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Atenção

Odysseus Stone and Dan Zahavi, Bare attention, Dereification, and Meta-awareness in Mindfulness: A Phenomenological Critique, in R. Repetti (ed): Routledge Handbook on the Philosophy of Meditation (pp.341-353). New York: Routledge, 2022.

** Atenção nua, desreificação e metaconsciência na atenção plena: uma crítica fenomenológica **

** 1 Introdução **

1. A aproximação recente entre fenomenologia, atenção plena e filosofia budista pode ser fecunda para a investigação interdisciplinar e intercultural, mas a identificação da fenomenologia com uma técnica meditativa voltada à atenção cuidadosa à experiência do momento presente reduz indevidamente seu alcance e desconsidera suas ambições filosóficas sistemáticas muito mais amplas.

2. A extraordinária expansão contemporânea da atenção plena, desde as Intervenções Baseadas em Mindfulness (MBIs) empregadas na psicoterapia até sua incorporação à educação, ao sistema de justiça criminal, ao treinamento militar, às empresas, ao mercado financeiro e a práticas cotidianas mediadas por aplicativos, torna necessária uma investigação filosófica de seus pressupostos fundamentais, pois sua apresentação como técnica secular e teoricamente neutra encobre compromissos metafísicos, epistemológicos, éticos e soteriológicos substanciais acerca da experiência e da relação entre mente e mundo.

  • A disseminação clínica e institucional da atenção plena foi acompanhada de intenso crescimento das pesquisas em psicologia clínica e neurociência cognitiva, além de uma presença cultural internacional que ultrapassa amplamente os contextos budistas.
  • A questão decisiva não consiste simplesmente em comparar fenomenologia e atenção plena enquanto métodos de primeira pessoa, mas em examinar criticamente as concepções de experiência e de relação mente-mundo pressupostas pelo movimento contemporâneo da atenção plena.

3. A própria determinação do que seja atenção plena apresenta dificuldades metodológicas consideráveis, tanto pela ausência de consenso na psicologia contemporânea quanto pela pluralidade histórica das tradições budistas, pelas diferenças entre suas concepções de atenção plena e pela influência decisiva do modernismo budista, razão pela qual a análise pode legitimamente concentrar-se nas formulações populares e secularizadas que exercem maior influência cultural e psicológica.

  • O movimento contemporâneo da atenção plena não deriva simplesmente de uma doutrina budista homogênea, mas resulta de múltiplas tradições e de transformações culturais iniciadas no confronto do budismo com a modernidade e o colonialismo.
  • A concentração em apresentações populares da atenção plena permite examinar as concepções de mente e mundo que efetivamente circulam entre públicos seculares e não filosóficos, ainda que isso deixe de lado formulações budistas tecnicamente mais sofisticadas.
  • Críticas sociopolíticas dirigidas à mercantilização tardocapitalista da atenção plena, caracterizada como “McMindfulness”, constituem uma questão diferente daquela que exige especificamente os recursos conceituais da fenomenologia.

4. A enorme influência da atenção plena secularizada justifica que suas próprias formulações sejam submetidas a exame crítico, sem que isso implique generalizar as objeções a todas as tradições budistas, a todas as variedades de atenção plena ou à meditação em geral, uma vez que permanece em aberto até que ponto as críticas formuladas podem ser estendidas a práticas e concepções distintas.

** 2 Atenção plena na MBSR e na MBCT **

5. A compreensão contemporânea da atenção plena foi profundamente moldada pela Redução do Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR), desenvolvida por Jon Kabat-Zinn para pacientes com condições crônicas, sobretudo dor crônica, e pela Terapia Cognitiva Baseada em Mindfulness (MBCT), desenvolvida por John Teasdale, Mark Williams e Zindel Segal para prevenir recaídas depressivas a partir de afinidades percebidas entre análises budistas do sofrimento e a terapia cognitiva de Aaron Beck.

6. A concepção de Kabat-Zinn atribui grande parte do sofrimento humano ordinário à “tirania da mente pensante”, pois a vida desperta tende a ser dominada por divagações emocionalmente carregadas acerca do passado e do futuro, por planos, expectativas, temores, desejos e hábitos que afastam da riqueza concreta da experiência presente.

