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obra:ga42:2

§2

PRIMEIRA PARTE: PARA A POSSIBILIDADE DE UM SISTEMA DA LIBERDADE. A INTRODUÇÃO DO TRATADO DE SCHELLING (I. Abt., VII, 336-357)

PRIMEIRO CAPÍTULO: O conflito interno no pensamento de um sistema da liberdade. A introdução da introdução (336-338)

§ 2. As duas tarefas da investigação: a delimitação do conceito de liberdade e sua inserção no todo de uma “visão de mundo científica”

a) O sentimento do fato da liberdade. Questões preliminares para a delimitação provisória do conceito de liberdade

  • A investigação sobre a essência da liberdade humana tem duas tarefas: 1) a delimitação correta do conceito de liberdade e 2) a inserção desse conceito no conjunto de uma visão de mundo científica (wissenschaftliche Weltansicht).
  • A primeira tarefa surge porque, embora o sentimento do fato da liberdade seja imediato, sua expressão conceitual exige mais do que uma apreensão superficial, pois a liberdade, como fato, não está simplesmente na superfície da experiência.
  • O “sentimento” (Gefühl) da liberdade, embora imediato, não é suficiente para fundamentar uma determinação conceitual adequada; é necessário distinguir entre o fato do ser-livre, a sensação desse fato e a interpretação conceitual do que é sentido.
  • A questão sobre o que significa “fato” (Tatsache) e como a liberdade é um fato diferente de outros fatos empíricos é central; a liberdade não é um dado como um fenômeno natural, pois sua “factualidade” (Tatsächlichkeit) tem um caráter distinto.
  • A determinação do conceito de liberdade depende de uma “pureza e profundidade de sentido” (Reinheit und Tiefe des Sinnes) que não é comum, exigindo uma reflexão sobre o tipo de “sentido” (Sinn) que capta a liberdade, que não é um sentido físico, mas uma disposição de ânimo (Gesinnung).
  • As discussões habituais sobre o livre-arbítrio (Willensfreiheit) são superficiais porque negligenciam essas questões preliminares fundamentais sobre a natureza do fato e do conceito de liberdade, o que levaria ao desaparecimento dessa questão aparente.

b) O significado metafísico e a exigência de sistema da expressão “visão de mundo científica” em Schelling em contraste com o entendimento atual

  • A segunda tarefa exige a inserção do conceito de liberdade no todo de uma “visão de mundo científica” (wissenschaftliche Weltansicht), mas esse termo não deve ser entendido no sentido moderno de uma cosmovisão baseada nos resultados das ciências particulares.
  • No Idealismo Alemão, “ciência” (Wissenschaft) significa, primariamente, Filosofia, o conhecimento (Wissen) dos últimos e primeiros fundamentos do ente em sua totalidade, um saber essencial (Wesenswissen) que funda e ordena o conhecimento derivado.
  • “Visão de mundo” (Weltanschauung/Weltansicht) é um termo metafísico, com raízes em Leibniz e Kant; refere-se à maneira pela qual cada ser (mônada, organismo) se relaciona com o todo do ente (Universum) a partir de uma perspectiva determinada e limitada.
  • No sentido de Schelling, “visão de mundo” não é uma atitude ou ideologia, mas um momento constitutivo do próprio ser do ente, seu “esquematismo” de abertura do mundo; a visão de mundo pertence à constituição (Verfassung) de cada ente.
  • O termo “Weltanschauung” teve sua origem no Idealismo Alemão, mas sofreu um declínio de significado no século XIX, tornando-se uma palavra vazia ligada ao liberalismo e à tipologia psicológica, perdendo sua determinação metafísica inicial.
  • A tarefa de inserir a liberdade em uma visão de mundo científica, portanto, é uma tarefa filosófica fundamental, que se articula com a exigência do sistema (System), onde o sistema não é um mero quadro, mas a própria fuga (Fuge) do Ser (Seyn).

c) A incompatibilidade entre liberdade e sistema. A inserção do conceito de liberdade em um sistema da liberdade como tarefa

  • A delimitação do conceito de liberdade e sua inserção no sistema são uma única e mesma tarefa, pois nenhum conceito pode ser determinado isoladamente e a conexão com o todo lhe dá sua última “consumação científica” (wissenschaftliche Vollendung).
  • Essa unidade de tarefas implica que a própria experiência do fato da liberdade já é guiada por conceitos prévios (Vorbegriffe) e que o sistema do conhecimento também é limitado e deve ser fundamentado em experiências originárias.
  • O conceito de liberdade, se tiver realidade (Realität), não é um mero conceito subordinado, mas um dos centros dominantes do sistema; o sistema da filosofia não é um sistema que inclui a liberdade, mas é, ele mesmo, um sistema da liberdade.
  • A dificuldade fundamental é expressa por Schelling: “segundo uma antiga tradição, o conceito de liberdade seria incompatível com o sistema em geral”, uma vez que a liberdade resiste à fundamentação sistemática (Begründung) e o sistema exige uma conexão universal de fundamentação.
  • O tratado sobre a liberdade é, portanto, uma tentativa de pensar e fundamentar um “sistema da liberdade”, algo que parece ser uma contradição em si mesmo (como um círculo quadrangular).
  • A introdução do tratado (336-357) tem a função de discutir essa dificuldade interna e preparar a questão propriamente dita, clarificando os conceitos essenciais e as relações conceituais que serão tratados no corpo da obra.
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