3
Resumo em tópicos
1. O princípio do fundamento (Satz vom Grund), expresso por nihil est sine ratione — nada é sem fundamento (Grund) — parece abranger também a si mesmo, pois, se o próprio princípio fosse excluído do campo de validade daquilo que afirma, surgiria a contradição segundo a qual justamente “nada é sem fundamento” seria algo sem fundamento, o que imediatamente invoca o princípio da contradição como critério para excluir semelhante possibilidade.
-
O princípio da contradição estabelece que aquilo que encerra em si uma contradição não pode ser, orientando todo esforço de conhecimento seguro a evitar contradições ou dissolvê-las mediante novas determinações.
-
A própria tentativa de pensar o princípio do fundamento como sem fundamento introduz, portanto, uma tensão entre a exigência do fundamento e a proibição lógica da contradição.
2. A ciência moderna encontra no princípio da contradição um impulso secreto de seu modo de proceder, pois procura continuamente remover as contradições surgidas nas teorias e os conflitos encontrados nos fatos observados, mas a aplicação irrefletida desse princípio ao próprio princípio do fundamento (Satz vom Grund) torna-se problemática quando ainda permanece sem esclarecimento o que sejam fundamento (Grund) e princípio.
-
A fórmula segundo a qual o supremo princípio do fundamento seria sem fundamento parece inicialmente inadmissível à luz do princípio da contradição.
-
Entretanto, se está em questão justamente a legitimidade dos princípios fundamentais supremos, nenhum outro princípio pode ser simplesmente adotado como norma sem que sua própria legitimidade seja interrogada.
3. Embora a referência ao princípio da contradição pareça inteiramente evidente no âmbito das ciências, sua interpretação permanece historicamente problemática, sobretudo porque, desde a Ciência da Lógica de Hegel, a contradição deixa de ser compreendida simplesmente como impedimento à efetividade e passa a ser concebida como vida interna da própria efetividade, de modo que a impossibilidade de representar um princípio do fundamento sem fundamento não equivale necessariamente à impossibilidade de pensá-lo.
-
A metafísica hegeliana retira da contradição o caráter puramente negativo de sinal da impossibilidade.
-
Representar alguma coisa significa sempre apresentá-la como algo determinado e, desse modo, colocá-la em algum fundamento (Grund).
-
O representar (Vorstellen) recorre estruturalmente a fundamentos, razão pela qual um princípio sem fundamento aparece como irrepresentável.
-
O irrepresentável, porém, não precisa ser também impensável, caso o pensar não se reduza ao representar (Vorstellen).
4. Admitindo-se que o princípio do fundamento (Satz vom Grund) possua necessariamente um fundamento (Grund), impõe-se a questão acerca de qual seja esse fundamento e de que espécie singular ele deve ser para fundamentar justamente o princípio que exige fundamento para tudo aquilo que é.
5. Se o princípio do fundamento (Satz vom Grund) for efetivamente o supremo princípio fundamental, entendido como fundamento de todos os princípios e do próprio princípio enquanto tal, então aquilo de que ele fala deverá constituir também o fundamento do enunciado, do dizer e, em última instância, da própria essência da linguagem, conduzindo o pensamento a um movimento semelhante a um turbilhão.
-
A afirmação de que o princípio do fundamento é fundamento do próprio princípio amplia sua significação para além da mera lógica das proposições.
-
A essência do dizer passa a depender daquilo que o princípio do fundamento estabelece como fundamento (Grund).
-
A imagem do turbilhão indica um movimento no qual o pensamento é arrastado para o núcleo da própria questão, ainda que inicialmente permaneça apenas em sua periferia.
-
A possível serenidade situada no núcleo do turbilhão sugere que a máxima inquietação da questão possa ocultar uma região de repouso mais originária.
6. A região do princípio do fundamento (Satz vom Grund) ainda permanece desconhecida, e tanto seu percurso quanto seu domínio encontram-se mergulhados em sombras, pois a escassa luz disponível consiste quase apenas na afirmação convencional de que os princípios fundamentais, princípios e axiomas seriam imediatamente evidentes, embora essas três designações provenham de âmbitos históricos e conceituais profundamente distintos.
