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obra:ga63:5

§5. O conceito teológico e o conceito de "animal rationale"

A hermenêutica evita designar o ser-aí investigado como homem ou ser humano, pois qualquer conceito legado pela tradição, sobretudo a definição de animal rationale, impede de antemão o acesso àquilo que propriamente se busca visar como faticidade, distorcendo a questão ao substituí-la por uma objetualidade estranha, conforme já observara Jaspers.

  • A definição de animal rationale encontra-se desprendida de seu solo de origem e de demonstração, ecoando na filosofia moderna, notadamente em Kant, motivos ainda determinados pela teologia cristã, de modo que humanidade, personalidade e ser pessoa somente se tornam compreensíveis a partir dessas fontes teológicas formalizadas.
  • Scheler está tão distante de compreender a posição fundamental da ideia kantiana de pessoa que reduz o sentimento de respeito a mera exceção singular, e sua definição do homem como intenção e gesto da transcendência não difere fundamentalmente do ter respeito com a lei em Kant, revelando uma confusão que chega a coincidir literalmente com formulações dos reformadores como Zwínglio e Calvino, contra o Aristóteles trivializado pela escolástica.
  • Ao afirmar que Lutero definiu o homem explicitamente como carne, Scheler confunde-o com o profeta Isaías, ignorando que em Lutero carne significa o homem todo com a razão e todos os dotes naturais, situado no status corruptionis, ao qual pertencem a ignorância de Deus, a segurança, a descrença e o ódio contra Deus, constituindo uma relação negativamente determinada e confrontativa com Deus.
  • A perspectiva do animal rationale situa o homem entre os entes viventes como aquele que possui linguagem e se refere a seu mundo, mundo que se dá antes de tudo na lida da práxis, mas a definição tomada em sentido literal indiferente encobre o solo intuitivo em que essa determinação se originou, convertendo-se em fundamento nunca questionado da ideia teológica de pessoa, remetida à revelação e à passagem de Gênesis 1,26.
  • Para a fé, o homem é um homem caído, redimido e renovado por Cristo, estado de pecado ao qual ele próprio se conduziu por si mesmo apesar de sua bondade original enquanto criatura, e é esse contexto fechado de experiências que sustenta a antropologia teológico-cristã mesmo em suas transformações posteriores, neutralizando-se na filosofia moderna a relação constitutiva com Deus em mera consciência das normas e dos valores como egoidade e centro de atos.
  • Uma reflexão filosófica radical sobre o ser humano deve manter-se à margem de toda determinação teológica dogmática, constituindo tarefa ontológica positiva impedir tal posicionamento, de modo que o conceito de faticidade, como ser-aí próprio em cada caso, não envolve em sua determinação de próprio e apropriado nada da ideia de eu, pessoa ou egoidade, tampouco o conceito de si-mesmo tem origem no egoico.
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