Action unknown: copypageplugin__copy
obra:ga20:26

§26. O ‘QUEM’

§26. O ‘quem’ do ser-em-o-mundo

1. Tenta-se agora apreender o fenômeno básico do Dasein como ser-em-o-mundo em uma segunda direção, sendo necessário definir mais precisamente esse ente que tem o modo de ser de ser-em-o-mundo, formulação que, contudo, em certo sentido afasta de uma consideração rigorosa do fenômeno do Dasein, o que se torna evidente ao lembrar que esse ente chamado Dasein tem sua determinação-quê em seu sê-lo, não sendo um quê específico que ademais teria seu modo de ser, mas sendo precisamente o seu ser aquilo que o Dasein é.

2. A expressão o ente que tem o modo de ser do Dasein não pode significar que esse ente seja algo como uma coisa subsistente no mundo, primeiramente especificável em seu quê e que, com base nesse conteúdo-quê, teria também um modo de ser específico, tal como uma coisa, cadeira ou mesa, sendo por isso essa expressão, que sempre sugere algo da ordem da substancialidade de uma coisa, basicamente inadequada.

3. O Dasein, designado mais apropriadamente por uma pura expressão de ser, é o ente que eu mesmo sou a cada vez, pertencendo a esse ser chamado Dasein a particularidade temporal de um eu que é esse ser, de modo que, ao indagar sobre esse ente, deve-se perguntar quem é esse ente, e não o que é esse ente, tratando-se de definir o quem desse ser, evitando-se assim, ao menos terminologicamente, o perigo de entendê-lo como uma coisa subsistente.

  • a palavra eu, no sentido em que primeiramente e de modo mediano a compreendemos, permanece com isso indefinida;
  • quanto mais aberta se deixa essa palavra, sem relacioná-la diretamente a um sujeito e afins, menos onerado permanece o termo e maior a oportunidade de fixá-lo mais rigorosamente a partir dos próprios fenômenos;
  • a resposta à questão do quem desse ente, que nós mesmos em cada caso somos, é Dasein.

** a) O Dasein como ser-com — o ser dos outros como co-Dasein (crítica da temática da empatia) **

4. Na análise precedente da constituição básica do Dasein como ser-em-o-mundo, tematizou-se o mundo como o em-que do Dasein em seu sentido específico de ser-em, sem que se tenha destacado todos os fenômenos aí manifestados, tendo surgido, na explicitação do mundo circundante do artesão, o fenômeno do mundo público.

  • na obra de que se cuida, bem como no material empregado e na ferramenta manual utilizada, há outros, para quem a obra é, por quem a ferramenta por sua vez é produzida, aí-com o artesão;
  • no mundo da ocupação, encontram-se outros, sendo o encontro um ser-aí-com, não um ser-subsistente, sem que se tenha até então considerado esses outros quanto ao seu modo de ser nem a maneira de seu encontro.

5. Falou-se ainda do ambiente público em contraste com o próprio, e do limite fluido entre o ser-em-o-mundo público e o próprio, sendo o mundo circundante não apenas meu, mas também dos outros, vindo novamente à luz o fenômeno dos outros sem que se o tenha destacado mais nitidamente, restrição violenta na análise do mundo que, contudo, é exigida pelo próprio tema, como se tornará depois evidente.

6. Não se considerou antes os outros e seu ser, mas tampouco se assumiu como ponto de partida da análise que primeiro eu estivesse sozinho no mundo, ou que primeiro apenas o eu fosse dado sem mundo, não havendo, com a rejeição dessa abordagem e o desvelamento do ser-em-o-mundo, qualquer questão de isolamento do eu, nem, portanto, de um eu estou sozinho em um mundo.

  • já a formulação primeiro estou em um mundo seria essencialmente mais apropriada do que primeiro existe um sujeito nu sem mundo;
  • mas também é falsa a formulação primeiro um eu é dado com meu ser-em-o-mundo;
  • sempre se falou de ocupação como absorção ocupada cotidiana e proximal no mundo, em que o outro está aí comigo, sem falar de um sujeito e eu que se contrapõem a um objeto ou não-eu, sendo essa indeterminação do quem do Dasein e a falta de destaque dos outros metodologicamente deliberada, exigida pela composição fenomenal básica do Dasein cotidiano.

7. Essa indeterminação do quem e o não-destaque dos outros no mundo circundante para o ser do Dasein significam apenas isto: como ser-em-o-mundo, o Dasein é ao mesmo tempo ser-uns-com-os-outros, mais rigorosamente, ser-com, afirmação fenomenológica de sentido existencial-ontológico que não pretende estabelecer que de fato não se esteja sozinho e que outros entes de minha espécie estejam subsistentes.

