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obra:ga54:7

§7

§ 7. A última saga da Grécia sobre a essência contrária da aletheia, a Lethe (II). O mito final da Politéia de Platão. O campo da Lethe

a) A localidade do extra-ordinário: o campo do encobrimento que se retrai. A exclusividade do extra-ordinário no lugar da Lethe. A visão de seu vazio e o nada do retraimento. A água sem recipiente do rio “Sem-cuidado” no campo da Lethe. A salvação do desencoberto pelo pensamento que pensa e a porção do pensador

A última saga grega acerca da essência contrária da aletheia concentra-se no campo da Lethe como lugar extremo do daimonios topos, localidade extra-ordinária na qual o retraimento e o encobrimento alcançam sua forma mais pura, de modo que a aridez absoluta do campo, o rio Ameles cuja água nenhum recipiente contém e a necessidade de cada viajante beber uma porção dessa água mostram que o desencobrimento somente pode vigorar em co-pertença com uma medida de encobrimento, enquanto a salvação do homem depende da phronesis, da visão da essência que preserva o descoberto contra sua retirada e constitui o cuidado originário do pensamento pelo ser.

  • A localidade percorrida no mythos final da Politéia não está simplesmente na terra nem no céu, mas reúne aquilo que remete tanto ao subterrâneo quanto ao sobreterrâneo, regiões em que o extra-ordinário aparece e desaparece e que pertencem ao domínio dos deuses.
  • Os viajantes provenientes dessas regiões atravessam o daimonios topos segundo lugares, estados e tempos determinados antes de começarem novamente um percurso mortal sobre a terra.
  • O último lugar dessa localidade é to tes Lethes pedion, o campo do encobrimento que se retrai, no qual toda a viagem encontra sua concentração extrema e no qual o caráter daimonios da localidade vigora em grau máximo.
  • O caminho pelo campo da Lethe atravessa calor devorador e ar sufocante, e o próprio campo é inteiramente desprovido de árvores, vegetação e de tudo aquilo que a terra faz brotar.
  • A esterilidade do campo exprime uma oposição essencial entre Lethe e physis, pois o encobrimento que se retrai não permite surgir, crescer ou desabrochar aquilo que, pela physis, emergiria no descoberto.
  • Traduzir physis simplesmente por “natureza” e Lethe simplesmente por “esquecimento” torna incompreensível essa oposição, enquanto seu sentido grego manifesta a luta entre emergência para o descoberto e retraimento no encobrimento.
  • O campo da Lethe bloqueia o descobrimento do ente e faz desaparecer tudo aquilo que poderia apresentar-se como ordinário, mas sua singularidade não consiste numa quantidade extrema de coisas ocultadas, e sim na vigência do próprio retraimento.
  • A ausência daquilo que se retrai não constitui um nada indiferente, pois justamente o fazer desaparecer é aquilo que permanece presente e vigente no campo.
  • O vazio do campo é, portanto, o nada próprio do retraimento: não há nele qualquer ente ordinário, e exatamente esse vazio constitui a visão que domina e “preenche” a localidade.
  • O campo da Lethe é, assim, o lugar no qual o extra-ordinário vigora exclusivamente, razão pela qual seu caráter daimonios alcança ali uma forma excepcional.
  • Se alguma coisa pode aparecer nesse campo, ela precisa corresponder essencialmente ao próprio retraimento, e a única coisa encontrada pelos viajantes é o rio Ameles, o “Sem-cuidado”.
  • O nome Ameles exprime que esse rio não se ocupa de preservar nada contra o desaparecimento e o descaminho, mas serve integralmente à essência da Lethe.
