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§§16-18

Primeira Parte: O Despertar de uma Disposição Fundamental do Nosso Filosofar

Primeiro Capítulo: A Tarefa do Despertar de uma Disposição Fundamental e a Indicação de uma Disposição Fundamental Oculta do Nosso Ser-aí Atual

16. Preparação para a compreensão do sentido do despertar de uma disposição fundamental

a) Despertar: não um constatar de algo dado, mas um fazer despertar o que dorme

A tarefa fundamental agora consiste no despertar (Weckung) de uma disposição fundamental (Grundstimmung) do nosso filosofar. Não se trata do despertar de uma disposição qualquer, mas daquela que deve sustentar o nosso filosofar. A palavra “despertar” indica que a disposição não precisa ser criada ou inventada, mas sim trazida à vigília a partir de um estado de sono. A mera constatação (Feststellung) de uma disposição, como se fosse um fato dado, é um empreendimento duvidoso, pois a disposição não é algo que se possa verificar objetivamente como uma propriedade. A disposição não pode ser forçada artificialmente; ela já deve estar aí, ainda que adormecida. Além disso, a pergunta direta sobre a disposição em uma suposta pesquisa não teria sucesso, pois o inquirido talvez não seja capaz de dar informações sobre algo que, por sua própria natureza, escapa à observação e à objetivação. O despertar, portanto, não é um procedimento de constatação, mas um fazer despertar (Wachwerdenlassen) daquilo que dorme.

b) O ser-aí e o não-ser-aí da disposição não são apreensíveis pela distinção entre ter-consciência e inconsciência

O despertar de uma disposição indica que ela, de algum modo, já está aí, mas também que não está. A disposição dorme, está presente e ausente ao mesmo tempo. Essa peculiaridade, que poderia parecer uma contradição lógica, leva a questão para além da distinção tradicional entre consciente e inconsciente. O despertar não pode significar simplesmente tornar consciente algo que era inconsciente, pois a tentativa de tornar a disposição consciente geralmente a destrói, enfraquece ou altera. Além disso, o sono não é meramente ausência de consciência, como se vê no sonho, e o estar desperto não se identifica com a consciência. A distinção entre consciente e inconsciente é inadequada para compreender o fenômeno da disposição. O que está em jogo é o próprio ser do homem, que não pode ser compreendido a partir do modelo de um ser vivo que possui uma consciência ou um inconsciente.

c) O ser-aí e o não-ser-aí da disposição com base no ser do homem como ser-aí (Dasein) e estar-ausente (Wegsein)

O “não-ser-aí” da disposição não é uma falta de consciência, mas um modo de ser do homem que se manifesta como estar-ausente (Wegsein) ou estar “fora de si”. Esse estar-ausente pode ocorrer em plena vigília, em uma conversa na qual se está “ausente”. Ele não é o oposto do ser-aí, mas uma maneira do ser-aí. Para poder estar ausente, o homem precisa, antes, ser-aí (da-sein). O estar-ausente e o ser-aí são modos de ser que pertencem à estrutura fundamental do homem, que não pode ser compreendida como mera presença. A disposição, enquanto algo que está aí e não está, pertence a essa estrutura do ser do homem. A visão vulgar da psicologia, que trata as disposições como sentimentos ou estados de espírito (uma terceira classe de vivências, ao lado do pensar e do querer), é correta apenas em certos limites, mas não é uma caracterização essencial. As disposições não são entes que ocorrem na alma, nem são o mais inconstante e fugaz. A tarefa é mostrar positivamente o que elas são, superando a concepção psicológica e tradicional.

17. Caracterização preliminar do fenômeno da disposição: disposição como modo fundamental do ser-aí, como aquilo que dá ao ser-aí consistência e possibilidade. Despertar da disposição como apreensão do ser-aí como ser-aí

A disposição não é uma vivência interna que ocorre na alma de um sujeito. Quando alguém está triste, a tristeza não é apenas um estado subjetivo, mas modifica o próprio modo do ser-com (Miteinandersein) entre as pessoas. A pessoa se torna inacessível, e o “como” do convívio se altera, sem que as ações ou os objetos mudem. A tristeza não é uma consequência, mas algo que constitui o próprio modo de ser. A disposição é como uma atmosfera na qual se está, um clima que não está dentro nem fora, mas que determina a relação com os outros e com o mundo. As disposições não são fenômenos secundários ou acompanhamentos; elas são o que, de antemão, determina o ser-com e o ser-aí. Elas são a melodia fundamental que dá o tom para o ser.

  • Positivamente, a disposição é um modo fundamental do ser-aí como ser-aí; ela é o “como” (Wie) originário segundo o qual o ser-aí é. A disposição não é um estado subjetivo, mas um modo de ser que envolve o mundo e os outros.
  • A disposição, portanto, não é o mais inconstante, mas justamente o que dá consistência, sustentação e possibilidade ao ser-aí. Ela é o solo a partir do qual o pensar e o agir se tornam possíveis.
  • As disposições são o “como” segundo o qual alguém se sente de tal ou tal maneira (“es ist einem so und so”). Elas são a “pressuposição” e o “meio” (Medium) do pensar e do agir, pois determinam o espaço onde tudo o mais acontece.
  • Mesmo a aparente falta de disposição (Ungestimmtheit) – aquela situação em que não se está nem bem nem mal disposto – é uma disposição, e muitas vezes a mais poderosa, precisamente por não ser notada. O ser-aí, como ser-aí, é sempre, desde o fundo, dis-posto (gestimmt). O despertar de uma disposição é, portanto, uma maneira de apreender o ser-aí como ser-aí, de deixá-lo ser tal como ele é ou pode ser, trazendo à tona o modo fundamental de seu ser.

