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obra:ga32:ga32-2
GA32: §2
§ 2. A formulação hegeliana de um sistema da ciência
a) A filosofia como a ciência
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O caráter primário da Fenomenologia só pode ser extraído da incumbência interna que a obra recebeu no serviço da filosofia hegeliana, e essa incumbência se anuncia no título completo Sistema da ciência. Primeira parte. Ciência da experiência da consciência, cuja elucidação fornece uma compreensão inicial do caminho realizado pela obra.
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A questão decisiva consiste em saber por que o sistema da ciência exige como sua primeira parte a ciência da experiência da consciência ou a ciência da fenomenologia do espírito.
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O título Sistema da ciência não designa um sistema das ciências nem uma ordenação das diversas ciências existentes, como as da natureza ou da história, mas se refere à ciência em sentido próprio e ao seu sistema.
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A ciência em questão não é a pesquisa científica em geral, mas o todo do saber mais alto e próprio, isto é, a filosofia como autoexplicitação do saber absoluto, em sentido próximo ao da doutrina da ciência de Fichte.
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A compreensão habitual segundo a qual a filosofia seria ciência por fornecer os fundamentos das ciências particulares, delimitando seus domínios e justificando seus procedimentos, explica apenas uma concepção moderna de filosofia como fundamentação do saber teórico, técnico-prático e moral-prático.
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A concepção da filosofia como ciência fundamental, viva desde Descartes e reforçada nos séculos seguintes, tornou-se dominante não por impulso originário do filosofar, mas pela perplexidade diante da perda aparente da tarefa própria da filosofia, quando as ciências ocuparam todos os domínios do real e restou à filosofia tornar-se ciência das ciências.
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A determinação da filosofia como ciência no idealismo alemão não se explica pela relação da filosofia com as ciências nem pela função de justificá-las, pois em Fichte, Schelling e sobretudo Hegel a filosofia é a ciência porque se orienta pela superação do saber finito na conquista do saber infinito.
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A tarefa de fundamentar as ciências e a tarefa de constituir a filosofia como saber absoluto pertencem a ordens distintas, pois a primeira só poderia assumir seu sentido hegeliano se antes tentasse fundar-se como saber absoluto, o que não se confunde com uma simples fundamentação das ciências.
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A tentativa contemporânea de aproximar Hegel de projetos que fundamentam a filosofia como primeira ciência deve ser recusada, pois, quando Hegel fala da forma científica da verdade e da passagem do amor ao saber para o saber efetivo, o termo ciência possui outro sentido, derivado da consumação do problema diretor da filosofia ocidental.
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A significação hegeliana de ciência nasce da condução extrema do problema diretor da filosofia antiga e ocidental, de modo que a orientação por uma fundamentação das ciências ou por uma filosofia como ciência rigorosa permanece subordinada e secundária.
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O problema diretor da filosofia ocidental é a pergunta pelo que é o ente, e sua ligação com razão, pensamento e saber não indica apenas um procedimento teórico, mas exprime a decisão segundo a qual o ente enquanto ente foi compreendido a partir do pensamento e como pensamento.
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Hegel radicaliza a resposta preparada pela filosofia antiga ao compreender o ente enquanto tal e o real em sua plena realidade como ideia e conceito, de modo que o conceito puro elimina o tempo e a filosofia se apresenta como a ciência, isto é, como saber absoluto.
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A tese de que a filosofia não é ciência significa que seu problema diretor não pode permanecer no estágio da pergunta antiga nem sobre o solo da problemática hegeliana, e significa também que a filosofia não reencontra seus problemas fundamentais quando se entende primariamente como fundamentação do saber e das ciências segundo o ideal de máxima cientificidade.
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A determinação negativa segundo a qual a filosofia não é ciência não entrega a filosofia ao entusiasmo irracional, à arbitrariedade de visão de mundo ou à chamada filosofia da existência, mas exige recolocar o problema da ontologia e decidir a partir da questão do ser, e não a partir de um ideal exterior de conhecimento.
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A filosofia deve vincular-se apenas à própria coisa, a mesma desde Parmênides até Hegel, e a posição de Kierkegaard e Nietzsche deve permanecer aberta, pois talvez neles tenha-se realizado algo que ainda não pode ser simplesmente nomeado filosofia nem usado apressadamente contra ela.
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A confusão filosófica contemporânea, esvaziada em suas relações reais com a tradição e com a presença efetiva de seu espírito, deve ser afastada para que se compreenda a problemática da Fenomenologia do espírito de Hegel.
b) Saber absoluto e saber relativo; a filosofia como sistema da ciência
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O título Sistema da ciência significa positivamente sistema do saber absoluto, embora o sentido pleno de saber absoluto só possa ser alcançado pela interpretação da Fenomenologia do espírito e deva ser preliminarmente esclarecido.
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O saber absoluto não deve ser entendido quantitativamente como saber de tudo, pois, para Hegel, absoluto e relativo caracterizam qualitativamente o modo de saber, de maneira que um saber poderia abranger tudo e ainda assim permanecer relativo quanto à sua maneira de saber.
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O saber relativo não é apenas um saber relacionado a algo, mas um saber que se deixa levar e prender pelo conhecido, permanece junto dele, entrega-se a ele e nele se perde, razão pela qual Hegel chama consciência esse saber cativo do que sabe.
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A possibilidade de um saber qualitativamente diferente do relativo exige que o saber se solte do conhecido sem abandoná-lo, realizando uma superação conservadora em que o conhecido continua sabido, mas se transforma em sua condição de sabido.
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A libertação do saber relativo começa quando a consciência, entregue às coisas, sabe de si mesma como consciência e se torna autoconsciência, abrindo a questão decisiva de saber se essa libertação se cumpriu ou se a autoconsciência ainda permanece como consciência.
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A autoconsciência ainda é saber relativo, pois, embora se desprenda do objeto imediato da consciência, fica presa a si mesma como eu e como si, instaurando uma dupla vinculação: a si própria e à diferença entre esse si e as coisas presentes.
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A autoconsciência manifesta a possibilidade de libertação, mas ainda permanece uma relatividade livre apenas de modo incompleto, porque conserva aquilo de que se desprende e o vincula a si enquanto saber que se liberta.
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O saber verdadeiramente não relativo é aquele que também se desprende da autoconsciência, sabendo-a não como algo simplesmente presente ao lado da consciência, mas como autoconsciência da consciência, de modo que o saber de si como origem não vinculada da unidade entre consciência e autoconsciência é o saber absoluto, preliminarmente chamado razão.
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Consciência, autoconsciência e razão podem ser reunidas por Hegel sob o termo consciência, que assume três sentidos: todo modo de saber, o saber referido às coisas sem saber-se como saber, e o saber no sentido da autoconsciência.
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Todo saber relativo é qualitativamente limitado e, por isso, todo limitado se refere em sua multiplicidade ao absoluto ilimitado, fazendo surgir a necessidade de produzir uma totalidade do saber e um sistema da ciência no qual as relações múltiplas se libertem da contingência e se integrem na totalidade objetiva do saber.
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O saber absoluto é a ciência propriamente dita, e a ciência, enquanto saber absoluto, é essencialmente sistema, pois o sistema não é uma moldura externa nem uma ordenação posterior, mas a forma na qual o saber absoluto se compreende, se desdobra e se apresenta como sistema.
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