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2.2

A apropriação da situação de compreensão

A apropriação da situação de compreensão (Verstehenssituation) constitui a primeira tarefa do filosofar porque a filosofia não pode ser alcançada mediante conhecimento exterior de doutrinas, resultados, sistemas, perspectivas ou objetos culturais, mas somente pela conquista concreta da situação na qual o comportamento filosófico pode efetivamente realizar-se; essa apropriação exige uma direção de interesse motivada, uma concepção prévia (Vorgriff) correspondente ao caráter principial e formal-indicativo da definição filosófica e uma disposição para compreender a filosofia a partir da experiência fundamental (Grunderfahrung) em que ela própria pode tornar-se acontecimento da existência, de modo que a pergunta pelo filosofar conduz progressivamente da linguagem recebida ao comportamento (Verhalten), deste ao sentido de relação (Bezugssinn), ao sentido de realização (Vollzugssinn) e ao sentido de temporalização (Zeitigungssinn), culminando na definição formal-indicativa da filosofia como comportamento cognoscente principial em relação ao ente enquanto ser e, finalmente, na necessidade de interpretar a situação concreta de acesso — aqui designada pela universidade — como nexo histórico da vida fática cujo sentido de ser não pode ser determinado nem por instituições objetivamente existentes nem pela autoridade exterior da tradição.

  • A apropriação plena da situação de compreensão é uma tarefa tão radical que pode exceder as forças de uma geração inteira; por isso, o primeiro objetivo não consiste em possuí-la integralmente, mas em conquistar corretamente seu Ansatz (ponto de partida) e seu Ausgang (saída inicial).
  • O interesse filosoficamente motivado não deve orientar-se para informações, resultados, sistemas, grandes perspectivas, novidades extraordinárias ou fórmulas brilhantes de um ponto de vista, pois essa orientação permanece uma curiosidade desviada que busca segurança, certeza e tranquilização.
  • A Vor-kehrung (precaução) genuína consiste em seguir positivamente a ideia da definição filosófica e preparar-se para compreender segundo a situação e segundo a concepção prévia (Vorgriff), perguntando e fundamentando criticamente no momento apropriado.
  • Filosofia é inicialmente concebida como aquilo com que se procura conquistar uma relação fundamental originária, não como objeto de formação cultural, patrimônio intelectual, literatura especializada ou realidade histórica objetivamente classificável.
  • Adquirir informações sobre aquilo que historicamente foi chamado filosofia, sobre sua influência cultural ou sobre suas doutrinas não equivale a apropriar-se da relação em que algo como filosofar propriamente acontece.
  • A ideia da definição filosófica — principial, indicativa, formal e proveniente de uma Grunderfahrung ainda a conquistar — torna inevitável a interpretação radical da própria situação concreta daquele que filosofa.
  • A situação não é apenas condição circunstancial exterior da investigação, porque ela participa do próprio modo como o objeto filosófico se torna acessível e do modo como a concepção prévia pode ser legitimamente formada.

A. Concepção prévia a partir de um uso linguístico

  • A primeira explicitação interpretativa da situação parte de um Sprachgebrauch (uso linguístico), porque todo uso de linguagem provém de uma história e nasceu alguma vez de determinada experiência, mesmo quando sua origem foi esquecida e a continuidade expressiva da tradição foi interrompida.
  • Entrar num uso linguístico significa confiar de modo peculiar na história do espírito e apropriar-se de uma tradição, sobretudo de uma tradição da história das realizações, mas essa mesma confiança contém a possibilidade de descarrilamento e torna questionável o próprio ponto de partida.
  • Um uso linguístico disponível e de algum modo compreensível atualiza uma Verstehenssituation, e a interpretação deve permanecer inicialmente dentro dela para fazer emergir de sua tendência expressiva uma definição formal-indicativa da filosofia.
  • Não interessa inicialmente julgar se esse uso é correto, suficientemente claro ou historicamente justificável, nem reconstruir objetivamente sua proveniência; importa seguir sua Ausdruckstendenz (tendência expressiva) e destacar nela um motivo que corresponda à concepção prévia procurada.
  • O uso linguístico funciona como expoente da própria situação histórica daquele que interpreta e, quando corretamente apropriado, pode colocar o intérprete numa primeira relação ainda vaga com aquilo que se pretende determinar como filosofia.

