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obra:ga71:1c-anaximandro

1.C. Anaximandro

C. Anaximandro

54. Se o apeiron (ἄπειρον) de Anaximandro fosse a aletheia, o peras (πέρας) coincidiria com o léthe, de modo que toda delimitação — na experiência grega, confinamento — seria um velamento (Verborgenheit), uma obstrução que impede o presente de colocar-se puramente no domínio aberto de sua presença, sendo o peras o término, o encerramento, o confinamento e a restrição que entrincheira a physis num parecer individualizado e separado dela mesma.

  • o apeiron é a repulsa dos limites, ponto de partida e domínio para cada coisa presente
  • a arché como ponto de partida abre e liberta, prevalecendo o abrir sobre o domínio aberto da presença
  • o alfa privativo de aletheia possui o caráter básico da arché — ponto de partida, domínio, libertação —, sem que o “sem” seja necessariamente negativo
  • a aletheia não é pura abertura, mas o alfa privativo relativo ao léthe, que se essencializa mediatamente já no primeiro início

55. O vir-a-ser (génesis) e o perecer (phthorá), assim como a aletheia, caracterizam o que é presente por este, enquanto presente, estar consignado à essência, de modo que o presente vem à presença num emergir e num afastar-se, sendo mesmo o perecer um vir-a-ser, um modo de physis — emergência, desaparecimento, declínio —, cuja quintessência é a transição (Übergang), unidade de vir-a-ser e perecer que se essencializa no mesmo, na aletheia, porquanto esta é conjuntamente e essencialmente velamento, retirada no velar.

  • a transição não se envolve no entrincheiramento do que vem à presença, preservando o apeiron
  • a presença é, transitoriamente, o cume reunido-reunificante da physis, isto é, do desvelamento
  • a presença deve ser experimentada aleteiologicamente, não metafisicamente segundo o constante e o objetivamente presente
  • o ser não perpassa o fator de duração da presença objetiva, mas a reunidade única do desvelamento emergente-perecente

56. O peras designa o fim, o último, o limite, aquilo em que algo cessa, aquilo pelo qual algo se restringe ao que é, restrição como encerramento no aparecer atual, restrição como exercício supremo e pleno de força, confinamento dentro de fronteiras que simultaneamente deixam ver o restringido e o delimitam frente a outros, velando-o em sua pertença a eles — restrição, portanto, como espécie de velamento, sobretudo quando vista a partir da pura presença do que vem à presença e não a partir do respectivo “isto” em sua individuação.

  • o apeiron é o que desconfina, mantém à distância fronteiras e restrições, por ser ele mesmo alheio a elas enquanto pura emergência
  • o chreón é a necessidade compelente, o puro e simplesmente necessário, dito em relação ao donde e para onde da presença e ausência

57. A adikía (ἀδικία) consiste em falhar — ou permitir a falha — naquilo que é conveniente, por ocupação com os meros aparecimentos das coisas individuais, dispersas por toda parte, das quais resulta uma multiplicidade que só posteriormente ganha aparência de “unidade”, em que o que aparece é simultaneamente isto e não-isto, sendo a adikía a não-conformidade com o desvelamento, a persistência no aparecer atual do que veio à tona (doxa).

58. No dito de Anaximandro a palavra aletheia não é pronunciada, mas é experimentada como o para-onde do vir-a-ser e o de-onde do perecer, sendo esse para-onde e de-onde a presença enquanto transição, isto é, enquanto desvelamento e velamento, de modo que a aletheia carece de início em medida ainda maior que a própria physis.

59. A mais antiga sentença legada do primeiro início do pensamento ocidental, atribuída a Anaximandro (c. 610–540), afirma que, a partir de onde o vir-a-ser é para as coisas presentes, também para lá se dá o perecer segundo a necessidade compelente, pois cada coisa presente dá o que é conveniente e concede honra uma à outra, a partir da desentranha do inconveniente, segundo a ordenação do amadurecer através do tempo; e que aquilo que provê a vinda à presença de qualquer coisa é a repulsa dos limites (arché tôn óntōn tà ápeiron).

  • a preparação da interpretação abrange linguagem, o passado, a matéria em questão, a história, a relação ao início, a permanência no ser a partir da superação da metafísica
  • a constância, plenamente concebida como insistir na permanência da presença no presente duradouro, determina posteriormente a entidade no sentido do aeí e também da aeternitas como nunc stans, verdade posta em si mesma dos entes que principia naquilo com que a constância inceptualmente concebida entra em luta
  • a constância não vem à presença de fora, mas pertence à essência do ser como o que lhe é contrário e sua essência distorcida, pois a permanência perpassa tudo que vem à presença
  • no apeiron, a repulsa dos limites prepondera e nela a transição triunfa, sendo a transição do vir-a-ser ao vir-a-ser do perecer a extremidade da presença, na qual toda continuidade carece de essência
  • o peras é o limite no sentido do término da transição — término do vir-a-ser e do perecer —, a finalidade última da continuidade
  • o essencial do apeiron não reside na imaterialidade nem na distinção entre material e imaterial, mera distinção interna aos entes, mas no fato de o ser diferenciar-se dos entes, diferenciação já consequência de um pensar voltado ao ser
  • essa inceptualidade reside no apeiron, mas logo em seguida o limite (peras-télos) torna-se determinação característica da entidade, sem que ambos sejam contraditórios, sendo erro tanto buscar aí contradição quanto interpretar apeiron e tautá como um platonismo pré-platônico que permanece frente a génesis e phthorá
  • a physis não expressa aqui torna-se emergência, transição, desvelamento, retorno a si mesma, provisão e reunião (logos-unidade, hen), sem que haja ainda “devir” nem “ser” no sentido de constância, não havendo aqui possibilidade alguma de metafísica
  • toda interpretação do dito sugestiva de algo posterior já é errônea, por desconhecer a estranheza do início
  • cabe perguntar até que ponto um antropomorfismo do ser seria possível, podendo talvez acometer os entes (Deus, mundo), mas exigindo sempre perguntar como “o ánthropos” é experimentado
  • a experiência básica (Grund-erfahrnis) compõe-se de perigar (Fährnis, projeto), constantemente arriscado, e de experiência não como mero tomar conhecimento, mas como apropriação própria
  • a experiência básica é o desvelamento (ser) como repulsa dos limites, portanto adikía, sendo os entes desentranhados na essência do seer (apeiron) e, todavia, essencialmente dispensados
  • no dito esconde-se physis-aletheia como intimação do inceptual, do velamento
  • o ser distingue-se infinitamente dos entes sem que se trate de chorismós nem de uniformidade
  • as palavras de Anaximandro dizem a physis em sua essência mais velada sem nomeá-la
  • o dito de Anaximandro não expressa experiência de muitos ou de alguns, mas a projeção de um único, não sustenta uma visão dominante, não expressa algo evidente por si, não se justifica por correspondência com a visão usual, sendo a essência de sua verdade estranha em todo sentido
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