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obra:ga6:1-1-7

1.1.7 Vontade como Vontade de Poder

6.1. Nietzsche1 (1936–1939), ed. B. Schillbach, 1996, XIV, 596p / 6.2. Nietzsche2 (1939–1946), ed. B. Schillbach, 1997, VIII, 454p.

1. A Vontade de Poder como Arte

7. A Vontade como Vontade de Poder

1. Antecipando a questão decisiva, indaga-se o que Nietzsche mesmo compreende pela expressão vontade de poder, o que significa vontade e o que significa vontade de poder, sendo essas duas perguntas, para Nietzsche, uma única questão, uma vez que a vontade nada mais é do que vontade de poder, e o poder nada mais é do que a essência da vontade.

2. Vontade de poder é, assim, vontade de vontade, o que equivale a dizer que o querer é um querer a si mesmo, formulação que ainda carece de elucidação.

3. Nessa tentativa de definição, como em toda definição conceitual elaborada de modo semelhante que pretenda apreender o ser dos entes, dois pontos devem ser mantidos em vista.

4. Em primeiro lugar, uma definição conceitual precisa, que enumera as diversas características daquilo que se pretende definir, permanece vazia e falsa enquanto não se chega a conhecer intimamente aquilo de que se fala, trazendo-o diante dos olhos do espírito.

5. Em segundo lugar, para apreender o conceito nietzschiano de vontade, é especialmente importante observar que, se a vontade enquanto vontade de poder constitui o caráter fundamental de todos os entes, então, ao definir a essência da vontade, não se pode recorrer a um ente particular ou a um modo especial de ser que sirva para explicá-la.

6. A vontade, como caráter que perpassa todos os entes, não fornece qualquer diretriz imediata da qual seu conceito, enquanto conceito de ser, possa ser derivado, ainda que Nietzsche nunca tenha explicitado esse estado de coisas sistematicamente e com atenção a princípios, sabendo, contudo, com clareza, que perseguia uma questão incomum.

7. Dois exemplos ilustram o que está em jogo: segundo a concepção usual, a vontade é tomada como faculdade da alma, sendo determinada a partir da essência da psique, tema tratado pela psicologia, a psique constituindo um ente particular, distinto do corpo e do espírito.

8. Se, na perspectiva de Nietzsche, a vontade determina o ser de toda espécie de ente, então ela não pertence à psique, sendo antes a psique que de algum modo pertence à vontade, uma vez que também o corpo e o espírito são vontade, na medida em que são.

9. Além disso, se a vontade é tomada como faculdade, ela é vista como algo capaz de fazer algo, estando em posição de realizá-lo, possuindo o poder e a força requeridos, de modo que aquilo que é intrinsecamente poder, e para Nietzsche é isso que a vontade é, não pode ser posteriormente caracterizado pela definição de faculdade ou de poder, pois a essência de uma faculdade se funda na essência da vontade enquanto poder.

10. Um segundo exemplo: a vontade é tomada como espécie de causa, dizendo-se que um homem realiza algo não tanto por meio do intelecto quanto pela pura força de vontade, produzindo a vontade um efeito ou consequência.

11. Ser causa constitui, todavia, modo particular de ser, não podendo o ser enquanto tal ser apreendido por meio da causação, de modo que a vontade não é um efetuar, sendo antes o próprio poder de causação, aquilo que usualmente se toma como algo que produz efeitos, fundado na vontade.

12. Se a vontade de poder caracteriza o próprio ser, não há nada mais além disso a partir do qual a vontade possa ser definida, sendo a fórmula vontade é vontade formalmente correta, porém vazia de conteúdo, revelando-se enganosa caso se suponha que as coisas sejam tão simples quanto a frase sugere.

13. Por essa razão Nietzsche pode declarar, em Crepúsculo dos Ídolos, que hoje se sabe que a vontade é apenas uma palavra, correspondendo a essa afirmação uma declaração anterior do período de Zaratustra, segundo a qual ri-se tanto do livre-arbítrio quanto do arbítrio não-livre, sendo aquilo que se chama vontade uma ilusão, não havendo vontade alguma.

14. É digno de nota que o pensador para quem o caráter fundamental de todos os entes é a vontade afirme não haver vontade, o que Nietzsche entende, contudo, como negação daquela vontade previamente conhecida e designada como faculdade da alma e como esforço em geral.

15. Seja como for, Nietzsche precisa repetir constantemente o que é a vontade, dizendo, por exemplo, que ela é um afeto, uma paixão, um sentimento e um comando, o que suscita a dúvida sobre se tais caracterizações não falam ainda no domínio da psique e dos estados da alma, sendo afeto, paixão, sentimento e comando cada qual algo diferente entre si.