a) Filosofia é filosofar

  • A preferência corrente por dizer que não se pode ensinar ou aprender “filosofia”, mas somente “filosofar”, contém uma indicação relevante sobre o caráter peculiar do objeto, embora costume ser imediatamente desviada para a tese de que filosofar consistiria sobretudo em formar uma Weltanschauung (visão de mundo).
  • A Weltanschauung é entendida então como organização abrangente dos domínios e valores da vida, determinação de princípios para tomar posição diante de homens, coisas e valores e, em sentido particular, regulamentação da relação com um suposto absoluto.
  • O filósofo é consequentemente imaginado como indivíduo enciclopédico que deveria dominar ciências, artes, religiões, vida econômica, social e política para construir em tempo útil uma orientação segura para a existência prática.
  • Platão e Aristóteles não possuíam esse conceito nem o complexo de atitudes expresso pela moderna palavra Weltanschauung, tendo de enfrentar diretamente os problemas filosóficos sem refugiar-se na amplitude verbal e na pretensão cultural que posteriormente se condensaram nesse termo.
  • A própria orientação da filosofia pela Weltanschauung exprime uma fatalidade da situação espiritual moderna, quer a filosofia se proponha produzir uma visão de mundo, quer busque uma visão de mundo cientificamente fundada, quer se defina como filosofia científica em oposição à filosofia de visão de mundo.
  • A simples oposição entre filosofia científica e Weltanschauungsphilosophie não supera o problema, porque continua determinando a ciência em relação àquilo mesmo de que pretende distinguir-se e conserva a formação de uma visão de mundo como horizonte remoto e não questionado.
  • A orientação precisa ser interrompida pela neutralização do complexo de atitudes condensado na palavra Weltanschauung, fazendo desaparecer a falsa alternativa entre sistema científico e visão global da vida.

Observação sobre o único uso possível, nestas considerações, da expressão “filosofia científica”

  • A expressão “filosofia científica” tende a encobrir precisamente o problema que deveria tornar visível quando faz parecer que se trata apenas de determinar a relação entre filosofia e ciências particulares, utilizar seus resultados ou reproduzir seus padrões de rigor, conceitualidade e método.
  • O problema indicado pela expressão consiste, ao contrário, em determinar a partir do próprio sentido da filosofia e de sua Grunderfahrung a ideia específica de conhecer, pesquisar e metodizar que pertence ao filosofar.
  • A filosofia não precisa de normas metodológicas extraídas das ciências nem de submissão não crítica a alguma concepção colorida de Weltanschauung, pois seu modo de conhecimento deve ser radicalmente esclarecido a partir dela própria.
  • As ciências possuem determinada proveniência na filosofia e podem ser consideradas suas “herdeiras”, inclusive quando a tradição dessa proveniência foi perdida e sua atividade institucional funciona autonomamente.
  • Como herdeiras, as ciências trabalham a partir de um legado historicamente já constituído e, precisamente por isso, não carregam o mesmo rigor originário exigido da filosofia.
  • A ruptura da tradição não se corrige acrescentando “formação filosófica” exterior aos cientistas, pois a própria filosofia é responsável por já não poder oferecer às ciências aquilo de que estas originalmente provieram.
  • Uma filosofia que vagueia cegamente por sua própria história, procura prestígio literário ou se converte em propagadora de pseudorreligiosidade perdeu a possibilidade de formar tradição filosófica genuína.
  • “Filosofia científica” é, em rigor, um pleonasmo, mas o adjetivo “científica” permanece insuficiente para determinar o caráter específico de conhecimento, investigação e método da filosofia.
  • Em sentido formal, Wissenschaft (ciência) poderia significar Leidenschaft (paixão), e nesse sentido a filosofia seria mais radicalmente “científica” do que as ciências positivas.
  • A expressão deve ser conservada apenas provisoriamente como defesa contra Schwärmerei (exaltação), superficialidade e literatura pseudofilosófica, funcionando como expressão de transição destinada a desaparecer quando o problema indicado tiver sido esclarecido.
  • O caráter científico originário da filosofia somente pode ser descoberto precisamente quando se renuncia a tomar as ciências particulares como modelo.
  • A Escola de Marburgo, Rickert e Husserl determinam de maneiras distintas a ideia de filosofia científica; em Husserl convergem o motivo brentaniano da descrição dos fenômenos psíquicos contra construções hipotéticas, o ideal de evidência e rigor matemáticos e a investigação transcendental neokantiana da consciência.
  • A multiplicidade desses motivos mostra que a expressão “científica” não possui sentido unívoco nem fornece por si mesma uma orientação principial.
  • A preferência linguística por “filosofar” em oposição a simplesmente “estudar filosofia” deve ser examinada por aquilo que expressa implicitamente acerca do comportamento filosófico, sem decidir antecipadamente se sua reivindicação possui fundamento.
  • Diferentemente de “biologia” ou “filologia”, que não produzem naturalmente verbos equivalentes a “filosofar”, o verbo indica que não se trata simplesmente de exercer uma atividade especializada.
  • A proximidade linguística com “musicar” ou “fazer música” sugere que aquele que verdadeiramente musica é aquilo que é precisamente na realização da música e não apenas alguém que domina exteriormente uma técnica.
  • A analogia não autoriza concluir por uma afinidade substancial entre filosofia e arte; no máximo, indica formalmente que determinadas possibilidades de experiência e de ser podem realizar-se concretamente de maneira própria em diferentes domínios.
  • Aquilo que no filosofar alcança radical explicitação e autoesclarecimento dentro da Leidenschaft des Vollzugs (paixão da realização) pode assumir na arte uma modalidade concreta própria, assim como assume configurações diferentes nas ciências.
  • A relação entre filosofia e arte não deve ser convertida prematuramente num tema disponível para comparações culturais superficiais.