-
A palavra grega axioma, o latino principium e o alemão princípio fundamental (Grundsatz) não possuem originalmente o mesmo horizonte de significado.
-
A uniformização desses termos não constitui simples questão vocabular, mas encobre um traço fundamental da história do pensamento ocidental.
-
História, nesse contexto, não significa mero passado, mas destino historicamente determinante que continua atuando no presente.
7. A tradição moderna nivelou axiomas, princípios e princípios fundamentais numa mesma estrutura hierárquica, interpretando os axiomas como proposições supremas destinadas sobretudo a garantir sistemas livres de contradições, embora o sentido grego originário de axioma indicasse antes um deixar algo permanecer na consideração que lhe pertence.
-
Na concepção moderna, o caráter axiomático tende a reduzir-se à função de assegurar coerência formal e ausência de contradições.
-
O conteúdo próprio do axioma pode tornar-se secundário ou mesmo objetivamente irrelevante diante de sua função sistêmica.
-
Essa forma axiomática e não objetual do pensamento científico abre possibilidades praticamente ilimitadas para a organização calculadora do conhecimento.
-
O pensamento axiomático já participa da transformação do modo humano de pensar para ajustá-lo à essência da técnica moderna.
-
Tanto a afirmação de que o homem domina a técnica quanto a de que se tornou escravo das máquinas permanecem ainda superficiais se não se pensa a correspondência mais originária entre o ser humano e a essência da técnica.
-
Nessa correspondência podem anunciar-se possibilidades originárias de uma existência (Dasein) humana livre.
-
A construção técnico-científica do mundo reivindica a formação de todas as consistências disponíveis (Bestände) que aparecem em sua luz, dentro da qual também a denominada “arte abstrata” adquire função própria.
8. A consideração do uso nivelado de axiomas, princípios e princípios fundamentais, especialmente quando subordinado à proteção axiomática do pensamento calculador, introduz uma reflexão em cujo interior alguma decisão essencial acerca do próprio pensamento deverá ocorrer.
9. Seria simultaneamente míope e presunçoso depreciar o pensamento axiomático moderno, assim como seria ingênuo fazê-lo derivar diretamente do pensamento grego, pois o único caminho fecundo consiste em atravessar o próprio representar axiomático moderno (Vorstellen) até alcançar os fundamentos ocultos que o sustentam, começando pelo reconhecimento de que os princípios fundamentais supremos são ordinariamente seguidos sem reflexão.
10. A relação habitual com axiomas, princípios e princípios fundamentais quase nunca pergunta onde eles se encontram, de onde procedem ou em que região pertencem, porque são normalmente considerados produtos da razão ou do entendimento alojados na consciência humana, permanecendo suas fórmulas vazias enquanto seu teor não puder ser pensado a partir da plenitude essencial daquilo que efetivamente dizem.
11. A interrogação decisiva dirige-se ao que propriamente diz o princípio fundamental do fundamento, à região à qual ele pertence e à origem desde a qual sua fala se torna possível.
12. As perguntas acerca da proveniência, pertença e sentido do princípio do fundamento (Satz vom Grund) podem parecer pouco úteis para o progresso das ciências ou inadequadas diante das necessidades urgentes do presente, mas justamente essa aparência de inutilidade pertence à dificuldade própria de uma reflexão que não se mede imediatamente por resultados científicos ou técnicos.
13. Antes de uma discussão direta do princípio do fundamento (Satz vom Grund), torna-se necessário acrescentar uma última determinação ainda exterior, destinada a esclarecer mais precisamente a posição ocupada pelo pensamento e a direção para a qual ele se encaminha ao aceitar discutir esse princípio.
14. Leibniz caracteriza o princípio do fundamento como principium grande, princípio magno, cuja grandeza somente poderia ser plenamente compreendida mediante um autêntico diálogo pensante com sua filosofia, diálogo metafísico que historicamente se inicia com Schelling e se prolonga até a doutrina nietzschiana da vontade de poder.
