Action unknown: copypageplugin__copy
obra:ga33:ga33-1

GA33: §1

Parte introdutória

O questionamento aristotélico acerca da multiplicidade e da unidade do ser

§ 1. Além da questão das categorias, a questão da potência e da efetividade pertence ao âmbito do questionamento acerca do ente

  • A investigação propõe uma interpretação filosófica de uma exposição da filosofia grega transmitida como o livro IX da Metafísica de Aristóteles, cuja unidade própria, dividida em dez capítulos, tem por objeto aquilo que a tradição latina traduziu como potência e ato, e que pode ser vertido como capacidade e efetivação, ou possibilidade e realidade.
  • A pesquisa acerca da possibilidade e da realidade exige determinar o que nela se procura, o que impulsiona tal investigação e a que âmbito mais abrangente de questionamento pertence a exposição aristotélica.
  • A resposta imediata segundo a qual a investigação pertence à Metafísica de Aristóteles e, portanto, seria metafísica é correta apenas de modo vazio e enganoso, pois Aristóteles não possuía nem procurava aquilo que posteriormente se passou a entender sob o nome de metafísica.
  • A renúncia à resposta tradicional que chama a investigação de metafísica obriga a determinar de outro modo o âmbito de questão a que ela pertence, pois, sem clareza prévia sobre o alvo, a sequência e o alcance do seu ponto de partida, a tentativa de penetrar na investigação permaneceria sem direção.
  • Os primeiros enunciados da exposição aristotélica indicam que já se tratou do ente em primeiro lugar, isto é, daquilo a que todas as demais categorias do ente se referem, a saber, a substância, e que os demais modos de dizer o ente, como quantidade e qualidade, recebem seu sentido por referência ao que é dito na substância.
  • O primeiro enunciado aristotélico constata que a investigação anterior tratou das categorias e, especialmente, da primeira categoria, enquanto o segundo caracteriza a relação de ida e retorno de todas as demais categorias à primeira como algo que se realiza no dizer e na articulação discursiva.
  • O dizer significa originariamente reunir, recolher, pôr uma coisa junto de outra, relacionar e tornar acessível de modo unitariamente reunido, de modo que o sentido de discurso deriva desse reunir e expor, e não o contrário.
  • O discurso reunidor torna acessível e manifesta, de modo que, em oposição ao esconder, o dizer significa desocultar, tornar manifesto e produzir uma enunciação reveladora de algo sobre algo.
  • A relação das demais categorias com a primeira funda-se nesse dizer reunidor, e por isso a caracterização dessa relação como lógica deve ser entendida apenas a partir do sentido originário de reunião e manifestação, sem recorrer às noções posteriores e correntes de lógica.
  • As categorias recebem esse nome porque estão essencialmente enraizadas no enunciado, não como simples usos acidentais da fala, mas como aquilo que, em todo dizer de algo sobre algo, declara de modo destacado o que o ente propriamente é.
  • Acusar ou declarar categoricamente significa dizer de modo enfático o que algo é e como se encontra, de modo que a categoria é aquilo que pode ser dito do ente em sentido decisivo, ainda que Aristóteles também use o termo em sentido mais amplo como o simplesmente enunciado no tratamento discursivo.
  • A comparação habitual entre Aristóteles e Kant, especialmente quanto às categorias, obscurece o caráter fundamental das categorias aristotélicas como categorias do ente, pois nelas não se trata simplesmente de formas do pensamento nem de moldes nos quais o ente seria inserido.
  • A concepção comum das categorias como formas de pensamento falha porque Aristóteles as chama também de entes, isto é, de determinações que pertencem ao próprio ente e não meramente a uma estrutura subjetiva de representação.
  • A dificuldade central consiste em que as categorias pertencem ao dizer e, ao mesmo tempo, são o próprio ente, de modo que a pergunta por sua essência permanece obscura e conduz a uma questão ainda não resolvida.
  • A essência das categorias parece enraizar-se no dizer enquanto desocultação reunidora, o que faz surgir a questão sobre a conexão entre unidade, verdade e ser, bem como sobre a relação entre presença, unidade, reunião discursiva e o sentido do é.
  • A substância é a primeira categoria porque todas as demais, como a qualidade, só são compreensíveis como determinações de algo, de modo que elas sempre codizem a substância e coestão com ela, a qual é previamente dita e previamente ente.
  • A elucidação inicial dos primeiros enunciados da exposição permite perceber que eles não indicam diretamente o novo âmbito de investigação, mas apenas retomam uma pesquisa anterior sobre a primeira categoria, transmitida no livro VII da Metafísica.
  • A referência à investigação anterior sobre a substância poderia sugerir que potência e efetividade também fossem categorias, especialmente porque, desde Kant, possibilidade, realidade e necessidade foram compreendidas como categorias da modalidade.
  • Em Aristóteles, potência e efetividade não aparecem em nenhuma enumeração das categorias, e por isso a pergunta por potência e efetividade não é uma questão categorial, o que deve ser conservado como condição primeira para compreender toda a exposição.
  • A investigação sobre potência e efetividade pertence ao questionamento acerca do ente enquanto tal, mas por uma direção diferente daquela da pergunta pelas categorias, pois o ente é dito tanto segundo as categorias quanto segundo potência, efetividade e obra.
  • A pergunta por potência e efetividade move-se no mesmo âmbito geral da pergunta pelo ente que move fundamentalmente Aristóteles, embora não coincida com a investigação categorial.
  • O ente deve possuir uma essência que permita, e talvez exija, tanto a investigação segundo as categorias quanto a investigação segundo potência e efetividade, de modo que a não determinação da pertença entre essas duas direções significa que a questão do ser ainda não foi dominada.
  • Perguntar por potência e efetividade é filosofar em sentido próprio, pois a interpretação dessa exposição pode permitir uma experiência do que é filosofar e tornar mais experiente o próprio exercício do pensamento.
  • A exposição sobre potência e efetividade constitui uma das perguntas pelo ente enquanto tal, e Aristóteles, depois de indicar esse âmbito, passa imediatamente à delimitação mais precisa do tema e ao caminho da investigação.
  • A indicação aristotélica é suficiente para quem já não possui o solo originário dessa investigação e precisa interromper o avanço para refletir sobre o âmbito anunciado, a fim de ver com mais clareza o que Aristóteles pergunta e quais caminhos esse perguntar abre.
obra/ga33/ga33-1.txt · Last modified: by 127.0.0.1