b) Platão sobre o filosofar

  • A linguagem platônica oferece uma indicação histórica privilegiada porque seus conceitos ainda se encontram ligados à vida fática e em processo de formação, não possuindo a acentuação objetivada que posteriormente adquirirão.
  • O uso grego não pode ser simplesmente confrontado com o uso moderno, pois ambos pertencem a níveis expressivos e sentidos de ser historicamente diferentes.
  • Na República VII, a verdadeira philosophia aparece como uma Umvollzug (transformação da realização) da alma, passagem do “dia noturno” ao dia propriamente verdadeiro e subida para o ser enquanto tal, de modo que filosofar não significa adicionar conhecimentos, mas transformar o modo de realização da existência.
  • Na República V, o philosophos é aquele que acolhe cada ente segundo seu ser e não aquele que se dispersa em opiniões e circunlóquios, indicando uma apropriação orientada para aquilo que o ente é em seu ser.
  • Na Apologia, Sócrates vincula o philosophieren ao modo de viver em que se examina a si mesmo e aos outros e permanece nessa direção mesmo diante do perigo da morte.
  • A decisão pela vida filosófica não é abandonada por medo, porque o lugar existencial assumido precisa ser sustentado enquanto direção do próprio Lebensvollzug (realização da vida).
  • No Fédon, a filosofia aparece como a forma mais elevada de mousike, não no sentido moderno de música, mas como formação ritmada que se mantém numa ordem interna.
  • O decisivo da indicação platônica consiste em que filosofia é um Wie des Sichverhaltens (modo de comportar-se), jamais uma techne simplesmente exercitável ou uma técnica disponível.
  • O moderno “estudar filosofia” pode designar um complexo objetivo de conhecimento, uma doutrina constituída, um objeto cultural ou formativo acessível institucionalmente, figura que já representa uma forma em que a filosofia caiu em perda.
  • “Filosofar”, ao contrário, conserva uma indicação do sentido archontisch da filosofia, isto é, daquilo que nela exerce função dirigente e principial.
  • O uso verbal deixa aparecer que o objeto ao qual se dirige o comportamento filosófico determina de tal maneira esse comportamento que lhe empresta o próprio nome.
  • O decisivo deixa de ser simplesmente um “comportar-se em relação a…” transitivo e torna-se o próprio estar-na-realização desse comportamento, razão pela qual o intransitivo “filosofar” exprime melhor o caráter de execução.
  • Um comportamento em relação à filosofia somente é genuíno quando brota de um comportamento autônomo enquanto puro Vollzug (realização), e esse Vollzug torna-se determinante inclusive para explicitar o conteúdo daquilo a que o filosofar se refere.
  • O sentido grego de ser desse comportamento não é o moderno, mas uma compreensão histórica genuína pode reconhecer na diferença exatamente o caráter central do Vollzug.

B. O comportamento

  • As determinações subsequentes possuem caráter formal-indicativo e não constituem definições nominais, leis apriorísticas de essência nem determinações que apresentariam plenamente seu objeto.
  • Verhalten (comportamento) é mais determinado do que o termo formal Haben (ter) e deve conservar sua ambiguidade entre “comportar-se” no sentido de conduzir-se e “comportar-se em relação a…” no sentido de estar referido a algo.
  • O segundo sentido é geneticamente mais originário enquanto Bezug (relação), ao passo que o primeiro acrescenta o Vollzug (realização) do comportamento; conjuntamente, relação e realização remetem à Zeitigung (temporalização) e à Existenz (existência).
  • Quando a relação é separada de sua realização, surge a intencionalidade objetivada, enquanto a análise fenomenológica procura preservar a unidade concreta em que relação, realização e temporalização se pertencem.
  • Todo comportamento pode ser perguntado segundo o Bezugssinn (sentido de relação), isto é, segundo aquilo a que está referido e o sentido dessa referência.
  • Pode também ser perguntado segundo o Vollzugssinn (sentido de realização), isto é, segundo o modo como o comportamento se efetiva.
  • A própria realização deve ainda ser compreendida segundo seu Zeitigungssinn (sentido de temporalização), segundo o modo como se temporaliza em e para sua situação.
  • A passagem ao sentido de temporalização conduz à Faktizität (facticidade), à vida fática, à existência, à situação, ao Vorgriff e à Grunderfahrung.
  • Aquilo a que a relação se dirige e que ela mantém junto de si constitui o Gehalt (teor), termo que não deve ser confundido com “conteúdo” enquanto material de preenchimento.
  • Cada objeto possui seu Gehaltssinn (sentido de teor), que somente pode ser interpretado propriamente a partir do sentido pleno em que ele é aquilo que é.
  • O sentido pleno é o Phänomen (fenômeno), desde que a própria objetualidade seja interpretada radicalmente em sentido existencial.
  • Nada no objeto formalmente considerado justifica acrescentar-lhe determinações de teor que ultrapassem aquilo que ele próprio oferece; a interpretação deve preservar rigorosamente sua estrutura própria.

