4 Tempo
INGARDEN, Roman. Time and Modes of Being. Translated by Helen R. Michejda. Springfield: Charles C. Thomas, 1964.
Capítulo IV Tempo e modos de ser
Observações preliminares sobre o tempo concreto
1. A investigação dos modos de existência permanece incompleta enquanto não considera a temporalidade, pois o ser no tempo pode pertencer ao núcleo mais íntimo da existência dos objetos reais, e as diferentes experiências do tempo influenciam diretamente as concepções de realidade e a controvérsia entre idealismo e realismo.
2. O tempo concreto distingue-se tanto do tempo abstrato e matemático quanto do tempo comum utilizado para comparar temporalidades particulares, pois é preenchido pelos acontecimentos, processos e objetos que nele existem e pertence intrinsecamente a esses objetos, independentemente de ser vivido por uma consciência ou de caracterizar entidades alheias à experiência consciente.
3. Os objetos individuais podem ser distinguidos entre temporalmente determinados e extratemporais, especialmente ideais, permanecendo a atemporalidade provisoriamente definida como exclusão de toda determinação temporal, enquanto a investigação se concentra na contribuição do tempo para o modo de ser dos primeiros.
4. Entre os objetos temporalmente determinados distinguem-se três tipos fundamentais — objetos que perduram no tempo, processos e acontecimentos —, cujas diferenças envolvem seus modos de existência, suas determinações temporais e suas formas.
O modo de ser dos acontecimentos
1. Um acontecimento consiste no surgimento de um estado de coisas ou de uma situação objetiva, e não no processo que o prepara nem na situação duradoura que dele resulta, caracterizando-se por ocorrer em um único presente e passar imediatamente, embora permaneça vinculado a processos anteriores e consequências posteriores e revele na atualidade um momento existencial que exige autonomia sem se reduzir a ela.
2. A ausência de duração parece suscitar uma dificuldade quanto à temporalidade dos acontecimentos, tornando necessário esclarecer como algo instantâneo pode ser temporalmente determinado sem prolongar-se por um intervalo.
3. A instantaneidade não exclui a temporalidade porque o tempo concreto não constitui um recipiente exterior ao que nele ocorre, e cada acontecimento pertence intrinsecamente a um conjunto de ocorrências contemporâneas e à singularidade irrepetível do instante que o determina.
4. A essência do tempo manifesta-se de maneira mais abrangente nos demais tipos de objetos temporais, especialmente nos processos.
O modo de ser dos processos
1. Movimentos concretos, corridas, desenvolvimento orgânico, vidas individuais e atividades físicas ou psicofísicas constituem exemplos de processos.
2. Todo processo apresenta duas faces inseparáveis: a continuidade crescente de suas fases e o objeto que se constitui por meio delas como sujeito de propriedades, sem que essas faces correspondam a entidades distintas.
3. O processo estende-se temporalmente mediante o acréscimo sucessivo de fases e não cabe em um único presente, distinguindo-se processos simples, cujas partes são apenas potencialmente separáveis, e processos complexos, que articulam desenvolvimentos distintos e podem conter intervalos entre suas partes efetivas.
4. A transitoriedade das fases caracteriza o modo de ser do processo, pois apenas uma fase é atual de cada vez, enquanto as anteriores perderam sua atualidade e as posteriores ainda não a adquiriram, até que a eventual fase final encerre o desenvolvimento.
5. A totalidade de um processo ultrapassa cada presente e reúne fases passadas e futuras enquanto se desenvolve, tornando-se integralmente passada quando nenhuma de suas fases permanece atual.
6. Uma concepção que reconhecesse existência apenas ao presente e reduzisse passado e futuro ao nada dissolveria os processos em acontecimentos discretos e impediria compreender seu crescimento e sua continuidade, pois até a aparência de movimento produzida por ocorrências sucessivas pressupõe a conservação de algo passado em uma experiência contínua.
