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Autoconsciência incorporada na infância

ZAHAVI, Dan; GRÜNBAUM, Thor; PARNAS, Josef. The structure and development of self-consciousness: interdisciplinary perspectives. Amsterdam: J. Benjamins, 2004.

** A autoconsciência corporificada da criança **

1. Os resultados recentes da psicologia do desenvolvimento acerca da experiência infantil de si mesmo e dos outros colocam em questão a concepção sustentada pela teoria-teoria da mente segundo a qual tanto a autoconsciência quanto a intersubjetividade pressupõem necessariamente a posse e a aplicação de uma teoria da mente.

** 1. Teoria da mente **

2. A expressão “teoria da mente”, introduzida por Premack e Woodruff no estudo da intencionalidade dos primatas, designa a capacidade de atribuir estados mentais a si mesmo e aos outros mediante um sistema inferencial considerado teórico porque esses estados não seriam diretamente observáveis e porque sua atribuição permitiria prever o comportamento dos organismos.

  • Estados como intenções, crenças e desejos seriam imputados a partir de indícios observáveis e utilizados para interpretar, explicar e antecipar comportamentos.
  • Embora Premack e Woodruff tenham pressuposto que essa capacidade depende necessariamente de uma teoria, o debate posterior dividiu-se entre a teoria-teoria da mente e a teoria da simulação.

3. A teoria-teoria sustenta que a explicação e a previsão do comportamento dependem de uma teoria psicológico-popular acerca da estrutura e do funcionamento da mente, embora seus defensores discordem quanto a essa teoria ser inata e modular ou adquirida e revisável de maneira análoga às teorias científicas.

  • Carruthers e Baron-Cohen defendem versões modularistas segundo as quais o núcleo da psicologia popular é produto da evolução e encontra-se inatamente estruturado, ainda que possa depender da experiência para ser ativado.
  • Gopnik e Meltzoff aproximam o desenvolvimento infantil da atividade científica e concebem a criança como uma espécie de pequena cientista que formula, testa e modifica teorias à luz de novos dados.
  • A distinção entre nativismo modular e nativismo do estado inicial permite admitir estruturas inatas sem considerá-las imutáveis, pois evidências posteriores podem modificar as hipóteses inicialmente disponíveis.
  • Na concepção da formação teórica, os mesmos processos cognitivos fundamentais responderiam tanto pelo progresso científico quanto pelo crescente domínio infantil da interpretação intencional do comportamento.
  • Os modularistas argumentam, em sentido contrário, que a universalidade cultural e a relativa uniformidade temporal do desenvolvimento da teoria da mente favorecem a hipótese de uma estrutura evolutivamente pré-formada.

4. A teoria da simulação rejeita a necessidade de uma teoria psicológica suficientemente completa para fundamentar a compreensão dos outros e sustenta que a interpretação interpessoal depende sobretudo da capacidade de utilizar os próprios recursos motivacionais e emocionais para simular imaginativamente a perspectiva e a atividade mental de outra pessoa.

  • A teoria-teoria empregaria uma metodologia “fria”, baseada em processos intelectuais e inferências entre crenças.
  • A teoria da simulação adotaria uma metodologia “quente”, fundamentada na utilização das próprias capacidades afetivas e motivacionais para colocar-se imaginativamente na situação alheia.

5. A própria noção de “teoria” empregada pela teoria-teoria permanece heterogênea, podendo designar desde uma teoria em sentido literalmente científico até um conjunto inato de regras de manipulação simbólica, assim como pode referir-se a conhecimento explícito e consciente ou a mecanismos implícitos e tácitos que operam em nível subpessoal.

6. A indeterminação do significado de “teoria” compromete a avaliação adequada do confronto entre teoria-teoria e teoria da simulação, pois uma definição excessivamente ampla aumenta aparentemente a plausibilidade da posição teórica ao preço de tornar o conceito vazio, fazendo com que praticamente toda competência humana, da culinária à jardinagem e à pesca, possa ser qualificada como teórica.

  • A chamada objeção da promiscuidade mostra que, se qualquer organização implícita de conhecimento for denominada teoria, desaparece a possibilidade de distinguir competências genuinamente teóricas de outras formas de capacidade prática ou experiencial.
  • Para evitar essa diluição conceitual, alguns defensores da teoria-teoria adotam uma definição forte de teoria que exige muito mais do que mero holismo semântico.

7. A teoria-teoria compreende o domínio dos conceitos mentais como dependente do conhecimento de uma teoria psicológica na qual esses conceitos recebem significado pela posição que ocupam dentro de uma rede teórica, recusando que crenças, desejos e demais estados mentais sejam conhecidos por familiaridade direta ou definição ostensiva.

  • Conceitos mentais seriam postulados teóricos elaborados mediante processos de teorização abstrata.
  • A atribuição de estados mentais assumiria a forma de inferência para a melhor explicação dos dados comportamentais.
  • Estados mentais seriam, por isso, considerados entidades inobserváveis inferidas a partir de manifestações acessíveis aos sentidos.
  • A afirmação de que até os próprios estados mentais estariam completamente ocultos aos sentidos exprime de maneira particularmente radical essa concepção inferencial.