  • se fosse essa a intenção da estipulação, estar-se-ia falando do próprio Dasein como se fosse uma coisa ambiental subsistente;
  • o ser-com seria antes algo que o Dasein teria ocasionalmente apenas porque outros por acaso estão subsistentes, sendo o Dasein ser-com apenas porque outros de fato aparecem.

8. O ser-com significa um caráter de ser do Dasein enquanto tal, co-originário com o ser-em-o-mundo, e é a condição formal de possibilidade da co-revelação do Dasein dos outros para o Dasein que em cada caso é o próprio, definindo esse caráter de ser-com o Dasein mesmo quando outro Dasein não está de fato sendo interpelado nem pode ser percebido como subsistente.

  • mesmo o estar-sozinho do Dasein é um ser-com no mundo, sendo o estar-sozinho apenas uma deficiência do ser-com — o outro está ausente —, o que remete diretamente ao caráter positivo do ser-com;
  • a ausência do outro só é possível na medida em que meu próprio Dasein é ele mesmo ser-com, constituindo essa ausência uma modificação do ser do meu próprio Dasein e, como tal, um modo positivo de meu ser; apenas como ser-com pode o Dasein estar sozinho;
  • por outro lado, o estar-sozinho do Dasein não é eliminado colocando-se ao seu lado um segundo espécime da espécie homem, ou mesmo dez outros, podendo o Dasein estar sozinho mesmo quando dez ou mais estão subsistentes, uma vez que o ser-uns-com-os-outros não se baseia em ter espécimes semelhantes de coisas-sujeito subsistentes em conjunto.

9. Esse co-Dasein dos outros bem na cotidianidade é característico do ser-em como absorção ocupada no mundo, estando os outros aí comigo no mundo da ocupação, no qual todos habitam, mesmo quando não são corporalmente percebidos como subsistentes, pois, se os outros fossem encontrados apenas como coisas, talvez não estivessem realmente aí, sendo, ainda assim, seu estar-aí-com no mundo circundante inteiramente imediato, inconspícuo, óbvio, semelhante ao caráter de presença das coisas do mundo.

10. A ferramenta que utilizo foi comprada por alguém, o livro é presente de…, o guarda-chuva foi esquecido por alguém, não sendo a mesa de jantar em casa um tampo redondo sobre um suporte, mas um móvel em um lugar particular, que por sua vez tem seus lugares particulares nos quais determinados outros se sentam todo dia, apresentando-me o lugar vazio diretamente o co-Dasein em termos da ausência dos outros.

11. O que é providenciado na ocupação cotidiana pode estar presente no cuidado de tal modo que aparece como algo destinado a ser útil aos outros, excitá-los, sobrepujá-los, estando em alguma relação com os outros, na maior parte das vezes sem consciência explícita disso, estando os outros aí conosco por toda parte naquilo com que nos ocupamos e diretamente nas próprias coisas do mundo, especificamente aqueles outros com quem se está cada dia.

12. Mesmo na absorção no mundo, o Dasein não renega a si mesmo como ser-com, sob o qual se apreendem tanto meu ser-com com os outros quanto o co-Dasein dos outros comigo, não sendo esse ser-uns-com-os-outros um resultado aditivo da ocorrência de vários outros, nem um epifenômeno de uma multiplicidade de Daseins, algo suplementar que sobreviria apenas em virtude de certo número.

  • é antes porque o Dasein, como ser-em-o-mundo, é de si mesmo ser-com que há algo como um ser-uns-com-os-outros;
  • esse ser dos outros, encontrados junto com as coisas ambientais, não é, apesar disso, um ser à mão e subsistente pertencente às coisas ambientais, mas um co-Dasein, demonstrando isso que, mesmo em um encontro mundano, o Dasein encontrado não se torna coisa, mas retém seu caráter de Dasein e ainda assim é encontrado por meio do mundo;
  • há aqui uma nota dissonante em relação ao que se disse antes: trata-se de um encontro mundano de algo cujo modo de ser não pode ser tomado nem como ser à mão nem como ser subsistente, indicando isso que a estrutura da mundaneidade é mais do que a análise anterior forneceu, envolvendo não apenas a apresentação de coisas ambientais, podendo um mundo também apresentar Dasein, tanto o dos outros quanto o próprio.

13. Os outros podem ser encontrados ambientalmente: o campo mal cultivado ao longo do qual caminho apresenta seu proprietário ou arrendatário; o veleiro ancorado apresenta alguém em particular, aquele que faz seus passeios nele, tendo esse encontro, contudo, estrutura de apresentação distinta.

  • esses outros não estão no contexto referencial do mundo circundante, mas são encontrados naquilo com que têm a ver, no com-que de sua ocupação (campo, barco), como os que se ocupam dele, sendo encontrados tal como são em seu ser-em-o-mundo, não como ocorrências casuais, mas como os que cultivam o campo ou navegam o barco;
  • estão aí em seu ser-em-o-mundo, e na medida em que estão aí para mim desse modo, estão aí comigo, eu mesmo que tenho esse ser de ser-em-o-mundo, estando aí comigo no único mundo.