  • A preocupação permanente com pensamentos, lembranças, antecipações e desejos reduz o contato com aquilo que efetivamente ocorre no momento presente.
  • A dispersão temporal não aparece apenas como distração ocasional, mas como modo habitual de funcionamento pelo qual a experiência concreta é substituída por uma absorção na atividade mental.

7. O problema atribuído à mente pensante ultrapassa a divagação temporal, pois a própria percepção do aqui e agora seria recoberta por pensamentos, opiniões, classificações, comparações e avaliações que funcionariam como um véu entre a consciência e a experiência direta, produzindo simultaneamente distorção epistemológica e desconexão existencial.

  • A contemplação de um pôr do sol, por exemplo, deixaria rapidamente de ser encontro direto com cores e luzes para converter-se em categorização, julgamento e comparação com lembranças e concepções anteriores.
  • Os pensamentos seriam frequentemente imprecisos e pouco confiáveis, podendo obscurecer a experiência nua e contribuir para a produção de uma realidade distorcida vinculada ao sofrimento ordinário.

8. A atenção plena surge, nesse contexto, como atenção não julgadora à experiência do momento presente, destinada a enfraquecer padrões psicológicos e afetivos arraigados mediante uma consciência calma e receptiva que, na interpretação budista da “atenção nua”, registraria os fatos observados sem acrescentar reação, comentário mental, autorreferência, julgamento ou reflexão.

  • A distinção entre ouvir sons e imediatamente nomeá-los como “sino”, “carro”, “caminhão” ou “pessoa” exemplifica a ideia de que conceitos produzidos pela mente pensante são habitualmente confundidos com a realidade da experiência direta.
  • A “atenção nua” pressupõe, assim, a possibilidade de distinguir um nível primário da experiência de suas subsequentes classificações conceituais.

9. A ênfase de Kabat-Zinn na consciência não julgadora decorre da convicção de que preferências, aversões e opiniões normalmente filtram e colorem a experiência direta, embora o propósito da MBSR e da MBCT não seja simplesmente eliminar pensamentos e emoções, mas observá-los de maneira não julgadora como eventos que surgem e desaparecem no campo da atenção.

  • A prática não exige necessariamente interromper o fluxo mental, mas deslocar-se para uma atitude comparável à de um observador neutro diante dos próprios pensamentos.
  • Depois de estabilizada a atenção, pensamentos podem ser percebidos não como aquilo que determina imediatamente a realidade, mas como acontecimentos transitórios no campo consciente.

10. O problema fundamental dos pensamentos e sentimentos não estaria em sua mera ocorrência, mas no erro de tomá-los imediatamente como verdade ou realidade, de modo que a atenção plena adquire significado terapêutico e ético ao permitir reconhecê-los como acontecimentos mentais transitórios e potencialmente imprecisos, processo denominado “descentramento” na MBCT e estendido dos pensamentos discursivos aos sentimentos, sensações corporais e impulsos de ação.

  • A possibilidade de reconhecer que pensamentos não equivalem simplesmente à realidade nem ao próprio sujeito é apresentada como experiência libertadora.
  • Embora a MBCT enfatize particularmente a ruminação, o descentramento é concebido de modo mais abrangente como uma mudança na relação com o conjunto do estado mente-corpo.

11. A noção de descentramento foi reformulada por Antoine Lutz, Amishi Jha, John Dunne e Clifford Saron em termos de “desreificação”, contraposta à reificação pela qual pensamentos como “sou um fracasso”, recordações de uma conversa estressante ou representações de um alimento desejado são vividos com tamanha força que se apresentam como descrições atuais e efetivas da realidade.

  • Na ruminação depressiva, uma autodescrição negativa pode ser assumida como caracterização verdadeira do próprio sujeito e, assim, sustentar ou aprofundar o estado depressivo.
  • A lembrança de um conflito passado pode ser experimentada quase como repetição presente do acontecimento e desencadear novamente uma resposta fisiológica de estresse.
  • A representação de um alimento desejado pode adquirir presença suficiente para produzir respostas corporais, como a salivação, exemplificando o alto grau de reificação atribuído a certos conteúdos mentais.

