26. Meditar
Besinnung (1938/39), ed. F.-W. von Herrmann, 1997, XIV, 438p.
80. O Ereignis (acontecimento apropriador) consiste no Austrag (auseinandertragen, o levar-a-cabo em separação) da Entgegnung (contraposição) e do Streit (disputa) até a decisão de uma história do Da-sein, sendo essa trazida a termo (Austragen) a Wesungsstille (quietude essencial) cuja voz, partindo do Seyn, deixa emanar toda determinação, de modo que o Ab-grund (abismo) carregado pelo Aus-trag faz surgir a liberdade do dizer pensante-poetizante.
81. O Austrag é definido como a zu-eignung (apropriação) entrückend-lichtend (que arrebata e clareia) e contrária de si mesma daquilo que, na Entgegnung e no Streit, é trazido ao Eigentum (propriedade) do ente em seu conjunto, sendo o Seyn a via de acesso à Lichtung (clareira) do abismo aberto por essa capacidade de trazer a termo, cuja Verweigerung (recusa) faz brotar a necessidade da apropriação contrária que constitui o Eigentum, essenciado a partir da divindade, da humanidade, do mundo e da terra.
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O Aus-tragen significa tanto preservar até a maturidade da decisão essencial quanto tomar a própria decisão, elevando a queda ao Ereignis e entregando o Er-eignis ao seu próprio ser, sendo seu caráter essencial o de fundar clareando, libertando o livre e reconduzindo o afastar-se e o aproximar-se uns dos outros
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O que é trazido a termo são a Entgegnung e o Streit, ambos de essência apta ao Austrag e entrelaçados em seus arrebatamentos recíprocos; nessa Er-eignung, primeiramente são apropriados em seu ser os contrapostos (deus e homem) e os que disputam (mundo e terra), acontecendo então, nesse apropriar, a história como fundação da clareira no Da-sein do homem
82. O Er-eignis, ao apropriar-se no Da, constitui a recusa (Verweigerung) do ser enquanto entidade (Seiendheit) e a negação de todo representar herstellend-berechnend (produtor-calculante), destruindo o predomínio do λόγος e arrancando o ente da machenschaft (maquinação) para essenciá-lo como Eigentum, o que coloca o pensar diante da decisão entre tornar-se o pensar-apropriador do Seyn ou nada mais ser.
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O ser essência do Er-eignis só pode ser indicado até o “lugar” do pensar de onde se torna possível o projeto que se lança a si mesmo como um lançado, sendo a própria ocorrência do Ereignis um dom deste
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A clareira arrebatadora aponta para algo que jamais se deixa representar como processo de um ente e que, mesmo assim, supera em essenciação todo ente, mostrando apenas o caráter abissal do ser e a essenciação do abismo, o qual recusa todo refúgio no subsistente e, nessa recusa, doa a atribuição à necessidade de pertença
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Aquilo que metafisicamente chamamos “deus”, “homem”, “mundo”, “terra” pertence historicamente ao Seyn, na medida em que o nomeado essencia-se abissalmente como Eigentum, cada um remetido, de modo diferenciado, à pertença ao Ereignis
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Nem coerção nem arbítrio, mas a liberdade como libertação do fundamento no abismo é o modo do projeto histórico-do-ser, no qual o ser-lançado do projeto, enquanto apropriado, deve entrar no âmbito de seu próprio saber
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A indicação a partir do “tempo” arrebatador-clareante como “verdade” (abertura do projeto) do ser só pode, de início, dar um aceno a partir da defesa, de que o “ser” não pode ser encontrado na representação como um ente diluído e esvaziado até tornar-se o conceito “mais geral”
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O ser, essenciando-se no “tempo”, anuncia-se como o “entretanto” (Inzwischen) do ente, entretanto que exige um vínculo essencialmente transformado consigo mesmo, a instância do Da-sein, exigência esta que é apenas um vínculo representacionalmente apreendido e mal interpretado para o fato de que o Seyn, como Ereignis, apropria o Da-sein como essenciação de sua fundação de verdade
83. A Seiendheit (entidade) associa-se à Machenschaft, cujo desdobramento constitui a unidade de história, técnica e discurso, desdobramento que se dá como abandono ao esquecimento do ser (Seinsverlassenheit), esse mesmo esquecimento sendo uma recusa (Verweigerung) do Seyn cuja essenciação, por meio da Ent-eignung (desapropriação), acena para a Er-eignung levada ao Austrag, no qual o Er-eignis se essencia como a clareira do Seyn, e essa essenciação constitui a história, junto ao Seyn e ao abismo do entretanto, essenciação do nada que não provém da entidade nem, contudo, da mera “negação”.