a) O filosofar segundo seu sentido de relação é comportamento cognoscente

  • O filosofar é formalmente indicado como Verhalten e, segundo seu Bezugssinn, como erkennendes Verhalten (comportamento cognoscente).
  • Erhellung (esclarecimento) seria uma determinação formalmente ainda mais originária do que Erkennen (conhecer), como sugere a alegoria platônica da caverna, embora “conhecer” seja provisoriamente suficiente para o avanço da explicitação.
  • Conhecer significa apreender o objeto “como” objeto e determiná-lo nessa apreensão, dizendo aquilo que ele é e como é.
  • A determinação cognoscente mantém-se junto do objeto enquanto algo que é, isto é, enquanto Seiendes (ente).
  • A ideia de definição é uma interpretação formal do sentido pleno do conhecimento; conforme se alteram os momentos de sentido, também se alteram função, estrutura e alcance da definição.
  • Nem todo conhecer consiste em definir explicitamente: pode preparar uma definição, formá-la, desenvolvê-la, integrá-la em outros contextos cognoscitivos ou interpretá-la.
  • A interpretação da própria definição constitui modalidade principialmente filosófica de conhecimento.
  • Em todos esses graus, o objeto é abordado e interrogado segundo seu Was-Wie-Sein, como ente que é isto e é desta maneira.
  • As ciências, enquanto nexos de realizações cognoscentes, recortam diferentes conjuntos de entes e configuram para cada um determinado Gebiet (âmbito).
  • “Âmbito” é uma categoria fenomenológica derivada formalmente do Gehaltssinn, mas adquire concreções distintas nas diferentes ciências.
  • O âmbito da ciência histórica não possui o mesmo caráter que o da zoologia ou da teologia, e as diferenças não são apenas diferenças de matéria, mas de estrutura objetiva e modo de apreensão.
  • As determinações oferecidas permanecem formal-indicativas e ainda nada decidem sobre o sentido próprio do conhecimento científico, filosófico, pré-científico ou pré-filosófico, que precisa ser interpretado a partir dos nexos correspondentes de experiência fundamental.
  • A fórmula “filosofar é comportamento cognoscente em relação a…” não constitui uma estipulação arbitrária da qual se deduziriam logicamente determinações posteriores, porque emerge de uma situação de compreensão já delimitada e de motivos internos à ideia de definição.
  • A orientação final da filosofia encontra-se na Erkenntnis der ursprünglichen Fragwürdigkeit (conhecimento da questionabilidade originária), inseparável do caráter indireto e difícil da existência humana.
  • Filosofia deve ser compreendida, por isso, como fenômeno existencial eminente, e não como estrutura proposicional ou domínio objetivo entre outros.