  • A água do “Sem-cuidado” não pode ser retida por nenhum recipiente, porque ela própria pertence ao puro esvair-se e não conhece melete tes aletheias, o cuidado pelo desencobrimento e pela permanência do ente no descoberto.
  • O “cuidado” não significa preocupação psicológica, melancolia ou inquietude subjetiva, mas cuidado para que o ente seja conservado em seu desencobrimento, pertencendo assim ao acontecimento conjunto de descobrir e encobrir.
  • O “descuido” correspondente tampouco é negligência ocasional do homem, mas o não cuidar da verdade sob a regência da Lethe, sendo nesse sentido também uma determinação do daimonion.
  • A água do Ameles concentra-se inteiramente no retraimento que faz tudo esvair-se, não admitindo qualquer contenção capaz de deter seu desaparecer.
  • Todo aquele que deve retornar para uma nova viagem mortal necessita beber dessa água, mas apenas segundo uma determinada medida.
  • A necessidade de beber mostra que nenhum homem entra na existência terrestre completamente separado do encobrimento, pois traz consigo uma co-pertença originária ao domínio da Lethe.
  • O ente pode mostrar-se ao homem somente porque, simultaneamente, permanece possível sua retirada no encobrimento; desencobrimento e retraimento pertencem, portanto, à mesma estrutura essencial da relação humana com os entes.
  • Aqueles que não são salvos pela phronesis bebem além da medida, deixando o encobrimento dominar de modo desmedido sua relação com aquilo que é.
  • Phronesis significa nesse contexto a percepção capaz de ver para dentro daquilo que propriamente constitui o visível e o desencoberto, isto é, uma visão da essência.
  • Essa percepção possui o sentido originário da philosophia, entendida como ter a visão voltada para o essencial e não como simples disciplina ou ocupação erudita com conceitos.
  • Aquele que vê dessa maneira é salvo porque permanece preservado na relação entre ser e homem, tornando-se simultaneamente preservador do que aparece.
  • Sozein, salvar, significa conservar os fenômenos, isto é, resguardar no desencobrimento aquilo que se mostra tal como se mostra e protegê-lo contra a retirada deformadora do encobrimento.
  • Aquele a quem falta essa visão é aneû philosophias, sem filosofia, porque se entrega ao que aparece e desaparece a cada instante sem preservar o ente em seu descobrimento.
  • Os desprovidos de pensamento bebem além da medida das águas do “Sem-cuidado”, tornando-se aqueles que preferem a ausência de reflexão e se furtam ao apelo do pensamento.
  • A referência à proclamação segundo a qual os alemães já não necessitariam de “pensadores e poetas”, mas de “trigo e óleo”, exemplifica historicamente essa satisfação com o abandono do cuidado essencial pelo pensamento.
  • Filosofia é primordialmente cuidado do ser porque consiste em ser interpelado pelo apelo do próprio ser, e não em possuir cultura, erudição ou conhecimento historiográfico das doutrinas filosóficas.
  • É possível conhecer extensamente opiniões e sistemas filosóficos sem jamais filosofar, assim como é possível ser tocado pelo apelo do ser sem ainda encontrar um pensamento capaz de corresponder-lhe.
  • O pensar que pensa exige saber reflexivo e cuidado extremo com a palavra, ultrapassando a mera exatidão científica porque sua tarefa consiste em salvar o desencoberto contra o retraimento que ameaça ocultá-lo.
  • O pensador também precisa ter bebido da água da Lethe, porém na medida devida, porque sua visão da essência não está simplesmente garantida e permanece sempre ameaçada pela possibilidade de se enganar no próprio ver.

Recapitulação

1) Campo e Lethe. O que, entre os gregos, pertence ao deus: o extra-ordinário no ordinário. O theion na aletheia do princípio e na Lethe. Aletheia e thea em Parmênides