12. A desreificação corresponderia à transformação pela qual pensamentos perdem sua aparente integridade representacional e passam a ser experimentados simplesmente como eventos mentais corporificados em um campo sensorial, proprioceptivo, afetivo e somático, reduzindo potencialmente o sofrimento ao permitir que lembranças, pensamentos e representações deixem de ser vividos como se seus objetos estivessem efetivamente presentes.

  • Em praticantes iniciantes, a desreificação pode depender de uma reavaliação cognitiva explícita, como a formulação “isto é apenas um pensamento”.
  • Em praticantes avançados, essa atitude poderia surgir espontaneamente e estabilizar-se como postura geral diante de toda experiência.

** 3 Atenção nua e fenomenologia da percepção **

13. As críticas à atenção plena contemporânea abrangem sua divergência em relação a certas concepções budistas clássicas, a possível eliminação indevida da avaliação ética e sua afinidade problemática com uma aceitação passiva do status quo, com a individualização do sofrimento e, consequentemente, com formas tardocapitalistas e conservadoras de organização social.

14. A questão fenomenologicamente decisiva concerne, porém, à plausibilidade da metafísica e da epistemologia pressupostas pela atenção plena, sobretudo à ideia de consciência não julgadora do presente, que pode ter afinidade legítima com a valorização fenomenológica da intuição e da percepção enquanto modos de doação direta e imediata do objeto, em contraste com sua reapresentação pela memória, imaginação ou pensamento simbólico.

  • Husserl e Merleau-Ponty atribuem à percepção a capacidade de apresentar o objeto diretamente, “em carne e osso”, sem que isso implique reduzir a experiência perceptiva a uma recepção de dados sensoriais brutos.
  • O imperativo fenomenológico de retornar “às próprias coisas” também envolve uma recusa de permanecer apenas entre teorias, construções conceituais e significações afastadas de uma efetiva doação intuitiva.

15. A relação entre experiência perceptiva e pensamento conceitual é filosoficamente controversa tanto na filosofia ocidental quanto na filosofia budista indiana, mas deve ser rejeitada, em bases fenomenológicas, a concepção presente em parte da literatura popular de atenção plena segundo a qual a sensibilidade forneceria dados neutros aos quais conceitos acrescentariam posteriormente estrutura e significado, como se inicialmente fossem ouvidas apenas sensações sonoras ou vibrações às quais depois se aplicasse o conceito de sino.

16. A chamada “teoria filtrante da cognição” caracteriza uma epistemologia segundo a qual os processos sensoriais e discursivos ordinários, em vez de proporcionarem abertura para a realidade, filtrariam e ocultariam aquilo que efetivamente existe, fazendo da atenção plena um procedimento destinado a remover condicionamentos cognitivos e permitir que as coisas fossem percebidas como realmente são, independentemente de perspectivas subjetivas ou culturalmente determinadas.

17. A fenomenologia de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty rejeita a hipótese de que a experiência comece por dados sensoriais desprovidos de significado, pois, como exemplifica Heidegger, não se recebe inicialmente uma sensação sonora que depois é interpretada como ruído de um automóvel, mas ouve-se imediatamente o próprio automóvel.

18. Mesmo que MBSR e MBCT não pretendam defender explicitamente a percepção de sensações puras, sua oposição recorrente entre experiência direta e pensamento conceitual tende a tratar este último como camada deformadora, enquanto a fenomenologia sustenta uma continuidade entre sensibilidade e entendimento e entre experiência pré-predicativa e juízo, visto que a experiência já possui uma estrutura intencional do “como” que antecipa a articulação judicativa.

  • As coisas são imediatamente experienciadas como úteis, belas, ameaçadoras, atraentes ou dotadas de outras significações, antes que essas determinações sejam formuladas em juízos explícitos.
  • Caso toda significação surgisse somente com a predicação conceitual, permaneceria incompreensível como aquilo que é percebido poderia orientar sua posterior articulação linguística.
  • A expressão conceitual e linguística pode, portanto, constituir uma consumação ou explicitação da experiência, e não necessariamente uma distorção acrescentada a ela.