18. A certificação de nossa situação atual e da disposição fundamental que a atravessa como pressuposição para o despertar dessa disposição

Para despertar uma disposição fundamental em nós, é preciso primeiramente nos certificarmos (versichern) de nossa situação (Lage) atual. A pergunta é: qual disposição deve ser despertada? A resposta exige que se compreenda a situação em sua maior amplitude, pois se trata de algo essencial e último. A tarefa de caracterizar nossa situação não é nova; existem várias interpretações notáveis. A escolha de algumas delas é, em certa medida, arbitrária, mas pode ser útil para revelar o traço fundamental comum.

a) Quatro interpretações de nossa situação atual: o contraste entre vida (alma) e espírito em Oswald Spengler, Ludwig Klages, Max Scheler, Leopold Ziegler

Quatro interpretações influentes da situação atual se destacam, todas centradas na oposição entre “vida” (alma) e “espírito”:

  1. A de Oswald Spengler, expressa no slogan “Declínio do Ocidente”: a tese fundamental é a do declínio da vida pelo e através do espírito (técnica, economia, civilização, racionalidade). O espírito, criando a cultura, volta-se contra a alma e a sufoca.
  2. A de Ludwig Klages: a condenação do espírito como adversário da alma. O espírito é uma doença a ser expulsa para libertar a vida, compreendida como o borbulhar obscuro dos instintos e o solo do mítico. É uma fuga do espírito e um retorno à vida.
  3. A de Max Scheler, em sua última fase: uma tentativa de equilíbrio e compensação entre vida e espírito. O homem estaria na “era do equilíbrio”, buscando uma harmonia entre as duas forças.
  4. A de Leopold Ziegler: a ideia de uma nova Idade Média como uma era mediadora, que supera o antagonismo entre vida e espírito, produzindo uma nova unidade.

O traço fundamental comum a todas essas interpretações é a oposição entre vida (alma) e espírito. Todas remontam, em última instância, a Nietzsche e seu antagonismo fundamental entre o Dionisíaco e o Apolíneo, que é a fonte e o campo de batalha propriamente dito.

b) O antagonismo fundamental de Nietzsche entre o Dionisíaco e o Apolíneo como fonte das quatro interpretações de nossa situação atual

O antagonismo entre Dioniso e Apolo é o fio condutor e o núcleo do filosofar de Nietzsche. Esse antagonismo, que ele tomou da Antiguidade, transformou-se ao longo de seu pensamento.

  • Dioniso representa o impulso para a unidade, para além da pessoa e do cotidiano, a afirmação jubilosa do caráter total da vida, mesmo em seu aspecto mais terrível e ambíguo, o eterno querer gerar e destruir, a grande compaixão e alegria panteísta que santifica a vida.
  • Apolo representa o impulso para o perfeito ser-para-si, o indivíduo típico, a simplificação, a liberdade sob a lei, a eternidade da bela forma, a aristocrática legislação do “assim deve ser sempre!”.
  • Nietzsche interpreta a cultura grega como a vitória do Apolíneo sobre um substrato Dionisíaco. O grego teve que se tornar apolíneo para conter seu próprio impulso desmedido, asiático e terrível. A beleza e a lógica foram conquistadas, não dadas.
  • A oposição final em Nietzsche é entre Dioniso e o “Crucificado” (o cristianismo): o deus na cruz é uma maldição sobre a vida, enquanto Dioniso despedaçado é uma promessa de eterno renascimento e retorno da vida. As quatro interpretações mencionadas são formas enfraquecidas, literárias e desprovidas da profundidade original do antagonismo nietzschiano.

c) O profundo tédio como a disposição fundamental oculta das interpretações da filosofia da cultura de nossa situação

As interpretações da filosofia da cultura (diagnósticos e prognósticos), que se baseiam na oposição vida-espírito, não nos atingem nem nos comovem de fato. Ao contrário, atribuem-nos um papel na história mundial, nos isentam (entbinden) de nós mesmos e nos distraem. Elas são uma forma de sensação, uma pseudo-tranquilização e uma fuga da própria situação. O filósofo da cultura não chega a nos tocar, mas nos representa de fora, como objetos de um diagnóstico. Essa atitude é típica da filosofia da cultura, que permanece na superfície da representação e não alcança o ser-aí (Dasein).

  • A pergunta não deve ser “onde estamos?”, mas “como estamos?”. A existência dessas interpretações culturais já revela algo fundamental sobre nossa situação: que precisamos de um papel para nós mesmos, porque nos tornamos indiferentes a nós mesmos, porque nós mesmos nos tornamos enfadonhos. A necessidade de um papel na história mundial indica que não encontramos mais nenhuma significação essencial em nosso próprio ser.
  • A questão decisiva, então, é se não é uma profunda Langeweile (tédio) que, como uma névoa silenciosa, se agita nos abismos do ser-aí. Essa profunda Langeweile, que talvez ninguém conheça imediatamente, é a disposição fundamental oculta que precisa ser despertada.
  • O despertar dessa disposição não pode ser uma constatação ou uma representação. A ambiguidade (Zweideutigkeit) do filosofar agora se torna mais aguda, pois tudo o que se diz parece ser uma representação da situação. No entanto, a ambiguidade é inerente ao filosofar e não pode ser eliminada. O verdadeiro início não está em teorizar sobre a situação, mas em permitir que a disposição fundamental se manifeste.
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