§7
§ 7. A physis enquanto junção essencial (harmonia) de surgimento e declínio (encobrimento) na propiciação recíproca de sua essência. Referência ao Mesmo no surgimento e no declínio. Fragmentos 54, 8 e 55
A physis deve ser pensada como a junção essencial em que surgimento e encobrimento não se acrescentam posteriormente um ao outro, mas se propiciam reciprocamente em sua própria essência, de modo que o surgimento favorece o encobrimento e este, ao abrigá-lo, garante-lhe sua emergência, constituindo uma harmonia originária na qual o Mesmo vigora tanto no surgir quanto no declinar sem que ambos sejam simplesmente identificados ou reduzidos a contrários lógicos.
a) O inaparente da junção da physis é o próprio de sua abertura. O vigor originariamente nobre do puro surgimento
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O fragmento 54 afirma que a harmonia inaparente é mais vigorosa ou mais nobre do que aquela que aparece, deixando entrever que a junção essencial da physis não se oferece imediatamente à percepção sensível.
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Physis não é inaparente no sentido de uma realidade suprassensível escondida atrás daquilo que aparece, pois ela própria é o surgir que abre o aparecimento e nele deixa o ente vir à presença.
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O aparecer necessita de um âmbito aberto no qual possa mostrar-se, e esse aberto não deve ser confundido com um objeto adicional ou com um espaço simplesmente disponível diante dos olhos.
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A luz pode iluminar aquilo que aparece e permanecer, ela mesma, relativamente despercebida enquanto a atenção se dirige aos entes iluminados.
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A técnica moderna torna a luz artificial tão habitual e manipulável que seu próprio aparecer tende a desaparecer diante da função de iluminar objetos produzidos e consumidos.
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O exemplo da luz indica apenas provisoriamente que aquilo que permite o aparecimento pode permanecer inaparente precisamente porque deixa o outro aparecer.
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A physis, porém, não é meramente invisível, pois o invisível ainda pertence à oposição entre visível e não-visível, enquanto o surgimento originário precede essa distinção.
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Espaço e tempo oferecem exemplos de algo continuamente experimentado sem aparecer como objeto entre outros, mas tais exemplos permanecem apenas aproximações daquilo que deve ser pensado em physis.
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O inaparente da physis não constitui deficiência de manifestação, mas pertence à sua nobreza própria, pois o surgimento se abre precisamente deixando aparecer aquilo que surge.
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O surgimento não necessita apresentar-se como um ente separado para vigorar; ele se mantém naquilo que deixa emergir.
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A junção inaparente é mais nobre porque não depende de uma apresentação exterior que a torne objeto diante de um observador.
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O nobre não deve ser compreendido socialmente ou moralmente, mas como aquilo que possui uma capacidade mais originária de sustentar e garantir o aparecer.
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A nobreza da physis reside em proporcionar ao surgimento sua própria abertura e simultaneamente conservar o encobrimento como aquilo que o abriga.
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Se o surgimento repousasse somente em si mesmo sem referência ao encobrimento, poderia parecer que a physis se reduziria a uma presença incessantemente exposta, mas a sentença heraclítica exige pensar exatamente o contrário.
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A physis mostra-se como abertura precisamente porque favorece o encobrimento e recebe dele a garantia de sua própria emergência.
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A junção que reúne surgimento e encobrimento permanece, por isso, inaparente e mais vigorosa do que qualquer junção explicitamente apresentada.
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O fragmento 54 prepara a compreensão de que a essência da harmonia não está numa conciliação visível de elementos, mas na união originária que permite a cada um permanecer em sua diferença.
b) A tensão dos contrários como momento essencial da junção. Sobre a dificuldade de pensar a tendência contrária numa unidade com a junção: a diferença entre o pensamento comum e o essencial. A junção da physis e os sinais de Ártemis — arco e lira. Referência ao fragmento 8
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A junção da physis não significa paz indiferenciada nem supressão das diferenças, mas preserva a tensão na qual surgimento e encobrimento se dirigem um para o outro sem perder sua oposição.
