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§5. A INTENCIONALIDADE

1. A intencionalidade constitui o fenômeno que mais provoca estranhamento na filosofia contemporânea e o principal obstáculo a uma recepção imparcial do projeto fenomenológico, tendo sido originalmente discernida por Brentano como a estrutura constitutiva do fenômeno psíquico e critério de distinção entre fenômenos psíquicos e físicos, herança reconhecida por ele mesmo como proveniente de Aristóteles e da Escolástica, da qual Husserl aprendeu a ver a intencionalidade.

2. A legitimidade de se falar em uma descoberta da intencionalidade pela fenomenologia, e não em mera apropriação de Brentano, reside na distância entre o reconhecimento rudimentar de uma estrutura e sua elaboração temática rigorosa, distinção explicitada em citação do próprio Husserl sobre o passo decisivo jamais dado por Brentano.

3. Na literatura filosófica corrente, a intencionalidade é desqualificada como conceito de origem escolástica, obscuro e dogmático, herdado acriticamente de Brentano por Husserl, o que tornaria a fenomenologia inteira comprometida com pressupostos metafísicos incompatíveis com a apreensão imediata dos dados, posição exemplificada por Heinrich Rickert em citação segundo a qual o conceito de intencionalidade impede seus adeptos de ver imparcialmente o que está diante de seus olhos, crítica também presente na introdução de Oskar Kraus à Psicologia de Brentano e compartilhada pela Escola de Marburgo.

4. A rejeição dessas opiniões correntes não visa preservar a originalidade de Husserl frente a Brentano, mas evitar que caracterizações apressadas obstruam de antemão os passos elementares necessários à compreensão da fenomenologia.

** a) A intencionalidade como estrutura das vivências: exposição e elucidação inicial **

5. A intencionalidade deve ser mostrada como estrutura das próprias vivências enquanto tais, e não como uma coordenação acrescentada a estados psíquicos em relação a outras realidades, sendo necessário afastar o preconceito de que as coisas mesmas devam ser apreendidas de um só golpe, pois o caminho até elas é longo e exige a prévia remoção dos preconceitos que as obscurecem.

6. Intentio significa literalmente direcionar-se-para, e toda vivência, todo comportamento psíquico, dirige-se a algo: representar é representar algo, recordar é recordar algo, julgar é julgar sobre algo, presumir, esperar, amar, odiar são sempre direcionamentos a algo, trivialidade cujo sentido fenomenológico ainda precisa ser extraído.

7. As considerações seguintes não exigem talento especial, mas sim o abandono de preconceitos e o exercício de ver direta e simplesmente, atendo-se ao que se vê sem indagar de antemão sua utilidade, tarefa árdua porque o elemento próprio da existência humana é o artificioso e o falacioso.

8. A percepção natural de uma cadeira encontrada ao entrar numa sala, e afastada por estar no caminho, serve de caso exemplar de comportamento psíquico, escolhido por representar a percepção cotidiana mais comum e não uma observação em sentido enfático, pois a percepção natural, tal como vivida no trato com o mundo circundante, não é observação desinteressada, mas absorção prática nas coisas.

9. Uma interpretação grosseira descreve a percepção da cadeira como um evento psíquico interno ao qual corresponderia uma coisa física externa, coordenação que se revela dispensável diante de casos de ilusão e alucinação.

  • a alucinação de um automóvel sendo conduzido pela sala evidencia um processo psíquico de percepção sem objeto real correspondente;
  • a percepção enganosa de um homem que, ao se aproximar na floresta escura, revela-se uma árvore, mostra igualmente a ausência do objeto supostamente percebido;
  • diante desses fatos, conclui-se apressadamente que nem toda percepção é percepção de algo, e que mesmo quando há objeto correspondente, afirmar um acesso a uma realidade além da consciência seria dogmatismo.

10. Desde Descartes sustenta-se, por toda filosofia crítica, que apenas se apreendem conteúdos de consciência, de modo que a aplicação do conceito de intencionalidade à percepção implicaria uma dupla pressuposição metafísica — a saída do psíquico rumo ao físico, proibida por Descartes, e a correspondência necessária entre processo psíquico e objeto real, contestada pelos fatos da alucinação e do engano —, sendo esta a base da acusação de Rickert contra a intencionalidade, ainda que tal interpretação esteja inteiramente equivocada quanto ao que a fenomenologia efetivamente designa por esse termo.