19. A percepção humana é inevitavelmente configurada por sentimentos, experiências passadas, interesses e quadros de referência, de maneira que um mesmo computador pode aparecer como instrumento necessário de trabalho, fonte de prazer, problema oneroso ou produto do capitalismo tardio, e essa multiplicidade de sentidos constitui precisamente a riqueza da experiência humana que seria empobrecida pela tentativa de eliminar categorização, discernimento, julgamento, memória, história, cultura e pertencimento comunitário.

20. A defesa da atenção plena poderia responder que essa riqueza caracteriza a experiência ordinária, ao passo que a prática meditativa possibilitaria uma experiência extraordinária capaz de proporcionar encontro mais profundo e imediato com a realidade.

21. A pretensão de integrar a atenção plena a atividades comuns, como lavar pratos ou roupas, torna contudo problemática a hipótese de uma experiência desprovida da estrutura do “como”, pois a própria orientação prática cotidiana exige que objetos e acontecimentos sejam imediatamente percebidos como algo significativo e relacionado a possibilidades de ação.

  • A prática informal inserida na vida cotidiana ocupa posição central na MBSR, de modo que os benefícios terapêuticos da atenção plena deveriam manifestar-se justamente fora da situação meditativa formal.
  • Um mestre zen precisa perceber determinadas linhas na parede como uma porta, certos sons como uma pergunta e outros como um sino de meditação para agir adequadamente em seu ambiente.
  • Uma situação de incêndio precisa ser imediatamente experienciada como incêndio, ameaça, exigência de ação, ocasião para evacuar outras pessoas e acontecimento sobre o qual determinadas intervenções são possíveis, pois a eliminação dessas significações tornaria impossível qualquer resposta espontânea eficaz.

22. A insistência em uma consciência exclusivamente centrada no presente entra igualmente em tensão com a importância fundamental atribuída pela fenomenologia à temporalidade, pois a análise husserliana da consciência interna do tempo mostra que até mesmo a percepção mais elementar articula aquilo que já não é agora, aquilo que é agora e aquilo que ainda não é agora mediante retenção, presença e antecipação.

  • As estruturas temporais não constituem acessórios acrescentados à percepção, mas condições fundamentais para perceber, agir e compreender experiências cotidianas.
  • A coerência e a significatividade do mundo dependem da capacidade de percorrer temporalmente situações nas quais passado, presente e futuro se interpenetram.

23. A crescente importância atribuída por Husserl à historicidade mostra que existir historicamente não significa apenas ocupar um ponto cronológico, mas trazer consigo a própria história, pois o horizonte temporal forma o presente e faz com que experiências passadas possibilitem e limitem experiências futuras, enquanto, em termos heideggerianos, a existência humana é constitutivamente ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), encontra-se já lançada (Geworfenheit) em uma situação não escolhida e projeta-se estando-à-frente-de-si (Sich-vorweg-sein) em possibilidades futuras.

24. A existência humana é também social e histórica porque desde sempre se desenvolve entre outros, aprende com eles modos compartilhados de perceber o normal e participa de tradições transmitidas através de gerações, de maneira que o mundo humano se constitui por passados individuais sobrepostos e por passados coletivos pertencentes a grupos e comunidades, dimensões sociais, comunitárias e transgeracionais que a fenomenologia considera indispensáveis, mas que encontram pouco espaço na atenção plena contemporânea.

** 4 Desreificação, intencionalidade e metaconsciência **

25. Uma ambiguidade fundamental da literatura sobre atenção plena consiste em não distinguir adequadamente entre os objetos da experiência e os atos subjetivos de experienciar, tornando incerto se a recomendação de atender à “experiência nua” significa voltar-se reflexivamente para processos mentais normalmente obscurecidos por pensamentos e lembranças ou apreender os próprios objetos mundanos antes que sejam revestidos por classificações conceituais supostamente deformadoras.

26. A mesma ambiguidade reaparece nas noções de descentramento e desreificação, pois a recomendação de deixar de vivenciar pensamentos, emoções e percepções como objetos reais no mundo pode referir-se tanto aos atos subjetivos de pensar, sentir e perceber quanto aos objetos intencionais pensados, sentidos e percebidos, sendo pouco plausível supor que o erro cotidiano consista em confundir os próprios processos psicológicos com objetos mundanos.

