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2.2

A QUESTÃO ACERCA DA VERDADE — ESSENCIALIDADE DA ESSÊNCIA

§ 17. Meditação histórica sobre a determinação platônico-aristotélica da essencialidade da essência

§ 17. A determinação platônico-aristotélica da essencialidade da essência estabelece o horizonte a partir do qual o pensamento ocidental passou a compreender aquilo que uma coisa propriamente é, articulando a essência como universal, proveniência, ser-o-que-era e subjacente, mas reconduzindo essas determinações ao caráter mais originário do ser-o-que enquanto aquilo que permanece constantemente presente e é visto de antemão como aspecto do ente, isto é, como ideia.

a) As quatro caracterizações da essencialidade da essência em Aristóteles

a) Aristóteles reúne quatro determinações fundamentais da essência — o universal, a proveniência, o ser-o-que-era e o subjacente — que apresentam a essência como aquilo que antecede, fundamenta e torna possível o ente particular em sua determinação, embora nem todas essas caracterizações sejam por ele aceitas no mesmo sentido ou com a mesma dignidade essencial.

  • A essência aparece primeiramente como aquilo que vale universalmente para todos os casos particulares possíveis e efetivos, isto é, como o que pertence ao todo das singularizações e permanece o mesmo através delas.
  • A essência também pode ser apreendida como proveniência, pois é aquilo de que o particular deriva quanto ao que ele é, de modo que as diferentes espécies particulares remetem àquilo de onde recebem sua determinação.
  • Essa proveniência não deve ser compreendida apenas no sentido lógico posterior de gênero classificatório, porque o sentido originário de genos remete ao nascer, à descendência e àquilo a partir do que algo procede.
  • A essência é ainda aquilo que o ente particular, quanto ao que ele é, já “era” antes de tornar-se este particular efetivamente realizado, pois nenhuma mesa determinada poderia vir a ser se aquilo que significa “mesa” não estivesse de algum modo previamente dado.
  • O ser-o-que-era exprime, assim, a precedência essencial daquilo que uma coisa é sobre a realização particular dessa coisa.
  • As três determinações convergem na compreensão da essência como aquilo que já se encontra de antemão à base do particular e que, nesse sentido, possui o caráter de subjacente.
  • Aristóteles apresenta essas quatro determinações como modos segundo os quais a essência “parece” ser dita, indicação de que sua investigação não simplesmente ratifica todas elas, mas precisa decidir quais efetivamente exprimem a essencialidade da essência.

b) A essência como o ser-o-que de um ente. O ser-o-que como ideia: o constantemente presente, aquilo que é visto de antemão, o aspecto

b) O núcleo da determinação platônico-aristotélica da essência não reside simplesmente no caráter universal ou comum aplicável a muitos particulares, mas no ser-o-que do ente enquanto aquilo que permanece constantemente presente em todas as suas variações e é visto antecipadamente como seu aspecto, de modo que a essência é compreendida platonicamente como ideia e aspecto, isto é, como aquilo em cuja visão prévia cada ente particular pode pela primeira vez ser reconhecido como aquilo que é.

  • A caracterização da essência como universal ou comum é insuficiente porque algo não constitui essência por ser comum a muitos particulares; inversamente, pode valer para muitos porque já possui o caráter de essência.
  • A possibilidade de perguntar pela essência de um homem singular demonstra igualmente que a universalidade não pode constituir o elemento propriamente essencial, pois também o único e irrepetível pode ter sua essência.
  • A questão decisiva passa a ser aquilo que permite à essência valer como determinação do particular, e esse elemento encontra-se no ser-o-que do ente.
  • Perguntar pela essência significa perguntar “o que é isto?”, de modo que a essência é aquilo que o ente é enquanto tal.
  • Em Platão, esse “o que” é compreendido como aquilo que permanece constantemente presente através de todas as modificações particulares: uma casa continua sendo casa através das diferenças e transformações de suas determinações particulares.
  • Esse elemento constante encontra-se antecipadamente em vista em todo comportamento cotidiano diante das coisas, embora normalmente não seja tematizado expressamente.
  • Ao entrar em uma casa, portas, escadas, corredores e quartos somente podem ser experimentados e utilizados porque já se encontra previamente em vista aquilo que tudo isso constitui conjuntamente como casa.
  • O visto antecipadamente é a ideia, enquanto o aspecto que o próprio ente oferece a partir de si e segundo o qual pode ser encontrado, reconhecido e tratado como aquilo que é.
  • A ideia não é, nesse sentido grego originário, uma representação subjetiva acrescentada posteriormente às coisas, mas aquilo que se mostra previamente como o ser-o-que do próprio ente.