** 2. Teoria-teoria da autoconsciência **

8. Uma versão da teoria-teoria da autoconsciência sustenta que os próprios estados mentais são conhecidos pelo mesmo mecanismo cognitivo utilizado na atribuição de estados a outras pessoas, de maneira que conhecimento de si e conhecimento dos outros são igualmente mediados pela aplicação de uma teoria da mente, sendo apenas ilusória a impressão de acesso direto aos próprios estados psicológicos.

9. Se a mesma capacidade de leitura da mente fundamenta a atribuição de estados mentais a si e aos outros, deve haver um paralelismo no desenvolvimento dessas duas competências, de modo que o desempenho infantil na compreensão dos próprios estados e dos estados alheios deveria melhorar ou fracassar simultaneamente, razão pela qual tarefas de falsa crença foram amplamente utilizadas para testar empiricamente essa previsão.

10. Na tarefa Sally-Anne, crianças observam Sally colocar uma bola em determinado recipiente, afastar-se e, durante sua ausência, Anne transferir a bola para outro lugar, sendo então perguntado onde Sally procurará o objeto ao retornar; crianças com aproximadamente quatro anos costumam responder segundo a crença falsa de Sally, enquanto crianças menores tendem a apontar o lugar onde a bola efetivamente se encontra, indicando dificuldade em compreender que outra pessoa possa agir segundo uma crença divergente da realidade.

11. Na tarefa dos Smarties, uma caixa cuja aparência sugere conter doces é revelada como contendo lápis e, após ser novamente fechada, pergunta-se o que outra criança ainda não informada sobre seu verdadeiro conteúdo pensará encontrar nela, com crianças de aproximadamente quatro anos atribuindo corretamente a crença falsa de que há doces e crianças menores tendendo a responder segundo seu próprio conhecimento atual de que há lápis.

12. O interesse pelas tarefas de falsa crença decorre da hipótese de que atribuir uma crença falsa exige compreender a diferença entre a realidade e aquilo que um sujeito acredita acerca dela, o que implicaria possuir crenças sobre crenças e, portanto, dispor de uma teoria da mente capaz de explicar como ações podem ser guiadas por representações incorretas da realidade.

13. Uma variante da tarefa dos Smarties destinada a investigar o paralelismo entre atribuições dirigidas a si e aos outros mostrou que muitas crianças de três anos, quando perguntadas sobre aquilo que elas próprias inicialmente acreditavam existir dentro da caixa, afirmaram ter pensado que havia lápis, embora originalmente tivessem acreditado que havia doces, parecendo revelar dificuldade tanto em atribuir falsas crenças passadas a si mesmas quanto em atribuí-las a outras pessoas.

14. Gopnik interpreta esse resultado como evidência de um paralelismo entre a compreensão dos estados psicológicos alheios e a compreensão dos próprios estados imediatamente passados, contrapondo-o à concepção segundo a qual existe uma assimetria fenomenológica fundamental entre o acesso direto aos próprios estados e a inferência dos estados de outras pessoas.

  • Na concepção ordinária, comportamentos alheios precisam ser observados para que crenças e desejos sejam inferidos, enquanto as próprias crenças e desejos seriam acessíveis sem inferência.
  • O paralelismo desenvolvimental indicaria, porém, que crianças capazes de compreender determinados estados psicológicos dos outros também conseguem atribuí-los retrospectivamente a si mesmas, enquanto aquelas que não compreendem os estados alheios apresentam dificuldades correspondentes no próprio caso.
  • Não haveria, portanto, evidência clara de que a atribuição de estados mentais a si mesmo preceda sistematicamente sua atribuição aos outros.

15. A aparência adulta de acesso imediato à própria mente poderia ser explicada, segundo Gopnik e Carruthers, pelo elevado grau de especialização adquirido na leitura da própria mente, pois processos inferenciais teoricamente mediados tornar-se-iam tão rápidos e automatizados que deixariam de ser percebidos como inferências.

  • O conhecimento de si seria comparável à percepção cientificamente carregada de teoria, como quando um especialista consegue reconhecer imediatamente determinada patologia numa radiografia.
  • A aparente imediatez da autoconsciência ocultaria, assim, uma complexa utilização de conhecimentos acumulados da psicologia popular.

16. O paralelismo encontrado nos estudos de falsa crença não justifica, porém, a conclusão abrangente de que toda experiência de estados intencionais depende de uma teoria da mente, pois demonstrar dificuldades infantis na atribuição de falsas crenças presentes a outros e falsas crenças passadas a si não equivale a mostrar que a criança seja incapaz de experienciar crenças ou outros estados intencionais antes de compreender teoricamente sua possibilidade de erro.