84. O nada é pensado como o abismo da clareira da recusa, cujo fundamento é abissal justamente por essa recusa, sendo esta uma Er-eignung na instância da espera (Er-harrung) que se converte em Ent-eignung, fundamento essencial de uma negação ainda não redutível ao mero enunciado objetivante sobre presença e ausência, de modo que a negação originária permanece como constância de uma guarda em que a recusa pode e deve clarear-se, sem por isso entregar sua essência plena.
85. O nada admite três modos de pensamento distintos e crescentemente mais próprios: o conceito metafísico do nada em Hegel como indeterminado imediato, o conceito metafísico pensado historicamente como o nadificante, e o conceito histórico-do-ser do nada como o abismo enquanto essência do Seyn, sendo apenas neste último que o “nada” perde toda aparência de mera negatividade, pois o abismo é a essenciação da recusa enquanto Er-eignung da doação.
86. O dito inicial de Parmênides, de que Seyn e clareira são o mesmo, no outro início já não remete à entidade como presença aberta que se pertence à percepção, mas ao próprio abismo dessa pertença como o que inaugura, o Seyn sendo a Er-eignung do entretanto que se clareia e, ao mesmo tempo, doa e recusa a própria clareira como sua essência, de modo que a decisão pelo Seyn recoloca todo ente em outra vinculação e outra essenciação, o Seyn essenciando a clareira que se apropria no entretanto do Austrag entre Entgegnung e Streit.
87. A verdade é a clareira pertencente ao Seyn como Er-eignis, clareira que traz a termo a Entgegnung e o Streit no aberto de seu cruzamento, o que implica que a ἀλήθεια (não-velamento), enquanto abertura e clareira, é um nexo histórico determinado pelo Seyn, e não algo definível arbitrariamente ao alcance do entendimento cotidiano.
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A clareira jamais é uma abertura vazia e indeterminada, tampouco pressupõe algum ente previamente admitido, mas preserva o “ser” da Austragung e, num só movimento, da Entgegnung e do Streit; apenas muito além, no litígio do “mundo”, no ente intramundano, a essenciação da clareira aparece como o mostrar-se do ente, mostrar-se que já pressupõe o ser inicial da clareira
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No pensamento grego-metafísico, a experiência e o saber da ἀλήθεια dirigem-se inteiramente ao desvelado como tal, sendo essa desvelação a presença do permanente, mas o próprio caráter temporal dessa presença e a Verbergung (velamento) que a acompanha não são interrogados, o εἶναι sendo apenas posto em relação com o νοεῖν
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Que a desvelação seja presença e, ao mesmo tempo, um desvelar que implica resguardo e velamento, permanece fora do alcance do pensar grego; por isso a compreensão da não-velamento como abertura do ente é, em sentido estrito, não-grega, pois só assim o inicial do pensar do ser se torna propriamente pensável para nós como algo que nos foi apropriado
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A transformação da ἀλήθεια em ὁμοίωσις e adaequatio, desta em certitudo e certeza da consciência, e desta em saber absoluto e “espírito”, culminando na experiência técnico-histórica e no “vivenciar”, retirou definitivamente da metafísica qualquer possibilidade de pensar a ἀλήθεια na direção da presença e do desvelamento velante
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Somente a partir de uma Not (necessidade/carência) pode advir a necessidade de interrogar agora o caráter temporal da presença e a essência do velamento e desvelamento, necessidade que pertence ao excesso não libertado da essenciação do próprio Seyn, determinando o instante de nossa história
88. Para a metafísica, o ser enquanto Seiendheit é imediatamente ἀρχή e, portanto, medida, calculada a partir do ente e para ele como o Absoluto ou o Incondicionado, ao passo que o Seyn nunca é medida, pois sua verdade diz antes de tudo que não há medida alguma no ente, já que este é apropriado como Eigentum na questionabilidade das decisões do Ereignis, únicas que concedem a proximidade e a distância dos deuses e, a partir delas, a luta silenciosa pela transformação essencial do homem.