b) A definição principial da filosofia

  • A definição principial deve destacar antecipadamente aquilo que constitui a Hauptsache (questão principal), abrindo a possibilidade de dirigir à filosofia uma problemática radical.
  • A recorrência histórica das tentativas de fundamentar a filosofia e transformá-la em ciência absoluta decorre precisamente de que seu âmbito não está visivelmente delimitado como os âmbitos das ciências particulares.
  • Se a filosofia possuísse um Gebiet objetivamente circunscrito ao lado dos demais, não haveria necessidade constante de reconquistar seu campo nem de procurar repetidamente sua fundamentação.
  • Os âmbitos das ciências são recortados dentro da esfera do ente — natureza, história, espaço puro e outros —, enquanto aquilo a que a filosofia se dirige não pode simplesmente constituir mais um desses recortes.
  • A filosofia é frequentemente chamada Grundwissenschaft (ciência fundamental) por se dirigir ao que antecede e funda os diversos campos particulares, mas essa caracterização somente é adequada se “fundamento” e “princípio” forem compreendidos em sentido não classificatório.
  • Filosofia é erkennendes Verhalten katexochen, comportamento cognoscente em sentido eminente e principial, e sua definição precisa ela própria ser principial.
  • Conhecer princípios não basta para que um conhecimento seja principial; o próprio Vollzugscharakter (caráter de realização) do conhecer precisa ser principial.
  • A filosofia não é apenas uma atitude cognoscente dirigida a princípios, mas a forma mais radical de determinação do modo de apreender o objeto, isto é, interpretação existencial.
  • Filosofia é comportamento cognoscente principial em relação ao Seiendes (ente), e aquilo a que se dirige precisa mostrar-se segundo seu caráter principial último.
  • O ente não é considerado primordialmente em relação com outro ente, mas em si mesmo enquanto tal.
  • Aquilo que principialmente importa no ente enquanto ente é o Sein (ser), mais precisamente o Seinssinn (sentido de ser).
  • Sein e Seinssinn não constituem o gênero mais universal, a classe máxima ou a “região suprema” dentro da qual todos os entes seriam casos particulares.
  • O ser é filosoficamente principial para todo ente sem converter-se no mais geral dos conceitos classificatórios.
  • O objeto da definição de filosofia pode, assim, ser formalmente determinado como erkennendes Verhalten zu Seiendem als Sein, comportamento cognoscente em relação ao ente enquanto ser.
  • Permanece inicialmente em aberto se esse comportamento se dirige a todos os entes, a todos os âmbitos ou a nenhum âmbito enquanto âmbito, assim como permanece por esclarecer o sentido do “enquanto” dessa formulação.
  • Deve-se distinguir rigorosamente o Gegenstand der Definition (objeto da definição) do Gegenstand der Philosophie (objeto da filosofia): o segundo está implicado no primeiro, mas não esgota o que precisa ser definido quando se define o próprio filosofar.
  • O objeto da definição precisa ser levado ao Haben (ter) que genuinamente lhe corresponde, e a definição principial deve apresentá-lo de tal maneira que sua Prinzipfunktion (função de princípio) conduza a compreensão.
  • O Wozu (aquilo a que) do comportamento filosófico — o Seinssinn — é o momento principial de seu teor definicional.
  • O princípio somente é realmente compreendido quando se entende para quê e como ele funciona como princípio no próprio ter e compreender aquilo que a definição indica.
  • O Wofür (para-quê) permanece inicialmente formalmente indicado e precisa receber concreção fática na apropriação efetiva; somente nesta o princípio pode mostrar-se plenamente em sua função.
  • Compreender principialmente uma definição significa deixar que seu princípio se torne relevante para o próprio ato de possuir e compreender seu conteúdo.
  • Se o princípio é o Seinssinn do ente, então a própria maneira de ter o comportamento cognoscente torna-se decisiva: importa o Sein des Habens (ser do ter).
  • Ter propriamente um Verhalten enquanto Verhalten é um Wie seines Vollzugs, um modo de sua realização; por isso, o problema desloca-se para o Sein des Vollzugs, para a Zeitigung e para o Historische (histórico).
  • O primado do Vollzug confirma a indicação contida no uso linguístico de “filosofar”: filosofia não deve ser apenas exercida transitivamente como atividade sobre algum material, mas precisa realizar-se intransitivamente na própria existência.
  • A definição formal-indicativa pode ser condensada da seguinte maneira: filosofia é comportamento cognoscente principial em relação ao ente enquanto ser ou sentido de ser, de modo que, no próprio comportamento e para ele, torna-se decisivo o sentido de ser do ter desse comportamento.
  • Nessa direção, filosofia é Ontologie (ontologia) radical e, enquanto tal, phänomenologische Ontologie (ontologia fenomenológica) ou ontologische Phänomenologie (fenomenologia ontológica), existencial e histórico-espiritual.
  • O ente enquanto ser determina principialmente o próprio comportamento filosófico, de modo que o conhecimento filosófico não permanece exterior àquilo que conhece.
  • A relação entre comportamento filosófico e ser é tão originária que o comportamento é aquilo que apreende precisamente através de seu próprio apreender e apreende aquilo que ele mesmo é na realização.
  • A definição precisa ser compreendida como Anzeige (indicação): seu conteúdo oferece uma tarefa concreta de realização, não um conhecimento pronto.
  • Seguir a indicação significa dirigir-se ao Seinssinn des Habens des Verhaltens, ao sentido de ser do ter do comportamento.
  • O formalmente vazio “Sein” determina rigorosamente uma Ansatzrichtung (direção de partida), orientando a investigação para o próprio comportamento enquanto ente.
  • O ser que está em questão não é uma coisa produzível por manipulação exterior; trata-se do ser do próprio comportamento e, portanto, de sua Zeitigung.
  • Verhalten somente é aquilo que é em concreção plena, razão pela qual a questão filosófica conduz inevitavelmente a uma problemática concreta da existência.

