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Nada

RICHIR, Marc. Le rien et son apparence: fondements pour la phénoménologie; Fichte: doctrine de la science 1794/95. Bruxelles: Ed. Ousia, 1979.

Platonismo e questão ontológica

  • A obra de Platão, inscrita na memória humana há quase dois milênios e meio, é um monumento da História universal, mas, para além dos comentários filológicos, é necessário romper com a tradição instituída em torno dela para apreender a “instituição platônica da filosofia”, uma significação ainda viva e operante em nosso presente histórico.
    • Apesar das dificuldades e aporias internas à obra platônica, algo tende a se sedimentar nela, concernindo ao destino dos filósofos, e que se apresenta como uma significação ou instituição da filosofia na qual se continua a se mover, quase sem o saber.
    • A interrogação sobre essa instituição, que marca o nascimento da própria filosofia e decide sua significação por mais de dois milênios, não pode partir do nada, mas deve ter um começo que faça sentido para quem se iniciou na filosofia pela meditação dos textos de Husserl, Heidegger e Merleau-Ponty, ou seja, um sentido fenomenológico.
    • O único estudo sistemático dedicado ao platonismo pelo movimento fenomenológico é o de Heidegger, “A doutrina de Platão sobre a verdade”, que será tomado como ponto de partida para articular, em uma linguagem própria, as questões postas pela “instituição platônica da filosofia”.
    • A leitura do texto de Heidegger será dupla, interrogando correlativamente o que se institui no platonismo e o que se põe em obra na interrogação ontológica de Heidegger.
  • O texto heideggeriano busca desvendar a significação do platonismo quanto à questão da verdade, por meio da interpretação do “mito” da caverna, e o estatuto da ideia (eidos) é um dos momentos-chave dessa instituição.
    • A tradução de Aussehen por “voyance” é preferível a “evidência” ou “visage”, pois implica a ideia de uma abertura para o exterior e o duplo sentido de ver e ser visto, captando a visibilidade da coisa fora de si mesma.
    • A “voyance” (eidos ou ideia) é o que faz com que o ente se mostre na sua aparência, sendo o “mais não-celado”, a ponta última da própria aparência, que aparece primeiramente em todo aparecente e torna o aparecente acessível.
  • Na interpretação heideggeriana, o não-celamento (alétheia) não é pensado por Platão em si mesmo, mas subordinado ao aparecimento da “voyance”, que põe em jogo o parecer, a visibilidade e a luminosidade, instituindo-se um privilégio da visão e da luz.
    • A “voyance” é o lugar onde se desdobra o que advém ao ser, a luminosidade e a visibilidade são identificadas com o advir ao ser de algo, e o “ser” (Wesen) do ente é determinado pelo “ser-o-que” (Was-sein), mediado pelo aparecimento da “voyance”.
    • Essa mediação vincula a “voyance” à luminosidade, à visibilidade e à visão (noein, nous), instituindo o que Heidegger chama de Razão, na qual o olho, privilegiado, se vê elevado a olho do espírito, e a “voyance” se torna a instituição do visível em si mesmo como visível sublimado.
  • O “olho” que vê a “voyance” é de natureza solar, participa do brilho do sol (ideia do Bem) e, ao iluminar, se dá ao parecer, estabelecendo uma relação complexa de narcisismo, na qual o olho vê e é visto, e toda “voyance” funciona também como um olho.
    • O narcisismo universal da “voyance”, no entanto, tem um efeito deslocalizante, pois mistura o visível e o invisível, o ser e o não-ser, exigindo algo mais para fixar a visão noética sobre a “voyance”, algo que é a ideia do Bem.
    • A ideia do Bem é a “voyance” da “voyance”, que torna a “voyance” apta a ser “voyance”, fixando e localizando a visão noética, sendo o lugar da abertura ao parecer, e que, ao mesmo tempo, oculta a questão da verdade, subordinando-a ao parecer.
  • A instituição platônica da filosofia consiste na determinação do ser do ente como ideia, na qual o parecer determina o que ainda pode ser chamado de não-celamento, e a própria ideia se torna o fundamento da verdade, mas mantendo em si algo da essência inicial, porém desconhecida, da alétheia.
    • A crítica heideggeriana incide sobre o eclipse, pelo parecer, do desvelamento do não-celado, mas não interroga suficientemente a “voyance” da “voyance” (o Bem) como lugar de abertura ao parecer e, portanto, à verdade, nem o vínculo entre o parecer e o “ser-o-que” do ente.
    • Apesar disso, Heidegger toca o núcleo da instituição platônica, pois a “voyance” da “voyance”, como lugar de abertura ao parecer, oculta a questão da verdade na mesma medida em que ainda é “voyance” e subordina todo o ser à “voyance” suprema.
  • A interrogação heideggeriana busca dissociar a questão do ser da questão da “voyance”, mostrando-a como mais originária, mas tal dissociação pode acarretar consequências que ultrapassam o pretendido.

A aporia do platonismo: primeira abordagem

  • Na interpretação heideggeriana, o pensamento platônico vai “além” do que é experimentado na caverna, em direção às ideias, que são o suprassensível, sendo a ideia do Bem a causa suprema e primeira, denominada por Platão e Aristóteles como “o divino” (to theion).
    • A partir da explicação do ser como ideia, a metafísica torna-se teológica, explicando a “causa” do ente como Deus e transferindo o ser para essa causa, que contém o ser em si e o liberta de si, exigindo uma marca distintiva do olhar sobre as ideias.
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