15. A grandeza do princípio do fundamento (Satz vom Grund) manifesta-se já na fórmula leibniziana nihil est sine ratione seu nullus effectus sine causa — nada é sem fundamento ou nenhum efeito sem causa — mediante a qual princípio do fundamento e princípio da causalidade aparecem colocados num mesmo plano, embora fundamento e consequência não coincidam simplesmente com causa e efeito.
-
Toda causa pode ser considerada uma espécie de fundamento (Grund), mas nem todo fundamento possui caráter causal.
-
Um axioma matemático pode funcionar como fundamento de uma inferência sem produzir causalmente a consequência que dele decorre.
-
A igualdade obtida mediante um axioma geométrico não é causada pelo axioma da mesma maneira que a chuva causa o molhamento de um telhado.
-
A distinção entre fundamento e consequência, de um lado, e causa e efeito, de outro, impede uma identificação simplificada dos dois princípios.
16. Embora seja correto distinguir fundamento e causa, a tentativa de corrigir Leibniz a partir dessa distinção poderia impedir o acesso à singularidade de seu pensamento, razão pela qual a relação exata entre princípio do fundamento e princípio da causalidade permanece provisoriamente aberta, sendo suficiente reconhecer que a causalidade pertence ao domínio de vigência do princípio do fundamento (Satz vom Grund).
-
A abrangência do princípio da causalidade pode indicar a extensão do poder do princípio do fundamento, mas ainda não revela em que consiste propriamente esse poder.
-
A questão decisiva deixa de ser apenas até onde o princípio alcança e passa a ser o que nele efetivamente exerce poder e de que modo o exerce.
17. A formulação nihil est sine ratione constitui apenas a versão curta do princípio do fundamento (Satz vom Grund), sendo abreviada em relação à formulação que, para Leibniz, possui caráter genuíno, rigoroso e normativamente decisivo.
18. A formulação rigorosa de Leibniz apresenta o princípio do fundamento como principium reddendae rationis, princípio da restituição ou entrega do fundamento, segundo o qual para cada verdade pode e deve ser apresentado um fundamento, ligando essencialmente a fundamentação ao movimento moderno da representação cognoscente.
-
Entre os dois princípios superiores de todo procedimento demonstrativo Leibniz situa o princípio da contradição e o principium reddendae rationis.
-
Rationem reddere significa devolver, prestar ou entregar o fundamento (Grund).
-
No conhecimento entendido como re-praesentatio, aquilo que vem ao encontro é conduzido de volta ao eu representante e posto diante dele como presente.
-
Para que o representar (Vorstellen) seja cognoscente, deve devolver a si próprio o fundamento daquilo que lhe vem ao encontro.
-
O fundamento torna-se, assim, aquilo que deve ser apresentado e entregue ao eu cognoscente.
-
O princípio do fundamento transforma-se no princípio segundo o qual todo fundamento deve ser tornado disponível ao conhecimento mediante a fundamentação.
19. Leibniz distingue a formulação filosoficamente rigorosa do principium reddendae rationis da expressão vulgar segundo a qual nada acontece sem causa, mostrando que o princípio do fundamento (Satz vom Grund) alcança sua determinação propriamente filosófica quando é entendido como princípio de demonstração e, em sentido mais amplo, como princípio de toda afirmação cognoscitiva.
-
O princípio da contradição e o princípio do fundamento são os dois princípios utilizados na demonstração.
-
O princípio do fundamento regula primeiramente proposições e enunciados pertencentes ao conhecimento filosófico e científico.
-
Toda proposição verdadeira deve poder receber o fundamento que a torna fundamentada.
-
O poder do princípio reside em dominar, conduzir e sustentar todo conhecimento que se articula por meio de proposições.
20. A determinação do princípio do fundamento como principium reddendae rationis parece inicialmente limitar sua vigência ao conhecimento, pois o fundamento deveria ser devolvido à cognição para que esta se torne fundamentada e verdadeira, enquanto a versão geral do princípio parece abranger tudo aquilo que de algum modo é.
21. A aparente limitação do principium reddendae rationis ao conhecimento não constitui, contudo, verdadeira restrição do princípio do fundamento (Satz vom Grund), e somente a compreensão dessa ausência de limitação permite reconhecer plenamente em que sentido ele é o principium grande e qual poder se manifesta através dele.
