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INTERPRETAÇÃO PRÉVIA DA ESSÊNCIA DA FILOSOFIA
§ 1. A filosofia futura e a retenção como tonalidade afetiva fundamental da ligação com o seer
A filosofia futura determina-se somente no próprio questionamento das questões fundamentais, e não pela pressuposição de um domínio filosófico previamente constituído, de modo que filosofar exige investir a totalidade do ente na questão e deixar ressoar a retenção como tonalidade afetiva fundamental (Grundstimmung) da ligação com o seer (Seyn), na qual a sobriedade rigorosa do pensamento preserva conjuntamente o terror diante do fato de que o ente é e o pudor diante da essencialização velada do seer no ente.
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A essência da filosofia não pode ser previamente estabelecida como um campo de saber do qual determinadas “questões fundamentais” seriam posteriormente extraídas, pois é o próprio questionamento radical dessas questões que decide o que pode vir a ser filosofia.
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O questionamento filosófico autêntico não conserva antecipadamente supostas verdades como posses asseguradas, mas põe em jogo todas as coisas e, com elas, a totalidade do ente, expondo o pensamento àquilo que nele permanece digno de questão.
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A interpretação prévia da filosofia destina-se inicialmente a fazer ressoar a tonalidade afetiva fundamental (Grundstimmung) a partir da qual o pensamento filosófico pode acontecer, sem que isso implique oposição entre rigor conceitual e disposição afetiva.
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A pura sobriedade do pensar não significa ausência de tonalidade afetiva nem frieza conceitual, mas a rigorosa manutenção de uma tonalidade elevada aberta ao caráter descomunal de que o ente é em vez de não ser.
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A retenção reúne originariamente o terror diante do mais próximo e importuno — o simples fato de que o ente é — e o pudor diante do mais remoto — a essencialização do seer no ente e antes de todo ente.
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O terror não é eliminado ou dominado pela retenção, mas preservado pelo pudor, de maneira que o velamento da essência do seer se torna precisamente aquilo que há de maximamente digno de questão.
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A retenção não pode converter-se em objeto de caracterização doutrinária ou de falatório sobre uma suposta “filosofia da retenção”, pois somente a permanência efetiva no questionamento acerca do mais digno de questão pode conferir algum direito de falar dela, direito que, em seu extremo, conduz antes ao silêncio.
§ 2. A filosofia como saber imediatamente inútil, apesar de soberano, sobre a essência do ente
A filosofia constitui um saber imediatamente inútil e, precisamente por isso, soberano acerca da essência do ente, distinguindo-se tanto da visão de mundo quanto da ciência porque não se legitima por aplicação prática, produção de resultados ou utilidade imediata, mas pela abertura antecipadora de novos âmbitos de questão, novos critérios e novas possibilidades históricas de decisão para o ser-aí humano.
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No curso profundo da história de um povo, poetar e pensar pertencem ao início que determina historicamente esse povo, de modo que a ausência de filosofia significa a perda daquele espaço elevado no qual sua existência histórica poderia ganhar amplitude e impulso.
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A filosofia não é visão de mundo nem ciência, não podendo substituir nenhuma delas e tampouco ser avaliada segundo a capacidade de desempenhar as suas respectivas funções.
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Toda tentativa de calcular a utilidade imediata da filosofia conduz necessariamente à constatação de que ela “não realiza nada”, porque sua essência não pertence ao âmbito do rendimento, da aplicação ou da produção de efeitos diretamente verificáveis.
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A opinião habitual oscila entre superestimar a filosofia, esperando dela efeitos imediatamente úteis, e subestimá-la, exigindo que seus conceitos apenas reproduzam abstratamente aquilo que a experiência cotidiana já teria tornado palpável.
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O saber filosófico autêntico não acrescenta generalizações tardias a conhecimentos previamente assegurados, mas se antecipa por um salto e abre novos domínios de questionamento e novas perspectivas sobre a essência constantemente autoveladora das coisas.