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O surgimento se oferece ao encobrimento e o encobrimento ao surgimento, constituindo uma propiciação recíproca que não elimina a diferença entre ambos.
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A palavra grega harmonia remete a juntar, ajustar e encaixar, sugerindo uma reunião em que elementos diferentes permanecem unidos precisamente porque não perdem sua tensão própria.
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O favor anteriormente pensado como philia mostra-se agora como relação pela qual cada termo propicia ao outro aquilo de que necessita para vigorar segundo sua essência.
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O contrário que se orienta contra outro não deve ser compreendido imediatamente segundo a lógica da exclusão, pois pode pertencer a uma reunião mais originária.
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A expressão to antixoun indica aquilo que se move contra, arrasta em direção oposta e, justamente por isso, participa da tensão que constitui a junção.
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No fragmento 8, aquilo que se contrapõe é simultaneamente aquilo que se compõe e, daquilo que diverge, emerge a mais bela harmonia.
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A composição não significa empilhar elementos estranhos uns sobre os outros, mas deixar que aquilo que se contrapõe pertença conjuntamente a uma mesma unidade.
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O com-portar indica que cada termo traz consigo o outro e o suporta na própria unidade essencial.
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Pensar surgimento e declínio originariamente exige que se abandone a representação de dois processos externos que posteriormente seriam conectados por uma terceira relação.
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O surgimento é aquilo que é já em sua referência ao encobrimento, e o encobrimento só vigora como aquilo que recolhe e abriga o surgimento.
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A opinião comum tende a representar primeiro as partes e depois procurar uma ligação entre elas, enquanto o pensamento essencial precisa começar pela unidade de sua co-pertença.
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O pensamento comum compreende o contrário apenas como aquilo que precisa ser eliminado, vencido ou reconciliado posteriormente.
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O pensamento essencial procura, ao contrário, reconhecer de que modo a oposição pode pertencer constitutivamente à própria unidade.
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A diferença entre pensamento comum e pensamento essencial não consiste numa diferença psicológica entre pessoas inteligentes e menos inteligentes, mas no modo de relação com aquilo que deve ser pensado.
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O pensamento comum permanece naquilo que imediatamente se oferece e procura assegurar-se mediante representações usuais, enquanto o essencial permanece aberto ao que nelas não se deixa esgotar.
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A dificuldade de Heráclito não reside numa intenção de confundir, mas na distância entre a palavra originária e o modo habitual de representar.
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A incompreensão diante do fragmento não deve ser tratada como incapacidade individual, pois pertence ao próprio afastamento histórico entre o pensamento originário e as formas posteriores de pensar.
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Os fragmentos heraclíticos sobre os contrários tornam-se facilmente “psicológicos” quando interpretados como descrição do comportamento pessoal do filósofo diante do público.
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A afirmação segundo a qual “os asnos prefeririam palha ao ouro” não constitui mera expressão de desprezo pessoal pelas massas, mas pertence à diferença entre aquilo que se oferece ao entendimento ordinário e aquilo que somente se deixa experimentar em outra relação com o ser.
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A oposição entre pensamento originário e opinião comum não deve ser convertida numa psicologia da personalidade de Heráclito nem numa doutrina elitista sobre pessoas superiores.
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A diferença pertence à própria relação entre pensamento e ser, isto é, ao modo como um pensar se abre ou permanece fechado ao que exige ser pensado.
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A dureza das palavras de Heráclito contra a incompreensão não deve ser isolada como traço temperamental, porque se encontra fundada na questão pela relação entre o pensamento e aquilo que sustenta sua origem.
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O fragmento 51 oferece uma imagem decisiva ao falar da harmonia de tensão contrária como a do arco e da lira.
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O arco e a lira são sinais ligados a Ártemis e ao âmbito anteriormente associado ao pensamento de Heráclito, permitindo pensar a junção mediante uma tensão que não destrói aquilo que une.
