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3.1.E. As categorias de movimento.

E. As categorias de movimento. Reluzência e pré-estrucção

Cada uma das três categorias do sentido relacional já discutidas — propensão, extinção de distância, trancamento — expressa em si mesma um teor de movimento (Bewegungshaft), importando trazer isso à expressão para visualizar de forma mais originária o próprio movimento, o que possibilita interpretá-lo num sentido fundamental capaz de fornecer sentido às categorias específicas de movimento, reluzência e pré-estrucção, dominando por completo as estruturas de movimento próprias das categorias, seus processos e estágios.

Trata-se de avançar interpretativamente para um movimento que perfaça uma mobilidade própria da vida, na qual e pela qual a vida é, a partir da qual pode ser determinada segundo o sentido do ser, tornando compreensível como tal ente pode ser conduzido a um de seus modos de ter disponíveis e apropriáveis, alcançando-se assim, para a interpretação categorial, a exposição do sentido fundamental a partir do qual todos os existenciais (Existenzialie) recebem seu sentido próprio e relacional.

Adquire-se, com isso, uma propensão expressamente viva dentro da filosofia da vida, transformando-a num problema expresso, no intuito de apropriar-se, pela compreensão, da situação espiritual em que se está e que diz respeito imediatamente a cada um, introduzindo um sentido de faticidade disponível e dedutível para ela.

Abre-se assim caminho para uma possível apropriação compreensiva do conhecimento principial, tornando-se ao mesmo tempo visível que essa via requer uma apropriação específica, e que a direção e o como da execução dessa apropriação devem ser tomados a cada vez e concretamente, aqui e agora.

Para a determinação das duas categorias problemáticas do movimento, fixadas terminologicamente como reluzência e pré-estrucção, basta seguir o fenômeno da vida cuidadosa dentro de um mundo segundo a direção de sentido de sua relação, ou, com mais rigor, segundo as categorias que expressam essa relação.

  • Articula-se primeiramente o móbil (Bewegungsmässig) indicado a cada vez em uma das categorias de sentido relacional, no sentido das categorias problemáticas.
  • Articulam-se em seguida os nexos contextuais do movimento dos momentos únicos do sentido relacional, apreendidos diversamente segundo categorias, de modo a compreender esses fenômenos de movimento como plenos e unitários, e a fazer vir à luz nitidamente o móbil da reluzência em relação à pré-estrucção.

A interpretação desse movimento conduz a uma categoria fundamental da vida cuidadosa em sua faticidade, possibilitando, com a articulação categorial da relação de vida, a determinação categorial do ser, sentido de realidade, de seu mundo, não se tratando de estruturas inventadas e desprovidas de pertencimento, mas de estruturas nas quais a vida de hoje tem de eclodir, apontando de antemão para a problemática situacional que a todos diz respeito.

a) As categorias de movimento na propensão

Na caracterização mais pormenorizada da propensão, percebe-se que a vida tem em si mesma um peso todo próprio, nada lhe estando dependurado a partir de fora, sendo antes ela mesma aquilo que se encontra na vida e o modo como isso nela se encontra, em seu cuidar propensivo, oferecendo-se a si mesma mundanamente na forma e no sentido de ser de seu mundo, de modo que aquilo que a vida vive, aquilo a que se aplica no cuidado e o que a surpreende em seu cuidar tem o caráter de encontro de teor atrativo-propensivo, requerente, exigente, inibente, significativo desse ou daquele modo.

A propensão retorna nessa configuração à vida cuidadosa, vindo ao encontro da vida que se dispersa seu mundo enquanto dispersão, dispersivo, múltiplo, que preenche, ocupa e esvazia, o que significa que a propensão se temporaliza como algo que se move na direção de si mesmo, reiluminando-se a vida a si mesma ao cuidar dessa relação e dando forma à clarificação de seu entorno para os contextos de cuidado mais próximos.

  • Esse movimento da vida na direção rumo ao encontro de si mesma caracteriza-se como reluzência.
  • Aquilo que empenha a vida fática no cuidado, para dentro de seu mundo, encontra-a, a partir daí, como cura.

Através de seu mundo e com ele, a vida é nela mesma reluzente, isto é, reluzente sobre si enquanto vida cuidadosa, combatendo, a partir do como do que lhe vem ao encontro como oferta, sua carência (Bedürftigkeit) em diretivas do cuidar, tomando suas exigências e sua dimensão a partir do mundo reluzente, precavendo-se e edificando a partir desse mundo e para ele, erigindo-se no sentido de sua tomada prévia (Vor-nahme) e de seu propósito (Vorhaben) apropriado.

  • O asseguramento, a proteção, o readquirir e o largar de mão, condutores de um propósito ou ao menos dispersivos, podem ser concebidos expressamente, organizados comunitariamente junto com o mundo compartilhado.
  • A vida cultural configura-se, assim, como a propensividade pré-estructivamente organizada da reluzência mundana da vida cuidadosa.

A propensão de asseguramento dessa pré-estrucção crescente-reluzente pode ser totalmente afastada, a ponto de a atuação e a vida cultural, o comportamento ativo em relação aos valores, serem interpretados como fechados em si, autônomos e positivos a partir da própria vida autossuficiente, podendo então essa propensão de asseguramento, aumentada reluzentemente no modo de uma efetividade positivamente criativa, perder-se — onde se expressa uma peculiaridade fundamental da mobilidade da vida, a ruinância, o endurecimento —, e com ela a possibilidade de encontrar vitalmente aquilo frente ao qual a propensão de asseguramento é o que é, isto é, uma insegurança que aborda a vida fática, bastando a partir daí, para a interpretação filosófica, um passo para colocar a própria vida, em sua totalidade, como a realidade fundamental única e objetiva.