27. Se o verdadeiro alvo da desreificação forem os objetos intencionais, a proposta implicará substituir aquilo que se pensa, sente ou percebe — alimento desejado, discussão recordada, exame antecipado ou objeto percebido — por uma compreensão desses objetos como meros processos ou construções psicológicas, tese incompatível com a análise fenomenológica da intencionalidade.

  • Para Husserl, o objeto que aparece perceptivamente não pode ser identificado com o ato de percebê-lo, pois uma árvore percebida possui propriedades físicas inteiramente diferentes das propriedades da percepção dessa árvore.
  • A árvore pode ser verde, possuir determinado peso, receber enfeites e perder suas folhas ou agulhas, ao passo que o ato perceptivo não possui cor nem peso e não pode receber as mesmas determinações físicas.
  • A diferença decisiva consiste ainda em que a árvore não é consciência de alguma coisa, enquanto a percepção é essencialmente percepção de algo.
  • Ver, ouvir, recordar, imaginar, pensar, odiar e temer são atos dirigidos a algo, e essa direcionalidade ou “ser acerca de” caracteriza a intencionalidade da consciência.
  • Por ser intencional, a consciência não permanece fechada sobre si mesma, mas encontra-se envolvida com um mundo de objetos e acontecimentos cuja natureza não pode ser reduzida à própria consciência ou a complexos subjetivos de sensações.

28. O fenomenalismo combatido por Husserl reaparece não apenas em certas concepções de descentramento e desreificação, mas também no neurorepresentacionalismo radical contemporâneo, segundo o qual o mundo experienciado seria uma simulação produzida pelo cérebro e aquilo que parece ser percebido externamente seria, na realidade, uma construção representacional interna projetada para fora.

  • Nessa perspectiva, cores, objetos tocados, músicas ouvidas e demais conteúdos perceptivos seriam representações geradas e contidas no cérebro.
  • A experiência seria “transparente” porque sua natureza representacional construída não aparece como tal, fazendo com que o modelo interno do mundo seja vivido imediatamente como realidade dada.

29. A caracterização da desreificação como “opacificação fenomenal” aproxima explicitamente certas teorias contemporâneas da meditação do representacionalismo, pois um evento mental seria transparente quando se acessa conscientemente seu conteúdo sem perceber sua estrutura não intencional ou seu processo de construção, enquanto sua opacificação meditativa permitiria reconhecer progressivamente seu caráter provisório, construído, dependente e impermanente.

30. A tese de que o mundo experienciado é uma construção mental conduz a consequências ontológicas extremas, pois não apenas artefatos culturais e objetos naturais, mas acontecimentos históricos, fenômenos sociais e outros seres humanos teriam de ser considerados construções internas, fazendo com que guerras, pandemias, parceiros, filhos, pais e amigos nunca fossem encontrados para além da própria mente, em contraste radical com o esforço fenomenológico de reabilitar o mundo da vida e retornar ao mundo cotidiano compartilhado de preocupações, cuidados e coisas mesmas.

31. A magnitude dessas consequências transfere aos defensores da desreificação um pesado ônus argumentativo, sobretudo porque permanece obscuro como a atenção plena poderia fornecer conhecimento de que os objetos intencionais seriam meros fenômenos psíquicos e não componentes da realidade mundana, sendo a metaconsciência ou metacognição apresentada como mecanismo pelo qual pensamentos e percepções deixariam de ser assumidos como representações inerentes da realidade e se tornariam objetos mentais examináveis.

  • O neurorepresentacionalismo radical procura justificar uma concepção semelhante apelando à evidência neurocientífica, embora esse procedimento esteja sujeito a dificuldades próprias.
  • No contexto da atenção plena, a desreificação é apresentada antes como “insight metacognitivo”, mediante o qual conteúdos anteriormente direcionados ao mundo passam a ser tematizados enquanto acontecimentos mentais.

32. A fundamentação da desreificação na metacognição ameaça tornar-se autodestrutiva, pois, se pensamentos e experiências intencionais dirigidos a objetos devem ser considerados com suspeita por serem meros eventos mentais e não apreensões confiáveis da realidade, então a própria perspectiva metacognitiva empregada para alcançar essa conclusão também consiste em pensamentos e experiências intencionais e deveria, por coerência, ser igualmente desreificada e privada de autoridade epistemológica.