  • Uma teoria completa da crença precisa certamente compreender como crenças podem ser falsas.
  • Dessa exigência teórica, contudo, não se segue que uma criança incapaz de formular tal compreensão também seja incapaz de experienciar-se como sujeito de estados intencionais.
  • A exigência adequada para uma teoria conceitualmente desenvolvida não pode ser simplesmente transferida para formas pré-teóricas da experiência infantil.

17. Nichols e Stich apresentam uma objeção severa à teoria-teoria da autoconsciência ao mostrar que suas principais interpretações enfrentam dificuldades: se somente informações comportamentais acessíveis igualmente aos outros fundamentassem o autoconhecimento, a posição reduzir-se-ia a um behaviorismo implausível; se houvesse informação privada adicional, seria necessário explicar sua natureza; e, se essa informação já fosse conhecimento dos próprios estados mentais, o mecanismo de teoria da mente tornar-se-ia desnecessário.

  • A referência de Gopnik à experiência psicológica em primeira pessoa como uma espécie de “zumbido cartesiano” não esclarece suficientemente a natureza da informação adicional disponível ao próprio sujeito.
  • Se o acesso privilegiado já fornece diretamente informação sobre estados mentais próprios, introduzir posteriormente uma inferência teórica deixa de explicar o fundamento da autoconsciência.

18. Uma dificuldade adicional decorre do fato de a teoria-teoria sustentar que a familiaridade com a própria mente pressupõe uma teoria da mente enquanto a concepção desenvolvimental padrão situa a aquisição dessa teoria por volta dos quatro anos, quando crianças começam a resolver tarefas clássicas de falsa crença e aparência-realidade, fazendo com que fracassos anteriores sejam interpretados por autores como Baron-Cohen, Frith e Happé como indícios de ausência de autoconsciência propriamente dita.

19. A teoria-teoria da autoconsciência encontra-se ainda vinculada, embora nem sempre explicitamente, a concepções de ordem superior da consciência, segundo as quais um estado mental só se torna fenomenalmente consciente quando é acompanhado por algum estado mental de ordem superior que o toma como objeto.

20. Carruthers explicita essa ligação ao defender que um estado mental só possui qualidade subjetiva consciente quando o sujeito está consciente de possuí-lo, tornando a autoconsciência condição conceitualmente necessária da consciência fenomenal e identificando-a com uma forma de pensamento de ordem superior.

  • Para uma percepção de uma superfície verde ser fenomenalmente consciente, o organismo precisaria ser capaz de conceptualizar o estado correspondente mediante algo equivalente ao pensamento “estou percebendo uma superfície verde”.
  • Como conceitos mentais adquiririam significado dentro de uma teoria psicológico-popular, somente criaturas que possuem teoria da mente poderiam ter experiências conscientes.
  • Animais e crianças muito pequenas, caso não possuam conceitos e pensamentos de ordem superior sobre suas experiências, não teriam propriamente uma dimensão fenomenal de consciência.
  • A consequência seria particularmente radical para a consideração moral do sofrimento animal, pois sentir dor sem capacidade de conceptualizar a experiência deixaria de envolver qualquer modo subjetivo de vivê-la.

21. A posição de Carruthers implica que animais e crianças menores de aproximadamente três anos não possuem consciência fenomenal nem dimensão propriamente subjetiva, de maneira que não haveria para eles um modo de sentir dor ou prazer, apesar da convicção comum de que ser uma criança pequena, um gato ou um camelo envolve experiências dotadas de qualidades subjetivas.

22. Condicionar toda autoconsciência à posse de teoria da mente, ao domínio do pronome de primeira pessoa ou ao reconhecimento da própria imagem no espelho emprega uma definição excessivamente estreita do fenômeno, pois evidências de autoconsciência infantil anterior à aquisição dessas capacidades constituiriam diretamente uma dificuldade para a teoria-teoria.

** 3. Contraevidências do desenvolvimento **

23. Investigações de Stern, Neisser, Butterworth e Rochat sustentam que a criança possui formas de experiência de si desde o nascimento e rejeitam a antiga concepção, associada a Piaget e outros teóricos, segundo a qual a vida infantil começaria em uma fusão adualista ou estado de indiferenciação no qual ainda não haveria distinção entre si mesmo, mundo e outros.

24. Stern considera que teoria e linguagem transformam e articulam a experiência infantil de si e dos outros, mas não a constituem originariamente, pois desde muito cedo já estariam presentes formas pré-reflexivas e pré-linguísticas de sentido de si, incluindo agência de si, coerência de si, afetividade de si e história de si.

  • A agência de si corresponde à experiência de ser autor das próprias ações.
  • A coerência de si consiste na experiência de constituir uma totalidade integrada e não fragmentada.
  • A afetividade de si corresponde à experiência dos próprios sentimentos subjetivos.
  • A história de si envolve um sentido de continuidade e persistência em relação ao próprio passado.
  • Esses sentidos elementares não constituem construções cognitivas posteriores, mas dimensões vividas e existenciais sobre as quais formas objetiváveis e verbalizáveis do si mesmo podem ser edificadas.

