§7
PRIMEIRA SEÇÃO
A vida como âmbito originário da fenomenologia
PRIMEIRO CAPÍTULO
Demonstração da vida como esfera problemática da fenomenologia
§ 7. Delimitação provisória do conceito de vida em si
A vida em si deve ser provisoriamente delimitada não como força primordial natural, objeto de ciência da natureza ou fundamento especulativo da filosofia da natureza, mas como aquilo que se encontra tão próximo que normalmente não é explicitamente percebido e diante do qual nenhuma distância absoluta pode ser conquistada, porque a própria existência investigadora já é essa vida e somente pode ver-se a partir das direções internas em que ela mesma se realiza; nesse horizonte, a Selbstgenügsamkeit (autossuficiência), a multiplicidade das tendências vitais, o caráter de mundo e a evidência cotidiana da vida revelam uma estrutura em que a vida encontra em si mesma suas motivações, tarefas, possibilidades, satisfações, insuficiências e interpretações sem ultrapassar espontaneamente seu próprio círculo, tornando justamente essa evidência aparentemente trivial o problema radical de uma ciência originária.
a) Autossuficiência como forma de realização da vida
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A vida — a própria, a alheia e a vida comum — deve ser apreendida em sua tipicidade mais geral permanecendo-se dentro dela e acompanhando suas próprias direções, movimentos e destinos, sem assumir inicialmente uma posição teórica exterior.
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A investigação procura reconhecer que, no próprio fluxo vital e naquilo que continuamente o move, estimula e mantém em tensão, não aparece espontaneamente algo como Ursprung (origem) ou Ursprungsgebiet (âmbito originário).
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A Selbstgenügsamkeit (autossuficiência) caracteriza um aspecto fundamental do “em si” da vida e admite formas tão diversas que algumas delas poderiam parecer precisamente o contrário da autossuficiência.
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A expressão torna-se inicialmente paradoxal quando confrontada com caracterizações pessimistas da vida, como a de Schopenhauer segundo a qual a vida seria um empreendimento cujos custos não são cobertos, ou com as análises de Simmel acerca do caráter limitado, fixado e insuficiente da existência.
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A autossuficiência não deve ser definida previamente para depois ser aplicada à vida; é necessário olhar para a vida em si e verificar se nela se manifesta um caráter que exija uma delimitação conceitual unívoca derivada das próprias coisas.
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Selbst-genügsam designa uma Erfüllungsform (forma de realização, preenchimento) cuja estrutura intencional se dirige sempre para um mundo, inclusive para o mundo próprio, e para algo transcendente, abrangendo também aquilo que factualmente pode ser denominado imanente.
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Essa forma constitui o modo de direção próprio da vida também quando ela procura satisfazer-se, realizar-se ou encontrar prazer, sem precisar estruturalmente sair de si mesma para levar suas tendências genuínas à realização.
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A vida fala sempre em sua própria “linguagem”, propõe a si mesma tarefas e exigências e procura superar suas limitações, insuficiências e perspectivas incompletas dentro de seu próprio âmbito.
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Mesmo quando tenta ultrapassar imperfeições, a vida permanece orientada pelo caráter fundamental de sua própria autossuficiência, pelas formas que esta assume e pelos meios derivados dessas formas.
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Permanecendo inteiramente no interior da vida, torna-se difícil até mesmo perceber que ela possa ser abordada de outro modo que não aquele previamente traçado por sua própria dinâmica.
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Selbstgenügsamkeit nomeia, assim, uma direção motivacional da vida em si segundo a qual ela recebe sua motivação do próprio curso factual em que se realiza.
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A análise deve inicialmente suspender teorias filosóficas e explicações do mundo para permanecer junto daquilo que parece absolutamente evidente e cotidiano, intensificando essa evidência até tornar perceptível o meio em que a autossuficiência pode aparecer como fenômeno.
b) Multiplicidade das tendências da vida
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A vida realiza-se sempre em alguma direção, ainda que essa direção normalmente não se torne explicitamente consciente e possa ser assumida deliberadamente, impor-se subitamente, insinuar-se imperceptivelmente ou simplesmente vigorar como orientação factual.
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Ouvir uma preleção, ministrá-la, dirigir-se ao curso, trabalhar em casa, dedicar-se a determinada ciência, aprender receptivamente ou investigar autonomamente constituem diferentes formas concretas pelas quais uma direção vital ocupa e organiza o campo momentâneo da existência.