89. A história do Seyn consiste na Er-eignung da verdade como clareira, sendo que, no primeiro início, à doação segue-se necessariamente uma recusa, porque o ser enquanto entidade é posto a serviço do predomínio do ente, recusa que se desdobra como inversão da essência da verdade em ὁμοίωσις, retidão, certeza e justiça, culminando no nivelamento da verdade à entidade como maquinação e na abertura maquinal do ente como “publicidade” (Öffentlichkeit).
90. A Er-eignung e a Stimmung (disposição afetiva fundamental) não vieram a constituir explicitamente o primeiro início, mas foram pensadas, desconhecidas em sua essência, sob outras figuras, ocultando-se a apropriação na pertença de νοῦς e λόγος ao ser, pertença que, não superada por falta de saber da verdade, acabou deslocando a entidade (como objetividade) para o homem (como sujeito), de modo que a questão do ser se esconde atrás da problemática sujeito-objeto até culminar na maquinação como predomínio.
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A φύσις do primeiro início converte-se em maquinação, e a pertença mútua de νοεῖν e εἶναι converte-se na relação entre “vida” e “vivência”, relação que se apoia no “orgânico” mas que, sob esse nome, esconde o cálculo e planejamento maquinais mais puros
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A disposição afetiva fundamental pertence à Er-eignung; como voz do Seyn, ela dispõe o apropriado numa Grundstimmung que se torna fundamento de uma fundação da verdade do Seyn no Da-sein, não sendo mero sentimento, faculdade anímico-subjetiva, “fundamento” de comportamentos, nem simples Befindlichkeit (encontrar-se afetivo)
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A interpretação tentada em “Ser e Tempo”, embora pense a partir da questão histórico-do-ser do Da-sein e para ele, ainda contém o equívoco de deslocar a disposição afetiva para o “lado” do ser do homem, em vez de levar a sério seu caráter de Ereignis, permanecendo como obstáculo a interpretação metafísico-inicial da disposição como πάθος e affectio
91. O “Da” nunca é “aí” como nome para a presença, mas aquilo em que semelhante presença se essencia, das-sendo clareira para todo possível onde e quando; esse Da se clareia no Da-sein, o qual se essencia como a constância (Beständnis) do entretanto (Inzwischen), constância fundada na pertença à Ereignung, sendo o entretanto a unidade originária do estar-em-meio e do ínterim, a partir da qual disputa e contraposição cruzam suas trajetórias na clareira.
92. O Da-sein não é condição de possibilidade nem fundamento de condição da possibilidade do “homem” enquanto algo presente, mas a pertença abissal na clareira do Seyn, de modo que, embora “Sein und Zeit” e “Vom Wesen des Grundes” ainda falem em termos metafísicos, o pensamento ali contido já pensa de outro modo, sem contudo libertar-se plenamente no aberto de seu próprio abismo, o que torna a comunicação ambígua sem tornar impossível seu pensar posterior.
93. O genitivo em “Da-sein des Menschen” deve ser pensado histórico-do-ser, pois o Da-sein é “do” homem no sentido de uma transformação essencial previamente determinada pelo Seyn e a ele apropriada, sendo o Da-sein o lugar essencial da subversão do homem para a guarda vigilante da verdade do Seyn, nada tendo de “humano” como feitura, atitude ou comportamento, mas apenas no sentido de que o Da-sein reivindica o homem para essa transformação essencial.
