4. Clareira, abismo, nada
1. A clareira (seer)
1. A representação de algo como algo à luz da entidade já pressupõe uma articulação unitária entre o “de”, o “como” e o “à luz de”, articulação que constitui a clareira na qual o ser humano se encontra e pela qual sua própria essência é previamente determinada, de modo que o estar na clareira não seja uma propriedade acrescentada posteriormente ao homem, mas o fundamento de seu ser-aí (Da-sein), cuja insistência originária se determina pela disposição afetiva (Stimmung).
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A representação não encontra simplesmente uma coisa já constituída, pois somente representa algo como algo mediante uma abertura prévia na qual podem aparecer determinações como objeto de uso, animal, ser vivo, instrumento ou obra.
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O “de”, o “como” e o “à luz de” não são elementos isolados da representação, mas pertencem conjuntamente à estrutura da clareira que possibilita o aparecer do ente.
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O ser humano não deve ser pensado primeiro como um ente subsistente ao qual posteriormente se acrescentaria sua permanência na clareira, porque essa permanência pertence previamente à determinação de sua essência.
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Estar na clareira significa estar no fundamento do ser-aí (Da-sein), enquanto a insistência originária nessa abertura se realiza como disposição afetiva (Stimmung).
2. A clareira não pode ser explicada a partir dos entes, pois constitui o entre (Zwischen) e o entre-tempo (Inzwischen) no sentido espaço-temporal do espaço-tempo originário, no qual determinações como o “de”, o “como” e o “à luz de”, embora não sejam entes e nesse sentido sejam nada, possuem o maior peso porque somente nelas tudo aquilo que é ente pode propriamente “ser” como ente.
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O fato de tais determinações não serem entes não significa que sejam nulas ou destituídas de importância, pois é justamente nelas que se sustenta a possibilidade de manifestação dos entes.
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Seu peso não deriva da entidade, objetualidade ou condição de objeto dos entes, mas da abertura originária na qual algo pode aparecer enquanto aquilo que é.
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A clareira constitui, assim, uma dimensão que não pode ser reconduzida a nenhum ente particular nem à totalidade dos entes.
3. A clareira é o sem-fundo (Ab-grund) enquanto fundamento e contraposição nadificante a todo ente, constituindo um fundamento jamais simplesmente presente-à-mão, que se recusa no próprio nadificar enquanto clareira e, justamente por essa recusa, sustenta, funda, decide e acontece-apropriadoramente como acontecimento-apropriador (Ereignis).
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O fundamento próprio da clareira não pode ser encontrado como algo presente-à-mão, porque sua maneira de fundar consiste precisamente em retirar-se e recusar-se.
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O nadificar abre espaço para a pureza da necessidade de fundação mediante a recusa (Ver-sagung) do fundamento.
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Enquanto sem-fundo (Ab-grund), a clareira permanece aberta em todas as direções tanto para os entes quanto para o próprio ser humano e seus semelhantes.
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Nessa abertura também se funda o “como” mediante o qual cada ente pode ser aquilo que é e, sobretudo, o “como” do próprio seer (Seyn).
4. O sem-fundo (Ab-grund) é o nada e, enquanto o mais abissal, o próprio seer (Seyn), não porque este seja o mais vazio, universal ou evanescente, mas porque constitui o mais rico, o singular e o meio que não medeia, permanecendo por isso irredutível a qualquer retomada ou integração posterior.
2. Ser: o sem-fundo
2. A determinação do ser como sem-fundo (Ab-grund) pode tornar-se visível na experiência do ser humano a partir de sua destinação ao ser, ainda que inicialmente essa relação permaneça compreendida metafisicamente como relação com a entidade dos entes, por exemplo sob a forma do a priori transcendental e no interior do comportamento cognoscitivo que representa algo como algo sob a perspectiva do ser.
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Mesmo quando o ser ainda é pensado como entidade dos entes, já se torna reconhecível uma abertura anterior à representação na qual o ser humano se encontra.
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O conhecimento e a representação de algo como algo pressupõem sempre uma perspectiva prévia para o ser, ainda que essa perspectiva seja interpretada metafisicamente.