11. Reexaminando a alucinação, nota-se que ela permanece, em si mesma, um presumido perceber de um automóvel, um direcionar-se-para o presumivelmente percebido, de modo que o engano enquanto tal já é um direcionar-se-para, mesmo sem objeto real correspondente.

12. A intencionalidade não é propriedade que sobrevenha à percepção apenas quando há correspondência real, mas constitui intrinsecamente a percepção correta ou enganosa, sendo precisamente por a percepção enquanto tal já ser um direcionar-se-para algo que se tornam possíveis o engano perceptivo e a alucinação.

13. Uma vez postas de lado as pressuposições epistemológicas, evidencia-se que todo comportamento é, em sua própria estrutura, um direcionar-se-para, não sendo o caso de um processo psíquico neutro tornar-se intencional apenas em certas ocasiões, e sim de o próprio ser do comportar-se consistir em direcionar-se-para, primeira determinação ainda vazia mas suficiente para afastar os preconceitos metafísicos.

** b) O mal-entendido de Rickert sobre a fenomenologia e a intencionalidade **

14. Tanto na recepção da intencionalidade quanto na interpretação de Brentano, viu-se sobretudo dogma metafísico onde deveria ver-se a exposição da estrutura da vivência, sendo o mérito decisivo de Husserl ter atentado ao fenômeno mesmo do perceber como direcionar-se-para, estrutura que Rickert, todavia, reserva apenas ao juízo e nega à representação, por considerá-la aprisionada ao dogma cartesiano de que representar não alcança transcendência alguma, ao passo que a transcendência do juízo, cujo objeto seria um valor, lhe pareceria menos problemática por identificada ao imanente da própria consciência.

15. Não interessa demonstrar contradições no pensamento de Rickert, mas evidenciar que ele reivindica a intencionalidade quando esta convém à sua teoria e a descarta quando a contraria, revelando ausência do requisito mais elementar da fenomenologia, a saber, o reconhecimento dos fatos tal como se dão, falha exemplificada em sua teoria do conhecimento e do juízo derivada de Brentano.

16. Rickert toma de Brentano a definição do juízo como reconhecimento, e sustenta que julgar envolve um comportamento prático de aprovação ou reprovação de representações, análogo ao querer e ao sentir, chegando à tese de que o objeto do conhecimento é um valor, ainda que, ao perceber uma cadeira e afirmar que ela tem quatro pernas, não se encontre estrutura alguma de reconhecimento de valor, mas apenas direcionamento à própria cadeira dada.

  • citação de Rickert: visto que o que vale para o juízo deve também valer para o conhecer, segue-se do parentesco do juízo com o querer e o sentir que também no puro conhecer teórico está em jogo um posicionamento frente a um valor, sendo apenas em relação a valores que a alternativa de aprovar e desaprovar faz sentido.

17. O reconhecimento não se impõe a representações preexistentes, pois representar já é, em si mesmo, direcionar-se-para, fornecendo o sobre-o-quê potencial do julgar, de modo que a afirmação do juízo se funda na representação, havendo uma conexão intencional entre representar e julgar que Rickert não percebeu, incorrendo assim na mitologia de um juízo acrescentado à parte à representação.

18. A teoria de Rickert não resulta do estudo das coisas mesmas, mas de uma dedução infundada e carregada de pressupostos dogmáticos, restando dele apenas o vestígio tomado de Brentano quanto à distinção entre comportamento impassível e interessado, ainda que Rickert negue explicitamente reconhecer nessa distinção a mesma relação de consciência aos objetos estabelecida por Brentano entre representação e juízo, por considerá-la excessivamente carregada de pressupostos.

  • citação: caracterizar o juízo como comportamento distinto da representação não significa, como em Brentano, ver nele outro tipo de relação da consciência com seus objetos, afirmação tida por demasiado presuntiva.

19. Investiga-se a que gênero de processos psíquicos pertence o juízo completo, quando se distingue de modo geral os estados em que nos comportamos de modo impassível e contemplativo daqueles em que tomamos interesse pelo conteúdo da consciência como conteúdo de valor, pretendendo-se apenas estabelecer um fato que nem sequer uma teoria puramente sensualista poderia contestar.

  • citação de Rickert reproduzindo, sem reconhecê-lo, exatamente a posição de Brentano sobre a subdivisão do gênero dos processos psíquicos segundo o modo do comportamento, impassível ou interessado.

20. A prova de que Rickert reivindica inadvertidamente a intencionalidade brentaniana está em seu uso contraditório do conceito de representação, ora como comportamento representacional direto, ora, ao refutar o idealismo da representação, como representação do representado enquanto conteúdo mítico de consciência necessário para se alcançar uma realidade independente do sujeito cognoscente.