REPETIÇÃO

1) Quatro caracterizações da essencialidade da essência em Aristóteles. O ser-o-que em Platão: a ideia como o de antemão visto, o aspecto

1) A questão acerca da fundamentação grega da essência da verdade como correção do enunciado exige determinar previamente como os gregos compreenderam a própria essência, encontrando em Aristóteles quatro caracterizações articuladas — universal, proveniência, ser-o-que-era e subjacente — e, em Platão, a determinação decisiva do ser-o-que como ideia, isto é, como o aspecto previamente visto sob o qual o particular pode aparecer e ser compreendido.

  • A essência como universal é aquilo que vale para a totalidade dos casos particulares e possíveis.
  • A essência como proveniência é aquilo a partir do qual cada ente recebe sua determinação e de onde deriva quanto ao que ele é.
  • A essência como ser-o-que-era indica que aquilo que o ente particular é já precisa preceder essencialmente sua realização singular, antecipação que permanecerá atuante posteriormente na determinação do a priori.
  • A essência como subjacente reúne essas determinações enquanto aquilo que permanece previamente à base do particular como seu fundamento.
  • A universalidade é, contudo, apenas uma consequência derivada da essência e não sua determinação mais originária.
  • Aquilo que o ente é deve ser apreendido antes segundo o ser-o-que que permanece previamente em vista em todo comportamento dirigido ao particular.
  • Platão determina esse previamente visto como ideia: o aspecto em cuja visão antecipadora aquilo que vem ao encontro pode aparecer como casa, mesa, escada, quarto ou qualquer outro ente determinado.
  • A ideia constitui, assim, o ser-o-que e, nesse sentido, a própria essência do ente.

2) Para a compreensão da essência vista de antemão

2) A experiência de qualquer ente particular é antecipadamente guiada por uma visão prévia de sua essência, de modo que aquilo que se consegue perceber, interpretar e determinar no particular depende do que já se encontra previamente em vista, como se evidencia no exemplo de Forte Vaux, em que uma expectativa antecipadamente constituída determinou a interpretação correta dos dados visuais e produziu, apesar disso, uma conclusão falsa sobre a situação efetiva.

  • Sem uma visão antecipada daquilo que uma coisa é, permanecer-se-ia cego diante das determinações particulares com que ela aparece aqui e agora.
  • Quanto mais claramente a essência se encontra previamente em vista, tanto mais precisamente podem ser reconhecidas e determinadas as particularidades do ente.
  • Durante as lutas por Forte Vaux, em Verdun, em 1916, uma mensagem segundo a qual um pequeno grupo havia “alcançado” o forte foi interpretada como notícia de que o forte havia sido tomado.
  • A partir dessa interpretação, observadores passaram a ver através de telescópios aquilo que julgavam ser uma bandeira alemã, soldados alemães e pirâmides de fuzis, embora o forte continuasse sob domínio francês.
  • Não se tratava propriamente de uma ilusão óptica, porque os elementos efetivamente vistos eram apreendidos corretamente; a incorreção encontrava-se na visão prévia segundo a qual o forte já estaria tomado.
  • A mensagem inicial foi interpretada para além do que efetivamente afirmava, e essa interpretação constituiu o horizonte antecipador dentro do qual os dados posteriormente observados receberam sentido.
  • O exemplo mostra que a determinação do percebido não começa na constatação sensível particular, pois o próprio campo de interpretação já foi antecipadamente aberto por uma compreensão precedente.
  • Pensado em termos platônicos, essa visão prévia do aspecto, o eidos, é dada pela ideia enquanto determinação essencial daquilo que o ente é.

§ 18. A determinação grega da essência — o ser-o-que — no horizonte da compreensão de ser como presença constante

§ 18. A determinação grega da essência como ser-o-que e ideia somente se torna compreensível a partir da concepção mais fundamental do ser do ente como presença constante, pois a entidade é pensada como aquilo que permanece presentemente mostrando-se e oferecendo um aspecto, razão pela qual a realidade efetiva particular e contingente não pertence primariamente à essência, enquanto o aspecto constante constitui aquilo que propriamente determina o ente em sua entidade.

a) A determinação da essência — o ser-o-que — como entidade do ente. A compreensão do ser como presença constante é o fundamento para a interpretação da entidade como ideia

a) A essência enquanto ser-o-que corresponde à entidade do ente porque os gregos compreendem o ser como presença constante e, consequentemente, aquilo que determina o ente enquanto ente como o que permanentemente se apresenta e se mostra em um aspecto, de modo que a ideia somente pode ser entendida como essência a partir dessa interpretação prévia e mais fundamental do ser.