25. A experiência infantil de agência pode ser compreendida mediante duas invariantes experienciais — o sentido de volição que antecede uma ação motora e o retorno proprioceptivo produzido durante sua execução — cuja presença ou ausência permite distinguir ações próprias voluntárias, ações alheias e movimentos do próprio corpo causados externamente.

  • Quando volição e retorno proprioceptivo estão presentes, a ação é vivida como produzida pelo próprio sujeito.
  • Quando ambos estão ausentes, trata-se da ação de outra pessoa.
  • Quando há retorno proprioceptivo sem volição, como quando a mãe movimenta a mão da criança, o corpo próprio é movimentado por outro.
  • Essa diferenciação evidencia uma capacidade pré-reflexiva de distinguir modos fundamentais de autoria corporal.

26. Neisser, Butterworth e Rochat também rejeitam uma origem tardia da autoconsciência, e a distinção de Neisser entre si ecológico, interpessoal, estendido, privado e conceitual atribui primazia ao si ecológico entendido como agente ativo incorporado ao ambiente imediato, cuja presença se manifesta em toda percepção.

  • Seguindo Gibson, a percepção é compreendida como fornecendo simultaneamente informação sobre o ambiente e sobre a relação do próprio percebedor com aquilo que percebe.
  • Toda percepção envolve, nesse sentido, uma copresença do si mesmo e do ambiente.
  • O sujeito perceptivo é corporalmente situado, possui olhos móveis, cabeça orientável e corpo capaz de deslocamento, razão pela qual o ponto de vista perceptivo está constitutivamente ligado às possibilidades de movimento.
  • O fluxo visual provocado pelo movimento corporal fornece informação acerca da própria postura e deslocamento.
  • A propriocepção é intermodal e não se reduz a um órgão ou sentido corporal específico, podendo envolver visão, audição, músculos e articulações como componentes de um mecanismo geral de sensibilidade a si.

27. A percepção de possibilidades de ação, ou affordances, é dimensionada pelo próprio corpo e mostra que até crianças muito pequenas precisam dispor de informação especificadora de si, pois distinguem objetos alcançáveis daqueles situados além de seu alcance e orientam suas ações de acordo com a relação entre posição ambiental, dimensões corporais e capacidades motoras.

  • Distâncias relevantes não são inicialmente representadas em medidas abstratas, mas em relação às possibilidades corporais de agir.
  • Crianças de poucas semanas já respondem ao fluxo óptico, distinguem-se de outros objetos e diferenciam consequências de suas próprias ações de acontecimentos externos.
  • Elas percebem onde estão, como se movem, o que fazem e se determinada ação é própria ou não.
  • Essas competências precoces testemunham uma forma primitiva e irredutível de autoconsciência.

28. Experimentos descritos por Rochat mostram que recém-nascidos com apenas cerca de vinte e quatro horas distinguem estimulação tátil externa de autoestimulação acompanhada por propriocepção, respondendo mais intensamente ao toque proveniente de fora e revelando capacidade de discriminar invariantes intermodais que especificam si mesmo e não-si mesmo.

  • A resposta de busca do recém-nascido ocorre com frequência significativamente maior diante de estimulação externa do que diante do próprio toque.
  • A propriocepção encontra-se disponível desde o nascimento e pode ser considerada uma modalidade privilegiada de acesso ao si corporal.
  • Muito antes do reconhecimento no espelho ou das tarefas de falsa crença, a criança já experimenta o próprio corpo como entidade organizada e incorporada ao ambiente.
  • Esse sentido corporal perceptivamente fundado corresponde ao chamado si ecológico.

29. O si ecológico infantil é fundamentalmente corporal, pois a exploração espontânea do próprio corpo permite à criança especificar-se progressivamente como agente diferenciado no ambiente, constituindo a experiência corporal precoce o berço da autopercepção e a origem desenvolvimental das formas posteriores de autoconhecimento.

30. Entre aproximadamente quinze e dezoito meses, o desenvolvimento de competências simbólicas e linguísticas permite à criança assumir uma perspectiva mais distanciada sobre si mesma, como demonstra o reconhecimento no espelho, no qual passa a relacionar uma marca percebida na imagem refletida ao próprio rosto e a agir diretamente sobre seu corpo.

31. O sucesso no teste do espelho comprova uma modalidade de autoconsciência, mas seu fracasso não demonstra ausência de autoconsciência, pois reconhecer-se refletido é uma forma sofisticada e representacionalmente mediada de autoidentificação que já pressupõe consciência corporal anterior.

  • A criança precisa identificar como sendo ela mesma aquilo que aparece à distância na superfície refletora.
  • Essa identificação depende da correspondência entre os movimentos corporais próprios e os movimentos da imagem.
  • Reconhecer essa correspondência só é possível se os próprios movimentos já forem experienciados anteriormente de alguma maneira.
  • A autoconsciência corporal é, portanto, condição da autoidentificação no espelho e não seu resultado.