  • citação: um conhecer que representa necessita de uma realidade independente do sujeito cognoscente, porque com representações somente se pode apreender algo independente do sujeito cognoscente na medida em que sejam imagens ou signos de uma realidade.

21. Permanece em aberto por que Rickert não aplica ao conceito de representação o mesmo rigor descritivo empregado na definição do juízo, questão respondida pela constatação de que ele está previamente guiado pela tese de que conhecer não pode ser representar, sob pena de tornar supérflua ou equivocada sua própria teoria do valor.

22. Rickert é impedido de ver o caráter cognitivo primário da representação por pressupor um conceito mítico de representar, oriundo da filosofia da ciência natural, segundo o qual as representações seriam representadas, quando, na percepção simples, não se representa uma representação, mas simplesmente se vê a coisa mesma — a cadeira, a mesa de trabalho evocada pelo pensamento, o próprio passeio de barco recordado —, evidência primitiva desconsiderada em favor de uma teoria construída para justificar a filosofia dos valores.

23. A cegueira diante da intencionalidade decorre do pressuposto equivocado de estar em jogo uma teoria da relação entre físico e psíquico, quando na verdade se exibe simplesmente uma estrutura do próprio psíquico, devendo-se assegurar a estrutura dos comportamentos sem qualquer dogma epistemológico, tarefa que revelará, mesmo dentro da fenomenologia, pressupostos ainda não esclarecidos sobre a intencionalidade.

24. No trato dos comportamentos, é necessário manter o olhar fixo unicamente sobre a estrutura do direcionar-se-para neles presente, colocando entre parênteses toda teoria sobre o psíquico, a consciência ou a pessoa.

** c) A constituição fundamental da intencionalidade enquanto tal **

25. O que se apreendeu até aqui sobre a intencionalidade permanece formalmente vazio, exigindo-se doravante o exame livre de sua coerência estrutural, sem pano de fundo de teorias realistas ou idealistas da consciência, de modo a compreender que também as relações entre comportamentos e entre vivências possuem caráter intencional, definindo o conceito de ato não como atividade ou processo, mas como relação intencional.

26. A aparente vacuidade tautológica da tese fenomenológica da intencionalidade, apontada por Wundt como redutível à proposição A = A, será dissolvida ao se manter fixa a primeira descoberta de que a intencionalidade é estrutura das vivências, o que já indica o modo correto de proceder para ver essa estrutura e constituição.

** α) O percebido do perceber: o ente em si mesmo (coisa ambiente, coisa natural, coisidade) **

27. Ao caracterizar a intencionalidade como estrutura do comportamento e não como relação objetiva ocasional entre físico e psíquico, torna-se necessário examinar sua constituição fundamental, voltando-se não para o direcionar-se em si, mas para o em-direção-a-que, isto é, para o percebido enquanto percebido nesta percepção.

28. Sem preconceitos, o que se percebe é a própria cadeira, sem imagens ou sensações interpostas, sendo possível descrevê-la em sua história particular e trivial — a cadeira de mesa da Sala 24 da Universidade de Marburgo, de fabricação industrial e um tanto gasta —, sendo esse percebido designado coisa do mundo circundante, ou coisa ambiente.

29. É possível ainda descrever a cadeira quanto ao seu peso, cor, altura, deslocabilidade, combustibilidade e divisibilidade em pedaços, determinações que já não a definem enquanto cadeira, mas enquanto coisa da natureza, coisa natural, distinção entre coisa natural e coisa ambiente exemplificada pela diferença entre a rosa enquanto flor e a rosa enquanto planta.

30. O percebido em si mesmo é simultaneamente coisa ambiente e coisa natural, surgindo a dificuldade de compreender a relação entre essas duas estruturas coisais de um mesmo ente, evidenciando-se que a dureza como característica material se apresenta primeiramente sob a caracterização ambiental de desconforto, e não como algo inferido a partir dela.

31. É possível ainda descobrir, na coisa natural, a materialidade e a extensão que lhe pertencem, o fato de que todo extenso é colorido e toda cor possui extensão, e a mobilidade local do material e extenso, determinações que constituem a coisidade enquanto tal, estruturas legíveis a partir do próprio dado.

32. Nos três casos considerados trata-se do ente percebido em si mesmo, tal como pode ser encontrado por um simples tomar conhecimento, entendido em sentido amplo e não como mera sensação óptica.