14. Os contextos referenciais destacados anteriormente sempre apresentam algo ambiental, mas o mundo circundante pode agora, por sua vez, enquanto mundo particular, apresentar simultaneamente um ente intimamente envolvido com ele, o Dasein, não sendo necessário para tal apresentação que os outros estejam pessoalmente próximos, por assim dizer.

  • mesmo quando os outros são encontrados pessoalmente ou, como aqui mais apropriadamente se pode dizer, em carne, em sua presença corporal, esse ser dos outros não é o do sujeito ou da pessoa no sentido em que isso é tomado conceitualmente em filosofia;
  • encontro o outro no campo, no trabalho, na rua a caminho do trabalho ou passeando sem nada a fazer — sempre em uma ocupação ou não-ocupação segundo seu ser-em —, sendo ele apresentado em seu co-Dasein por seu mundo ou por nosso ambiente comum;
  • a distinção entre um encontro pessoal e a ausência do outro se dá com base nesse encontro ambiental de uns com os outros, esse ser-uns-com-os-outros ambientalmente apresentado, um ocupar-se ambiental e mundano uns com os outros, tendo a ver uns com os outros no único mundo, dependendo uns dos outros.

15. A mais cotidiana das atividades, passar e evitar-se uns aos outros na rua, já envolve esse encontro ambiental, com base nessa rua comum a nós, só fazendo sentido evitar-se para um ente que está uns-com-os-outros, para um ser-em-o-mundo orientado e ocupado, sendo o evitar-se apenas um fenômeno de estar ocupado uns com os outros, um fenômeno cotidiano levado ao extremo, que na maior parte das vezes é um cuidar de e com os outros no não ter nada a ver uns com os outros.

16. O homem mais estranho que encontramos está comigo em meu mundo e é experienciado como tal ao evitarmo-nos e passarmos uns pelos outros; uma pedra ou tijolo que cai do telhado, estritamente falando, não passa por uma janela, não sendo esse modo cotidiano e abrangente de ser-uns-com-os-outros, o de não ter nada a ver uns com os outros, um nada, mas uma modificação específica, uma privação do ser-com como ser-dependente-uns-dos-outros.

  • é apenas na medida em que o Dasein, como ser-em-o-mundo, tem a constituição básica do ser-com que há um ser-para e -contra e -sem-uns-aos-outros, até mesmo o indiferente caminhar-ao-lado-uns-dos-outros.

17. Importa esclarecer perfeitamente essa composição fenomenal básica do ser-uns-com-os-outros, devendo esse fenômeno, apesar de todos os preconceitos anteriores da filosofia e todas as tentativas usuais de explicá-lo e deduzi-lo, ser trazido a uma doação não adulterada, o que é possível já que a constituição básica do Dasein como ser-em-o-mundo está desde o início diante de nós.

  • para compreender não apenas esse caráter de ser-com, mas também os caracteres seguintes, deve-se ter em mente desde o início que todos esses fenômenos, ainda que tratados aqui em sequência, não se derivam uns dos outros segundo sua estrutura de ser, mas são co-originários entre si;
  • todos os demais caracteres só se tornam compreensíveis a partir da constituição básica do ser-em, sem, contudo, surgirem primeiro no curso do ser Dasein ou em algum outro desenvolvimento do Dasein.

18. O ser-uns-com-os-outros, que reúne a estrutura de ser do meu próprio Dasein temporalmente particular como ser-com e o modo de ser dos outros como co-Dasein, deve ser compreendido a partir dessa constituição básica do ser-em-o-mundo, devendo-se notar que o tipo mais próximo de encontro com outro se dá na direção do próprio mundo no qual a ocupação está absorvida.

  • o procedimento não consiste em estabelecer algum conceito de homem e depois sustentar, por presumivelmente ter o homem de ser um ser social, que a estrutura do ser-com pertence ao Dasein;
  • torna-se antes evidente, a partir do estado fenomenal da cotidianidade do próprio Dasein, que não apenas os outros, mas notavelmente um-si-mesmo está aí naquilo de que cotidianamente se cuida.

19. Esse ser-uns-com-os-outros é agora determinado por todos os caracteres antes apontados em relação ao ser-em, isto é, mesmo o mais indiferente ser-uns-com-os-outros segundo linhas de direcionamento mútuo (por exemplo, na orientação espacial) só é compreensível se ser-uns-com-os-outros significar ser-uns-com-os-outros em um mundo, sendo essa a base sobre a qual esse ser-uns-com-os-outros, que pode ser indiferente e inconsciente para o indivíduo, pode desenvolver as várias possibilidades tanto de comunidade quanto de sociedade, estruturas superiores que aqui não podem ser perseguidas em maior detalhe.