94. Ainda dentro da metafísica, a posição do homem como ente em meio ao ente enquanto tal é indicada pelo “Seinsverständnis” (compreensão do ser), que, à luz da questão pela verdade do Seyn, significa antes o projetar dessa verdade, sendo essa compreensão do ser não uma propriedade nem a distinção essencial do homem em sentido propriedades-ôntico, mas o fundamento essencial do homem já determinado para a transformação essencial.
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O projetar é ele mesmo lançado, posto na instância do aberto do projeto do Seyn, e essa posição provém do deslocamento (Versetzung) que, como disposição afetiva da voz do silêncio, provém do próprio Seyn, sendo, portanto, apropriado pela Er-eignung
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O “Seinsverständnis” é assim uma determinação ambiguamente transicional, apontando ainda para a direção da razão e do sujeito, mas sendo já, a partir de um saber claro, a destruição de toda subjetividade do homem e, simultaneamente, a superação da omissão do primeiro início
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O que significam a propriedade (Eigentlichkeit) e a impropriedade (Uneigentlichkeit) do Da-sein não constituem categorias de uma “nova” antropologia, mas indicam que a essenciação do próprio Seyn afina o Da-sein para a apropriação da verdade do Seyn ou para sua perda
95. O Da-sein permanece incomparável e não admite ser subsumido a nenhum âmbito de explicação já conhecido, sendo pensável apenas histórico-do-seyn como a fundação, apropriada a partir da essência do Seyn, de sua verdade própria, permanecendo essa fundação instantemente como saber do Seyn enquanto Er-eignis.
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O Da-sein não é, em nenhum sentido, determinação de um ente, seja objeto seja sujeito, nem sequer de qualquer ente de algum modo pensado, pertencendo unicamente à essenciação do Seyn, que abandona a entidade e advém, a partir de sua própria verdade, ao saber e à palavra
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Por isso o Da-sein não é encontrável nem demonstrável em nenhum ente, seja subsistente seja no homem, e por isso é “hermenêutico” desde o início, isto é, pensável apenas como o projetado de um projeto distinto, a saber, o projeto do ser sobre seu “sentido”, ou seja, sua verdade como clareira
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O primeiro apontamento em “Sein und Zeit” costuma ser mal interpretado como se aquilo “demonstrado” já estivesse pressuposto e apenas fosse mostrado posteriormente como se fosse pura descoberta, quando na verdade o que ali se nomeia é justamente o projeto, aquilo de que tudo depende
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O Da-sein é o fundamento histórico apropriado a partir do Ereignis para a clareira do Seyn, sendo o ressoar silencioso da voz do Ereignis como instância da quietude, sendo por isso igualmente essencial para o deus e igualmente determinado pelo vínculo com mundo e terra, ainda que, no sentido da meditação apropriadora, o vínculo do Da-sein com o homem tenha um primado que exige que o próximo projeto do Da-sein passe pelo homem
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Se o homem já não é mais a “imagem e semelhança” do deus criador judaico-cristão, disso não se segue que seja imagem de si mesmo; a única conclusão para o pensamento histórico-do-ser é que o homem não é imagem de outro algo, mas de essência própria e distinta em virtude do vínculo com o Seyn, sendo a propriedade dessa essência não egoísmo de uma autoposição arbitrária, mas pertença ao que há de mais singular
96. O dito de que o Da-sein é sempre meu (“je meines”) não indica individualismo subjetivista, mas significa que a instância no Da só pode ser assumida e realizada pura e unicamente no Selbst (si-mesmo), de modo que a verdade do Seyn só pode ser garantidamente também tua e vossa quando é, plena e unicamente, a minha, sendo o Selbst do Da-sein não a interioridade do sujeito e do “eu”, mas a resolução (Entschlossenheit) na clareira do Seyn, à qual está apropriada a desapropriação (Enteignung) de toda arbitrária e ocasional sede de eu no próprio Er-eignis.