32. As evidências convergem para uma dimensão de experiência corporal de si estabelecida muito antes da resolução de tarefas de teoria da mente, colocando em dificuldade a tese de que toda autoconsciência seja teoricamente mediada e exigindo estender a crítica também à concepção paralela segundo a qual toda intersubjetividade dependeria de leitura teórica da mente.

** 4. Corporificação e intersubjetividade **

33. Crianças possuem autoconsciência corporal e participam de interações sociais muito antes de adquirir uma teoria da mente, mostrando que atribuições inferenciais de estados psicológicos, embora ocorram ocasionalmente na vida adulta, não podem constituir a base da intersubjetividade primária, imediata e fluida observável desde os primeiros meses de vida.

  • Entre aproximadamente dois e seis meses, a vida infantil apresenta intensa orientação social.
  • O sorriso social já está estabelecido e há preferência clara por outros sujeitos em comparação com objetos inanimados.
  • Embora ainda possua domínio limitado da locomoção, a criança controla amplamente o olhar e utiliza-o para participar de interações.
  • Desviar o olhar, fechar os olhos, fixá-los ou evitar contato visual permite iniciar, manter, interromper ou regular a quantidade de estimulação social.

34. Crianças de dois ou três meses participam de “protoconversações” por meio de sorrisos, vocalizações e regulações temporais e intensivas da comunicação, envolvendo uma ressonância afetiva recíproca na qual a própria interação, e não algum objetivo externo, parece constituir inicialmente sua finalidade.

  • A criança responde ao espelhamento afetivo da mãe e demonstra sensibilidade à correspondência entre as expressões de ambas.
  • Há expectativa precoce de reciprocidade nas interações face a face.
  • Quando a mãe permanece imóvel e não responsiva, a criança tende a interromper o sorriso, demonstrar sofrimento e tentar restabelecer o envolvimento interativo.

35. Desde muito cedo, objetos e pessoas são experienciados de maneira diferente, pois rostos, vozes e movimentos corporais são apreendidos como parâmetros sociais especiais, e movimentos alheios podem ser percebidos como dirigidos a objetivos e intencionalmente organizados, fazendo com que a interação primária dependa de uma apreensão intuitiva da expressividade dos outros e não de inferências teóricas sobre estados mentais ocultos.

36. Por volta dos nove meses ocorre uma transformação importante pela qual a criança começa a compartilhar com outros não apenas interações face a face, mas também experiências referentes ao mundo, manifestando atenção conjunta, compartilhamento de intenções e referência aos estados afetivos alheios.

  • Outras pessoas começam a ser reconhecidas mais explicitamente como agentes intencionais cujas ações possuem planejamento e propósito.
  • A criança passa a acompanhar com outras pessoas a atenção dirigida a objetos e verificar se ambas estão interessadas no mesmo acontecimento.
  • Expressões emocionais alheias são utilizadas como referências relevantes para orientar ações e interpretar situações novas.

37. A atenção conjunta manifesta-se quando a criança acompanha o olhar ou o gesto de apontar de outra pessoa e retorna posteriormente ao rosto dessa pessoa para verificar se ambas atingiram o mesmo alvo, enquanto o compartilhamento de intenções aparece em solicitações protolinguísticas de ajuda e a interafetividade se manifesta quando a reação emocional do cuidador orienta a própria resposta infantil diante de situações ambíguas.

  • Mostrar objetos e verificar o olhar do outro evidencia a tentativa de confirmar uma experiência perceptiva compartilhada.
  • Solicitar ajuda pressupõe compreender o outro como alguém capaz de apreender e realizar uma intenção própria.
  • Na referenciação social, a criança consulta a expressão emocional do adulto para determinar como reagir diante de objetos desconhecidos.
  • No experimento do “precipício visual”, expressões maternas de alegria favorecem a travessia da superfície aparentemente perigosa, enquanto expressões de medo produzem paralisação ou recuo.
  • Não é simplesmente a presença física da mãe que orienta a ação, mas o significado afetivo de sua expressão em relação a um ambiente compartilhado.
  • Gestos e vocalizações são, assim, percebidos simultaneamente como expressivos de estados afetivos e dirigidos a algo existente no mundo comum.
  • A experiência infantil envolve uma percepção direta de significados pessoais inscritos nas expressões e comportamentos, enquanto a distinção conceitual posterior entre corpos externos e mentes interiores constitui aquisição desenvolvimental mais tardia.

38. A relação entre experiência corporal de si e experiência dos outros torna-se filosoficamente decisiva porque uma concepção da mente que exclua a corporificação e o comportamento corporal da estrutura fundamental da experiência corre o risco de tornar a intersubjetividade incompreensível e de conduzir ao solipsismo.

39. Se a experiência originária de si fosse exclusivamente mental e interior, sem que a corporificação participasse desde o início da familiaridade consigo mesmo, faltaria fundamento para reconhecer outros corpos como sujeitos incorporados, pois a subjetividade seria conhecida apenas no caso próprio e não haveria indicação experiencial que justificasse sua atribuição a seres externamente percebidos.