  • Na consumação da história essencial grega, a saga da essência contrária da aletheia chega novamente à palavra no mythos platônico da Lethe, cuja culminação não consiste simplesmente em mencionar o esquecimento, mas em dizer o “campo da Lethe”.
  • A expressão to tes Lethes pedion permite pensar diferentes relações entre o campo e a Lethe, desde um campo no qual o encobrimento ocorre até uma localidade cuja própria essência é constituída pelo retraimento.
  • No sentido mais originário, Lethe não se encontra apenas num campo: ela própria é o campo enquanto localidade em que o retraimento se abre como lugar para tudo aquilo que lhe pertence.
  • O campo da Lethe integra-se com outros lugares formando o daimonios topos, mas nele o caráter extra-ordinário dessa localidade alcança sua concentração extrema.
  • A elucidação do daimonion remete necessariamente ao theion e, assim, à essência dos deuses gregos, embora essa compreensão não permita transformar sua distância histórica numa pretensa proximidade imediata.
  • Enquanto a essência da aletheia permanecer encoberta, também permanecerá inacessível uma experiência adequada da distância dos deuses gregos como acontecimento pertencente à própria história ocidental.
  • A aproximação meramente literária, erudita ou histórico-religiosa não restitui o âmbito grego dos deuses, ainda que a palavra seja necessariamente o caminho pelo qual sua distância precisa ser pensada.
  • A obra de Walter F. Otto sobre os deuses gregos ultrapassa a simples literatura histórico-religiosa, mas ainda não realiza a passagem decisiva ao âmbito originário da aletheia.
  • Para os gregos, o divino funda-se diretamente no extra-ordinário que brilha através do ordinário, não sendo necessário produzir acontecimentos gigantescos ou excepcionais para despertar uma experiência da divindade.
  • A interpretação nietzschiana do dionisíaco permanece questionável na medida em que pode projetar sobre a experiência grega o biologismo característico do século XIX.
  • A experiência grega é determinada pela claridade simples do ser, na qual cada ente pode permanecer no brilho e simultaneamente afundar-se na escuridão.
  • Tudo aquilo que pertence ao aparecer do ser possui já caráter extra-ordinário, de modo que o divino não precisa ser posteriormente acrescentado ao ser nem demonstrado como entidade suplementar.
  • Como aletheia e sua essência contrária, Lethe, pertencem originariamente ao próprio ser, ambas possuem caráter theion e, nesse sentido, divino.
  • A determinação platônica da Lethe como daimonion torna compreensível que Parmênides possa apresentar a própria Aletheia como thea, deusa, pois desencobrimento e divindade pertencem à mesma experiência originária do ser.
  • O campo da Lethe encontra-se no “lá” como passagem final imediatamente anterior ao retorno para o “aqui”, e sua esterilidade mostra que nenhuma emergência própria da physis pode vigorar nele.

b) A medida do encobrimento retrativo do desencobrimento. O perfil da idea de Platão e a fundação da anamnesis, assim como do esquecimento, no desencobrimento. Lethe: pedion. A percepção do início da poesia de Homero e da sentença de Parmênides. A impossibilidade de esquecer a aletheia pelo retraimento da Lethe. A suspensão da experiência pelo procedimento desde Platão, techne. Referência a Homero, Ilíada XXIII, 358 e seguintes