7. A compreensão dos processos exige reconhecer modos próprios de ser do passado e do futuro, distinguindo a atualidade perdida do primeiro da possibilidade ainda não realizada do segundo, pois a passagem temporal conserva o ocorrido sem sua atualidade, enquanto o futuro depende de fundamentos anteriores e a atualidade presente se caracteriza por uma operatividade imediata que possibilita a ação e a causalidade.
8. As modalidades específicas de ação pertencem à determinação material dos entes, mas a operatividade enquanto tal constitui um momento existencial da atualidade, atravessando tudo aquilo que existe no presente e possibilitando suas diferentes formas de atuação.
9. A realização no presente confere ao que era apenas prefigurado uma plenitude existencial marcada por autonomia, imanência e eficácia, constituindo uma culminação irreversível, pois nenhuma repetição posterior pode restituir numericamente o mesmo acontecimento ou processo.
10. A influência exercida pelo passado sobre decisões, obrigações e sentimentos parece contestar a exclusividade da atividade presente, exigindo esclarecer se o passado atua propriamente ou se sua eficácia depende de mediações atuais.
11. A recordação distingue o passado do que se apresenta como passado, pois o ato atual de recordar pode conferir ao recordado uma aparência de atualização e eficácia sem restituir sua presença efetiva, mantendo-se insuperável a diferença entre rememoração e percepção do próprio acontecimento.
12. O passado também influencia indiretamente o presente por uma continuidade de fases e efeitos, mas essa eficácia deriva de sua antiga atualidade e das existências posteriores que produziu, não de uma ação direta exercida enquanto passado.
13. O passado perde definitivamente sua operatividade originária e permanece ausente dos novos presentes, mas conserva um ser retrospectivamente derivado na medida em que o presente procedente dele sustenta sua existência passada, estabelecendo uma inversão pela qual o que foi fundamento passa a apoiar-se em seus resultados atuais.
14. A ligação existencial entre passado e presente varia conforme os tipos de objetos, sendo mais frouxa entre acontecimentos distintos e mais íntima entre fases de um mesmo processo.
15. A unidade entre fases de um processo difere da relação entre acontecimentos separados e se torna ainda mais estreita nos objetos que perduram, enquanto certas linhas de desenvolvimento podem extinguir-se sem manter vínculos existenciais identificáveis com um presente posterior.
16. A variação dessas ligações permite distinguir graus de intensidade do ser passado, desde ocorrências recentemente vinculadas ao presente por numerosos efeitos até passados quase inteiramente desprovidos de vestígios, cuja condição exige investigação específica e encontra apenas uma analogia nas diferentes intensidades das possibilidades futuras.
17. O processo em desenvolvimento combina o crescimento contínuo de suas fases com a passagem incessante da atualidade ao passado, e, ao terminar, adquire uma extensão definitivamente fixada, embora sua intensidade existencial passada possa continuar variando conforme suas relações com presentes posteriores.
18. O processo considerado como objeto constitui progressivamente suas propriedades a partir do desenvolvimento das fases e somente alcança determinação completa no instante em que termina, de modo que sua conclusão coincide com a perda da atualidade, enquanto sua constituição temporalmente estratificada fundamenta sua irrepetibilidade e conserva no presente propriedades provenientes de fases anteriores.
19. O modo de ser do processo reside na conexão íntima entre a transitoriedade de suas fases e a constituição do objeto que nelas encontra seu fundamento.
20. A diferença entre processos e acontecimentos é essencial, pois nenhum acontecimento constitui apenas um processo muito breve e nenhum processo simples se reduz a uma sucessão de acontecimentos, uma vez que suas fases se prolongam continuamente umas nas outras e possuem extensão temporal, enquanto o acontecimento surge integralmente em um único instante.
O modo de ser dos objetos que perduram no tempo
1. Pedras, casas, montanhas, plantas, animais e pessoas exemplificam objetos que perduram no tempo, sendo os seres vivos especialmente importantes para esclarecer tanto as dificuldades dessa classificação quanto sua diferença em relação a acontecimentos e processos.