20. Deve-se ter em mente que a mundaneidade do mundo apresenta não apenas coisas do mundo — o mundo circundante em sentido estrito —, mas também, embora não como ser mundano, o co-Dasein dos outros e o próprio si-mesmo, o que significa que um encontro mundano de algo ainda não decide por si mesmo sobre o tipo de ser daquilo que é encontrado, podendo isso ser apresentado como ser à mão, ser subsistente, co-Dasein ou Dasein-próprio.

  • não se pode negar fenomenalmente o achado de que o co-Dasein — o Dasein dos outros — e o próprio Dasein são encontrados por meio do mundo;
  • com base nesse encontro mundano dos outros, eles podem ser distinguidos das coisas do mundo em seu ser subsistente e ser à mão no mundo circundante e demarcados como um mundo-com, ao passo que o próprio Dasein, na medida em que é encontrado ambientalmente, poderia ser tomado como o mundo-próprio, tal como se via nos cursos anteriores, com os termos então cunhados;
  • essa questão é, contudo, basicamente falsa, mostrando a terminologia que os fenômenos não são adequadamente apreendidos desse modo, pois os outros, embora encontrados no mundo, não têm nem nunca tiveram o tipo de ser do mundo, não podendo por isso ser designados como um mundo-com;
  • a possibilidade do encontro mundano do Dasein e do co-Dasein é, de fato, constitutiva do ser-em-o-mundo do Dasein e de todo outro, mas nunca se torna, com isso, algo mundano, estando as coisas invertidas sempre que se acrescenta a qualificação com ao fenômeno mundo e se fala de um mundo-com, razão pela qual se emprega desde o início o termo ser-com;
  • o mundo mesmo, por contraste, nunca está aí conosco, nunca é Dasein-com, co-Dasein; é aquilo em que o Dasein a cada vez está enquanto ocupação, sem que isso ainda esclareça adequadamente essa notável possibilidade do mundo, a saber, que ele nos deixe encontrar Dasein, tanto o alheio quanto o próprio, esclarecimento a ser obtido apenas em contextos posteriores.

21. O ser-com como constituição básica do Dasein deve ser primeiramente compreendido inteiramente em seu modo de ser da cotidianidade, tendo-se caracterizado o mundo como definido pela estrutura da significatividade, o que significa que o mundo pode sempre ser compreendido pelo Dasein que nele está em graus muito diversos de expressividade e determinação.

  • dado que o ser-em-o-mundo é ele mesmo compreender, e o compreender não é um tipo de conhecimento, mas um modo primário de ser do próprio ser-em-o-mundo, e o ser-uns-com-os-outros é concebido como constituição original do Dasein, segue-se que este é eo ipso um compreender-se mutuamente;
  • tal compreensão opera em um meio de familiaridade e compreensibilidade cambiantes, exercendo mesmo um selvagem transplantado entre nós sua compreensão nesse mundo, ainda que ele possa ser-lhe inteiramente estranho em seus detalhes.

22. A abordagem aparentemente sem pressupostos, segundo a qual primeiro há apenas um sujeito e depois um mundo lhe é trazido, está longe de ser crítica e fenomenalmente adequada, assim como o pressuposto de que primeiro um sujeito é dado apenas para si, colocando-se então a questão de como chega a outro sujeito.

  • uma vez que só as vivências do próprio interior são primeiramente dadas, como é possível apreender também as vivências dos outros, como posso senti-los, empatizar com eles;
  • pressupõe-se um sujeito encapsulado em si mesmo, tendo agora a tarefa de empatizar com outro sujeito, sendo essa formulação da questão absurda, pois nunca existe tal sujeito no sentido aqui pressuposto;
  • se, ao contrário, a constituição do que é Dasein for considerada sem pressupostos como ser-em e ser-com na imediatez sem pressupostos da cotidianidade, torna-se então claro que o problema da empatia é tão absurdo quanto a questão da realidade do mundo externo.

23. Torna-se também claro, já a partir do modo como cada um se encontra por meio do mundo, que a experiência da vida psíquica alheia, tanto quanto a própria, não necessita primeiro de uma reflexão sobre a vivência, tomada no sentido tradicional, para apreender o próprio Dasein.

  • igualmente, não se compreende o outro por esse modo artificial, como se fosse necessário sentir-se dentro de outro sujeito, compreendendo-se antes a partir do mundo no qual ele está comigo, mundo descoberto e compreensível através do olhar no ser-uns-com-os-outros;
  • é porque a compreensão é extraída do mundo que existe a possibilidade de compreender um mundo alheio ou um mundo mediado por fontes, monumentos e ruínas, pois então já não se tem as pessoas com quem se deveria empatizar, mas apenas os vestígios de seu mundo, sendo nessa compreensibilidade de um mundo que primeiro se torna possível a incompreensibilidade e a distância.