C. A situação de acesso: a universidade

  • O comportamento filosófico precisa ser apreendido compreensivamente como ente em seu Was-Wie e apropriado de modo correspondente à situação e à concepção prévia, pois quanto mais a definição formal-indicativa é efetivamente compreendida, mais urgente se torna a determinação concreta de sua situação de acesso.
  • A situação não foi esgotada no Ansatz inicial; ela se torna progressivamente mais vinculante, pressionando a compreensão em direção à apropriação do concreto.
  • Aquilo de que se trata precisa tornar-se transparente “à luz do dia” e precisamente no próprio Alltag (cotidiano), pois o acesso ao fenômeno existencial não se realiza num espaço excepcional separado da vida.
  • O Vorgriff exige seguir efetivamente o Verhalten dirigido ao objeto filosófico e apreender esse comportamento como ente no próprio processo de sua apropriação.
  • Aquilo que a definição distingue abstratamente em situação, concepção prévia, acesso e realização constitui originariamente uma unidade na temporalização concreta.
  • A definição apenas indica que o Seinssinn do comportamento cognoscente é decisivo; ainda permanece indeterminado em que sentido esse comportamento está atualmente vivo e efetivamente possuído.
  • O acesso já está, entretanto, em realização na própria situação atual em que se procura compreender filosoficamente a definição.
  • Essa tentativa precisa ser apreendida como ente em seu Was-Wie e como primeira situação concretamente disponível do Zugang (acesso).
  • As tentativas de acesso não são efetuadas por sujeitos abstratos em algum lugar indeterminado: acontecem aqui e agora, num espaço concreto em que docentes e ouvintes estão uns diante dos outros e conjuntamente envolvidos.
  • Esse Lebenszusammenhang (nexo de vida) é indicado pelo título Universität (universidade).
  • O Verhalten zur Philosophie precisa ser determinado na concreção daquele que efetivamente se comporta em relação à filosofia e não como ocupação indiferente com problemas tradicionalmente recebidos.
  • Quanto mais originariamente se apropria o Grundsinn da situação fática, tanto mais originariamente pode ser esclarecido o sentido formalmente indicado de filosofia.
  • A situação fática da vida participa de cada problemática filosófica concreta, tanto na formação dos problemas quanto na urgência com que eles solicitam solução.
  • Ainda não está decidido qual Archontik (função diretiva) pertence ao nexo histórico-espiritual de temporalização existencial, mas já está indicado que nenhum problema filosófico surge num vazio supratemporal.
  • Se deve haver filosofar aqui e agora, sua determinação precisa dirigir-se ao nexo fático de vida indicado pela universidade.
  • A primeira tarefa de acesso consiste em determinar esse nexo universitário como ente em seu Was e Wie.
  • A dificuldade consiste primeiro em enxergar a situação como situação e depois em apreendê-la genuinamente como ente.
  • A situação contemporânea torna a tarefa simultaneamente possível e ambígua porque dispõe de novas possibilidades fenomenológico-existenciais de interrogar esse ser e, ao mesmo tempo, está habituada a interpretar situações mediante categorias histórico-objetivas.
  • O historisches Bewusstsein (consciência histórica) constitui, assim, simultaneamente possibilidade de acesso e tentação de objetivação.
  • A época atual traz consigo o “ontem” não apenas como passado, mas como modos herdados de ver, possuir e exprimir, razão pela qual a apropriação genuína exige superar radicalmente esse ontem precisamente para poder apropriar-se dele.
  • A superação da herança não significa apagá-la, pois o ser histórico próprio não pode simplesmente ser suspenso; somente a superação interpretativa permite uma apropriação não servil daquilo em que já se está.

a) Primeira objeção: a filosofia é filosofia universitária?

  • A vinculação da situação de acesso à universidade pode parecer uma redução ilegítima que identificaria filosofia com filosofia universitária e sustentaria que somente dentro da instituição acadêmica poderia existir filosofia genuína.
  • Essa objeção ganha força diante das críticas contemporâneas à esterilidade e à irrelevância cultural da filosofia universitária especializada.
  • As invectivas de Schopenhauer e Nietzsche contra a universidade não resolvem, porém, a questão principial, pois simplesmente fugir da instituição não transforma seu sentido nem garante que aquele que a abandona conquiste uma situação filosófica mais originária.
  • Nietzsche oferece o exemplo de como o afastamento institucional pode terminar alimentando uma cultura literária e uma atmosfera conceitualmente pouco rigorosa.
  • A definição formal-indicativa exclui a identificação entre filosofia e filosofia universitária porque o Seinssinn do comportamento cognoscente precisa ser determinado em cada situação concreta e não pode ser abstraído numa “filosofia em geral”.
  • Não existe filosofia viva concebível como entidade universal atemporal capaz de anunciar, de um lugar superior, destinos culturais futuros ou missões para a humanidade.
  • Toda proclamação dessa “filosofia em geral” encobre quem fala, de onde fala, para quem fala e com que legitimidade atribui à filosofia determinada missão cultural.
  • A definição formal-indicativa mantém positivamente abertas múltiplas situações possíveis de temporalização do filosofar e exige que cada uma seja procurada em seu Grundsinn próprio.
  • Não existe necessidade de uma única situação vital originária para todo filosofar, e outros nexos de vida podem temporalizar acessos genuínos à filosofia.
  • Permanece, contudo, possível que o nexo universitário, quando libertado de suas deformações e tornado radicalmente relevante, não apenas permita, mas exija uma modalidade extremamente radical de Vollzug filosófico.
  • A relação entre filosofias provenientes de diferentes situações, bem como o sentido de uma verdadeira Polemik filosófica, somente poderá ser determinada depois que as próprias tarefas concretas tiverem sido apropriadas.
  • A filosofia possui caráter eminentemente polemisch não como gosto pela disputa, mas porque a apropriação de uma situação concreta realiza-se mediante Destruktion (destruição), isto é, pela libertação do fenômeno contra os encobrimentos que impedem seu aparecimento.
  • Polemik, nesse sentido, não é controvérsia verbal ou combate escolar, mas um modo de existir em que a situação se torna efetivamente presente e relevante.

b) Segunda objeção: a situação contingente da universidade pode ser normativa para a filosofia?

