Action unknown: copypageplugin__copy
husserliana:depraz:2018:intro
Introdução
Le sujet de la surprise: Un sujet cardial. Zeta Books, Bucarest, 2018
-
A vida cotidiana é marcada por estados de confusão, perplexidade, deslumbramento e sobressalto, que se manifestam desde reações a portas que batem até notícias trágicas, evidenciando que a surpresa está presente mesmo nos momentos mais banais ou dramáticos.
-
A lógica estrita não admite a surpresa, pois tudo seria coerente e previsível, como ilustra a resposta de uma professora de lógica que, ao ser questionada sobre o sexo do bebê, responde afirmativamente, frustrando a expectativa do marido que desejava uma informação específica.
-
A impossibilidade de evitar a surpresa coloca em xeque a pulsão de controle e a ansiedade diante do desconhecido, revelando que a vida escapa a qualquer tentativa de programação total e que a própria mudança de planos e desejos é constante.
-
A surpresa é onipresente e constitutiva da subjetividade, pois cada instante revela uma diferença entre o que se é e o que se crê ser, como quando alguém se surpreende com as próprias ações ao longo do dia ou com a capacidade de realizar algo jamais imaginado.
-
As pequenas surpresas diárias tecem a vida sem que se perceba, e seu desaparecimento pode indicar depressão, ausência de esperança ou um estado de apaziguamento meditativo, levantando a questão de se viver melhor com menos surpresa ou se ela é uma ilusão necessária que mantém a vitalidade.
-
As línguas, literárias ou ordinárias, estão repletas de expressões que articulam a receptividade ao inesperado por meio de exclamações, interjeições e interrogatórios, sugerindo que a linguagem não é apenas lógica, mas traduz incerteza, intuições e a condição carnal da existência.
-
A surpresa pode ser benéfica quando consiste em mini-sobresaltos que rompem a rotina, mas também pode ser avassaladora quando se trata de emergências ou catástrofes, e nesses casos a intensidade reduz ou anula o margem de deliberação, impondo-se antes que qualquer racionalização comece.
-
A surpresa não é um conceito filosófico tradicional, e falar dela no singular como sujeito de uma oração constatativa é perdê-la de vista, pois sorprender-se é um situar-se aqui e agora, um processo que se diz por verbo, substantivo e particípio passado, e que ocorre justamente quando o eu já não está presente.
-
A surpresa se reativa sempre de forma idêntica em sua estrutura, embora seu conteúdo varie, como no sobressalto ao abrir uma porta e encontrar alguém escondido, enquanto o tempo flui de modo irreversível e entrópico, diferentemente da atenção que pode ser restabelecida com a mesma intensidade.
-
A experiência da surpresa é íntima e fugaz, mas intensa o suficiente para ser reativada pela memória, como no caso do som de um vaso que cai no fregadero ou do balanço de uma rama ao vento, sedimentos involuntários que se gravam na memória auditiva ou visual.
-
A pergunta que surge é se seria possível manejar ou suprimir as formas de surpresa por meio de uma atenção constante e de uma atitude meditativa, ou se ao menos se poderia diminuir seu impacto perturbador, tornando-o mais lento ou ramificado.
-
A surpresa é geralmente vista como perturbadora e negativa, mas o cérebro minimiza espontaneamente as surpresas que dificultam seu funcionamento, e cabe questionar se o falho ou a interrupção não trariam benefícios para a plasticidade e regeneração cerebral.
-
A surpresa também pode ter a função de ajudar na adaptação a novas situações, e a experiência subjetiva testemunha momentos de surpresa que são aberturas, ráfagas de significado e criação que conferem excesso de ser e intensidade vital onde antes havia significado pobre.
-
Se as surpresas são benéficas, talvez seja mais importante cultivá-las do que eliminá-las, mas o ideal é não padecê-las, pois o sofrimento advém do estupor e do desconforto do choque traumático, colocando a questão de como se preparar para algo que, por definição, não se espera.
-
A expressão preparar uma surpresa para uma criança revela uma situação paradoxal em que se sabe que algo vai ocorrer sem saber o quê, um conhecimento aberto e indeterminado que garante que haverá algo, como no caso de preparar-se para um exame sabendo que não se pode anticipar todos os temas.
-
Independentemente do que se faça, sempre haverá surpresa, e o melhor é preparar-se para a existência de uma surpresa cujo conteúdo escapa inevitavelmente, cultivando uma atitude de deixar-se surpreender, uma atenção de completa abertura a tudo o que possa produzir-se.
-
A surpresa verdadeira não é aquela que decorre da falta de atenção, mas a que se dá no fundo de uma atenção contínua, uma presença discreta ao que pode sobrevir, uma abertura que acolhe tudo sem saber o que pode chegar, o que é paradoxal.
-
A surpresa que se impõe por falta de atenção é a experiência mais comum e frequente, como quando alguém é pego em flagrante ou quando um ciervo atravessa a estrada inesperadamente, e nesses casos a surpresa expulsa o sujeito de si mesmo.