22. O conhecimento constitui uma forma de representação (Vorstellung) na qual algo é posto em presença diante do sujeito, tornando-se objeto, de modo que, para Leibniz e para o pensamento moderno em geral, o modo de ser do ente passa a apoiar-se decisivamente na objetualidade daquilo que se encontra diante do representar.
-
O objeto é aquilo que vem ao encontro e é posto numa posição estável diante do representar.
-
À objetualidade do objeto pertence sua possibilidade de ser representado e apresentado ao sujeito cognoscente.
-
O ser do ente passa assim a ser interpretado segundo sua condição de objeto diante da representação.
23. O principium reddendae rationis exige que tanto o representar (Vorstellen) quanto o objeto em seu estar-diante (Gegenstehen) sejam fundamentados, e, como esse estar-diante constitui o próprio modo pelo qual o objeto é enquanto objeto, o princípio da fundamentação cognoscitiva converte-se simultaneamente em princípio daquilo que é.
-
A formulação rigorosa de Leibniz não restringe o princípio ao conhecimento, porque tudo aquilo que é interpretado como ente aparece dentro do horizonte da objetualidade.
-
Algo somente se demonstra como ente quando pode ser enunciado numa proposição suficientemente fundamentada.
-
O princípio do fundamento como princípio da fundamentação torna-se, desse modo, condição para que algo apareça como sendo.
-
A grandeza do principium grande consiste precisamente em que um princípio aparentemente epistemológico se transforma em princípio ontológico daquilo que é.
24. Leibniz pôde formular expressamente o princípio do fundamento (Satz vom Grund), já implicitamente seguido durante séculos, porque compreendeu a exigência de sua época como reivindicação de que o fundamento fosse efetivamente entregue, restituído e colocado diante do pensamento na forma do principium reddendae rationis.
-
O verbo reddere concentra a exigência moderna de devolver, trazer e recolocar o fundamento diante do pensamento.
-
A ratio torna-se ratio reddenda, fundamento que deve ser entregue ao ser humano pensante e conceituante.
-
A grandeza de um pensador consiste em trazer expressamente à linguagem aquilo que já reivindicava silenciosamente o pensamento de uma época.
-
A transformação decisiva introduzida por Leibniz pode condensar-se numa única palavra: reddendae.
-
O reddendum designa a reivindicação incondicional de entrega do fundamento e constitui aquilo que efetivamente adquire poder no princípio magno.
-
Essa exigência atravessa toda a modernidade e interpõe-se cada vez mais entre o ser humano pensante e seu mundo, apropriando-se de modo novo do representar humano (Vorstellen).
25. A força efetiva exercida pelo princípio do fundamento (Satz vom Grund) permanece ainda insuficientemente experimentada e pensada, inclusive por aqueles que já se ocuparam filosoficamente da essência do fundamento (Wesen des Grundes), pois a magnitude de sua reivindicação não se deixa apreender apenas mediante considerações conceituais isoladas.
26. O estudo moderno das ciências pode alcançar com extraordinário rigor seus domínios, métodos, disciplinas e relações internas sem jamais encontrar expressamente o princípio do fundamento (Satz vom Grund), embora toda ciência moderna e, consequentemente, a própria universidade contemporânea dependam estruturalmente dele.
-
O aprofundamento das especialidades científicas e a atenção às relações entre natureza e história não conduzem por si mesmos ao reconhecimento do princípio que sustenta a própria cientificidade.
-
Mesmo a superação das separações institucionais entre disciplinas permanece dentro de um movimento cuja condição fundamental geralmente não é interrogada.
-
Sem o principium grande não haveria ciência moderna no sentido rigoroso.
-
Sem ciência moderna também não existiria a universidade contemporânea em sua configuração histórica.
-
A universidade encontra, portanto, seu fundamento no princípio do fundamento, mesmo quando este não aparece explicitamente no interior das atividades científicas.
27. A afirmação de que a universidade se fundamenta sobre um princípio provoca finalmente a pergunta acerca de como pode ser pensada uma instituição inteira como fundada no princípio do fundamento (Satz vom Grund) e se semelhante determinação pode ser legitimamente sustentada.