33. Contra a interpretação epistemológica e psicológica corrente, segundo a qual em primeira instância haveria apenas sensações de cor às quais se acrescentariam outros elementos, reivindica-se a pura ingenuidade que vê imediatamente a cadeira mesma, incluindo nesse ver simples as correlações estruturais da coisidade, que não são invenções nem construções, mas estruturas passíveis de serem lidas no próprio dado.

** β) O percebido do perceber: o como do ser-intencionado (a percebidade do ente, o caráter de estar-corporalmente-aí) **

34. O percebido em sentido estrito, para a fenomenologia, não é o ente percebido em si mesmo, mas o ente enquanto percebido, isto é, a percebidade, o modo e a maneira como a cadeira se dá na percepção concreta, distinta da estrutura de sua representação.

35. O ser-percebido e a estrutura da percebidade não pertencem à cadeira enquanto cadeira, mas ao percebimento enquanto tal, isto é, à intencionalidade, distinguindo-se assim entre o ente em si mesmo — coisa ambiente, coisa natural, coisidade — e o ente no modo de seu ser-intencionado — seu ser-percebido, ser-representado, ser-julgado, ser-amado, ser-odiado.

36. Independentemente de teorias, deve-se buscar o percebido enquanto tal não na cadeira intencionada em si, mas no como de seu ser-intencionado, mostrando-se aí o traço da corporeidade, pois o ente percebido dá-se como ele mesmo em sua presença corporal.

37. Ao envisar a ponte de Weidenhausen, esta é dada ela mesma sem, contudo, ser dada corporalmente, distinção esclarecida frente ao intencionar vazio.

  • a corporeidade constitui um modo superlativo da autodoação de um ente;
  • o dado ele mesmo não precisa ser corporalmente dado, mas o corporalmente dado é sempre dado ele mesmo.

38. O intencionar vazio é o modo de representar algo ao modo de simplesmente pensar nele ou recordá-lo, como em uma conversa sobre a ponte, na qual o intencionado é intencionado direta e simplesmente, porém de modo vazio, isto é, sem cumprimento intuitivo, distinguindo-se do envisar intuitivo, que dá o ente ele mesmo sem, contudo, dá-lo corporalmente.

39. A distinção entre intencionar vazio e representação intuitiva aplica-se não só à percepção sensível mas a todos os atos, exemplificada pela proposição 1 + 2 é 2 + 1, que pode ser repetida cegamente ou realizada com insight, mediante um envisar originário no qual cada passo se cumpre nas próprias determinações intencionadas, sendo esse modo intuitivo, todavia, raramente exercido em favor de um pensar abreviado e cego.

40. A percepção de uma imagem, exemplificada pelo cartão-postal da ponte de Weidenhausen, apresenta estrutura totalmente distinta da percepção simples, pois nela o corporalmente dado é a própria coisa-imagem, através da qual se vê o retratado, sem apreensão temática da coisa-imagem enquanto tal.

  • é preciso rejeitar com veemência a tentativa de tomar a apreensão de imagem como paradigma para esclarecer toda percepção de objeto, como se, ao ver uma casa, primeiro se percebesse internamente uma imagem que depois se apreenderia como retratando a casa transcendente;
  • tal transposição não corresponde aos achados fenomenológicos simples e conduz ainda a uma dificuldade adicional, pois, se todo conhecimento fosse apreensão de uma imagem-objeto como retrato imanente de uma coisa transcendente, seria necessária outra coisa-imagem para retratar essa imagem imanente, e assim ao infinito;
  • a razão decisiva para rejeitar essa transposição não é o regresso ao infinito, mas o fato de contrariar frontalmente todo achado fenomenológico: trata-se de uma teoria sem fenomenologia.

41. Reafirma-se que o momento autêntico da percebidade do percebido é sua presença corporal na percepção, à qual se soma o momento de que a coisa percebida é sempre presumida em sua totalidade coisal, ainda que apenas um lado ou aspecto seja efetivamente visto a cada momento, sem que isso implique tomar a coisa por incompleta.

  • ao circundar um armário, os aspectos mudam continuamente, mas a mesmidade corporal do percebido persiste através das sucessivas adumbrações;
  • não é a adumbração que se intenciona, mas a coisa percebida mesma, sempre em uma adumbração, permanecendo a mesmidade do percebido ao longo da multiplicidade de percepções.

42. Também a coisa-imagem, na consciência de imagem, é percebida sempre em um aspecto, podendo ser tomada, sem completar-se enquanto imagem, como mera coisa ambiental por quem não a apreende enquanto retrato, como no caso do carteiro que toma o cartão-postal apenas como correspondência, sendo a tendência natural da percepção, contudo, apreender diretamente o retratado, e não isolar tematicamente os traços e manchas do desenho, o que exigiria uma modificação do olhar natural.

