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§3

§ 3. Aspectos históricos e sistemáticos do emprego da palavra “fenomenologia”

§ 3. A história do termo “fenomenologia” evidencia uma pluralidade de sentidos que vai da Fenomenologia do espírito de Hegel às descrições do desenvolvimento da consciência religiosa, à psicologia descritiva de Pfänder e Lipps e às Investigações lógicas de Husserl, mas o sentido fenomenológico decisivo somente emerge quando a descrição psicológica é ultrapassada pelo motivo transcendental e pela problemática radical da objetividade, tornando-se necessário distinguir rigorosamente a realização efetiva das investigações husserlianas das caracterizações ainda inadequadas que o próprio Husserl inicialmente forneceu de seu método e reconhecer a fenomenologia não como escola ortodoxa, mas como comunidade investigativa submetida permanentemente à autocrítica e à refundamentação.

  • Os motivos autênticos das orientações filosóficas contemporâneas, frequentemente encobertos pelos próprios sistemas em que aparecem, devem encontrar sua posição genuína no desenvolvimento da pesquisa fenomenológica, não porque a fenomenologia seja síntese dessas orientações, mas porque radicaliza a pergunta filosófica e regressa à origem mediante metodologia própria.
  • Esse retorno não significa uma Aufhebung hegeliana no mesmo sentido de Hegel, embora a fenomenologia possa acolher motivos anteriores depois de reconduzi-los a maior autenticidade.
  • A própria fenomenologia precisa permanecer continuamente submetida à investigação fenomenológica e a uma fundamentação renovada, impedindo que sua denominação se transforme em garantia doutrinária.
  • O título Fenomenologia do espírito, de 1807, torna célebre a palavra “fenomenologia”; a relação entre a fenomenologia hegeliana e a moderna é simultaneamente grande e pequena, conforme o nível em que ambas forem compreendidas.
  • Em Hegel, o movimento do espírito é concebido como autodesenvolvimento que nada recebe exteriormente, e suas tendências finais podem tornar-se mais inteligíveis quando vistas desde problemas abertos pela fenomenologia moderna.
  • Na teologia protestante do final do século XIX, “fenomenologia” aparece na descrição do desenvolvimento imanente e histórico-transcendente da consciência religiosa, com destaque crescente para a função descritiva.
  • Max Reischle aproxima o termo da psicologia da consciência religiosa e da descrição dos fenômenos religiosos.
  • Em 1900, Alexander Pfänder emprega “fenomenologia” no título Fenomenologia da vontade, contrapondo a descrição do querer à psicologia explicativa que constrói hipoteticamente processos psíquicos.
  • A orientação de Pfänder procura estabelecer o querer em sua constituição factual sem teorias previamente formadas acerca do psíquico, evitando decompô-lo segundo métodos pressupostos em elementos últimos.
  • Sua metodologia permanece subjetiva e introspectiva, dirigida ao sujeito e ao si-mesmo, não aos objetos, processos fisiológicos ou vias cerebrais.
  • Theodor Lipps utiliza “fenomenológico” e “fenomenologia” em sentido semelhante, como descrição de ocorrências psíquicas em contraposição à explicação por processos causalmente construídos.
  • Quase simultaneamente, Husserl utiliza a mesma palavra no subtítulo do segundo volume das Investigações lógicas, publicado em 1901, mas sob o mesmo termo começa a operar uma problemática essencialmente diferente.
  • A própria introdução de Husserl ao segundo volume poderia sugerir que fenomenologia e método fenomenológico fossem apenas psicologia descritiva, motivo pelo qual sua descoberta permaneceu inicialmente parcialmente encoberta sob hábitos conceituais anteriores.
  • As Investigações lógicas constituem um primeiro Durchbruch (irrupção, ruptura decisiva) e, como todo primeiro avanço de uma investigação genuína, carregam consigo resíduos de modos anteriores de pensar que ainda não foram completamente separados.
