User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
husserliana:tymieniecka:1962:start

Ciência

TYMIENIECKA, Anna-Teresa. Phenomenology and Science in Contemporary European Thought. New York: Farrar, Straus and Cudahy, 1962.

Introdução

1. A filosofia e a ciência determinam as principais tendências do século XX e, em suas formas popularizadas de ideologia e tecnologia, são responsabilizadas pela desumanização moderna, embora o desenvolvimento científico também comporte uma orientação distinta, cujos sinais permitem reconhecer a possibilidade de um novo Renascimento.

2. A transformação profunda dos fundamentos de diversas disciplinas no pensamento continental fez amadurecer uma nova época cultural, cuja significação exige investigar as raízes dessa visão de mundo e as relações entre ciência e filosofia que a tornaram possível, ultrapassando a descrição de suas manifestações e buscando esclarecer seu alcance permanente.

3. A fenomenologia constitui um ponto privilegiado para compreender essa transformação, tanto pela crescente aplicação de suas técnicas às investigações filosóficas e científicas quanto por uma concepção ampla de ciência que, conforme o sentido de Wissenschaft, abrange as ciências naturais e as ciências humanas, expressando uma relação substantiva entre os diferentes domínios do conhecimento.

4. A diversidade das disciplinas vinculadas à fenomenologia exige distinguir sua orientação fundamental das técnicas particulares desenvolvidas para diferentes objetos, pois não existe um único método fenomenológico, mas princípios compartilhados cuja aplicação transforma ciências, inaugura campos de investigação e permite a convergência de pesquisas especializadas em uma perspectiva filosófica coerente sobre o ser humano e o mundo.

5. O novo humanismo pode ser compreendido mediante as relações entre filosofia e ciência em torno de três problemas fundamentais — a fundamentação apodítica do conhecimento, o conhecimento dos outros e a natureza do mundo —, cujas manifestações em pesquisas científicas concretas convergem para uma concepção da natureza humana e de sua posição no mundo que atravessa a filosofia, a ciência, a arte e a vida continentais.

6. A compreensão dessa orientação depende de um desenvolvimento temático, em vez de uma reconstrução histórica abrangente, de modo que a seleção de pensadores e problemas se justifica por sua capacidade de tornar inteligível o espírito da filosofia e da ciência continentais contemporâneas.

7. A filosofia e a ciência surgiram como uma única disciplina, mas a distinção entre a investigação dos princípios últimos e a busca das causas imediatas estabeleceu uma tensão historicamente fecunda, pela qual ambas redefiniram seus métodos e objetivos e se desenvolveram recorrendo uma à outra como modelo, crítica, orientação e fonte de conhecimento.

8. A história evidencia a insuficiência tanto da separação absoluta entre filosofia e ciência quanto da substituição de uma pela outra, embora o extraordinário progresso das ciências naturais no século XIX tenha favorecido uma ruptura aparentemente definitiva com o quadro conceitual filosófico anteriormente compartilhado, produzindo duas consequências decisivas para o pensamento posterior.

9. O êxito prático das ciências naturais levou à transformação de seus métodos em critério exclusivo de cientificidade, desqualificando outros campos sem investigar se poderiam satisfazer exigências de precisão e verificabilidade por procedimentos próprios ou oferecer conhecimentos igualmente essenciais à existência humana, de modo que o prestígio científico passou a favorecer sobretudo as investigações que imitavam as técnicas das ciências físicas.

10. A expansão de uma atitude reducionista transferiu para os diferentes domínios da atividade humana a expectativa de explicar formas complexas por suas origens em formas mais simples, conduzindo à redução das configurações culturais a condições sociais e destas a fatores econômicos e psicológicos, com a pretensão de alcançar uma explicação última em termos físicos, orientação que marcou o final do século XIX, o início do século XX e permaneceu predominante no pensamento anglo-americano.

11. A pretensão filosófica de constituir uma ciência tornou-se problemática diante da identificação entre investigação legítima e ciências naturais, pois o pensamento abstrato sem verificação empírica parecia desnecessário ou prejudicial, enquanto a expansão das disciplinas científicas também ameaçava retirar da filosofia sua tarefa tradicional de fundamentar e unificar o conhecimento.

12. A filosofia europeia contemporânea surgiu no início do século XX ao reafirmar as obrigações recíprocas entre filosofia e ciência diante do desafio científico oitocentista, encontrando em Husserl e Scheler os fundamentos de uma fenomenologia orientada contra a restrição da ciência aos procedimentos das ciências físicas e contra o programa reducionista.

13. A orientação fenomenológica permite reunir filosofia e ciência mediante uma fundamentação metodológica que pretende satisfazer as exigências de precisão e verificabilidade em todos os campos de investigação, compreendendo o método científico em sentido restrito como um caso particular e restituindo à cientificidade sua amplitude sem apagar as diferenças entre ciências físicas, sociais e humanas.

14. As distinções e técnicas fenomenológicas permitem evitar reduções indevidas, reconhecer a autonomia de dimensões da vida humana, restituir fatores cognitivos anteriormente desconsiderados e estabelecer novos critérios de avaliação do conhecimento, encontrando realizações especialmente significativas na fundamentação husserliana de um conhecimento absolutamente certo, na elaboração jaspersiana da existência e na concepção heideggeriana de um mundo irredutível ao modelo fisicalista.

15. A fundamentação fenomenológica de investigações universalmente válidas, desenvolvida por Husserl, difundiu-se por numerosos campos e tornou possível conduzir pesquisas com uma consciência explícita dos compromissos filosóficos envolvidos em seus métodos e orientações fundamentais.

16. Os princípios husserlianos abrem um novo campo de investigação e possibilitam o desenvolvimento de técnicas fenomenológicas diversas, cuja multiplicidade pode ser compreendida mediante a identificação de um padrão estrutural compartilhado pelas pesquisas orientadas fenomenologicamente.

17. A concepção jaspersiana do encontro existencial permite investigar a relação com a outra pessoa como uma dimensão própria, na qual o caráter criador dos vínculos interpessoais esclarece pesquisas em psicologia, sociologia, direito e economia e fundamenta uma compreensão dinâmica do ser humano em interação com o mundo social.

18. A concepção heideggeriana do mundo, na qual espaço e tempo são compreendidos a partir de fenômenos intencionais, oferece condições para esclarecer a natureza espaço-temporal dos próprios fenômenos psicológicos mediante resultados da psicologia e da psicopatologia.

19. A articulação dos problemas fundamentais da metodologia, da metafísica e da antropologia permite elaborar uma nova perspectiva sobre o ser humano e seu destino, culminando na psicanálise existencial e em uma compreensão abrangente do humano e do mundo como um sistema unificado de significações relativo a preocupações, emoções, ações e à vida intelectual e espiritual, no qual a oposição entre mente e natureza física dá lugar a um universo homogêneo compreendido como realidade essencialmente humana.

husserliana/tymieniecka/1962/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1