** γ) Indicação inicial do modo fundamental da intencionalidade como pertencimento mútuo entre intentio e intentum **

43. Dentro dessa multiplicidade de modos de representação existe uma interrelação estrutural específica, podendo o intencionar vazio ser cumprido intuitivamente pelo envisar, o qual, por sua vez, jamais é capaz de dar a coisa mesma em sua doação corporal, sendo a percepção o caso superlativo de cumprimento intencional, regido por leis específicas próprias a cada tipo de ato — a percepção só se cumpre por percepção, a lembrança nunca por expectativa, mas por um envisar rememorante ou pela percepção.

44. É possível complicar essas conexões de cumprimento recorrendo a uma cópia colocada ao lado do original, estabelecendo-se uma continuidade estrutural entre cópia, retrato original e modelo, de modo que, para comprovar a autenticidade da cópia, não se recorre ao modelo, mas ao próprio retrato original enquanto imagem do modelo; essas estruturas de comprovação percorrem todos os atos de apreensão, mostrando-se o percebido em sua percebidade, o consciente-como-imagem em sua pictorialidade, o simplesmente envisado em seu modo de envisar e o vazio-intencionado em seu modo de intencionar vazio.

45. Essas continuidades estruturais e níveis de cumprimento, comprovação e verificação, mais facilmente visíveis no campo da representação intuitiva, encontram-se sem exceção em todos os atos, inclusive no âmbito do comportamento teórico puro, da determinação e da fala, sendo sua consideração condição indispensável para a elaboração científica de uma fenomenologia genuína da formação de conceitos, sem a qual toda lógica permanece diletantismo ou construção.

46. Estabelece-se assim uma afinidade inerente entre o modo como algo é intencionado, a intentio, e o intentum, entendido não como o ente percebido, mas como o ente no como de seu ser-percebido, constituição básica da intencionalidade que só provisoriamente se torna visível mediante o pertencimento do como do ser-intencionado a toda intentio, correlação também designável, na terminologia fenomenológica, pelos termos noese e noema, derivados do grego noeîn, perceber ou apreender simplesmente.

47. A diferença entre essa análise e a de Brentano reside em que este viu apenas a intentio, a noese, e a diversidade de seus modos, mas não o noema, o intentum, permanecendo incerto quanto ao chamado objeto intencional, ora tomado como o próprio ente em seu ser, ora como o como de sua apreensão indiferenciado do ente, sem jamais destacar propriamente o como do ser-intencionado nem a intencionalidade como totalidade estrutural.

  • a intencionalidade em Brentano identifica-se assim com o próprio psíquico, cujo caráter permaneceu indeterminado, herdado da tradição cartesiana do imanentemente perceptível;
  • fase ainda não superada pela fenomenologia, que continua a tomar a intencionalidade simplesmente como estrutura da consciência, dos atos ou da pessoa, realidades também assumidas de modo tradicional;
  • Husserl e Scheler buscam superar essa restrição psíquica em direções distintas, concebendo a intencionalidade, respectivamente, como estrutura universal da razão e como estrutura do espírito ou da pessoa, ambas diferenciadas do psíquico, sem que tais concepções superem verdadeiramente o enfoque tradicional subjacente.

48. Não é a intencionalidade enquanto tal que é metafisicamente dogmática, mas o que se constrói sob sua estrutura ou nela se deixa por uma tendência tradicional a não questionar aquilo de que ela é estrutura, devendo a regra metodológica limitar-se ao que se mostra, por mais escasso que seja, de modo a permitir ver, através da própria intencionalidade, aquilo de que ela é estrutura e como o é.

  • a intencionalidade não constitui explicação última do psíquico, mas via inicial de superação da aplicação acrítica de realidades tradicionalmente definidas, como o psíquico, a consciência, a continuidade da vivência e a razão;
  • intencionalidade é, por isso, a última palavra a ser usada como slogan fenomenológico, identificando antes aquilo cuja revelação permitiria à fenomenologia encontrar-se em suas próprias possibilidades;
  • permanece obscuro o pertencimento do intentum à intentio e o modo como o ser-intencionado de um ente se relaciona a esse ente, questão só passível de avanço mediante o seguimento concreto da intencionalidade, tarefa reservada ao esclarecimento da segunda descoberta da fenomenologia, a intuição categorial.
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