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A corda do arco somente possui sua força quando é tensionada em direções opostas, e essa oposição não é defeito, mas condição daquilo que o arco é capaz de realizar.
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Do mesmo modo, a lira somente produz consonância porque suas cordas se encontram tensionadas, tornando audível uma harmonia fundada na diferença.
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A harmonia não resulta, portanto, da eliminação da tensão, mas da preservação apropriada daquilo que tende em direções contrárias.
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A palintropos harmonia não significa simplesmente uma harmonia que retorna sobre si mesma, mas uma junção cuja essência se realiza no voltar-se em sentido contrário.
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A tensão é o próprio modo de vigorar da junção, e não algo exterior que precisasse posteriormente ser superado.
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O arco e a lira mostram que uma unidade essencial pode existir justamente porque há tendências contrárias que permanecem em relação.
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A proximidade de Ártemis, arco e lira reforça a experiência de physis como emergência que se mantém no jogo entre abertura e retraimento.
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Surgimento e encobrimento pertencem à mesma junção, assim como a tensão do arco pertence simultaneamente às duas direções que mantém unidas.
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O surgimento não abandona o encobrimento ao surgir, nem o encobrimento elimina o surgimento ao recolhê-lo.
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A physis é, assim, a própria relação em que ambos se propiciam e se preservam, sem que seja necessário imaginar uma terceira entidade que os reúna.
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O Mesmo que vigora em surgimento e declínio não significa identidade uniforme, mas uma pertença originária pela qual ambos recebem sua essência dentro da mesma junção.
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O “nunca declinar” do fragmento 16 não significa, portanto, ausência absoluta de declínio, pois o surgimento incessante somente pode vigorar enquanto favorece e mantém em sua essência o encobrir-se.
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O declínio não contradiz o surgimento quando é pensado como recolhimento pertencente à própria emergência.
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A sentença “o surgimento favorece o encobrimento” ganha assim um sentido mais determinado: o favorecimento é a junção que permite ao surgimento permanecer surgimento precisamente por não excluir aquilo que o recolhe.
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O surgimento incessante não é permanência imóvel nem mera continuidade temporal, mas vigência que permanece no jogo essencial de aparecer e recolher-se.
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A tentativa de separar surgimento e declínio transforma a junção originária numa oposição artificial e perde aquilo que Heráclito deixa aparecer como harmonia.
c) A incompetência da lógica (dialética) diante da junção pensada na physis. O significado ambíguo da physis e o “privilégio” questionável do surgimento
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Se surgimento e declínio pertencem originariamente ao Mesmo, torna-se necessário perguntar por que o pensamento continua privilegiando a palavra physis, cujo significado parece indicar sobretudo surgimento e emergência.
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A formulação to me dynon pote, “aquilo que a cada vez já não declina”, parece inicialmente conceder ao surgimento uma primazia sobre o declínio.
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Essa aparência pode conduzir à interpretação segundo a qual surgimento seria positivo e declínio negativo, preservando-se assim uma hierarquia metafísica entre presença e ausência.
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Tal interpretação ainda obedece à lógica posterior da posição e da negação, em que o positivo é tomado como primeiro e o negativo como derivado.
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A possibilidade de declinar não é mero acréscimo que sobrevém posteriormente àquilo que surgiu, porque o declínio pertence constitutivamente ao modo de ser do surgimento.
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O sol somente pode declinar porque surgiu, mas isso não significa que declínio seja ontologicamente menos originário do que surgimento.
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O surgimento possui, contudo, uma prioridade verbal na palavra physis, e essa prioridade precisa ser interrogada em vez de simplesmente negada.
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A lógica ordinária tende a organizar surgimento e declínio segundo a oposição afirmativo-negativo e, em seguida, subordiná-los a uma ordem hierárquica.
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Essa hierarquia não pode ser tomada como descrição originária da relação, pois pressupõe previamente que o ser seja compreendido segundo presença positiva.