  • A essência não designa simplesmente uma propriedade universal acrescentada ao ente, mas aquilo que o ente é em seu próprio ser.
  • Ao interrogar o ser-o-que de um ente, a questão já pressupõe uma determinada compreensão de ser, mesmo quando essa compreensão permanece não tematizada.
  • Para os gregos, a entidade do ente é compreendida a partir da presença constante, isto é, daquilo que permanece apresentando-se em sua constância.
  • O constantemente presente mostra-se e, nesse mostrar-se, oferece um aspecto; por isso, a entidade pode ser determinada como ideia.
  • A interpretação da essência como ideia não é, portanto, uma evidência conceitual independente, mas consequência da compreensão grega fundamental do ser como presença constante.

b) Consolidação da compreensão grega da ideia

b) A ideia deve ser compreendida em sentido propriamente grego como o aspecto que o ente oferece por si mesmo em seu ser-o-que, e não como representação subjetiva, pois o ver humano somente pode apreender o ente enquanto algo que se mostra porque o próprio ser do ente foi originariamente compreendido como presença que emerge, se apresenta e se deixa ver, enquanto a transformação posterior da ideia em conteúdo da consciência resulta da perda dessa experiência grega fundamental.

  • A relação entre ideia e visão não significa que o ser-o-que dependa subjetivamente do modo humano de representar, pois, em sentido grego, apreender é ver precisamente porque o ente se caracteriza originariamente por mostrar-se.
  • O aspecto não é projetado pelo sujeito sobre a coisa, mas pertence ao modo como o ente se apresenta em sua presença.
  • Quando a compreensão grega do ser se enfraqueceu e foi transformada pela tradução romana, a relação entre ideia e apreensão passou para o primeiro plano e a ideia começou a ser entendida como produto ou conteúdo do representar.
  • Essa transformação prepara a concepção moderna da ideia como representação, particularmente desenvolvida na tradição ligada à percepção, a Descartes e ao nominalismo.
  • Na experiência grega, aquilo que uma mesa é permanece idêntico quer uma mesa particular esteja efetivamente presente, apenas seja pensada ou seja desejada, porque o ser-o-que possui constância própria.
  • A existência efetiva desta ou daquela mesa particular não pertence, por isso, à sua essência, pois constitui apenas uma realização contingente e limitada das possibilidades abertas pelo ser-o-que.
  • Sob a perspectiva platônica, a realização singular restringe a pureza da essência ao concretizá-la apenas em determinada madeira, grandeza, forma e disposição.
  • O ente particular é, portanto, ente, mas, medido pela ideia, permanece uma realização unilateral daquilo que sua essência pode ser.
  • O pensamento moderno realiza uma inversão dessa hierarquia ao considerar como propriamente ente aquilo que existe efetivamente aqui e agora e ao rebaixar a ideia à condição de algo meramente pensado.
  • A orientação moderna para realização e sucesso conduz à valorização crescente da efetividade particular, da quantidade e do aumento mensurável, enquanto a ideia tende a tornar-se abstrata e esvaziada.
  • Para os gregos, contudo, o decisivo na questão da essência não é se algo existe efetivamente como particular, mas aquilo que ele é em sua constância.
  • Como ser significa presença constante, a entidade do ente somente pode ser determinada originariamente como ser-o-que no sentido da ideia.
  • A profunda mudança ocorrida posteriormente na compreensão de ser permanece dificilmente perceptível porque o pensamento moderno ainda se move dentro de consequências históricas derivadas da interpretação grega originária.
  • Mesmo hoje, perguntar tradicionalmente pela essência continua significando abstrair da realidade efetiva particular e procurar aquilo que permanece universalmente como ser-o-que.

§ 19. A falta de uma fundamentação da determinação essencial do verdadeiro como correção do enunciado em Aristóteles. A questão acerca do significado da fundamentação

§ 19. A investigação da determinação aristotélica da verdade conduz ao resultado decisivo de que a essência do verdadeiro como correção ou correspondência do enunciado não recebe propriamente uma fundamentação explícita, o que obriga a esclarecer o próprio sentido de fundamentar e a perguntar se o estabelecimento da essência pode ser demonstrado do mesmo modo que uma proposição factual, sobretudo porque o conhecimento essencial antecede e orienta todas as experiências, constatações e demonstrações particulares.