24. A rejeição desse pseudoproblema da empatia — como um sujeito inicialmente isolado alcança outro — não implica de modo algum que o ser-uns-com-os-outros e sua compreensibilidade dispensem esclarecimento fenomenal, afirmando-se apenas que a questão do co-Dasein deve ser compreendida como questão do próprio Dasein, originalidade ônticamente existenciária que não é ontologicamente óbvia nem elimina o problema ontológico da empatia.

** b) O Impessoal como o quem do ser do ser-uns-com-os-outros na cotidianidade **

25. A estrutura do Dasein deve agora ser exibida quanto ao modo pelo qual esse ser-uns-com-os-outros, determinado pelo mundo, e a compreensão comum com ele dada se constituem no Dasein, colocando-se a questão de quem é realmente aquele que primeiro se compreende a si mesmo em tal ser-uns-com-os-outros, e de como tal compreensão deve ser interpretada como um tipo de ser-uns-com-os-outros em termos da constituição do ser do Dasein.

  • sobre essa base pode-se então colocar uma questão ulterior, não a de como surge o compreender em geral, mas a de como o compreender-se mútuo, sempre já incluído no Dasein em virtude de suas possibilidades de ser, pode ser obstruído e desviado;
  • como é que o Dasein não chega a uma compreensão genuína precisamente porque já sempre há um compreender-se mutuamente, permanecendo antes esse compreender sempre retido em um modo mediano distintivo de ser do próprio Dasein.

26. A exposição desse novo caráter do ser-em — o ser-com —, especificamente em seu modo de ser extraído do mundo, remete de volta à questão inicial: quem é esse Dasein em sua cotidianidade, não se devendo sucumbir ao engano de que, ao dizer Dasein é em cada caso meu — o ser que eu mesmo sou —, já esteja dada a resposta à questão do quem do Dasein em sua cotidianidade.

  • precisamente porque o Quem pergunta pelo quem de seu ser, ele se codetermina com relação ao ser do Dasein que, em seu modo de ser, é em cada caso o que é;
  • essa explicitação fenomenológica toma o Dasein em seu modo de ser da cotidianidade, na absorção ocupada uns-com-os-outros no mundo, sendo o Dasein como ser-com esse ser-uns-com-os-outros, recebendo o quem do ser do ser-uns-com-os-outros sua resposta a partir desse mesmo ser-uns-com-os-outros: o quem da cotidianidade é o Impessoal [das Man].

27. Já se sugeriu que, no de-início-e-na-maior-parte-das-vezes da ocupação cotidiana, o Dasein temporalmente particular é sempre aquilo que persegue: é-se o que se faz, tomando a interpretação cotidiana do Dasein seu horizonte de interpretação e nomeação daquilo de que em cada caso se ocupa — é-se sapateiro, alfaiate, professor, banqueiro —, sendo aqui o Dasein algo que também os outros podem ser e são.

  • os outros estão ambientalmente aí conosco, levando-se em conta seu co-Dasein não apenas porque aquilo de que se ocupa tem o caráter de ser útil e proveitoso para os outros, mas também porque os outros fornecem as mesmas coisas de ocupação;
  • em ambos os aspectos frente aos outros, o ser-com com eles se relaciona a eles: com relação aos outros e ao que eles perseguem, a própria ocupação é mais ou menos eficaz ou proveitosa; com relação aos que fornecem exatamente as mesmas coisas, a própria ocupação é considerada mais ou menos destacada, atrasada, apreciada, ou algo semelhante;
  • os outros não estão apenas simplesmente subsistentes na ocupação com aquilo que se provê com, para e contra eles, vivendo antes a ocupação constantemente na preocupação de ser diferente deles, ainda que apenas para igualar essa diferença, seja quando o próprio Dasein fica atrás dos outros e quer, por assim dizer, alcançá-los, seja quando tem vantagem sobre eles e busca mantê-los para trás;
  • essa estrutura peculiar de ser, que rege nosso ser com os outros no modo cotidiano da ocupação, será chamada de fenômeno do distanciamento — a preocupação do Dasein com ser distinto —, independentemente do quanto se esteja consciente dela, sendo antes precisamente quando a ocupação cotidiana não tem consciência disso que esse modo de ser com os outros está talvez presente de modo muito mais obstinado e primordial;
  • há seres humanos, por exemplo, que fazem o que fazem por pura ambição, sem qualquer relação com aquilo que perseguem, não envolvendo todas essas particularidades qualquer juízo moral, mas caracterizando apenas movimentos em sentido bruto, por assim dizer, que o Dasein realiza em sua cotidianidade.

