User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
obra:ga61:3.1a

3.1.A Vida e mundo

O significado intransitivo do verbo “viver”, em sua presentificação concreta, explicita-se sempre como viver “em” algo, viver “a partir de” algo, viver “para” algo, viver “com” algo, “contra” algo, viver “em função de” algo, viver “de” algo, sendo esse “algo” — que indica a multiplicidade de relações do “viver” nessas expressões preposicionais — fixado com o termo “mundo”.

  • A compreensão desse princípio de destaque exige mantê-lo em vista tal como surge da interpretação fenomenológica do fenômeno “vida”, articulado pelo intransitivo ou transitivo em, a partir de, para, com e contra um mundo.
  • Não se trata do apontar previamente seletivo de uma determinada realidade, como o cosmos da natureza ou sua caracterização como mundo onde ocorrem seres vivos, mas do crescimento a partir do fenômeno indicado pelo verbo “viver”, trazido à visão como o viver que se vive.
  • Com a categoria fenomenológica “mundo” discute-se igualmente, como fato importante, aquilo que é vivido, a partir de onde a vida se mantém e em que ela se sustenta.

Ao se compreender a expressão nominal “vida” em seu múltiplo sentido relacional, rico em si e passível de novas relações, o sentido de conteúdo abordado junto a isso é caracterizado como “mundo”.

Formalmente, e com facilidade para equívocos, a vida está em si mesma relacionada com mundo, não sendo “vida” e “mundo” dois objetos subsistentes por si, como uma mesa para com a qual se relaciona espacialmente a cadeira diante dela.

  • A relacionalidade é própria de uma referência (Bezug) executada, vivida, e, enquanto vivida, pode ser intencionada como concepção prévia para a interpretação, sendo explicitada como mantida e apropriada nessa concepção prévia.
  • O nexo de sentido entre “vida” e “mundo” expressa-se no fato de que, nos nexos de expressão característicos do discurso, uma palavra pode substituir a outra, como em “estar lá fora engajado na vida”, “estar no mundo”, “viver plenamente em seu mundo”, “viver plenamente sua vida”.
  • No fenômeno vida, mundo constitui a categoria fundamental do sentido de conteúdo.

Dizer “categorias” significa, nesse contexto, algo que, conforme seu sentido, interpreta um fenômeno numa direção de sentido determinada, trazendo-o à compreensão enquanto interpretado, cabendo distinguir com cuidado o conceito de forma do conceito de categoria até que este último não seja haurido originariamente, uma vez que categoria é apropriada na preocupação (Bekümmerung) existenciária interpretando, e só interpretando, a vida fática.

Determinada de forma mais detalhada, a categoria fundamental “mundo” realiza-se categorialmente em novas categorias que surgem e podem ser experimentadas na execução interpretativa própria da interpretação realizada na vida fática, para essa e a partir dessa, chegando as categorias à compreensão somente na medida em que a própria vida fática força a interpretação.

O que isso significa mostrar-se-á mais à frente, na dedução e derivação da interpretação fenomenológica a partir da faticidade da própria vida.

  • Essa interpretação é a própria vida em seu si-próprio (Selbst) mais verdadeiro, e é através disso, não algo impingido a partir do humor ou com o objetivo de conquistar um novo estágio de conhecimento.
  • Tal exigência não constitui imposição arbitrária de uma sistematização sem raízes, estranha e ordenadora, mas é exigida pela própria vida fática, “ainda na indigência” (Darbung), sendo o que a perfaz verdadeiramente.

A concepção prévia da interpretação brota, a cada vez, do nível de interpretação da própria vida, não existindo, frente à vida fática, possibilidades teóricas a escolher segundo o humor, podendo um desacerto anunciar-se apenas a partir de uma investida radical, e fantasiar de antemão sobre adequação, validade e validade universal desconhece o sentido fundamental da faticidade.

  • Na medida em que a validade universal é tomada como relevante, filosofando-se primariamente nessa direção, sustenta-se uma cura (Sorge) mundana e, em medida extrema, o peso “do outro”, buscando-se sancionar o outro frente ao outro.
  • Na medida em que a faticidade permanece fechada quanto ao sentido fundamental do ser da vida, a decadência defende-se contra isso, bradando abertamente que a validade universal do conhecimento está em perigo: ceticismo.

As categorias não são algo inventado, nem uma sociedade de esquemas lógicos para si, “grade de ferro”, mas estão vivas na própria vida de modo originário, vivas para ali “formar” vida, tendo seu próprio modo de acesso, que não é estranho à própria vida, como se a esta viessem de fora, mas é precisamente um modo todo próprio pelo qual a vida vem a si mesma.

  • Na medida em que a própria vida, mesmo totalmente perdida, sempre se tem a si mesma como fática, os caracteres interpretativos, as categorias, podem tornar-se visíveis e em alguns aspectos ser compreendidos, mesmo onde o modo de acesso originário ainda não está disponível.
  • Enquanto não se alcança de imediato uma compreensão autêntica, falta visão suficiente, sendo a vida em si mesma sinuosa e também nebulosa, cabendo formular a visão verdadeira quando se a deseja.
  • A nebulosidade deve-se à própria vida, cuja faticidade está propriamente em manter-se nessa culpa, caindo sempre de novo nela, o que não é metafísica nem imagem.

A própria interpretação categorial, a ser agora desenvolvida com mais precisão, deve, ao ser compreendida, ser essencialmente repetida, mostrando-se sua evidência em sua repetibilidade autêntica e cada vez rigorosa, tornando-se a interpretação, na repetição concreta, cada vez mais simples.

  • A sinuosidade de uma interpretação mais complicada torna-se mais simples, tanto em seu sentido de apropriação quanto em seu sentido existenciário de temporalização, mais originária e, por isso, mais séria, mais grave.
  • Na simplicidade, a sinuosidade é compreendida como não passível de ser afastada, devendo antes ser apropriada, ao passo que a sinuosidade complexa sempre sugere que, ao final, não haverá mais desvios.

No emprego subsequente, a expressão “a vida” abarca no mínimo as estruturas indicadas, sem por isso ser totalmente vaga, elaborando a interpretação subsequente e sua caracterização um conceito rigoroso e filosoficamente preciso, correspondendo apenas à comodidade da própria vida fática salvar-se, na apreensão que a ela se dirige, com o argumento de que a vida seria uma configuração de muitos significados e, por isso, não fácil de apreender com precisão.

  • O ponto alto da comodidade, ou a falência da filosofia, consiste em não empregar a “expressão” quando se quer defender essa ideia, desfazendo-se de um reclamador incômodo para escrever um sistema.
  • Na filosofia faz-se uma ideia muito fácil do que realmente seja desfazer-se de uma expressão.

Tanto aqui quanto no que se segue, todo e qualquer dar destaque, interpretado expressamente a partir de uma direção de sentido, deve ser compreendido na totalidade do fenômeno e como direção de um sentido pleno, sendo categoria o seguir interpretando rumo à vida plena.

  • As categorias e pré-estruções (Prestruktionen) ainda a demonstrar mostram como, em toda direção de sentido, outras estão presentes de modo diverso, expressa ou inexpressamente.
  • O caráter “inexpressamente” constitui, ele mesmo, um caráter especificamente fenomenológico, que coperfaz a faticidade.
obra/ga61/3.1a.txt · Last modified: by 127.0.0.1