2. O objeto duradouro ultrapassa os instantes mantendo-se numericamente o mesmo, enquanto o processo o faz pela sucessão de fases novas, de maneira que acontecimentos e processos podem modificar suas propriedades sem constituírem necessariamente aquilo que nele permanece.
3. O objeto duradouro também difere do processo considerado como sujeito de propriedades, pois existe integralmente constituído em cada presente e serve de fundamento aos processos associados a ele, em vez de depender de fases sucessivas para adquirir seu próprio ser.
4. A controvérsia histórica entre a primazia dos processos e a das substâncias exige separar questões metafísicas, formais e existenciais, pois a mudança pressupõe um portador idêntico que muda, enquanto a permanência de um objeto não constitui por si mesma um processo nem exige necessariamente transformação.
5. A possibilidade de perdurar não decorre apenas da forma do objeto, já que objetos ideais podem compartilhar estruturas formais sem existir temporalmente, devendo sua condição ser procurada na determinação material e eventualmente em fatores exteriores, enquanto a atualidade presente distingue a permanência temporal da existência ideal.
6. Os acontecimentos perdem integralmente sua atualidade ao passar, os processos a conservam apenas em fases continuamente novas e os objetos duradouros permanecem integralmente atuais em cada presente, não sofrendo a mesma transformação gradual de partes atuais em partes passadas.
7. A distinção suscita a objeção de que os objetos duradouros também começam, existem durante certo período e deixam de existir, passando finalmente ao modo de ser do passado.
8. A cessação de um objeto duradouro não corresponde à passagem gradual das partes de um processo, pois o objeto comparece integralmente no presente e dele se retira como um todo, dependendo sua destruição de determinações adicionais de sua essência material, e não simplesmente de sua condição de objeto duradouro.
9. Permanece a questão de saber se a participação em presentes sucessivos deixa marcas inevitáveis no objeto e se a perda de atualidade desses presentes afeta ao menos algumas de suas propriedades, mesmo quando ele conserva sua identidade.
10. A análise deve distinguir objetos inteiramente imutáveis de objetos sujeitos a diferentes sistemas de transformação, reconhecendo que a possibilidade de processos e de permanência exige uma temporalidade que não reduza passado e futuro ao nada, embora isso não constitua ainda uma demonstração metafísica dessa estrutura do tempo.
11. Nos objetos mutáveis, acontecimentos e processos introduzem determinações temporais e produzem estados sucessivos que se tornam passados, enquanto o objeto permanece atual e adquire uma história sem conservar simultaneamente todas as propriedades que possuiu ao longo dela.
12. A ampliação excessiva do conceito de estado para abranger todas as propriedades de um objeto em cada instante ameaça dissolvê-lo em uma sucessão de estados e, mediante a geometrização do tempo, em uma multiplicidade de acontecimentos instantâneos.
13. A existência efetiva de objetos duradouros constitui um problema metafísico distinto de sua possibilidade ontológica, pois uma multiplicidade de acontecimentos ou processos não equivale a um indivíduo originário que permanece idêntico, e a continuidade temporal não obriga a reduzi-lo a uma coleção de elementos sucessivos.
14. As fases de um processo são partes temporalmente distribuídas, enquanto as partes de um objeto duradouro coexistem no mesmo presente, de modo que uma pessoa não se compõe de sua infância, juventude e maturidade, mas permanece a mesma ao atravessar esses estados.
15. A redução do objeto a processo decorre da identificação indevida entre o objeto e a totalidade de suas propriedades momentâneas, pois essa identificação fragmenta artificialmente o núcleo persistente e atribui à simples sucessão dos presentes o poder de destruir sua identidade.
16. Um objeto duradouro absolutamente imutável conserva-se integralmente o mesmo nos presentes sucessivos e somente se torna passado quando deixa de existir, permanecendo temporalmente determinado pelo período em que existe e pela restrição de sua atualidade a um único presente de cada vez.
17. O objeto duradouro mutável combina um núcleo persistente com estados transitórios que compõem sua história, e sua destruição ocorre quando a transformação compromete a continuidade desse núcleo, restando então uma existência passada retrospectivamente sustentada pelos vestígios e efeitos posteriores.