28. A própria ocupação — o Dasein como ser-com — colocou assim os outros sob seu cuidado; mais adequadamente, o Dasein como ser-com é vivido pelo co-Dasein dos outros e pelo mundo que o ocupa deste ou daquele modo, não sendo o Dasein, precisamente em suas ocupações mais próprias e cotidianas, ele mesmo, mas sendo antes os outros que vivem o próprio Dasein.

  • esses outros não precisam ser outros determinados, podendo qualquer outro representá-los, não importando realmente quem seja a cada vez;
  • o que importa são apenas os outros aos quais o próprio Dasein pertence, constituindo esses outros, aos quais se pertence e nos quais se é no ser-uns-com-os-outros, por assim dizer, o sujeito que, em sua presença constante, persegue e administra toda ocupação cotidiana.

29. Na medida em que o Dasein, em sua ocupação com seu mundo, é ser-com e como tal está absorvido com os outros no mundo, esse mundo comum é ao mesmo tempo o mundo que cada um confiou aos seus cuidados como ambiente público que se utiliza, se leva em conta e no qual se move, movendo-se aí com os outros em modos de ser em que cada outro é tal como eu sou, colapsando toda distinção de ocupação e profissão.

  • o ser-uns-com-os-outros dissolve totalmente o próprio Dasein no modo de ser dos outros, deixando-se o Dasein levar pelos outros de tal modo que estes, em sua distintividade, desaparecem ainda mais;
  • na esfera de suas possibilidades de ser, cada um é totalmente o outro, sendo aqui que o peculiar sujeito da cotidianidade — o Impessoal — tem primeiramente seu total domínio, sendo o ser-uns-com-os-outros público vivido totalmente a partir desse Impessoal;
  • comprazemo-nos e nos divertimos como se compraz, e lemos e julgamos sobre literatura como se julga, ouvimos música como se ouve música, falamos sobre algo como se fala.

30. Esse Impessoal, que não é ninguém em particular e que todos são, embora não como soma, dita o modo de ser do Dasein cotidiano, possuindo o próprio Impessoal seus modos de ser, um dos quais já foi caracterizado no fenômeno do distanciamento, tendo a tendência do ser-com a ser com base na diferença frente aos outros por sua vez seu fundamento no fato de que esse ser-uns-com-os-outros e a ocupação têm o caráter da medianidade.

  • essa medianidade é uma determinação existencial do Impessoal, aquilo em torno do que tudo gira para o Impessoal, o que essencialmente está em jogo para ele, razão pela qual o Impessoal se mantém facticamente na medianidade daquilo que lhe pertence e do que ele considera válido;
  • essa polida medianidade da interpretação cotidiana do Dasein, da avaliação do mundo e da semelhante medianidade dos costumes e maneiras vigia toda exceção que se destaque, sendo toda exceção suprimida de curta duração e silenciosamente, e tudo o que é original é nivelado da noite para o dia em algo disponível para Todo-mundo e já não mais vedado a ninguém;
  • essa essencial medianidade do Impessoal está por sua vez fundada em um modo originário de ser do Impessoal, dado em sua absorção no mundo, no que pode ser chamado de nivelamento do ser-uns-com-os-outros, o nivelamento de todas as diferenças.

31. Há uma inter-relação existencial entre os fenômenos do distanciamento, da medianidade e do nivelamento, constituindo o Impessoal, enquanto aquilo que forma o ser-uns-com-os-outros cotidiano nesses modos de seu ser, o que se chama de público em sentido estrito, o que implica que o mundo já sempre é dado primariamente como mundo comum.

  • não se trata do caso em que primeiro existem sujeitos individuais que cada um tem seu próprio mundo, surgindo então a tarefa de reunir, mediante algum tipo de arranjo, os diversos mundos particulares dos indivíduos e de acordar como se teria um mundo comum, tal como filósofos imaginam essas coisas ao indagar sobre a constituição do mundo intersubjetivo;
  • diz-se antes que o primeiro dado é o mundo comum — o Impessoal —, o mundo no qual o Dasein está absorvido de tal modo que ainda não chegou a si mesmo, podendo constantemente ser assim sem ter de chegar a si mesmo.

32. Notou-se que o Dasein primeiramente não vive em seu mais próprio e mais próximo, sendo de início e cotidianamente o próprio mundo e o próprio Dasein precisamente o mais distante, sendo antes primeiro o mundo em que se está uns-com-os-outros, e é a partir desse mundo que se pode primeiro crescer mais ou menos genuinamente em seu próprio mundo.