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Comer, experimentar cansaço, procurar estímulo, assistir a um concerto, ouvir Bach, contemplar pinturas, ler poemas, pertencer a uma comunidade religiosa, participar de associações acadêmicas, praticar esportes, votar ou atuar politicamente são modos de a vida sempre se manter “em algum lugar”.
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Cada momento vital possui um Umkreis (círculo circundante) variável de “coisas” que reclamam a vida, ampliando-se e estreitando-se segundo as direções em que ela se move.
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O ingresso numa profissão produz determinada estabilização da vida, mas essa estabilização constitui apenas um tipo particular de tendência e não a supressão do caráter móvel da existência.
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As relações com outras pessoas também passam por seleções determinadas por costumes, interesses e demais tendências, constituindo configurações mutáveis do convívio.
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A vida compreende crenças, convicções e ideias acerca daquilo que nela aparece e desenvolve diferentes visões de si mesma, transformadas por novas experiências e pelos conflitos entre orientações divergentes.
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Há momentos em que a vida se intensifica e se torna impulsiva, absorvendo inteiramente aquele que vive numa atividade, numa preocupação ou numa relação, enquanto em outros momentos os acontecimentos simplesmente passam sem participação efetiva.
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A vida pode apresentar-se como alegria, esperança, entrega aos outros e prazer de viver, mas também como tormento, sofrimento diante de suas imperfeições, peso do cotidiano e desespero.
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Aquilo que é desejado pode exigir renúncia, enquanto outras possibilidades surgem inesperadamente sem terem sido procuradas.
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Pessoas anteriormente próximas e participantes de uma direção comum podem tornar-se estranhas, enquanto outras ingressam no círculo íntimo da existência e originam amizade, amor e crescimento comunitário.
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No interior de todas essas direções, a vida também pode tornar-se objeto de atenção para si própria: ponderam-se ações e omissões, elaboram-se planos, organizam-se condições de existência, avaliam-se realizações, corrigem-se comportamentos e procura-se orientar o próprio desenvolvimento.
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Também o abandono ao curso momentâneo dos acontecimentos constitui uma maneira específica de a vida conduzir-se dentro de suas possibilidades.
c) O caráter mundano da vida
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A multiplicidade que acompanha continuamente o fluxo vital estrutura-se como Umwelt (mundo circundante), Mitwelt (mundo compartilhado) e Selbstwelt (mundo próprio), abrangendo paisagens, regiões, cidades, desertos, familiares, conhecidos, superiores, professores, estudantes, funcionários, desconhecidos e tudo aquilo que, de maneira singular, confere ritmo pessoal à própria vida.
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Umwelt, Mitwelt e Selbstwelt não constituem três recipientes exteriores justapostos, mas dimensões de uma Welt (mundo) dentro da qual a vida já sempre se realiza.
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A vida não é inicialmente um sujeito que contempla um mundo exterior, pois normalmente se encontra envolvida, comprometida, repelida, desfrutando ou renunciando, sempre de alguma maneira “junto” daquilo que encontra.
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A vida é o mundo em que vive e dentro do qual suas tendências percorrem suas direções; somente há vida enquanto ela vive em um mundo.
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Em cada momento do seu fluxo, a vida encontra alguma porção do mundo ou, mais radicalmente, “é” essa situação mundana, não existindo primeiramente como vazio que precisasse posteriormente procurar um mundo para preencher-se.
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A experiência da vida mostra-se sempre já familiarizada com determinados contextos, razão pela qual mesmo experiências culturalmente distintas permanecem internamente compreensíveis aos participantes de uma forma de vida.
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O caçador que retorna e narra aos membros de seu grupo uma caça bem-sucedida encontra um fundo compartilhado de Verständlichkeiten (compreensibilidades) e unmittelbare Zugänglichkeiten (acessibilidades imediatas) que permite que seu relato seja compreendido.
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Grupos humanos partilham porções do mundo acessíveis de modo relativamente comum, como objetos de uso cotidiano, meios de transporte, instituições públicas e contextos finalísticos como escola e parlamento.
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Cada vida habita sua Gegenwart (presença atual) viva, assim como as vidas históricas anteriores habitaram mundos próprios, com profissões, pensamentos e modos de existência diferentes.
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A imperfeição, a incompletude e a busca de satisfação definitiva não fazem a vida abandonar sua autossuficiência, pois mesmo os projetos de cosmovisão que procuram reunir o mundo e a vida numa totalidade interpretativa são criações da própria vida.
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Profetas e outras figuras significativas podem viver segundo a tendência de alcançar uma visão global da vida e comunicá-la aos demais, mas essas visões, por mais abrangentes que sejam, continuam sendo formas produzidas no interior da vida.