Vale observar como essas possibilidades provenientes da filosofia grega mantêm atuação tácita na consciência de vida atual através da conceitualidade grega, cabendo aprender dos gregos não a adoção do que fizeram, mas a compreensão propriamente dita de seu pensar.

A inseparabilidade das três categorias fundamentais do sentido relacional cuidar, já assinalada, bem como a possibilidade de sua codependência mútua na determinação de sentido, tornam-se visíveis no fato de que, assim como a propensão, também a extinção de distância e o trancamento, em seu teor de mobilidade, são a cada vez caracterizados, entre si, de modo reluzente e pré-estructivo, sendo preciso reconhecer que essa mobilidade, nas próprias exteriorizações categoriais mencionadas, é em si e para si reluzente e pré-estructiva, movendo-se a si mesma no como da reluzência e da pré-estrucção.

b) As categorias de movimento na extinção de distância

O caráter de distância coimplicado no sentido relacional da vida, e a possibilidade desse “pré” (Vor) apropriado expressamente na execução da vida em tal propósito (Vor-haben), não é aniquilado no modo de cuidado da extinção de distância, mas retorna e é encontrado mundanamente, não sendo a relação de cuidar em si mesma distante, mas vindo a si mesma reluzentemente na forma de distanciamento mundano, de modo que esse cuidar se erige em busca de sucesso, posição, vantagem, imposição, sendo positiva e autonomamente pré-estructivo na formulação hiperbólica de distanciamentos e possibilidades de perseguir distâncias.

  • O teor hiperbólico constitui um como da expressão da mobilidade específica pré-estructiva da vida fática.
  • Os distanciamentos que não ganharam destaque reluzente, encontrados como mundo, são apreendidos e formulados pré-estructivamente na execução fática do cuidar.

Alcançam-se, assim, formulações de modos específicos de asseguramento desses distanciamentos e ordenações intramundanas, podendo as ciências, dentro da cultura, ter nisso sua origem específica ou a ela serem atribuídas numa situação posterior da história do espírito, constituindo essa sua gênese objetiva especificamente mundana e imanente a elas como regionalidade, sem que com isso se suprima uma problematicidade, mas antes se a eleve, colocando-a numa possibilidade existenciária de apropriação.

O “pré” da impostação teórica retorna reluzentemente para a vida como valor supremo da objetividade (Objektivität), cientificidade, integridade e cousalidade (Sachlichkeit) intelectual livre, fórum da razão teórica justificadora que demarca os limites do irracional e se adorna como absoluto, partilhando cultura intelectual científica e anti-intelectualismo da mesma procedência, situando-se este último, ao adotar cegamente a situação herdada da tradição, um degrau à frente na decadência, por sustentar-se numa convicção inautêntica de ser “melhor” ou mais “originário”.

c) As categorias de movimento no trancamento

Assim como na propensão o lançar-se avante da pré-estrucção vem à luz de forma especialmente clara, assumindo prioridade quanto ao movimento, assim no trancamento a reluzência é determinante em questão de mobilidade, estando em jogo apenas o afastar-se da vida que se anuncia ocorrendo, sendo o trancamento como tal pré-estructivamente indeterminado, por desinteressado, insistindo apenas no “distanciar-se de” contra si mesma, ganhando aqui expressão nítida um sentido fundamental da faticidade e de sua mobilidade, cujo caráter fático de temporalização permanece encoberto em seu modo de ser específico.

O cuidar no caráter do sentido relacional do trancamento é reluzente num modo comovente e premente, tornando presente a si mesma a vida, no empenho do cuidado em seu mundo, no caráter de encontro deste, desviando o olhar de si mesma, mas justamente assim se deixando encontrar na mobilidade específica, deixando-se vir a si mesma, de certo modo espantando-a para a propensão do advir a ela.

Com essa reluzência mostra-se, para a interpretação categorial do cuidar e da vida, um sentido fundamental da relação relevante para a estrutura categorial da faticidade: o distanciar-se de si (Von-sich-weg) no sair de si para fora (Aus-sich-hinaus), expressando-se o poder da reluzência no caráter de mobilidade do trancamento no fato de que, nesse distanciar-se de si, a vida forma um contra-si e é através dessa formação, erigindo-se ela, cuidando, precisamente nesse afastar-se-dela, do qual toma o sentido de orientação de suas pré-estrucções e os modos de lidar com seu mundo e consigo mesma.

Esse modo de edificar precavidamente, orientado por essa reluzência temporalizada no trancamento, esse modo de extrair e recolher próprio do propósito (Vorhaben), empenha-se em perder, poder perder autenticamente, a própria vida fática, sendo assumidos na cura a formulação, disponibilização e manutenção aberta das possibilidades de perda de si mesma, cuidando o trancamento em jamais criar oportunidade de confusão diante da vida que avança e se impõe.

  • A vida fática cuida, em sua situação concreta, para que, frente a uma situação mundana premente, possa saltar sempre de novo e com facilidade por sobre si mesma.
  • Tal cuidado busca tornar reluzente a solução mundana tachada de incontornável, constituindo-se o elíptico, nesses subterfúgios disponíveis à vida fática, num modo de mobilidade especificamente pré-estructivo relativo à reluzência histórico-factual característica do trancamento.

A interpretação da vida na perspectiva de seu sentido relacional cuidar, ou do caráter de mobilidade do cuidar, intenta aproximar-se do sentido do movimento enquanto movimento fático, como categoria explicativa, a fim de tornar acessível o próprio fático e apropriar-se categorialmente da faticidade.

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