16. Questiona-se se aquilo que se introduz para iluminar a essência da vontade não deveria, ele mesmo, ser suficientemente claro de antemão, sendo, no entanto, a essência do afeto e da paixão, e a distinção entre ambos, algo particularmente obscuro, o que torna difícil compreender como a vontade poderia ser todas essas coisas simultaneamente.

17. Tais dúvidas dificilmente podem ser superadas por completo, mas talvez não toquem a questão decisiva, uma vez que o próprio Nietzsche enfatiza, em Além do Bem e do Mal, que o querer lhe parece algo complicado, algo que é unidade apenas enquanto palavra, ocultando-se nessa única palavra um preconceito popular que prevaleceu sobre a sempre escassa cautela dos filósofos, dirigindo-se aqui Nietzsche primordialmente contra Schopenhauer, para quem a vontade seria a coisa mais simples e mais conhecida do mundo.

18. Como a vontade enquanto vontade de poder designa, para Nietzsche, a essência do ser, ela permanece para sempre o objeto efetivo de sua busca, a coisa a ser determinada, importando, uma vez descoberta tal essência, localizá-la de modo tão completo que jamais possa tornar a se perder.

19. Fica em aberto, por ora, se o procedimento de Nietzsche é o único possível, se a singularidade da investigação acerca do ser tornou-se para ele suficientemente clara, e se ele pensou de modo fundamental os caminhos necessários e possíveis a esse respeito, sendo certo apenas que, dada a ambiguidade dos conceitos de vontade e a multiplicidade das definições conceituais vigentes, não lhe restava outra alternativa senão esclarecer o que pretendia dizer com auxílio do que lhe era familiar, rejeitando o que não pretendia dizer.

20. Ao tentar-se apreender o querer por aquela peculiaridade que primeiro se impõe, poder-se-ia dizer que querer é dirigir-se a algo, ir atrás de algo, constituindo um comportamento dirigido a algo, o que, todavia, também caracteriza a observação atenta de algo imediatamente disponível ou o acompanhamento de um processo, casos em que nos dirigimos à coisa por via da representação, sem que o querer aí desempenhe qualquer papel.

21. Dirigir-se a algo ainda não constitui um querer, ainda que tal direcionamento esteja implicado no querer, podendo-se também querer-ter alguma coisa, como um livro ou uma motocicleta, situação em que um menino deseja possuir algo, o que configura não mera representação, mas uma espécie de aspiração com o caráter peculiar do desejar.

22. Desejar não é, contudo, ainda querer, pois quem apenas deseja, em sentido estrito, não quer, mas antes espera que seu desejo se realize sem que precise fazer algo a respeito, não sendo o querer, portanto, um desejar ao qual se acrescente iniciativa própria, mas algo inteiramente distinto do desejar.

23. O querer consiste na submissão de si mesmo ao próprio comando e na resolução desse autocomando, resolução que já implica a execução do comando, introduzindo-se com essa caracterização toda uma série de determinações não contidas na noção inicial de dirigir-se a algo.

24. Poderia parecer que a essência da vontade seria apreendida de modo mais puro caso esse dirigir-se a algo, como querer puro, fosse subitamente eliminado em favor de um dirigir-se a algo no sentido de mero desejo, aspiração ou representação, posicionando-se assim a vontade como relação pura de um simples orientar-se ou ir atrás de algo, abordagem, contudo, equivocada.

25. Nietzsche está convencido de que o erro fundamental de Schopenhauer reside em sua crença de que existiria um querer puro, um querer que se tornaria tanto mais puro quanto mais indeterminado permanecesse aquilo que é querido e quanto mais decisivamente fosse deixado de lado aquele que quer.

26. Ao contrário, é próprio da essência do querer que aquilo que é querido e aquele que quer sejam trazidos para dentro do próprio querer, não no sentido extrínseco em que se diz que a todo esforço pertence algo que se esforça e algo para o qual se esforça.

27. A questão decisiva consiste em saber como e sobre que fundamento o querido e aquele que quer pertencem ao querer-vontade, respondendo-se que isso ocorre com base no próprio querer e por meio do próprio querer, na medida em que o querer quer aquele que quer, enquanto tal, e o querer põe o querido como tal.

28. O querer é resolução em relação a si mesmo, mas enquanto aquele que quer aquilo que está posto no querer como querido, fornecendo a vontade, em cada caso, determinação completa ao seu próprio querer, de sorte que quem não sabe o que quer nada quer e não pode, de modo algum, querer, não havendo um querer-em-geral.