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Obras de arte antigas e contemporâneas, religiões transmitidas historicamente, ciências, máquinas e objetos religiosos permanecem acessíveis como configurações da própria vida e como modos pelos quais ela assume diferentes posições diante de si mesma.
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As ciências históricas investigam sistematicamente a vida passada em sua multiplicidade de formas e processos de formação, enquanto as ciências naturais estudam aspectos do Umwelt em que a vida se move e do qual se serve, como ar, luz, calor, água, madeira, carvão, plantas, animais e o próprio homem.
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Também existem ciências da vida econômica e uma ciência que pretende investigar o psíquico do próprio homem que vive, mostrando que o conhecer científico constitui uma possibilidade interna da vida e não uma esfera exterior a ela.
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O conhecimento sistemático eleva sob determinada perspectiva aquilo que inicialmente é vivido de maneira ingênua e prática, permanecendo ainda uma direção particular no interior do fluxo vital.
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A vida satisfaz-se a si mesma mesmo onde vive em insuficiências e imperfeições, porque continua a mover-se somente em suas próprias possibilidades encontráveis e jamais gira para fora de si mesma.
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A mesa de trabalho, os ouvintes, a biblioteca, proposições físicas, documentos históricos, textos, preços, conjunturas econômicas, situações políticas, obras de arte, igrejas, celebrações religiosas e Deus podem todos aparecer dentro da própria vida e possuir caráter vital.
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Leben an sich (vida em si) designa, assim, a vida que se efetiva em seu mundo respectivo e que encontra dentro desse mundo tudo aquilo com que se relaciona.
d) A evidência da vida como problema radical de uma ciência originária da vida
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Por mais extensa que se tornasse a enumeração das possibilidades da vida, ela continuaria sempre retornando à evidência aparentemente trivial de que toda vida vive num mundo e de que tudo aquilo que aparece como mundo ou porção de mundo aparece no fluxo e no movimento da própria vida.
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A acumulação de trivialidades não pretende produzir conhecimento por simples enumeração, mas intensificar a escuta do evidente até que aquilo que parece maximamente óbvio se torne absolutamente problemático.
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Essa problematização deve ocorrer sem aspiração teórica prévia, sem explicação, hipótese ou doutrina mantida em segundo plano, pois somente assim a evidência cotidiana pode ser experimentada em sua força própria.
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As dificuldades que surgem normalmente na vida — problemas históricos, artísticos, técnicos, econômicos, éticos ou mundivisivos — ainda pertencem ao próprio horizonte vital e são enfrentadas pela vida segundo seus próprios modos.
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A questão decisiva não consiste em reunir mais problemas internos à vida, mas em perguntar o que significa algo tornar-se problemático no sentido de uma questão fenomenológica originária.
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Conteúdos religiosos, convicções mundivisivas e interpretações globais podem abranger toda a riqueza da vida, mas oferecem apenas determinadas visões totais, configuradas segundo ritmos e colorações específicas.
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A crença num Deus pessoal, o panteísmo, o biologismo ou uma visão estética do mundo permitem viver a totalidade de modos diferentes, sem por isso fornecerem uma ciência originária.
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A própria investigação das “origens” segundo essas perspectivas pode parecer tornar supérflua ou impossível uma Ursprungswissenschaft, porque a vida já encontra dentro de si respostas religiosas, científicas e mundivisivas para sua proveniência.
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A fé religiosa pode possuir evidência própria da dependência em relação a Deus, de quem a vida procede e para quem retorna, enquanto uma cosmovisão pode formular convicções acerca da qualidade do fundamento do mundo e da vida.
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A possibilidade de que essas convicções não sejam cientificamente demonstráveis não implica que a ciência precise ser considerada a instância mais elevada, e o próprio conhecimento científico, quando autêntico, deve reconhecer criticamente seus limites.
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Também hipóteses das ciências naturais acerca da origem da vida podem parecer suficientes, levantando a objeção de que uma filosofia do âmbito originário seria desnecessariamente arriscada.
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Se tudo aquilo que aparece à vida possui caráter de mundo, então até os supostos fundamentos e irrealidades dos quais a vida factual seria derivada poderiam parecer simplesmente novos conteúdos mundanos, religiosos, artísticos ou mundivisivos.
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A dificuldade radical emerge precisamente porque não se pode simplesmente sair da vida para instalar uma ciência originária fora dela, tornando necessário compreender como, dentro dessa plenitude incessantemente fluente de vida e mundos, poderia abrir-se um domínio acessível somente à investigação científica originária.