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A pergunta pela competência da lógica não significa que se possa simplesmente dispensar toda coerência, mas que a própria lógica possui limites históricos determinados pela maneira como compreende ser, ente, posição e negação.
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A lógica somente pode operar quando seus elementos e suas relações já foram previamente estabelecidos, não sendo capaz de fundar a abertura originária dentro da qual algo pode aparecer como positivo ou negativo.
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A exigência de obedecer à lógica pode converter-se numa aparência de rigor quando suas pressuposições permanecem inquestionadas.
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Não basta dizer que o surgimento é positivo e o declínio negativo, pois essa classificação já decidiu aquilo que precisamente deveria ser interrogado.
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Se o positivo e o negativo são tomados como determinações fundamentais, permanece ainda sem resposta por que a emergência deve receber prioridade sobre a retração.
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A insuficiência da lógica aparece justamente diante da relação entre physis e kryptesthai, porque aquilo que surge favorece precisamente o encobrimento que parece negar sua emergência.
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A dialética poderia responder que os opostos pertencem a uma unidade superior e que a contradição constitui o motor de seu movimento, mas essa resposta permanece condicionada pela história metafísica da oposição e da negação.
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Interpretar physis e kryptesthai dialeticamente significaria pressupor que ambos já foram corretamente compreendidos como contrários antes de investigar a relação originária que os constitui.
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A relação entre surgimento e encobrimento pode ser mais originária do que a própria oposição lógica entre positivo e negativo.
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A palavra physis possui uma ambiguidade essencial porque nomeia surgimento e, ao mesmo tempo, aquilo cuja essência somente vigora em junção com o encobrimento.
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Essa ambiguidade não constitui imprecisão linguística, mas pode corresponder à própria riqueza do fenômeno nomeado.
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O privilégio do surgimento talvez decorra do fato de que somente aquilo que emerge pode vir à presença como ente e, portanto, tornar possível a experiência de algo que é.
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O surgimento “predomina” na medida em que permite aos entes entrar no aberto e aparecer, mas esse predomínio não significa domínio exclusivo sobre o encobrimento.
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A emergência somente pode mostrar-se porque algo permanece resguardado no retraimento, e aquilo que aparece não esgota a fonte de sua própria manifestação.
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Perguntar por que antes há ente e não nada já pressupõe a primazia do ente e da presença, enquanto a relação originária entre surgimento e encobrimento pode exigir uma pergunta ainda mais primordial.
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A questão do privilégio do ser sobre o não-ser tampouco pode ser simplesmente tomada como fundamento do privilégio do surgimento, pois isso reconduziria imediatamente o problema ao horizonte metafísico posterior.
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A tentativa de fundamentar o surgimento a partir de uma pergunta sobre o ente já deixa para trás aquilo que o pensamento originário procura experimentar em physis.
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Physis precisa ser pensada a partir de sua própria junção com kryptesthai, não a partir de uma teoria posterior da presença e ausência.
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O favorecimento recíproco entre surgimento e encobrimento mostra que nenhum deles pode ser reduzido a mera função do outro.
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Se o surgimento possui uma prioridade, essa prioridade somente pode ser compreendida dentro da junção na qual ele já pertence ao encobrimento e por ele é resguardado.
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A questão do “nunca declinar” continua, portanto, aberta: não se trata de negar o declínio, mas de compreender como aquilo que incessantemente surge pode permanecer originariamente unido ao recolhimento.
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O pensamento precisa resistir tanto à solução lógica quanto à dialética enquanto ainda não tiver esclarecido a essência do surgir e do encobrir-se.
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A physis permanece uma palavra fundamental precisamente porque nela se deixa entrever uma unidade na qual abertura e retraimento, aparecimento e encobrimento, surgimento e declínio ainda não foram separados em categorias metafísicas independentes.
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O caminho prossegue, assim, não pela escolha de um dos polos, mas pela investigação do Mesmo que concede a surgimento e declínio sua pertença recíproca e sua diferença essencial.