  • Uma subjetividade definida como pura interioridade acessível somente “por dentro” tornaria enigmática sua transferência para outros corpos.
  • Merleau-Ponty ressalta que somente porque a experiência própria já contém uma articulação entre interioridade e exterioridade pode a corporeidade alheia aparecer como corporeidade de outro sujeito.
  • A assimetria radical entre acesso interno aos estados próprios e acesso exclusivamente comportamental aos estados alheios tornaria igualmente obscuro por que os conceitos psicológicos utilizados nos dois casos deveriam possuir o mesmo significado.

40. Se o próprio corpo não participar essencialmente da atribuição de estados mentais a si enquanto os estados alheios forem atribuídos com base na corporeidade e no comportamento, os mesmos conceitos psicológicos serão empregados segundo critérios inteiramente heterogêneos e sua unidade semântica ficará ameaçada, problema que pode ser enfrentado recusando a divisão radical entre mente e corpo e reconhecendo na ação uma dimensão anterior a essa separação artificial.

41. Reconhecer o papel constitutivo da ação não implica reduzir a subjetividade ao comportamento, pois ações são precisamente ações de sujeitos dotados de mente, sendo necessário conservar as diferenças entre perspectivas de primeira, segunda e terceira pessoas sem transformá-las numa separação tão radical que as experiências dos outros se tornem entidades meramente hipotéticas ocultas por seus comportamentos.

42. Merleau-Ponty vincula diretamente corporificação e intersubjetividade ao sustentar que a subjetividade é essencialmente corporificada e, por isso, não coincide nem com um sujeito puro nem com um objeto puro, mas constitui um modo de existência que atravessa essa oposição e permite que a autoconsciência contenha desde o início uma abertura à alteridade.

  • A corporificação não elimina a autoconsciência, mas faz com que ela seja originariamente autoconsciência corporal.
  • A perda da suposta transparência absoluta da interioridade torna possível a manifestação do outro.
  • A experiência própria precisa conter uma antecipação da alteridade para que outros corpos possam ser reconhecidos como sujeitos estrangeiros incorporados.
  • A corporeidade constitui o denominador comum entre experiência própria e experiência alheia, porque o corpo vivido possui necessariamente uma dimensão exterior.
  • Caminhar, escrever ou jogar bola são modos de experiência própria que simultaneamente antecipam maneiras pelas quais o próprio corpo pode aparecer a outra pessoa.
  • A diferença entre primeira e segunda pessoa não desaparece, mas torna-se inteligível a partir de uma estrutura corporal compartilhada.
  • A autoconsciência corporificada pode ser compreendida como pressentimento do outro e a experiência do outro como eco da própria constituição corporal.
  • Somente porque a subjetividade não é interioridade pura, mas existência corporal que se transcende em direção ao mundo, pode encontrar e compreender outras subjetividades igualmente corporificadas.

43. A função constitutiva do comportamento corporal, da expressão e da ação para formas fundamentais da consciência não significa identificar consciência com comportamento, mas reconhecer que determinados estados mentais são apreendidos diretamente nas expressões corporais dos sujeitos e não acrescentados posteriormente por inferência intelectual a movimentos inicialmente destituídos de significado.

  • No encontro face a face não aparecem primeiro um corpo físico e depois uma psique invisível inferida, mas uma totalidade expressiva unificada.
  • Um rosto é imediatamente percebido como amistoso, irritado, triste, radiante ou entediado, sem necessidade de raciocinar a partir de contrações musculares.
  • Wittgenstein caracteriza essa apreensão como percepção direta do medo, da alegria ou da tristeza, e não como inferência de uma realidade interna a partir de sinais externos.
  • Merleau-Ponty e Scheler igualmente sustentam que raiva, vergonha, ódio e amor possuem dimensões comportamentais ou estilos expressivos visíveis.
  • Isso não significa que todos os estados mentais sejam manifestos, mas alguma conexão essencial entre vida mental e expressão é necessária para que a intersubjetividade seja possível.

44. A compreensão dos outros permanece falível e frequentemente deixa indeterminadas suas crenças e intenções específicas, mas essa incerteza cotidiana é radicalmente diferente do ceticismo solipsista acerca da própria existência das outras mentes, pois a relação fundamental com os outros é mais originária do que qualquer dúvida particular acerca daquilo que estejam pensando.

** 5. Reservas fenomenológicas **

45. Embora razões filosóficas e empíricas sustentem que a consciência corporal constitui genuína experiência de si, as interpretações de Rochat, Butterworth, Neisser e Stern nem sempre esclarecem adequadamente a natureza dessa autoconsciência.

46. Rochat distingue corretamente experiência de si, experiência de objetos e experiência de outras pessoas como classes fenomenologicamente distintas, mas enfraquece essa distinção ao tratar posteriormente o próprio corpo como objeto de exploração e a autopercepção como simples diferenciação do corpo próprio em relação aos demais objetos ambientais.

