estudos:barbaras:desejo-distancia:fenomenologia-transcendental
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| + | ====== Fenomenologia Transcendental ====== | ||
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| + | //BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: | ||
| + | Vrin, 1999.// | ||
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| + | **Uma crítica da fenomenologia transcendental** | ||
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| + | * A análise husserliana da percepção permite elucidar a estrutura do aparecer enquanto tal, sendo essa estrutura mais frequentemente ignorada em virtude de sua função ostensiva, cabendo à [[lx> | ||
| + | * a naturalidade com que a consciência ingênua se fascina pelo aparecente, reinterpretando o momento da manifestação segundo o modo realista como aparência subjetiva | ||
| + | * a rigor da fenomenologia da percepção dependendo de sua capacidade de se ater à aparição enquanto tal, a époche podendo ser definida como a proibição de importar para a aparição determinações próprias do aparecente | ||
| + | * A fenomenalidade pode ser caracterizada como a co-pertença originária entre manifestação e aparecer, situação que Merleau-Ponty tematiza sob o título de fé perceptiva, a manifestação sendo sua própria superação e o aparecente permanecendo sempre à distância de si | ||
| + | * a tarefa de uma filosofia autêntica da percepção consistindo em qualificar essa estrutura de fenomenalidade quanto à sua originalidade, | ||
| + | * a impossibilidade, | ||
| + | * Em Ideias I a análise da percepção aparece subordinada ao desdobramento da temática da redução fenomenológica, | ||
| + | * a descoberta da esfera da consciência como resíduo da époque justificando a assimilação da fenomenologia a um idealismo transcendental | ||
| + | * a citação segundo a qual toda cogitatio pode se tornar objeto de uma chamada percepção interna, o vivido não sendo dado por escorços mas identidade absoluta entre aparecer e manifestação | ||
| + | * a citação segundo a qual toda percepção de algo imanente garante necessariamente a existência de seu objeto, em contraste com o objeto transcendente | ||
| + | * Husserl não se atém à sua descrição da percepção como doação por escorços, reinvestindo antes num conceito de aparição que só pode sustentar a manifestação de uma transcendência ao referir-se a um sentido mais originário de fenomenalidade, | ||
| + | * a citação sobre os dados de sensação animados por interpretações no seio da unidade concreta da percepção, | ||
| + | * a distinção entre a hylé sensível, dado puro da sensação anterior a toda apreensão de sentido, e as vivências dotadas de intencionalidade que a animam segundo um sentido, ditas noéticas | ||
| + | * a citação segundo a qual os dados de sensação que exercem a função de escorços são de necessidade essencial inteiramente diferentes da cor, da lisura, da forma simpliciter | ||
| + | * o momento noemático estando para a hylé assim como a forma está para a matéria, permitindo reconciliar a diversidade dos escorços com a unidade do objeto aparecente | ||
| + | * Ao passar da descrição à análise da percepção, | ||
| + | * a comparação entre a seção 41 de Ideias I sobre a composição real da percepção e as páginas iniciais de O visível e o invisível dedicadas à fé perceptiva, ambas usando o exemplo da mesa | ||
| + | * a citação de Husserl sobre a percepção contínua e mutável da mesa idêntica que permanece inalterada em si mesma, e a citação paralela de Merleau-Ponty sobre a relação singular entre a mesa, meus olhos e meu corpo | ||
| + | * a diferença de significação entre os dois autores, Merleau-Ponty relacionando os movimentos corporais à solidez do mundo, fazendo-o apenas vibrar, enquanto Husserl separa a manifestação sob a forma de percepção daquilo que aparece através dela | ||
| + | * a citação de Granel segundo a qual, ao decidir cortar em dois a unidade viva que o real e eu criamos na percepção, | ||
| + | * a hipótese segundo a qual essa cisão remete, em última análise, à impossibilidade de conceber um objeto que permaneça o mesmo em suas próprias variações | ||
| + | * a citação de Husserl sobre fechar os olhos e não ter mais percepção da mesa, e a réplica de Granel de que ainda há relação perceptiva ao que se tornou cego | ||
| + | * a citação de Merleau-Ponty sobre a cortina que sobe e desce a cada piscar sem que se impute esse eclipse às próprias coisas, as coisas sofrendo uma breve torção que também se atribui a si mesmo | ||
| + | * As primeiras descrições husserlianas da aparição perceptiva não são fiéis à figura do percebido por dependerem de um deslocamento implícito da aparição para o lado da subjetividade, | ||
| + | * a citação de Patočka questionando se, ao encontrar-me passivamente dado às minhas sensações, | ||
| + | * a citação de Patočka distinguindo características que pertencem à coisa mesma das que, dadas em conjunto, servem de base a seu aparecimento sem por isso serem subjetivas | ||
| + | * a diferença não sendo entre o sentido e o percebido, mas entre a percepção de momentos objetivos, de manifestações enquanto tais, e a do objeto mesmo | ||
| + | * a citação sobre o deslocamento do sentido do subjetivo, distinguindo o subjetivo como vivido do fenomenal que aparece no vivido | ||