18. A demonstração da possibilidade de um objeto duradouro mutável exige esclarecer os limites dentro dos quais seu núcleo pode permanecer idêntico, remetendo a problemas formais e materiais que ultrapassam a análise existencial e se tornam especialmente agudos no caso dos seres vivos.
19. O desenvolvimento corporal e psíquico dos seres vivos parece aproximá-los dos processos, pois suas propriedades e sua personalidade se modificam profundamente, suscitando a dúvida sobre a existência de um núcleo persistente e sobre sua inclusão entre objetos duradouros.
20. A resposta a essa dificuldade exige distinguir a caracterização preliminar dos seres vivos de uma análise definitiva de sua essência.
21. O esclarecimento último da existência dos seres vivos e das pessoas depende da ontologia material e de sua relação específica com a controvérsia entre idealismo e realismo.
22. Os seres vivos devem ser compreendidos como objetos duradouros cuja organização envolve uma ordem interna de mudanças e um desenvolvimento temporalmente limitado, tornando sua existência mais intensamente vinculada ao tempo e, no caso humano, à história do que a das coisas inanimadas.
23. A aparente transformação de todas as propriedades e até da natureza individual do vivente reforça a objeção de que ele se constituiria ao longo da vida do mesmo modo que um processo.
24. A validade dessa aparência exige examinar se o desenvolvimento efetivamente elimina toda permanência individual.
25. A coerência das transformações e a recorrência de um estilo individual de comportamento indicam um núcleo essencial duradouro que fundamenta os processos, orienta a relação com o ambiente e condiciona a formação de estratos adquiridos, permanecendo distinto deles até que sua própria desintegração destrua o indivíduo.
26. A distinção entre identidade estática e dinâmica permite reconhecer a permanência de uma determinação qualitativa cuja incorporação se desenvolve, amadurece ou regride, sem que a qualidade individual assim manifestada se transforme necessariamente em outra.
27. O vivente conserva sua identidade quando sua natureza constitutiva individual permanece dinamicamente a mesma, de modo que sua constituição ao longo da vida abrange apenas parte das propriedades e depende tanto de seu núcleo persistente quanto de condições ambientais, combinando permanência autônoma e dependência parcial dos processos e do mundo circundante.
28. A existência do indivíduo vivo consiste em um equilíbrio instável entre núcleo essencial e estratos adquiridos, cuja manutenção possibilita o desenvolvimento orgânico e cuja ruptura desencadeia a desintegração, revelando uma fragilidade pela qual sua persistência não está absolutamente garantida por sua essência.
29. Essa fragilidade permite que fatores exteriores interrompam o desenvolvimento, impeçam a maturação da natureza individual ou provoquem a destruição prematura do vivente.
30. A mortalidade essencial acrescenta à vulnerabilidade externa uma tendência interna ao declínio e à dissolução após a maturidade, limitando a duração da vida pela própria organização do indivíduo e intensificando sua sujeição à temporalidade.
31. A atualidade do vivente permanece restrita a um único presente, mas seu passado integra o estado atual de maneira organicamente significativa, formando uma unidade de desenvolvimento e de respostas ao ambiente que aproxima existencialmente as fases de sua vida sem restituir atualidade ao que passou.
32. A unidade ativa do vivente manifesta um centro autônomo de resistência e adaptação cuja existência pode ser quebrada, distinguindo sua fragilidade da deterioração passiva das coisas inanimadas, nas quais a permanência de propriedades não produz a mesma unidade interna de uma vida temporalmente extensa.
33. Os indivíduos vivos conscientes ultrapassam intencionalmente os limites do presente mediante recordação, retenção, protensão e antecipação, podendo apreender o curso de sua vida e reforçar sua unidade interna, embora essa elevação acima do fluxo temporal não elimine a transitoriedade nem a fragilidade de seu ser.
34. A análise preliminar do tempo e dos modos de existência permite retomar a controvérsia sobre a existência do mundo e investigar como a temporalidade modifica suas soluções possíveis.