47. Butterworth distingue desenvolvimentalmente a autoconsciência proprioceptiva das formas reflexivas de ordem superior, mas ainda caracteriza o si ecológico como objeto da própria percepção e a consciência primária como percepção de si enquanto coisa ou objeto situado no ambiente físico e social.

48. Neisser também descreve repetidamente o si como objeto e, embora reconheça que o si ecológico não seja objeto do pensamento, continua a concebê-lo como objeto da percepção.

49. A descrição multifacetada de Stern apresenta tendência objetivista semelhante ao sugerir ocasionalmente que a experiência infantil de si decorre da capacidade geral de discriminar entidades distintas e de reconhecer padrões invariantes que diferenciam os próprios movimentos e experiências daqueles pertencentes a outras pessoas.

  • A criança não seria uma tabula rasa, pois possuiria capacidades inatas para organizar estímulos em configurações gestálticas estruturadas.
  • Ao sentir o toque materno, ouvir a voz paterna e ver a própria mão, conseguiria distinguir mãe, pai e si mesma como entidades diferentes.
  • A discriminação entre agentes dependeria da capacidade de diferenciar estruturas invariantes características das próprias ações daquelas que acompanham ações alheias.

50. A simples capacidade de discriminar configurações ou entidades não explica como determinada configuração experiencial é vivida precisamente como pertencente ao próprio sujeito, e transformar a autoconsciência numa identificação correta entre diferentes objetos equivale a imaginar erroneamente que a criança recebe inicialmente experiências neutras e somente depois identifica algumas delas como suas.

51. Conceber o si corporal como objeto e a autoconsciência corporal como consciência de objeto é inadequado porque todo objeto se apresenta como algo distinto e transcendente em relação à experiência subjetiva que o apreende, enquanto a autoconsciência deve justamente proporcionar familiaridade com a própria subjetividade e não simplesmente introduzir mais um objeto no campo experiencial.

  • Há formas de reconhecimento objetivado de si, como reconhecer-se no espelho, mas elas não podem constituir a autoconsciência mais fundamental.
  • Reconhecer determinado objeto como sendo o próprio sujeito requer já possuir algum conhecimento prévio de si mediante o qual a identificação possa ser realizada.
  • Sem uma familiaridade não objetivante consigo mesmo, qualquer tentativa de identificar um objeto como si próprio produziria regressão infinita.
  • A análise de Shoemaker mostra que o autoconhecimento perceptivo pressupõe necessariamente alguma modalidade não perceptiva e não objetivante de autoconhecimento.

52. A mesma dificuldade afeta uma interpretação objetivista da introspecção, pois identificar o objeto introspectivamente observado como sendo o próprio sujeito pressupõe já saber quem realiza a introspecção, e esse saber não pode resultar novamente de outra identificação sem produzir regressão infinita.

53. A principal insuficiência comum às análises de Stern, Rochat e Butterworth consiste, portanto, em tratar o si corporificado como objeto e a autoconsciência corporal como consciência objetual, enquanto a fenomenologia oferece recursos para conceber uma modalidade mais originária de familiaridade consigo mesmo.

54. A fenomenologia emprega uma concepção ampla de autoconsciência segundo a qual ela não começa apenas com a construção de teorias sobre as causas do próprio comportamento, com a introspecção deliberada, com o reconhecimento especular, com o domínio do pronome de primeira pessoa ou com o conhecimento narrativo da própria biografia, mas pertence tacitamente à própria estrutura da experiência consciente.

  • Estar consciente de um objeto envolve não apenas a manifestação do objeto, mas também alguma familiaridade implícita com a própria experiência pela qual ele se manifesta.
  • A autoconsciência consiste originariamente na doação ou manifestação em primeira pessoa da vida experiencial.
  • Qualquer experiência consciente possui um modo subjetivo de ser vivida, um “como é” experienciá-la.
  • Sentir alegria, saborear um sorvete, lembrar uma caminhada nos Alpes, sentir o cheiro de folhas de hortelã, contemplar um pôr do sol ou ouvir uma obra musical são experiências diferentes, mas compartilham a qualidade de serem dadas como experiências próprias.
  • Essa qualidade de “minheidade” não exige uma reflexão explícita, mas constitui o modo em primeira pessoa pelo qual a experiência acontece.
  • A experiência em primeira pessoa proporciona acesso imediato e não observacional a si mesmo.
  • A consciência fenomenal envolve, portanto, uma forma mínima ou fraca de autoconsciência, sem a qual nenhum processo mental possuiria uma qualidade subjetiva de ser vivido.

55. A estreita relação entre consciência e autoconsciência não é exclusiva da fenomenologia, pois teorias de ordem superior também sustentam que a diferença entre estados conscientes e não conscientes depende de algum tipo de relação da mente consigo mesma, normalmente mediante um estado metamental que toma outro estado como objeto.