3. O ser humano encontra-se no aberto em direção a algo que, por sua vez, se mostra no domínio livre do “como”, enquanto toda essa articulação permanece na abertura do seer (Seyn), que não é objeto, mas o próprio aberto simultaneamente sem-fundo e fundador, no qual o aí e a aí-dade (Daheit) se articulam na insistência humana como fundamento essencial do próprio homem, e não como propriedade pertencente a ele.
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A abertura do seer (Seyn) não pode ser objetivada porque é aquilo que antecipadamente possibilita toda relação objetiva.
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O fundamento deve ser pensado simultaneamente como sem-fundo (Ab-grund) e como recusa (Ver-weigerung), pois funda precisamente ao retirar-se de qualquer disponibilidade.
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A insistência na abertura não pertence ao homem como uma qualidade acrescentada, mas constitui seu fundamento essencial no sentido de um genitivo essencial (genitivus essentialis).
3. Seer e nada
3. A negatividade hegeliana não constitui negatividade em sentido originário porque não assume seriamente o não nem o nadificar, uma vez que o não já se encontra suprassumido no “sim” da entidade própria ao pensamento incondicionado, enquanto o nadificar deve ser pensado como recusa (Ver-sagen) do fundamento e, portanto, como sem-fundo (Ab-grund).
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Na negatividade hegeliana, o negativo permanece subordinado ao movimento mediante o qual é superado e conservado na positividade do pensamento absoluto.
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O caráter objetivo permanece situado na entidade do pensar incondicionado e não alcança o nadificar originário.
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O nadificar significa a recusa do fundamento enquanto aquilo que abre a dimensão do sem-fundo.
4. O seer (Seyn) “é” o nada não porque ambos compartilhem simplesmente a mesma indeterminação ou imediatidade, mas porque constituem uma unidade originária que permanece simultaneamente fundamentalmente diferenciada e somente enquanto tal abre a possibilidade de uma decisão.
5. A chamada “finitude” do ser deve ser compreendida apenas provisoriamente como expressão contrastiva e não como oposição entre finito e infinito, pois o que nela está em questão é a conexão essencial entre ser e nadificação.
4. Sem-fundo, nada e não
4. O sem-fundo (Ab-grund) constitui o fundamento da necessidade do nada e da necessidade do nadificar, possibilitando, ainda que apenas em um percurso prolongado, a própria diferenciação entre ser e ente.
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A diferenciação não se torna possível mediante uma comparação lógica entre termos previamente dados, mas a partir da abertura proporcionada pelo nadificar.
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O sem-fundo funda justamente ao retirar qualquer fundamento disponível, tornando necessária a decisão.
5. O nada, enquanto sem-fundo (Ab-grund), consiste na recusa de todo fundamento, sustentação e abrigo nos entes, mas essa própria recusa concede da maneira mais elevada a necessidade da decisão e da diferenciação.
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A ausência de apoio nos entes não constitui deficiência, mas aquilo que libera a necessidade de uma decisão originária.
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Somente quando o pensamento deixa de procurar seu fundamento em algum ente pode a diferença entre ser e ente tornar-se propriamente questionável.
6. O nada jamais significa o simplesmente nulo, aquilo que não está presente-à-mão, não é efetivo, não possui valor ou constitui um não-ente (Un-seiendes), mas designa o acontecimento essencial do próprio seer (Seyn) enquanto este nadifica de modo abissal.
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O nada não deve ser determinado mediante formas deficitárias de entidade, porque não pertence ao mesmo domínio dos entes.
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Seu caráter nadificante pertence ao acontecer do próprio seer (Seyn), e não a uma simples negação lógica ou ontológica do ente.
7. O sem-fundo (Ab-grund) acontece essencialmente como o entre no qual se torna necessária a decisão acerca do divino e da humanidade e, por conseguinte, acerca do ser-aí (Da-sein), do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), do mundo, da terra e do combate.
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O “entre” não constitui um espaço intermediário neutro, mas a abertura na qual a decisão acerca das essências pode acontecer.
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A relação entre mundo e terra pertence ao mesmo campo originário em que se decide a relação entre humanidade, divindade e seer (Seyn).