  • Aquele que bebe continuamente e sem medida da água do Ameles cai num encobrimento total de sua relação com os entes e consigo mesmo, condição incompatível com a existência propriamente humana sobre a terra.
  • Se todo ente permanecesse inteiramente encoberto, não haveria qualquer descoberto com o qual o homem pudesse relacionar-se nem seria possível a palavra como mythos ou logos.
  • O esquecimento absoluto não pode constituir fundamento para a essência humana porque suprime todo descobrimento e, consequentemente, destrói a possibilidade do próprio desencobrimento.
  • A existência do desencobrimento requer, portanto, uma medida de retraimento: Lethe precisa vigorar no interior da aletheia sem suprimi-la inteiramente.
  • Lethe reina no desencobrimento precisamente como o encobrimento que faz retrair e impede a emergência, mas que, mantido na medida apropriada, oferece ao descobrimento o fundo contra o qual este pode vigorar.
  • Como o homem provém dessa localidade extra-ordinária do retraimento e Lethe pertence à essência da aletheia, desencobrimento não pode significar simples eliminação absoluta de todo encobrimento.
  • O alfa privativo de a-letheia não designa uma negação indiferenciada, mas a suspensão do encobrimento mediante preservação e retenção do desencoberto contra sua retirada.
  • O descoberto precisa ser continuamente conservado, pois somente nessa preservação pode permanecer no desencobrimento.
  • Essa conservação acontece quando o homem se empenha livremente em manter aquilo que se descobriu ao longo de sua viagem mortal.
  • Mnaomai designa esse empenho de manter-se junto de algo, enquanto ana exprime continuidade ao longo de um percurso, permitindo compreender anamnesis como preservação contínua e límpida do que foi pensado na direção do desencobrimento.
  • Para Platão, aquilo que vem ao desencobrimento apresenta-se numa visão, desabrochando segundo seu perfil ou fisionomia, denominado eidos.
  • Eidos é o perfil no qual uma coisa vigora descoberta como aquilo que é, enquanto idea diz a vista ou feição com que a coisa aparece e encara o homem.
  • Na determinação platônica, o desencobrimento acontece propriamente como idea e eidos, nos quais o ente recebe a configuração em que vigora como presente.
  • Idea é, assim, a vigência do vigente e corresponde ao ser do ente enquanto aquilo que se apresenta numa determinada feição.
  • Porque aletheia exige a suspensão de Lethe, a relação humana com o ente somente se mantém quando o homem pensa e conserva idea e eidos, resguardando o ente contra seu retorno ao encobrimento.
  • Anamnesis designa, nesse contexto, a referência preservadora ao ser do ente e não pode ser adequadamente reduzida à “lembrança” ou “recordação” psicológica.
  • A tradução psicológica de anamnesis faz parecer que alguma representação anteriormente esquecida retorna à consciência, perdendo a referência originária ao desencobrimento.
  • Assim como o esquecer grego é acontecimento no qual o ente se retira e encobre seu ser, também aquilo que posteriormente se chama lembrar ou recordar encontra seu fundamento no acontecimento do descobrimento.
  • Com Platão começa simultaneamente uma transformação da aletheia em homoiosis e uma transformação correspondente da Lethe e da anamnesis.
  • O encobrimento que originariamente sobrevém como acontecimento de retraimento começa a ser interpretado a partir do comportamento humano de esquecer, enquanto sua contraposição transforma-se progressivamente numa atividade humana de recuperação e recordação.
  • Interpretar anamnesis e epilanthanesthai apenas mediante a subjetividade posterior impede reconhecer os últimos vestígios da experiência grega originária ainda presentes em Platão e Aristóteles.
  • A saga da água do Ameles constitui a última palavra de Er sobre o daimonios topos e leva o mythos ao seu ponto culminante justamente no campo da Lethe.
  • O pensamento que procura a essência volta-se necessariamente para o encobrimento que se retrai porque a própria aletheia está fundada em sua pertença originária à Lethe.
  • Aletheia e Lethe não são extremos mediados por algo exterior, mas co-pertencem imediatamente, razão pela qual sua passagem recíproca acontece como súbita mudança, num instante.
  • Após a meia-noite, tempestade e terremoto irrompem e os viajantes são subitamente lançados do campo da Lethe para uma nova gênese sobre a terra, como estrelas cadentes.
  • Er, porém, é impedido de beber da água do Ameles e por isso pode conservar aquilo que viu e tornar-se mensageiro da experiência do “lá”.
  • O mythos não retira simplesmente alguma verdade previamente pronta do encobrimento, mas fala a partir do âmbito originário no qual desencobrimento e encobrimento constituem uma unidade essencial.
  • Er não sabe por qual caminho retorna ao corpo; sabe apenas que, subitamente, abrindo os olhos pela manhã, encontra-se deitado sobre a pira funerária.
  • O abrir dos olhos, a manhã, a luz, o fogo, a pira e o brilho da idea pertencem ao mesmo campo de significações do aparecer e do desencobrimento, não podendo ser reduzidos a ornamentos metafóricos da narrativa.
  • Sócrates conclui afirmando que a própria saga foi salva e não se perdeu e que também poderá salvar aqueles que a obedecerem, possibilitando-lhes atravessar adequadamente o rio do campo da Lethe sem profanar a psyche.
  • Sozein, salvar, reaparece como determinação fundamental porque o próprio mythos precisa ser preservado do encobrimento cuja essência é aquilo que narra.