| + | * Após postular a cisão entre o momento hylético e o momento objetivo correspondente, | ||
| + | * a impossibilidade de compreender como uma vivência pode transcender a esfera da imanência a que pertence por essência para conferir à matéria sensível uma função figurativa | ||
| + | * a observação de Patočka, seguindo Tugendhat, de que Husserl nunca interroga como a vivência noética é dada a si mesma | ||
| + | * a subjetivação da aparição sob a forma de vivências imanentes não podendo conduzir senão a uma subjetivação do aparecente, ou seja, a um idealismo transcendental que não vai além do de Kant | ||
| + | * a alternativa entre retornar ao nível do subjetivo entendido como vivido, submetendo a aparição à lei do objeto, ou reconhecer o caráter originário e inquebrantável da aparição como doação por escorços | ||
| + | * A maneira como Husserl tematiza a aparição perceptiva perde sua especificidade fenomenológica, | ||
| + | * o cartesianismo de Husserl encontrando raiz e expressão última na determinação intuicionista e portanto objetivista do preenchimento, | ||
| + | * a citação de Patočka distinguindo a intuição, modo de doação de um objeto, do preenchimento, | ||
| + | * Ao sustentar a aparição sobre um aparecer originário, | ||
| + | * a citação de Patočka sobre a existência de um campo fenomenal, um ser do fenômeno como tal, que não pode ser reduzido a nenhum ser que apareça em seu centro | ||
| + | * a falta de um conceito unitário do fenomenal que incluiria a realidade natural e o vivido, permitindo transpor o abismo eidético entre consciência e realidade | ||
| + | * É no percebido, e nos pressupostos subjacentes à sua descrição, | ||
| + | * a distância inerente à manifestação sendo interpretada por Husserl como dualidade e unidade da hylé e da noese, a coisa estando realmente ausente do escorço mas presente intencionalmente como [[lx> | ||
| + | * a determinação do não intuitivo como existência subjetiva pressupondo que o vazio é não doação em vez de um modo específico de doação | ||
| + | * a citação segundo a qual o não intuitivo que aparece num modo deficiente de doação é também um ser, um ser que não é de natureza subjetivo-egológica | ||
| + | * Essa noção negativa de ausência dissimula uma concepção objetivista da presença, negar ao vazio o estatuto de modo de dado equivalendo a postular que uma coisa só está presente se se apresenta exaustivamente em suas manifestações | ||
| + | * a citação husserliana segundo a qual necessariamente subsiste sempre um horizonte de indeterminação determinável, | ||
| + | * a duplicidade entre duas concepções concorrentes do objeto, uma apoiada na fenomenalidade mesma reconhecendo uma indeterminação constitutiva, | ||
| + | * Essa ambiguidade aparece já nas Investigações Lógicas, notadamente na seção 14 da Sexta Investigação, | ||
| + | * a citação segundo a qual a percepção, | ||
| + | * a citação subsequente reconhecendo que o objeto tal como é em si não é totalmente outro que o objeto realizado, ainda que imperfeitamente, | ||
| + | * a citação sobre a relatividade dessa direção apontando para uma série de relações de preenchimento que admite graus, cada série ascendente apontando para um limite ideal de conhecimento absoluto | ||
| + | * A introdução desse horizonte de adequação reduz a diferença entre intencionalidade vazia e preenchimento perceptivo, entrando em conflito com a tese de um abismo eidético entre intencionalidade significativa e intuição | ||
| + | * a citação de Granel segundo a qual dizer que os dados sensíveis dão sempre apenas aspectos fragmentários da coisa é manter o mito de uma emergência indefinida e progressiva da realidade na aparição | ||
| + | * A Quarta Parte de Ideias tematiza essa dificuldade sob a forma de uma contradição entre o princípio da ausência de limites da razão objetiva e a especificidade eidética da experiência perceptiva | ||
| + | * a citação segundo a qual a todo objeto verdadeiramente existente corresponde a ideia de uma consciência possível na qual o objeto mesmo é apreendido originariamente e de modo perfeitamente adequado | ||
| + | * a solução que consiste em definir o objeto em si como polo de progresso ilimitado da experiência, | ||
| + | * o recurso à ideia kantiana não resolvendo o problema mas apenas distribuindo exigências incompatíveis em níveis distintos, integrando a nostalgia do racional na interpretação da percepção | ||
| + | * O princípio da ausência de limites da razão objetiva tem como consequência uma subjetivação redobrada do aparecente, pois posicionar o aparecente como objeto compromete a especificidade do escorço e empurra-o para a aparência subjetiva | ||
| + | * a manifestação subjetivada sob a forma de hylé conduzindo inevitavelmente a uma subjetivação do aparecente sob a forma de noema, Husserl não conseguindo superar a alternativa entre empirismo e intelectualismo mas apenas justapô-los | ||
| + | * a oposição aparente entre objetivismo e subjetivismo dissimulando uma cumplicidade profunda, objeto e sujeito sendo os dois resíduos de uma mesma cisão na aparição | ||
| + | * A única maneira de sair desse impasse constitutivo da fenomenologia nascente é ater-se à experiência, | ||
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