56. Apesar dessa semelhança superficial, a concepção fenomenológica difere radicalmente das teorias de ordem superior porque nega que a autoconsciência presente em toda experiência consciente resulte de reflexão, introspecção, monitoramento ou de um segundo estado mental dirigido ao primeiro, considerando-a antes uma característica intrínseca da própria experiência primária.

57. A existência dessa autoconsciência pré-reflexiva não exclui modalidades mais complexas de relação consigo mesmo dependentes de linguagem, teoria e constituição intersubjetiva, mas estabelece que a autoconsciência primitiva própria da consciência fenomenal independe dessas formas cognitivamente sofisticadas.

58. A análise fenomenológica complementa as evidências da psicologia do desenvolvimento porque enfrenta explicitamente a relação entre autoconsciência e dimensão experiencial, aspecto que não pode ser estabelecido apenas mediante observações comportamentais, uma vez que atribuir autoconsciência exige não somente identificar determinado comportamento, mas reconhecer que ele decorre de experiências vividas pelo sujeito.

  • Os resultados de Stern, Rochat, Neisser e Butterworth são predominantemente comportamentais.
  • O comportamento, por si só, não basta para estabelecer a existência de autoconsciência.
  • É preciso compreender a estrutura da experiência que torna possível e orienta o comportamento observado.
  • A fenomenologia fornece justamente uma investigação sistemática dessa relação entre vida experiencial e autoconsciência.

59. A análise fenomenológica da autoconsciência corporificada deve partir do modo originário de doação do corpo, que normalmente não aparece como objeto temático enquanto a atenção se dirige às coisas e finalidades do mundo, pois movimentos corporais permanecem pré-reflexivamente presentes e funcionais mesmo quando não são explicitamente observados.

  • Ao acompanhar uma partida de futebol, movimentos dos olhos, cabeça e mãos normalmente não ocupam o centro temático da consciência.
  • O corpo tende a apagar-se enquanto conduz a atividade intencional até seu objetivo.
  • Essa retração temática é funcionalmente necessária, pois uma atenção objetivante permanente aos movimentos corporais prejudicaria a fluidez da vida cotidiana.
  • A ausência de tematização não significa, entretanto, que os movimentos sejam inconscientes, mecânicos ou involuntários.
  • Henry e Merleau-Ponty compreendem esses movimentos como imediatamente sentidos em nível pré-reflexivo e integrados à intencionalidade operante.

60. O próprio corpo não se oferece originariamente como mais um objeto perspectivamente percebido entre outros, mas como a perspectiva corporal permanente a partir da qual objetos podem ser percebidos, razão pela qual não é necessário localizá-lo previamente para agir e por que, em sentido fenomenológico, inicialmente não se percebe o corpo: vive-se corporalmente como ele.

  • Enquanto objetos mundanos podem aproximar-se ou afastar-se, o corpo próprio permanece invariavelmente presente como centro perspectivo da experiência.
  • Sartre e Merleau-Ponty enfatizam que o corpo não é simplesmente aquilo que se percebe, mas aquilo pelo qual a percepção perspectivada é possível.
  • O corpo vivido permanece frequentemente “invisível” porque é existencialmente vivido antes de ser conhecido tematicamente.
  • A distinção husserliana entre corpo vivido (Leib) e corpo físico (Körper) separa precisamente a corporeidade pré-reflexivamente vivida em primeira pessoa da experiência posterior do próprio corpo como objeto temático.

61. A consciência corporal pré-reflexiva deve, portanto, ser compreendida como modo pelo qual a consciência corporificada é dada a si mesma enquanto sujeito e não como percepção de um objeto corporal, de maneira que, contra a concepção segundo a qual a propriocepção somática teria o si corporificado como seu objeto, a fenomenologia a interpreta como genuína modalidade de experiência de si.

** 6. Conclusão **

62. A teoria-teoria sustenta que tanto a compreensão dos estados mentais dos outros quanto o acesso à própria mente dependem dos mesmos mecanismos cognitivos de leitura mental e da aplicação de uma teoria da mente, mas, como essa teoria seria adquirida apenas aproximadamente aos quatro anos, a posição termina por negar às crianças menores formas próprias de experiência de si e dos outros.

63. Essa conclusão enfrenta dificuldades empíricas e conceituais decisivas porque as evidências do desenvolvimento indicam que crianças possuem desde muito cedo uma experiência corporal de si e são capazes de interações sociais sofisticadas muito antes de resolverem tarefas de teoria da mente.

64. A articulação entre esses resultados empíricos e a tradição fenomenológica oferece uma alternativa mais consistente, pois a fenomenologia sustenta simultaneamente que a intersubjetividade pressupõe corporificação e experiência corporal de si e que a autoconsciência primária não constitui uma forma de consciência objetual, de maneira que a combinação das investigações de Stern, Neisser, Butterworth e Rochat com as análises de Husserl, Sartre, Merleau-Ponty e Wittgenstein constitui um desafio substancial à teoria-teoria da mente.

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