  • A referência final ao rio “que corre no campo da Lethe” impede identificar Lethe com o próprio rio, interpretação superficial surgida já na Antiguidade.
  • Lethe não é um “rio Lethe” nem é simbolizada pelo rio; é pedion, campo e essência da localidade na qual o retraimento vigora.
  • O rio constitui a única coisa capaz de atravessar e preencher o vazio desse campo porque sua água, inapreensível por qualquer recipiente, corresponde inteiramente à essência retirante da localidade.
  • A água precisa ser bebida, e não apenas atravessada externamente, porque o encobrimento deve penetrar no próprio homem e determinar internamente sua relação futura com o desencobrimento.
  • A travessia correta do campo consiste em receber a porção destinada de encobrimento, pois a existência histórica do homem depende da medida segundo a qual se relaciona com Lethe.
  • A essência humana somente se salva quando o homem escuta a saga do encobrimento e corresponde às exigências que o descobrimento do desencoberto dirige à sua essência.
  • A compreensão do daimonion da Lethe torna possível reconhecer a significação originária de Mnemosyne, mãe das Musas, como preservação do ser e condição essencial do poetar.
  • Mnemosyne não é simples faculdade psicológica de memória, mas preservação originária que salva o desencoberto contra o retraimento e torna possível a palavra poética.
  • A co-pertença entre ser e desencobrimento, desencobrimento e salvação, salvação e preservação, ser e palavra, palavra e saga, saga e poesia, poesia e pensamento permite escutar de maneira mais originária as aberturas da Ilíada e da Odisseia.
  • Quando Homero inicia a Ilíada dirigindo o canto à deusa e a Odisseia à Musa, não introduz convencionalmente uma composição poética, mas deixa aparecer que a palavra poética é sentença e canto do próprio ser.
  • O poeta é hermeneus, intérprete da palavra, porque antes de falar já foi chamado e colocado sob o apelo do ser, tornando-se preservador do ser contra o retraimento do encobrimento.
  • Quando Parmênides nomeia Aletheia como deusa no início de sua sentença, não segue uma convenção poética, mas indica a localidade essencial em que o pensador se encontra como pensador: o daimonios topos.
  • O mythos platônico da Lethe constitui a última saga grega acerca da essência contrária encoberta da aletheia e mostra que essa essência contrária, longe de simplesmente negar o desencobrimento, preserva previamente a possibilidade de sua vigência.
  • Lethe não é simples oposição, falta ou negação da aletheia, mas o retraimento a partir do qual a própria essência do desencobrimento pode ser conservada e tornar-se inesquecível.
  • Aquilo que se retira pode despertar de modo mais originário a conservação e a fidelidade do que aquilo que permanece continuamente disponível para ser agarrado.
  • O retraimento é, para a experiência grega, aquilo que afina a essência humana para preservar o desencoberto e permanecer fiel àquilo que se revelou.
  • Platão não “inventa” o mythos da Lethe, porque mythos não é produto imaginativo; a saga é resposta humana ao apelo em que o próprio ser previamente abre os caminhos de uma procura.
  • A época platônica, quatro séculos depois de Homero, já manifesta uma transformação na qual o homem começa a buscar sua familiaridade entre os entes por meio de perspectivas e procedimentos por ele próprio produzidos.
  • A palavra da saga não perde em si mesma sua força, mas a percepção humana torna-se mais dispersa, múltipla e habilidosa, perdendo a capacidade de permanecer junto ao simples que continuamente vigora.
  • Nos últimos tempos da plenitude grega já se anuncia a configuração que posteriormente dominará a modernidade, na qual a exigência de segurança e certeza absoluta determina crescentemente todo comportamento.
  • A segurança moderna converte aquilo que é em objeto disponível para objetivação e controle, fazendo da garantia preventiva da manutenção do mundo e da vida um princípio dominante.
  • Techne e procedimento começam a prevalecer sobre a experiência, transformando o curso aberto das coisas numa passagem previamente canalizada em direção a metas fixadas.
  • O uso crescente de techne no tempo de Sócrates e Platão, ainda que seu significado grego seja diferente do moderno conceito de técnica, já assinala a crescente predominância do procedimento sobre a experiência.
  • O experimento começa a substituir a experiência e, com isso, enfraquece-se a capacidade de ouvir a saga em sua proveniência essencial.
  • A saga de Homero, porém, não emudece, e o mythos platônico permanece um pensamento que acontece no interior da Lethe, não simples reflexão exterior “sobre” ela.
  • Esse dizer preserva o desvelamento originário da Lethe e conduz de volta à palavra contrária já presente em Homero, a aletheia.
  • Na Ilíada XXIII, Aquiles coloca Fênix junto ao ponto de virada da corrida de carros para manter o percurso sob vigilância e proclamar o desencoberto.
  • Memnesthai não deve ser reduzido a “não esquecer” no sentido psicológico, pois significa reter aquilo que se encontra desencoberto e impedir que recaia no encobrimento.
  • A ligação entre memnesthai e aletheia mostra que retenção não é simples registro mental, mas deixar-se prender pelo desencobrimento, permanecer nele e preservar aquilo que se mostra contra sua retirada.
  • Fênix deve manter a corrida no descoberto e dizer aletheian, o desencoberto, tornando patente a co-pertença entre preservação, palavra e verdade.