29. Segundo A Gaia Ciência, a vontade, como afeto de comando, constitui a marca distintiva decisiva do autodomínio e da força, contrapondo-se a isso o esforço, que pode permanecer indeterminado tanto em relação àquilo que efetivamente se almeja quanto em relação ao próprio sujeito que se esforça.

30. No esforço e na compulsão permanecemos presos a um movimento em direção a algo sem saber o que está em jogo, não sendo, nesse mero esforçar-se, propriamente trazidos diante de nós mesmos, razão pela qual não nos é possível esforçar-nos para além de nós mesmos, mas apenas esforçar-nos e absorver-nos totalmente nesse esforço.

31. Em contraste, a vontade, como abertura resoluta a si mesma, constitui sempre um querer que se lança para além de si, de modo que, ao acentuar mais de uma vez o caráter de comando da vontade, Nietzsche não pretende oferecer uma prescrição ou conjunto de instruções para a execução de um ato, nem caracterizar um ato de vontade no sentido de simples decisão.

32. Pretende antes designar a resolução por meio da qual o querer pode apreender aquilo que é querido e aquele que quer, entendendo esse apreender como decisão fundada e permanente, sendo capaz de verdadeiramente comandar, o que nada tem a ver com mero ordenar, apenas aquele que está sempre pronto e apto a colocar-se sob comando.

33. Por meio dessa disposição, tal sujeito coloca-se no âmbito do próprio comando como o primeiro a obedecer, paradigma da obediência, residindo nessa decisão do querer, que se lança para além de si mesma, o domínio sobre aquilo que se revela no querer e naquilo que permanece retido na resolução.

34. O próprio querer é domínio que se lança para além de si mesmo, sendo a vontade intrinsecamente poder, e o poder, por sua vez, um querer constante em si mesmo, de modo que vontade é poder e poder é vontade.

35. Diante disso, a expressão vontade de poder pareceria destituída de sentido quando se pensa a vontade segundo a concepção nietzschiana, ainda que Nietzsche a empregue mesmo assim, em rejeição expressa à compreensão usual de vontade e, sobretudo, para enfatizar sua resistência à noção schopenhaueriana.

36. A expressão vontade de poder pretende sugerir que a vontade, tal como usualmente se a entende, é na realidade e unicamente vontade de poder, escondendo-se, porém, nessa explicação, um possível mal-entendido.

37. A expressão não significa que a vontade seja uma espécie de desejo que tem o poder como meta, em lugar da felicidade ou do prazer, ainda que Nietzsche em muitas passagens fale nesses termos a fim de fazer-se provisoriamente compreendido.

38. Ao colocar o poder, e não a felicidade, o prazer ou a dissolução da vontade, como meta da vontade, Nietzsche altera não apenas a meta da vontade, mas a própria definição essencial de vontade, não podendo o poder, no sentido estrito da concepção nietzschiana, ser preestabelecido como meta da vontade, como se pudesse ser posto previamente fora dela.

39. Sendo a vontade abertura resoluta a si mesma, domínio que se lança para além de si, um querer além de si mesmo, ela constitui a força capaz de trazer-se a si mesma ao poder, de modo que a expressão ao poder nunca significa espécie de apêndice à vontade, constituindo antes elucidação da própria essência da vontade.

40. Somente após esclarecido o conceito nietzschiano de vontade nesses aspectos é possível compreender as designações que Nietzsche frequentemente escolhe para exibir a natureza complicada daquilo que a simples palavra vontade lhe diz, chamando a vontade, portanto a vontade de poder, de afeto.

41. Nietzsche chega a afirmar que sua teoria seria a de que a vontade de poder constitui a forma primitiva do afeto, sendo todos os demais afetos apenas suas configurações, chamando ainda a vontade de paixão e de sentimento.

42. Caso se compreendam tais descrições a partir da perspectiva da psicologia comum, poder-se-ia ser tentado a afirmar que Nietzsche abandona a essência da vontade ao domínio emocional, ou que a resgata das interpretações racionalistas perpetradas pelo Idealismo.

43. Impõem-se, contudo, duas questões: em primeiro lugar, o que Nietzsche quer dizer ao enfatizar o caráter da vontade como afeto, paixão e sentimento; em segundo lugar, quando se julga ter constatado que a concepção idealista de vontade nada tem a ver com a de Nietzsche, cabe indagar como se está compreendendo, nesse contexto, o próprio termo Idealismo.

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