  • A criação efetiva de um novo método pode preceder sua autocompreensão reflexiva completa; viver e trabalhar autenticamente numa nova direção investigativa não equivale a compreender imediatamente todos os motivos que a impulsionam.
  • Por isso, Husserl pôde caracterizar inicialmente sua metodologia como psicologia descritiva em oposição à psicologia genético-explicativa, embora no mesmo contexto apareçam afirmações que apontam para uma direção não psicológica.
  • O objetivo de fornecer compreensão descritiva das vivências psíquicas para fixar significações dos conceitos fundamentais da lógica aproxima a descrição de uma problemática epistemológica e transcendental.
  • A pergunta decisiva surge do fato de que objetos se dão numa multiplicidade de vivências do mundo circundante e de que é necessário compreender o que significa o objeto ser “em si” e simultaneamente “dado” no conhecimento.
  • A descrição passa, assim, a servir objetivos sistemático-lógicos e a problemática move-se para o transcendental, onde se encontra a função propriamente fecunda e mobilizadora das tendências fenomenológicas para a pesquisa científica.
  • O decisivo não está simplesmente em descrever conteúdos objetivos particulares, mas em esclarecer o princípio da objetividade enquanto tal.
  • As investigações efetivamente realizadas no segundo volume mostram que a autocaracterização husserliana de seu método como psicologia descritiva era insuficiente, insuficiência que o próprio Husserl reconhece e corrige já em 1903.
  • Os mal-entendidos posteriores persistem porque as Investigações lógicas são frequentemente apenas “lidas” em vez de metodicamente trabalhadas até seus motivos últimos.
  • A escola de Lipps interpreta imediatamente a obra como psicologia descritiva, aproximando-se da fenomenologia sem captar suas tendências propriamente transcendentais.
  • A filosofia empirista-psicologista e a filosofia idealista contemporâneas permanecem largamente incapazes de compreender a ideia fenomenológica; muitos recebem apenas o primeiro volume e sua crítica ao psicologismo.
  • A crítica ao psicologismo não constitui fim em si mesma, mas abre uma problemática positiva cuja amplitude somente pode ser compreendida a partir dos métodos e perspectivas do segundo volume.
  • Lask é destacado por ter compreendido o alcance positivo da ideia de mathesis universalis presente nesse contexto.
  • Para psicólogos, o segundo volume parecia mera psicologia e até uma psicologia escolástica; para kantianos, a linguagem de vivências, atos e intencionalidade fazia a obra parecer igualmente psicológica.
  • Em Rickert, a influência do primeiro volume convive com a identificação da fenomenologia à psicologia, e a expressão “psicologia transcendental” revela uma confusão principial.
  • Em Filosofia como ciência rigorosa, de 1910, Husserl apresenta de maneira mais principial as tendências próprias e últimas da filosofia fenomenológica, permitindo reunir os diversos inícios metodológicos e investigações particulares numa unidade científico-sistemática.
  • A partir de 1913, o Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung consolida uma comunidade de pesquisa, começando com Ideias para uma fenomenologia pura e uma filosofia fenomenológica, em que aquilo que antes fora apenas indicado recebe fundamentação investigativa rigorosa.
  • A tensão entre Husserl e setores da fenomenologia de Munique acerca das Ideias é muito mais principial do que uma divergência local e pode determinar profundamente o desenvolvimento futuro da problemática.
  • Essa tensão possui valor científico precisamente porque uma comunidade autêntica de pesquisadores deve suportar confrontações efetivas e recusar nivelamentos artificiais.
  • A dificuldade das investigações fenomenológicas exige estudo rigoroso, não simples leitura, e torna particularmente inadequada a pressa de fechar sistemas filosóficos antes de trabalhar cientificamente os problemas.
  • Não existe uma fenomenologia ortodoxa nem obrigação escolar; o decisivo é o trabalho investigativo genuíno, não diletante e constantemente submetido à força das próprias questões.
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