  • esse mundo comum, dado primariamente e no qual todo Dasein em amadurecimento primeiro cresce, como mundo público, governa toda interpretação do mundo e do Dasein;
  • esse mundo público avança suas exigências e demandas, tem razão em tudo, não em virtude de uma relação originária com o mundo e com o Dasein mesmo, não por ter um conhecimento especial e genuíno do mundo e do Dasein, mas precisamente por discorrer sobre tudo sem entrar nas coisas mesmas e por uma insensibilidade a toda distinção de nível e genuinidade;
  • o público está envolvido em tudo, mas de tal modo que já sempre se absolveu de tudo, e por estar envolvido em tudo e determinar a interpretação do Dasein, já decidiu por toda escolha e decisão, privando o Dasein de sua escolha, de sua formação de juízos e de sua avaliação de valores, aliviando o Dasein da tarefa, na medida em que ele vive no Impessoal, de ser ele mesmo por si mesmo;
  • o Impessoal toma do Dasein seu sê-lo e deixa toda responsabilidade recair sobre si mesmo, tanto mais quanto o público e o Impessoal não têm de responder por nada, pois não há ninguém que tenha de responder, sendo o Impessoal precisamente o quem que todos e nenhum são, o ser do qual sempre se pode dizer, foi realmente ninguém, e no entanto a maior parte do que ocorre em nosso Dasein acontece através desse ser do qual devemos dizer que foi ninguém.

33. Esse estado constitutivo ulterior do ser do Impessoal mostra-se no público, a saber, que ele sempre desonera o próprio Dasein da pessoa, acomodando-se convenientemente essa desoneração do ser, que o Dasein cultiva como ser-com, à tendência que há no Dasein de tomar e fazer as coisas levianamente, mantendo o público, ao assim acomodar o Dasein com essa desoneração de seu ser, um domínio obstinado.

  • cada um é o outro e ninguém é si mesmo, sendo o Impessoal, que responde à questão do quem do Dasein cotidiano, o Ninguém, ao qual todo Dasein já sempre se entregou no ser-uns-com-os-outros público.

34. Deve-se notar fenomenologicamente que esse ninguém, assim exibido em traços largos por vários lados, não é de fato nada, sendo o Impessoal um fenômeno inegável e demonstrável do próprio Dasein enquanto ser-com no mundo, não podendo se dizer que, por não haver categorias para ele e por se pensar que apenas algo como uma cadeira realmente é, esse Impessoal seja de fato nada.

  • o conceito de ser deve antes ser ele mesmo dirigido a esse fenômeno inegável, não sendo o Impessoal nada, mas também não sendo uma coisa mundana que se possa ver, apreender e pesar;
  • quanto mais público é esse Impessoal, menos compreensível ele é e menos é nada, a ponto de constituir realmente o quem do próprio Dasein em cada caso na cotidianidade.

35. Esse Impessoal deve ser compreendido como, de certo modo, o sujeito mais real que há para o Dasein, mostrando sua estrutura fenomenal que o ente autêntico do Dasein, o quem, não é uma coisa e nada mundano, mas é ele mesmo apenas um modo de ser, não se chegando, ao seguir fenomenalmente os elementos componentes, a um ente, mas ao Dasein, na medida em que ele é desse modo específico, o que novamente justifica designar o ente que nós mesmos somos pela expressão de ser Dasein.

  • esse elemento do Impessoal proíbe fenomenalmente buscar um ente que pudesse ser o Dasein, sendo mesmo o retorno a um ego, a um polo-ego liberado de toda coisidade, ainda uma concessão a uma interpretação dogmática e (em sentido ruim) ingênua do Dasein, que lhe atribui uma coisa-sujeito e depois ainda tem de mantê-la como coisa-ego e coisa-pessoa;
  • por outro lado, o ego e o si-mesmo tampouco são epifenômenos, digamos, o resultado de uma constelação específica do ser do Dasein, não sendo o ego, o si-mesmo, nada além do quem desse ser, o próprio ser que, como Impessoal, tem a possibilidade de ser do próprio ego;
  • que o Dasein possa ser assim, que primeira e principalmente não seja ele mesmo, mas esteja absorvido no Impessoal, é um achado fenomenal que ao mesmo tempo indica que o ser do Dasein deve ser buscado em seus possíveis modos de ser ele mesmo.

36. Mesmo ao perguntar pelo quem, o curso da linguagem ordinária já traz consigo a implicação pronta de que se pergunta por um ente subsistente como uma espécie de cenário em que o Dasein se desenrolaria, tornando-se por isso ainda mais urgente reverter à pesquisa fenomenológica: antes das palavras, antes das expressões, sempre primeiro os fenômenos, e só então os conceitos.

  • com base no achado fenomenológico do Impessoal, deve-se manter a orientação para a autenticidade do Dasein, para o si-mesmo que o Dasein pode ser, de tal modo que ele não se retire realmente desse ser-uns-com-os-outros, mas, permanecendo este constitutivo nele como ser-com, ainda assim seja ele mesmo.