  • Em Aristóteles, o verdadeiro é caracterizado como representação, opinião ou dizer correspondente às coisas, enquanto o falso lhes corresponde de maneira contrária.
  • O logos e o pensamento enunciativo aparecem como lugar em que verdade e falsidade podem ocorrer, embora certas formulações aristotélicas indiquem que a verdade talvez possua uma relação mais originária com as próprias coisas.
  • Apesar da importância histórica dessa determinação, não se encontra uma fundamentação expressa que demonstre por que a correção do enunciado deve constituir precisamente a essência do verdadeiro.
  • A hipótese de que escritos contendo essa fundamentação tenham sido perdidos não encontra apoio suficiente, sobretudo porque os textos aristotélicos que tratam diretamente da verdade e do enunciado tampouco apresentam tal demonstração.
  • A ausência de fundamentação torna-se ainda mais significativa porque a concepção tradicional da verdade continuou orientando durante séculos tudo aquilo que foi considerado verdadeiro e correto.
  • Surge, assim, a possibilidade inquietante de que uma enorme história de conhecimentos e decisões se tenha desenvolvido sobre um fundamento cuja própria fundamentação permanece não esclarecida.
  • A dificuldade não se restringe à verdade, porque Platão e Aristóteles também determinam a essência da alma, do movimento, do lugar, do tempo, da amizade, da justiça, do Estado e do homem sem fornecer, no sentido habitual, uma fundamentação para o estabelecimento dessas essências.
  • Torna-se necessário perguntar se a própria exigência de fundamentação, tal como normalmente entendida, é adequada ao estabelecimento da essência.
  • Fundamentar uma proposição significa habitualmente indicar aquilo em que ela se apoia e mostrar a coisa a partir da qual pode ser julgada sua correção.
  • A demonstração mais imediata parece ocorrer quando aquilo que é afirmado é apresentado diretamente em sua presença, como quando se constata pela própria observação que determinado auditório se encontra ocupado.
  • Uma informação recebida por mediação, como uma comunicação meteorológica sobre neve em determinado lugar, exige pressupostos adicionais acerca da correção da fonte, da transmissão e da recepção da informação.
  • A evidência imediata da própria coisa possui, por isso, prioridade dentro da fundamentação de proposições factuais.
  • O conhecimento da essência, contudo, precede todo conhecimento particular, porque nenhum comportamento diante de uma casa, por exemplo, seria possível sem alguma compreensão antecipadora daquilo que significa casa.
  • Como a visão essencial sustenta e orienta toda experiência e todo conhecimento particulares, sua própria fundamentação teria de possuir uma dignidade ainda mais elevada do que a demonstração de simples fatos.

REPETIÇÃO

1) A concepção do ser do ente como presença constante é o fundamento para a determinação da essência — ideia — como ser-o-que

1) A determinação grega da essência como ideia somente pode ser compreendida a partir da concepção do ser como presença constante, segundo a qual aquilo que permanece através das mudanças e se apresenta como aspecto constitui o ser-o-que do ente, enquanto a realidade efetiva particular aparece como realização contingente e limitada dessa essência.

  • O ser-o-que é aquilo que permanece constante no ente e que, enquanto presente, se mostra como aspecto.
  • Uma mesa possível continua sendo mesa mesmo sem estar atualmente presente, razão pela qual seu ser-o-que não depende de sua realização efetiva particular.
  • A realização da essência em um ente singular atualiza apenas uma entre as possibilidades que pertencem àquilo que ele é.
  • O pensamento moderno, ao identificar o propriamente ente com aquilo que existe efetivamente aqui e agora, já se move em uma compreensão de ser diferente da grega.
  • Essa transformação precisa ser mantida em vista porque a investigação da essência não pergunta primordialmente pelo ser-presente-à-vista do particular, mas pelo que permanece determinante enquanto ser-o-que.

2) A falta de uma fundamentação para o estabelecimento da essência e para a caracterização da essência do verdadeiro como correção do enunciado. O significado de fundamentação

2) A ausência de uma fundamentação explícita para a caracterização aristotélica do verdadeiro como correção do enunciado não pode ser simplesmente explicada pela perda de textos, pois a mesma ausência acompanha outras determinações essenciais da filosofia grega e conduz à questão mais radical de saber se o estabelecimento da essência admite o tipo corrente de fundamentação mediante demonstração factual ou se exige um modo mais originário de legitimação.

  • Fundamentar uma proposição factual significa normalmente reconduzi-la à presença da coisa sobre a qual ela fala e demonstrar sua concordância com aquilo que se apresenta.
  • A indicação imediata do fato constitui a forma mais segura dessa fundamentação porque põe diante da apreensão aquilo em que o enunciado encontra seu apoio.
  • O estabelecimento da essência possui, contudo, prioridade sobre toda constatação particular, pois somente a compreensão prévia do que algo é torna possível reconhecer, experimentar e determinar seus casos singulares.
  • Se o saber da essência guia antecipadamente toda experiência do ente, sua fundamentação não pode possuir dignidade menor do que a fundamentação dos conhecimentos particulares que dele dependem.
  • A exigência conduz, assim, ao paradoxo de buscar para a visão essencial a forma mais elevada possível de demonstração, embora nenhuma demonstração pareça mais imediata do que a apresentação do próprio ente presente, fazendo emergir a necessidade de reconsiderar radicalmente o significado de fundamentação.
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