Recapitulação

2) A proveniência do homem da localidade extra-ordinária do encobrimento que se retrai. O início da transformação na posição fundamental do homem. A regência conjunta da aletheia e de memnemai. Referência a Homero, Ilíada XXIII, 358 e seguintes

  • O mythos conclusivo da Politéia determina o homem que percorre sua viagem mortal entre os entes como proveniente da localidade extra-ordinária do encobrimento que se retrai.
  • Ao retornar à terra, o homem traz consigo como dote uma porção desse encobrimento e precisa conquistar livremente o ente contra a possibilidade contínua de sua retirada.
  • O descoberto somente aparece mediante a suspensão do encobrimento, e justamente por isso o encobrimento trazido do campo da Lethe permanece condição para que possa haver aletheia.
  • O mythos interpreta a necessidade da aletheia e sua relação com Lethe a partir da proveniência e do destino da essência humana, deslocamento que já anuncia uma transformação interna da posição fundamental do pensamento grego.
  • Essa crescente orientação para o comportamento do homem constitui um sinal do início da metafísica e da consumação das possibilidades essenciais da história grega.
  • Lethe começa a deixar de ser experimentada puramente como acontecimento de retraimento enviado pelo ser e passa gradualmente a ser compreendida segundo o comportamento humano posteriormente chamado de “esquecimento”.
  • Se Lethe é originariamente a essência contrária da aletheia e corresponde à perda própria do encobrimento que se retrai, então à aletheia deve corresponder igualmente uma retenção e preservação originárias.
  • Onde vigora aletheia, vigora também a conservação daquilo que é salvo da perda, de modo que desencobrimento e preservação não são acontecimentos independentes.
  • Aletheia e memnemai co-pertencem originariamente: o desencoberto somente permanece desencoberto enquanto é retido e preservado contra sua possível retirada.
  • Essa co-pertença possui a invisibilidade própria da fonte que vigora por si mesma e encontra testemunho na passagem homérica em que Fênix é encarregado por Aquiles de vigiar a corrida e proclamar verbalmente o desencoberto.
  • A proximidade de aletheia e epos nessa passagem testemunha ainda uma vez que desencobrimento e palavra pertencem conjuntamente à experiência grega originária.
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