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A eficácia possível da meditação filosófica é apenas mediata: transformam-se os ângulos de visão segundo os quais os comportamentos se orientam e os critérios mediante os quais as decisões podem ser tomadas.
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A soberania da filosofia reside em poder estabelecer pensantemente para o ser-aí humano a finalidade da meditação e, com isso, erigir no interior da história humana um domínio ainda velado.
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Por permanecer voltada para a essência do ente enquanto aquilo que é maximamente digno de questão, a filosofia não se mede pela acumulação de “resultados”, pela calculabilidade, pela utilização ou pela transmissibilidade técnica do conhecimento.
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A tendência das ciências à tecnicização integral intensifica a distância entre ciência e filosofia, pois a ciência moderna apresenta-se como detentora do saber propriamente dito justamente enquanto se afasta do questionamento da essência e da verdade.
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A posse presumida da “verdade” torna possível o funcionamento da ciência, enquanto o saber propriamente filosófico permanece voltado para a verdade como questão, razão pela qual a ciência, enquanto funcionamento assegurado, pode converter-se em negação do saber acerca da verdade.
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A reinserção da ciência no âmbito daquilo que é digno de questão implicaria a dissolução de seu caráter especificamente moderno, uma vez que sua forma moderna depende justamente da fixação de um caminho previamente determinado e progressivamente tecnicizado.
§ 3. O questionamento acerca da verdade do seer como saber soberano
A soberania da filosofia culmina no questionamento acerca da verdade do seer (Seyn), no qual a própria busca se torna simultaneamente meta e descoberta, porque filosofar significa permanecer constantemente na proximidade daquilo que se vela, projetando a existência para além de toda curiosidade e fazendo da perseverança na questão do fundamento do ente a medida da grandeza humana.
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O estabelecimento pensante de metas próprio da filosofia não determina antecipadamente um conteúdo possuído, pois a meta só possui verdade enquanto é efetivamente buscada, fazendo com que a busca mesma constitua a meta.
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Buscar significa permanecer persistentemente próximo daquilo que se vela e a partir do qual tanto a necessidade quanto o júbilo podem alcançar o ser-aí.
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A transformação da busca em meta não significa ausência interminável de finalidade nem perpetuação de inquietude e insatisfação, como supõem respectivamente o entendimento calculador e o sentimento ávido por posse imediata.
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A busca autêntica pode proporcionar a mais elevada constância e equilíbrio ao ser-aí quando se projeta para além do imediatamente dado e penetra na direção do maximamente velado, abandonando toda forma de mera curiosidade.
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O maximamente velado encontra-se no fundamento do fato descomunal de que o ente é em vez de não ser e, ainda mais radicalmente, na essência do seer, que, embora seja o mais próximo em tudo aquilo que vigora, sustenta e se torna apreensível, permanece ele mesmo intangível.
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Fazer da busca a meta significa ancorar o início e o fim de toda meditação na questão acerca da verdade do próprio seer, e não na investigação deste ou daquele ente nem mesmo na totalidade dos entes considerados conjuntamente.
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A grandeza do homem mede-se pelo que ele busca e pela urgência com que consegue permanecer aquele que busca, de modo que a persistência no questionamento constitui uma determinação essencial de sua existência histórica.
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O questionamento acerca da verdade do seer é ele próprio saber soberano, pois, mesmo quando alcança uma resposta essencial e decisiva, esta não encerra a questão, mas constitui apenas o primeiro passo de uma sequência de passos fundada na própria continuidade do questionamento.
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No âmbito da busca propriamente dita, encontrar não significa interromper o procurar, mas intensificá-lo ao máximo, porque cada descoberta essencial devolve o pensamento de maneira ainda mais radical ao caráter digno de questão do seer.
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A interpretação prévia da essência da filosofia somente ganha determinação efetiva no próprio trabalho do questionamento das questões fundamentais da filosofia, no qual se decide concretamente qual questão deve conduzir o pensamento.