-
O livro pretende traçar um mapa das surpresas, desdobrando entradas-atenção, pratos-crise e postres-emociones, e mostrar a dinâmica que une a surpresa, em suas diferentes formas, à atenção e à emoção, segundo seus diversos regimes.
-
A questão crucial é que a surpresa, a atenção e a emoção fazem parte do viver diário de modo tão espontâneo que não se questiona sua importância, e o livro busca tomar consciência de que a surpresa é uma questão fundamental para a vida humana, pois nos faz sair de nós mesmos e enfrentar a alteridade.
-
O livro não pretende construir um conceito exclusivo de surpresa, mas traçar alguns de seus caminhos em um mapa, e na etapa atual da exploração são vistos sete caminhos que são micromodelos da dinâmica atenção-sorpresa-emoção, sem oposição ou escala de valores entre eles.
-
O primeiro micromodelo é a atenção absorta, cautivada ou hiperfocalizada, que é desviada por um golpe, uma bocina, um telefone ou um amigo que aparece, configurando a surpresa-sobresalto como uma espécie de reflexo.
-
O segundo micromodelo é a atenção-control, invasiva, anticipada e programada, que ao expulsar a surpresa de si mesma pode fazê-la desaparecer ou minimizá-la, tendência assimilada na vida contemporânea ocidental que apresenta acentos problemáticos e patológicos.
-
O terceiro micromodelo é a surpresa que estalla quando incluída na representação do que pode ocorrer, demonstrando que a vida é ilógica nas relações humanas, onde a previsão se torna projeção feita de medo e esperança, e o outro sempre surpreende por nunca corresponder à representação.
-
Os três primeiros modelos baseiam-se na exclusão recíproca entre atenção e surpresa, gerando efeitos potencialmente negativos ou patogênicos, pois submeter-se, controlar ou projetar são facetas da mesma atenção psíquica rígida que coincide com sofrimento e incompreensão.
-
O quarto micromodelo é a mutação patológica da atenção e da surpresa, que vai da depressão à esquizofrenia, com emoção invasiva que desvia a atenção e perturba a regulação interior, exigindo estratégias para sofrer menos e controlar menos, projetando melhor.
-
O quinto micromodelo é a atenção-espera, situada sob o signo da receptividade, em que o sujeito receptivo é ator do que sucede sem dominar tudo, mantendo uma expectativa desperta e uma paciência que o coloca em duração indeterminada, e a surpresa será saboreada como tal.
-
O sexto micromodelo é a atenção-instante, que consiste em capturar e assumir o momento presente tal como se apresenta, cultivando sua intensidade e fulgor, e corresponde a uma surpresa-novidade sempre diferente e nunca anticipável.
-
Os três primeiros modelos potenciam a atenção à custa da surpresa, que se exterioriza, se borra ou se pré-inclui, podendo gerar patologias, enquanto os três seguintes produzem uma retirada da atenção em benefício da surpresa, gerando emoção sob o signo do excesso e alcançando o ápice na contemplação meditativa, na abertura estética e na atitude ética.
-
O sétimo micromodelo é a surpresa de si mesmo, em que o sujeito se torna um enigma ou mistério, e a surpresa e o eu são a mesma coisa, vivendo de microrrupturas e brechas internas, configurando o sujeito da surpresa.
-
Há surpresas coletivas, e os modelos 0 e 8, ainda não nomeados, relativizam a surpresa individual ao manifestar o duplo fundo coletivo sociopolítico e eclesial-escatológico.
-
A surpresa é uma questão que quase não requereu a atenção dos filósofos, mas muitos autores de diferentes tradições se interessaram por ela, e há uma problemática da surpresa por construir, mais do que um simples dado a observar ou uma experiência por viver.
-
A primeira pergunta é saber o que a surpresa gera à filosofia, e para construir a questão é necessário primeiro deter-se em marcos conceituais como percepção, atenção, emoção e sentimento, para só então explorar a surpresa sobre o fundo de sua experiência.
-
A segunda questão é se a surpresa se dá apenas de forma lateral ou indireta, ou se está plenamente em jogo através de conceitos centrais como acontecimento, asombro, admiração ou alteridade, e se acede à dignidade de um topos filosófico.
-
O resultado da confrontação da surpresa com a filosofia e a fenomenologia é sua desaparição sob conceitos duros, sua exaltação em experiências que a revelam, ou sua cristalização no próprio movimento de sua aparição, liberando-se dos conceitos que lhe deram origem.
-
A dinâmica da surpresa envolve uma intencionalidade fora de si mesma, e não se pode pensar a surpresa sem incluir suas estruturas de advenimento atencional e emocional, o que a coloca em um corpo a corpo com a intencionalidade até sacá-la de si mesma.
husserliana/depraz/2018/intro.txt · Last modified: by 127.0.0.1
