzida à autoafecção absoluta | ||
| + | * a redução do esforço à autoafecção comprometendo a intencionalidade | ||
| + | * M. Henry subordina sua análise a um pressuposto dualista, sendo a diferença originária a do eu e do não-eu, o que o impede de reconhecer que o corpo é meu sem se confundir com o eu | ||
| + | * a citação sobre a fórmula eu sou meu corpo significando que a vida desse corpo é um modo da vida absoluta do ego, o que dissimula a distância que subsiste dentro dessa identidade | ||
| + | * Esse cegamento quanto à especificidade do corpo próprio é surpreendente porque a teoria biraniana do esforço, sobre a qual M. Henry se apoia, é já uma tematização rigorosa dessa diferença não substancial entre corpo e subjetividade | ||
| + | * o esforço sendo relação originária, | ||
| + | * a citação biraniana de 1804 sobre o sujeito se constituindo, | ||
| + | * É preciso distinguir dois corpos, não três, pois M. Henry confunde a simultaneidade do esforço e do movimento, atestada pela refutação de Hume, com uma identidade ontológica | ||
| + | * a força encontrando a resistência dentro de si mesma, mas como diferente de si, disjuntando M. Henry o movimento como tal do corpo revelado na resistência | ||
| + | * a citação de Merleau-Ponty reconhecendo em Biran a consciência de uma relação irredutível entre dois termos irredutíveis, | ||
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| + | **O corpo e o ser-no-mundo** | ||
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| + | * O pressuposto dualista de M. Henry está no centro da interrogação de Merleau-Ponty, | ||
| + | * a demarche reflexiva de M. Henry equivalendo a uma redução que situa de saída na subjetividade constituinte, | ||
| + | * Contra a hipótese de constância da fisiologia clássica, a psicologia da forma, sobretudo Goldstein, mostra que os estímulos agem em função de seu valor para o organismo, sendo a relação organismo-meio circular e não transitiva | ||
| + | * os fenômenos de suplência, como a reorganização da marcha após amputação de falanges, evidenciando uma atividade orientada irredutível ao mecanismo cego e ao intelectualismo | ||
| + | * O corpo do animal testemunha uma intencionalidade não representativa, | ||
| + | * a citação segundo a qual só se pode compreender a função do corpo vivo realizando-a nós mesmos enquanto corpo que se ergue rumo ao mundo | ||
| + | * o fenômeno do membro fantasma escapando tanto à explicação estritamente orgânica quanto à estritamente psicológica, | ||
| + | * O corpo é definido como potência de um certo mundo, veículo do ser-no-mundo, | ||
| + | * seu rapport ao mundo sendo de conivência e não de conhecimento, | ||
| + | * Só a definição da consciência como encarnada permite distinguir percepção e intelecção, | ||
| + | * a existência corporal fundando a coapertenência do conteúdo sensível e do sentido pela unidade de um entrar em si e de um sair de si | ||
| + | * A interioridade que o corpo esboça não deve ser confundida com a coincidência pura do sujeito reflexivo, sendo antes adesão pré-pessoal à forma geral do mundo, existência anônima e geral | ||
| + | * a unidade do corpo próprio sendo prova de uma equivalência geral sem se apoiar na positividade de uma lei, comparável Merleau-Ponty o corpo a uma obra de arte, nó de significações vivas | ||
| + | * A abertura de um mundo corresponde a uma realidade originária da qual sujeito e objeto são momentos abstratos, permitindo o ser-no-mundo compreender o fenômeno do membro fantasma e sua dependência de circunstâncias ontologicamente heterogêneas | ||
| + | * o orgânico não sendo senão uma existência adquirida, hábito primordial, retomando Merleau-Ponty aqui as lições de Goldstein sobre psíquico e somático como expressões abstratas da totalidade orgânica | ||
| + | * Dizer eu sou meu corpo não significa que o ser do corpo se confunda com uma imanência radical, mas que o eu existe no modo do corpo, é encarnado, sendo o corpo o mediador de um mundo | ||
| + | * a consciência encarnada nunca sendo inteiramente um eu, escapando-se e se reencontrando apenas na periferia de si mesma, permanecendo o objeto puro apenas como horizonte infinito de um movimento de objetivação | ||
| + | * A consciência é também um eu posso, mas não porque o ser do movimento seja o do cogito, sendo o movimento antecipação assegurada pelo próprio corpo como potência motriz, praktognosia original e talvez originária | ||
| + | * a motricidade sendo sinônimo da intencionalidade corporal, sendo a consciência extase e não autoafecção pura | ||
| + | * A objeção de M. Henry é que Merleau-Ponty descreveria o acesso ao mundo pela intencionalidade motora sem nada dizer sobre o conhecimento do corpo conhecente, arriscando comprometer a aptidão do corpo a fazer parecer o mundo | ||
| + | * a solução de Merleau-Ponty recusando a alternativa em nome da experiência, | ||
| + | * o cogito da vida corporal sendo tácito, não sendo a consciência posição de si nem ignorância de si mas não dissimulada a si mesma sem se conhecer expressamente | ||
| + | * Sua unidade só pode ser pensada rigorosamente na perspectiva da temporalidade, | ||
| + | * a transcendência do mundo em sua manifestação remetendo à transcendência do tempo, podendo o corpo ser definido como um passado originário | ||
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| + | **A carne** | ||
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| + | * A análise do corpo na Fenomenologia da percepção permanece marcada por uma tensão, sendo o corpo definido como mediador de um mundo, o que dissolve sua especificidade ao pensá-lo a partir de outra coisa que não ele mesmo | ||