  • Mesmo admitindo outras possibilidades de filosofar, permanece a objeção de que a universidade é uma instituição histórica contingente, transitória para muitos estudantes e incapaz de fornecer por si mesma uma situação fundamental normativamente válida para a filosofia.
  • Para estudantes, a universidade constitui frequentemente apenas Durchgang (passagem) para uma vida posterior, e a filosofia pareceria dever apontar para a existência futura e efetiva em vez de prender a consciência a uma situação institucional temporária.
  • A questão radical formula-se, portanto, em saber se um filosofar pode permanecer originário quando deixa sua Grunderfahrungssituation temporalizar-se a partir de uma instituição historicamente formada e possivelmente já esgotada.
  • A aparente contingência institucional parece ameaçar a filosofia com relativização, achatamento histórico e fixação numa situação passageira.
  • Antes de responder teoricamente ao relativismo, deve-se determinar o caráter de ser da própria situação de compreensão em que atualmente se vive.
  • A questão decisiva torna-se saber se o historischer Charakter (caráter histórico) da universidade impede sua função como situação fundamental ou se é precisamente esse caráter histórico que lhe confere a possibilidade de tornar-se filosoficamente decisiva.
  • A discussão permanece inteiramente distinta dos debates correntes sobre Universitätsreform (reforma universitária), pois estes normalmente não esclarecem sua própria competência nem o momento adequado em que alguma reforma poderia ser filosoficamente legítima.
  • A tarefa filosófica não consiste em assumir profeticamente o papel de liderança cultural, mas em enxergar a situação própria sem gestos de profeta ou Führer.
  • Necessidades não examinadas, disposições sugeridas, maiorias ocasionais ou expectativas produzidas socialmente não podem funcionar automaticamente como medidas para determinar aquilo que exige apropriação segundo seu próprio sentido.
  • A decisão principial contrapõe a vida relativa a necessidades e humores não examinados à capacidade de apreender concretamente uma ideia radical e nela conquistar Dasein.
  • Ascensão, progresso, sobrevivência ou decadência cultural são secundários quando o objetivo não é produzir dividendos culturais, mas conquistar facticidade existencial.
  • Mesmo o “declínio” pode significar uma verdadeira transformação da Faktizität, na qual a existência se deixa arrancar de uma configuração anterior em vez de degenerar em mitologia, teosofia, metafísica ou pseudomística.
  • Tomar posição prematuramente “a favor” ou “contra” revela falta da verdadeira Leidenschaft, cuja forma própria é Entschlossenheit des Verstehens (resolução da compreensão), capaz de silenciar, esperar e permanecer vigilante.
  • A incapacidade contemporânea de esperar e manter-se à espreita do próprio viver conduz à substituição da compreensão por publicidade espiritual, pressa cultural ou objetividade aparente.
  • Surge então uma dificuldade: rejeitar disposições atuais como fundamento normativo parece contrariar a exigência anterior de que a definição filosófica seja situationsgebührend (correspondente à situação).
  • A aparente contradição resulta de uma compreensão superficial da Situation, como se ela fosse simplesmente o conjunto de circunstâncias imediatamente presentes.
  • A situação própria de uma definição principial não se oferece pronta e pacificamente; o Zugang zur eigentlichen Verstehenssituation (acesso à situação de compreensão própria) exige trabalho de apropriação.
  • A compreensão da definição formal-indicativa é precisamente um Sichvorarbeiten zur Situation (abrir caminho até a situação), não uma simples entrada numa situação já previamente disponível.
  • O Ansatz mais próximo precisa ser atravessado, criticamente afastado e novamente apropriado numa configuração mais originária.
  • A pergunta pela universidade contemporânea não pode ser decidida simplesmente mediante descrição objetiva de seu estado atual e comparação histórica com universidades do idealismo alemão, humanismo, Reforma, escolástica, Alexandria, Liceu aristotélico ou Academia platônica.
  • O caminho aparentemente mais natural consistiria em ordenar historicamente início, desenvolvimento, ascensão e transformações da universidade e extrair desse material critérios para avaliar seu presente.
  • Esse método parece particularmente plausível numa época que dispõe de amplo conhecimento histórico e de uma consciência histórica desenvolvida.
  • A decisão sobre a universidade converter-se-ia, então, numa comparação histórico-objetiva em que seu passado forneceria orientação normativa para seu presente.
  • Precisamente essa solução conduz ao problema mais profundo da Tradition (tradição).