33. Uma possível resposta distingue uma metaconsciência intermitente, proposicional e representacional de outra sustentada, não proposicional e não representacional, cultivada por certas formas de atenção plena e potencialmente não dual, isto é, desprovida de direcionamento intencional a objetos, permitindo sustentar que a desreificação poderia apoiar-se nesta segunda modalidade sem que ela própria necessitasse ser novamente desreificada.

  • A modalidade não dual de metaconsciência seria distinta da metacognição reflexiva ordinária precisamente por não objetificar representacionalmente aquilo de que se torna consciente.
  • Essa distinção oferece uma possível resposta à regressão crítica, desde que se aceite que a desreificação fundamental depende dessa forma não representacional de consciência.

34. A solução baseada na metaconsciência não dual exigiria, entretanto, abandonar a ideia de que a desreificação possa ser validamente alcançada por metacognição representacional, pois uma reavaliação como “isto é apenas um pensamento” não possui razão intrínseca para ser considerada epistemicamente mais fiel à realidade do que o pensamento inicialmente dirigido ao mundo, além de tornar problemático explicar como insights supostamente não duais poderiam posteriormente ser formulados conceitualmente sem retornar ao domínio proposicional que a própria teoria coloca sob suspeita.

  • A passagem de um estado não dual para conceitos como “desreificação” e “não dualidade” reintroduz inevitavelmente a metacognição proposicional.
  • A dificuldade é particularmente grave porque as consequências metafísicas atribuídas à desreificação são amplas demais para que sua articulação conceitual possa ser tratada como questão secundária.

35. A oposição radical entre formas representacionais e não representacionais de metaconsciência pode ser excessiva, pois a fenomenologia já oferece um modelo alternativo de continuidade semelhante àquela existente entre experiência pré-predicativa e experiência conceitualizada: embora a reflexão transforme aquilo sobre o qual reflete, ela pode simultaneamente revelar, distinguir, explicitar, articular e acentuar componentes que já estavam implicitamente presentes na experiência pré-reflexiva.

  • A reflexão não precisa ser concebida nem como cópia fiel e integral da experiência originária nem como distorção irremediável daquilo que foi vivido.
  • A posição fenomenológica intermediária reconhece que toda reflexão envolve simultaneamente ganhos e perdas em relação à experiência pré-reflexiva.

36. A reflexão fenomenológica permanece condicionada pelo que é vivido pré-reflexivamente e deve responder aos fatos experienciais, ainda que a tematização reflexiva não reproduza intactamente a experiência originária, podendo precisamente nessa transformação adquirir valor cognitivo; a adoção dessa continuidade permitiria articular conceitualmente os supostos insights da metaconsciência não dual, mas obrigaria a abandonar a conclusão pessimista de que pensamentos e experiências intencionais constituem em geral deformações da realidade, exigindo uma revisão profunda tanto da noção de desreificação quanto da concepção de intencionalidade nela pressuposta.

  • Reconhecer continuidade entre certas formas de autoconsciência reflexiva e experiência pré-reflexiva tornaria possível transformar experiência em conhecimento articulado sem tratá-la como mera falsificação.
  • Essa concessão, porém, enfraqueceria diretamente a tese de que a atividade intencional e conceitual deve ser globalmente encarada como mecanismo reificador e distorcivo.

** 5 Conclusão **

37. A concepção contemporânea de atenção plena incorpora propostas metafísicas e epistemológicas segundo as quais pensamentos discursivos, interpretações e lembranças funcionariam como véus ou filtros que impedem o acesso imediato à realidade e segundo as quais, em formulações mais radicais da desreificação, os próprios objetos intencionais seriam meros fenômenos psíquicos ou construções mentais habitualmente confundidos com o mundo, mas ambas as posições deformam a estrutura da experiência e da relação mente-mundo, ao passo que a fenomenologia oferece uma alternativa na qual contribuições subjetivas, afetivas e conceituais não corrompem um encontro originalmente puro com o real, mas participam da revelação de sua significatividade, e o mundo experienciado não se reduz a evento mental, construção psicológica ou constelação de sensações, sendo precisamente o próprio mundo.

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