| + | * o corpo sendo referido a uma consciência, | ||
| + | * a contradição na caracterização dessa consciência que não se fixa nem se conhece mas tampouco se emporta inteiramente, | ||
| + | * Uma reflexão rigorosa sobre o corpo próprio deveria renunciar à própria categoria de consciência, | ||
| + | * O visível e o invisível não representa tanto ruptura quanto realização das descrições da Fenomenologia da percepção, | ||
| + | * o reconhecimento de que o corpo não é fato empírico mas tem significação ontológica correspondendo ao aprofundamento do sentido da fenomenologia husserliana | ||
| + | * a citação dos Ideen II segundo a qual um espírito real, por essência, só pode estar ligado à materialidade, | ||
| + | * Merleau-Ponty retoma a intrincação entre percepção e movimento, testemunhando a orientação e acomodação do olhar uma previsão do visível, uma visão antes da visão | ||
| + | * a citação segundo a qual todo movimento dos olhos tem seu lugar no mesmo universo visível que por eles se detalha, movendo-se o sujeito no próprio espaço que vai constituir | ||
| + | * ao contrário da Fenomenologia da percepção, | ||
| + | * A experiência do tato confirma essa situação, mostrando Husserl que a constituição do corpo próprio se efetua no nível tátil, não podendo o sentimento do esforço por si só revelar um corpo próprio | ||
| + | * a citação husserliana sobre as sensações de movimento só devendo sua localização ao entrelaçamento com sensações localizadas primariamente pelo tato | ||
| + | * o exemplo da mão direita tocando a mão esquerda, que se torna carne e sente, não se tratando de enriquecimento da coisa física mas de sua transformação em carne | ||
| + | * o comentário de Ricœur segundo o qual não se trata de proteger uma experiência existencial da consciência encarnada, mas de atribuir sensações ao corpo conhecido como coisa | ||
| + | * Essa reversibilidade não significa que se acrescente uma subjetividade à coisa física, mas que a distinção entre sujeito e objeto se embaralha em meu corpo, sendo a carne o sensível no duplo sentido do que se sente e do que sente | ||
| + | * o saber pelo qual a mão se conhece como tocante não se distinguindo do saber pelo qual se atinge como mão encarnada, sendo a autoafecção uma heteroafecção | ||
| + | * O sujeito tocante desce nas coisas, fazendo-se o toque a partir do meio do mundo, pertencendo ao mundo que ele faz aparecer taticamente | ||
| + | * não sendo porque o toque ocorre num corpo que ele advém no meio do mundo, mas porque é do mundo que ele tem um corpo | ||
| + | * No texto sobre a Terra que não se move, Husserl revela um sentido da Terra mais profundo que o de um planeta em movimento, sendo ela o solo, o berço originário em relação ao qual repouso e movimento fazem sentido | ||
| + | * a citação segundo a qual a Terra é um todo cujas partes são corpos mas que, como todo, não é um corpo, havendo parentesco entre o ser da terra e o de meu corpo | ||
| + | * minha carne sendo um aqui absoluto que não pode ser convertido em lá, sendo suas partes que podem ocupar um lugar porque ela mesma é situação | ||
| + | * A continuidade ontológica do corpo e do mundo prevalece sobre sua diferença, sendo a encarnação esse Fato absoluto, advento do aqui, a partir do qual a própria distinção entre corpo e mundo pode fazer sentido | ||
| + | * a citação sobre a correspondência entre o de dentro do mundo e o de fora de meu corpo, não estando o corpo à superfície das coisas mas em seu cerne | ||
| + | * Pode-se dizer que o próprio espaço se sabe através de meu corpo, havendo um rapport a si mesmo do visível que me atravessa e me constitui vidente | ||
| + | * o corpo sendo um único corpo em suas duas fases, senciente e sentida, não podendo o sentir que advém no seio do corpo ser distinguido do advento de um mundo sentido | ||
| + | * a fórmula tornar-se natureza do homem que é o tornar-se homem da natureza, superando-se toda cisão entre sujeito e objeto em favor de um entrelaçamento mais originário | ||
| + | * Há inserção do mundo entre os dois folhetos de meu corpo e inserção de meu corpo entre os dois folhetos de cada coisa e do mundo, sendo o corpo esse tecido que ao mesmo tempo conjuga e dis-junga o Ser e os fenômenos | ||
| + | * toda referência a uma subjetividade positiva devendo ser abandonada, o espírito soprando como a água na fissura do Ser, não havendo senão estruturas do vazio | ||
| + | * A decisão do último Merleau-Ponty consiste em partir do corpo próprio sem pressupostos, | ||
| + | * a citação segundo a qual nosso corpo comanda para nós o visível sem explicá-lo, | ||
| + | * a citação segundo a qual a carne do mundo é Ser-visto, eminentemente percipi, sendo por ela que se pode compreender o percipere | ||
| + | * a carne sendo qualidade prenhe de uma textura, superfície de uma profundidade, | ||
| + | * Como nota Patočka, o fenômeno do corpo próprio ilustra bem o método fenomenológico, | ||
| + | * a tensão em Descartes entre o entendimento e a vida só se resolvendo em Deus, exigindo Merleau-Ponty pôr em suspenso a evidência mais enraizada de uma dualidade entre sujeito e natureza | ||
| + | * a ontologia da carne, sentido de ser verdadeiro do Ser, sendo ao mesmo tempo cúmulo de subjetividade e cúmulo de materialidade | ||
| + | * O corpo não é nem momento da subjetividade, | ||
| + | * sendo mais íntimo a si mesmo do que o é o de fora do mundo, sendo percipere e não apenas percipi, o corpo é, em seu sentido mais originário, | ||
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