8. O ser-aí (Da-sein) constitui o “sim” à verdade do seer (Seyn), não no sentido de aprovação ou consentimento aos entes, mas como afirmação do nadificar e da necessidade do “não”, de modo que o próprio “não” se torna o sim ao nadificar e a investigação do sem-fundo (Ab-grund) constitui a guarda da verdade do seer mediante o reconhecimento (Er-würdigung) daquilo que é maximamente digno de questão.
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O “sim” próprio ao ser-aí (Da-sein) não confirma simplesmente aquilo que existe, mas acolhe a abertura nadificante na qual a verdade do seer (Seyn) pode acontecer.
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O “não” deixa de ser simples negação e torna-se afirmação do próprio nadificar.
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A afirmação do nadificar como afirmação do sem-fundo conduz à investigação daquilo que é mais digno de questão.
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Guardar a verdade do seer significa sustentar-se nessa investigação como reconhecimento (Er-würdigung) da máxima dignidade do questionável.
9. A própria distinção entre ser e ente deve permanecer submetida à interrogação quanto à sua legitimidade, pois ainda resta decidir se essa caracterização pode efetivamente continuar servindo como indicação orientadora para a investigação originária.
5. Seer e nada
5. A pergunta pela proveniência do “não” e de tudo aquilo que possui caráter de não exige simultaneamente esclarecer o próprio sentido dessa proveniência, pois perguntar “de onde” significa perguntar pelo porquê, pela razão e pelo modo, isto é, pelo fundamento.
6. A investigação do fundamento do “não” torna-se problemática quando se pergunta se o próprio questionamento do fundamento ocupa uma posição superior àquilo cujo fundamento se investiga ou se, ao contrário, fundamento e não pertencem essencialmente um ao outro de maneira ainda não esclarecida.
7. O sem-fundo (Ab-grund) é o seer (Seyn), que enquanto sem-fundo constitui simultaneamente nada e fundamento, de modo que o nada, embora abissalmente distinto do seer enquanto nadificação, pertence à mesma essência, enquanto o próprio sem-fundo é fundamento com caráter de não, e não um ente sustentador e protetor.
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O seer (Seyn) não se encontra simplesmente de um lado e o nada de outro, pois ambos pertencem à mesma estrutura essencial do sem-fundo.
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A diferença entre ambos não deve ser eliminada, porque precisamente sua diferença abissal manifesta sua copertença essencial.
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O fundamento próprio ao seer não possui a forma de um ente capaz de oferecer sustentação e abrigo, mas a forma de um fundamento que se retira.
6. “Negatividade”
6. O seer (Seyn), enquanto abismo, é o nada, e este constitui o extremo oposto de tudo aquilo que é simplesmente nulo, pois o nada nadifica e somente assim possibilita o projeto do não, a partir do qual podem posteriormente ser compreendidos o ser-negado, sua representabilidade e finalmente a própria negação.
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O não não constitui o princípio originário da negatividade, pois somente pode ser projetado a partir do nadificar do nada.
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O ser-negado deriva do não, e a negação representável constitui uma determinação ainda mais derivada.
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A ordem habitual que parte da negação para compreender o nada deve, portanto, ser radicalmente invertida quanto à sua proveniência essencial.
7. O ser humano deve agora ser determinado como ser-aí (Da-sein), pois a transformação da questão do ser impede que sua essência continue sendo fixada prioritariamente a partir das determinações metafísicas tradicionais.
8. Essa transformação não constitui simples inversão das determinações anteriores, porque o próprio ser passou a ser pensado essencialmente de outra maneira e já não é interrogado como entidade dos entes.
7. O nada
7. Em toda metafísica na qual o ser, enquanto entidade, aparece já como um acréscimo aos entes, o nada também somente pode aparecer como acréscimo ao ser, razão pela qual a determinação metafísica do nada depende sempre da maneira como a entidade é previamente concebida.
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Quando o ser é pensado apenas como entidade dos entes, o nada inevitavelmente recebe sua determinação derivada por oposição ou complemento a essa entidade.
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As diferentes concepções metafísicas do nada permanecem, portanto, condicionadas pelas respectivas concepções prévias do ser.
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A classificação kantiana do nada na Crítica da razão pura exemplifica essa dependência da determinação do nada em relação ao modo metafísico de conceber a entidade.