37. Esse modo peculiar de ser, que caracteriza a cotidianidade no Impessoal como absorção ocupada uns-com-os-outros no mundo, traz consigo também um tipo cotidiano de autointerpretação do Dasein, formando-se provavelmente, uma vez que o Dasein primeiro se encontra a si mesmo no mundo e o próprio público define os objetivos e visões do Dasein a partir do mundo da ocupação comum, todos os conceitos e expressões fundamentais que o Dasein primeiro forma para si mesmo tendo em vista o mundo em que está absorvido.

  • esse estado de coisas, claramente demonstrável na história da língua, não significa, contudo, como se pensou, que as línguas seriam primeiramente orientadas apenas para coisas materiais e que as chamadas línguas primitivas dificilmente ultrapassariam a visão da coisidade material, sendo isso uma total confusão entre a interpretação do falar e a autointerpretação;
  • a linguagem e o falar mesmos pertencem ao Dasein como ser-em-o-mundo e ser-uns-com-os-outros, mostrando-se com base nisso como certas autointerpretações do Dasein, certos conceitos que o Dasein forma de si mesmo, estão necessariamente prefigurados, sem que se possa dizer que esses conceitos sejam primitivos;
  • tendo-se em mente essas estruturas fenomenais do ser-uns-com-os-outros no Impessoal e da absorção no mundo, deixa de haver qualquer enigma no fato de que o Dasein, ao referir-se explicitamente a si mesmo e articular-se, emprega significados e sentidos interpretativos característicos.

38. Wilhelm von Humboldt foi o primeiro a notar que certas línguas, ao quererem dizer eu, formulam esse eu a ser expresso — o próprio Dasein — pela palavra aqui, de modo que eu equivale a aqui, sendo o tu — o outro — o aí, e o ele — aquele que primeiramente não está direta e expressamente presente — o lá.

  • gramaticalmente, os pronomes pessoais — eu, tu, ele — são expressos por advérbios de lugar, sendo, contudo, talvez essa formulação já invertida;
  • há uma longa disputa sobre o que significam originariamente essas expressões aqui, aí, lá, se são adverbiais ou pronominais, disputa afinal infundada uma vez que se vê que esses advérbios de lugar se relacionam, em seu sentido, ao próprio eu enquanto Dasein, tendo em si aquela orientação para o próprio Dasein antes designada.

39. Aqui, aí, lá não são determinações reais de lugar como caracteres das coisas do mundo, mas antes determinações do Dasein, isto é, essas determinações do Dasein aqui, aí, lá como eu, tu, ele não são de modo algum advérbios de lugar, nem tampouco expressões para eu, Tu, Ele em sentido pontual, como se se referissem a certas coisas especiais que são.

  • são antes advérbios do Dasein e, como tais, ao mesmo tempo pronomes, mostrando isso que a gramática simplesmente fracassa diante de tais fenômenos, não sendo as categorias gramaticais talhadas para tais fenômenos nem derivadas a partir da consideração dos próprios fenômenos, mas com vista a uma forma particular de asserção, a proposição teórica;
  • todas as categorias gramaticais são derivadas de uma teoria particular da linguagem, da teoria do logos como proposição, isto é, da lógica, havendo por isso desde o início dificuldades ao se tentar esclarecer tais fenômenos linguísticos por meio dessas categorias gramaticais;
  • o procedimento correto consiste em passar por trás das categorias e formas gramaticais e tentar determinar o sentido a partir dos próprios fenômenos.

40. A fonte desse fenômeno, que Humboldt exibiu sem compreendê-lo em suas últimas consequências ontológicas, está em que o Dasein, ao qual se atribuiu uma espacialidade original, ao falar de si mesmo, fala em termos daquilo em que se encontra, considerando-se na autoarticulação cotidiana em termos de espacialidade, no sentido antes descrito da orientação removedora do ser-em.

  • deve-se notar que o sentido de aqui, aí e lá é tão problemático e difícil quanto o de eu, tu e ele, só se conseguindo exibir o fenômeno efetivo quando o próprio Dasein é definido pelo ser-em, de modo a ver como o modo mediano do ser-uns-com-os-outros, e ao mesmo tempo o modo que define o ser-em-o-mundo, se exprime dessa maneira em termos de espacialidade;
  • seria basicamente errado pensar que tais modos de expressão são sinais de uma língua atrasada, ainda orientada para o espaço e a matriz em vez de para o eu espiritual, cabendo perguntar se aqui, aí e lá são menos espirituais e enigmáticos do que o eu, sendo antes talvez uma expressão mais apropriada do próprio Dasein não se furtar a compreendê-lo apenas porque a espacialidade está orientada para o espaço distintivo da ciência natural.
, ,
obra/ga20/26.txt · Last modified: by 127.0.0.1