c) A tradição

  • A tentativa de decidir o presente universitário mediante sua história pressupõe que a Vergangenheit (passado) objetivamente conhecida possua legitimidade para fornecer fins e normas, pressuposição que precisa ser interrogada antes de qualquer apelo à grandeza, antiguidade, duração ou fecundidade cultural de tradições anteriores.
  • A geração atual existe de maneira historicamente distinta porque não é apenas descendente de outras gerações, mas possui consciência histórica explícita dessa descendência, vive nessa consciência e interpreta a si mesma e seu futuro a partir dela.
  • A ciência histórica contribuiu para produzir uma modalidade específica de historisches Bewusstsein que ultrapassa a historiografia profissional e penetra a própria consciência da época.
  • Spengler constitui uma expressão consequente desse estado espiritual porque leva a sério, segundo o estilo do Zeitgeist, aquilo que se oferece à consciência histórica moderna.
  • Levar Spengler a sério não significa jurar fidelidade a suas teses nem inaugurar outra escola, mas reconhecer o fenômeno de época que nele se exprime e os problemas que sua própria elaboração permanece incapaz de tematizar.
  • O defeito fundamental de Spengler consiste numa Geschichtsphilosophie ohne das Historische, uma filosofia da história que não alcança o próprio fenômeno do histórico.
  • A tentativa posterior de atenuar a perspectiva da decadência revela que nem o próprio Spengler compreende radicalmente aquilo para que sua posição inicialmente apontava.
  • Refutar Spengler enumerando erros factuais significa desconhecer que uma Zeit (época) e sua consciência histórica não podem ser simplesmente eliminadas mediante argumentos científicos contra uma teoria.
  • Isso não significa excluir a ciência da transformação histórica, mas reconhecer que a existência histórica não possui o mesmo caráter de ser de uma proposição falsa suscetível de refutação.
  • Torna-se então duvidoso que a tradição objetivamente passada possa fornecer diretamente uma direção normativa para uma situação espiritual sem precedente exatamente igual.
  • A invocação sentimental da venerabilidade e do brilho da tradição permanece cega enquanto não se esclarecem seu Sinn (sentido), seu Recht (direito) e seu Anspruch (reivindicação).
  • Tanto a recusa da tradição como norma quanto sua defesa exigem esclarecer primeiro aquilo que a própria Tradition é e em que sentido ela pode atuar no presente.
  • A tradição costuma entrar na argumentação com um significado não criticado, quer se fale em seu favor, quer contra ela.
  • Interpretar um fenômeno significa libertá-lo para que possa atuar na compreensão segundo seu próprio sentido, e não simplesmente classificá-lo de acordo com uma posição previamente estabelecida.
  • Antes de perguntar se a tradição deve normatizar a universidade, torna-se necessário perguntar o que na própria universidade está efetivamente sob questão e o que significa viver nela.
  • A universidade é um Lebenszusammenhang (nexo de vida), algo dentro do qual se vive, e somente pode ser interrogada concretamente a partir do modo como é vivida aqui e agora pela própria existência fática.
  • As perguntas sobre a legitimidade da tradição e sobre a historicidade da universidade ainda não são problemicamente primeiras enquanto permanecer encoberto o Seinscharakter (caráter de ser) da universidade em seu presente.
  • Somente a partir desse caráter de ser pode tornar-se visível aquilo que eventualmente torna a universidade inadequada ou adequada como Grunderfahrungssituation do filosofar.
  • Como nexo de vida, a universidade pertence ao faktisches Leben (vida fática), cuja Faktizität é em si mesma historisch e mantém uma relação comportamental com o mundo e o tempo anteriores.
  • A questão da tradição é, assim, reconduzida ao problema do Historische como fenômeno fundamental enraizado na própria facticidade.
  • O problema decisivo passa a ser a relação entre objektiv Geschichtliches (historicamente objetivo) e historische Faktizität (facticidade histórica), não a escolha exterior entre conservar ou rejeitar instituições herdadas.

Recapitulação

  • Na compreensão da definição principial da filosofia, torna-se decisivo o Seinssinn do próprio Verstehen (compreender), razão pela qual o comportamento compreensivo precisa ser concretamente apropriado.
  • A primeira forma concreta desse problema é a Zugangstendenz (tendência de acesso), tomada como comportamento existente em seu Was-Wie aqui e agora, sob o título “universidade”.
  • A universidade parece inicialmente ocasião contingente e historicamente mutável, aparentemente inadequada para sustentar uma decisão principial.
  • O caminho objetivamente histórico que procuraria decidir essa adequação acumulando materiais favoráveis e contrários constitui uma fuga na direção de queda e não precisa ser integralmente percorrido.
  • A inadequação desse caminho torna-se visível a partir da própria problemática filosófica fundamental, e não porque se despreze o conhecimento histórico.
  • A objeção da contingência institucional não é casual, mas expressão autêntica de uma situação já caída; enquanto se procura resolvê-la no mesmo estilo objetivante em que é formulada, permanece-se dentro da própria queda.
  • Permanecem como momentos ainda não esclarecidos o Sinn und Recht der Tradition, o que a universidade é como nexo fático de vida e como a história objetiva se relaciona à facticidade histórica desse nexo.
  • A pergunta pelo Was-Wie do comportamento de acesso conduz, portanto, à necessidade de uma primeira explicitação do faktisches Leben.
  • Não se trata prioritariamente de descrever objetivamente o estado atual e contingente da universidade, mas de explicitar compreensivamente seu Daseinssinn (sentido de existência), que pode estar encoberto, bloqueado e oculto justamente nas formas visíveis da instituição.
  • Esse sentido não é supratemporal; é radicalmente zeitlich und historisch (temporal e histórico) e precisamente por essa historicidade pode e deve tornar-se objeto de apropriação.
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