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DESPERTAR

ZAMBRANO, María. Claros del bosque. 4. ed ed. Barcelona: Seix Barral, 1993.

  • O despertar privilegiado não se reduz à passagem do sono para a vigília, porque a vida não se divide em partes, mas se distribui em lugares e rostos, de modo que tanto no sono quanto em certos estados de vigília pode ocorrer um despertar sem imagem.
    • Sono e vigília não formam compartimentos estanques.
    • O despertar privilegiado define-se pela ausência de imagem.
  • O despertar sem imagem realiza-se como despertar de si mesmo e de quaisquer imagens da realidade, deixando uma marca indelével que não se sabe decifrar por não ter havido conhecimento nem simples registro do acontecido, apenas a respiração de uma solidão à beira da fonte da vida onde se experimenta a preexistência do amor que concerne e olha para nós.
    • A marca permanece sem chave interpretativa.
    • O instante se dá antes do assalto das imagens do espaço-tempo.
    • O amor é descrito como preexistente e voltado para nós.
  • O despertar sem imagem corresponde ao estado anterior ao aprendizado do nome, pois o nome se liga à condição humana ordinária da imagem, do conceito e da ideia, e termos como Deus e Amor recaem inevitavelmente no conceitual, enquanto o amor aqui implicado é uma concepção que guarda, vigia e assiste desde antes, como fonte oculta que continua regando mesmo quando a noite se retira.
    • Nomear arrasta para conceito, ideia, imagem.
    • Deus e Amor são sentidos como termos conceituais.
    • O amor descrito é anterior e assistente.
    • A fonte da vida permanece escondida.
  • Nascer e despertar se equivalem, e cada despertar reitera o nascer no amor preexistente como banho de purificação e transparência da substância recebida que se torna transcendente.
    • O despertar funciona como purificação.
    • A substância recebida é descrita como passível de transcendência.
  • A existência fundada na pretensão de ser separado ofusca o indivíduo nascente, rompendo a infância e fazendo surgir o adolescente como incógnita que joga a ser, ergue o eu como medida de tudo e exercita a liberdade como arma, enquanto apenas na fadiga ou no esquecimento desse exercício se vislumbra a percepção que reconduz ao amor preexistente, embora com temor de afundar-se em sua acolhida, com alusões aos místicos do nascimento e aos místicos da nada, como Miguel de Molinos.
    • A adolescência aparece como enigma e jogo de si.
    • A liberdade é tomada como coraça e invulnerabilidade.
    • A percepção retorna no esquecimento da autoafirmação.
    • A acolhida do amor é temida por parecer abandono.
    • Místicos do nascimento e da nada são convocados.
    • Miguel de Molinos figura como intercessão da nada.
  • O adolescente fixa-se na liberdade de dispor de si antes que o amor disponha dele, investindo numa liberdade de amar que nega ao amor e produz asfixia por uma liberdade não compartilhada e não vinda do alto, enquanto a alta liberdade sustenta o nascimento e guia a morte, e apenas o que abre o morrer dá vida.
    • A liberdade é descrita como fechamento em si.
    • A liberdade vinda do alto é associada a nascimento e morte.
    • Vida é vinculada à abertura do morrer.
  • Despertar nascendo e despertar existindo formam a bifurcação inicial do ser humano, e o existir arranca do amor preexistente e das águas primeiras por um ímpeto sem substância que arrasta à realidade e ao tempo mensurável, reduz a luz a luminosidade homogênea e transforma seres em metas ou obstáculos, convertendo o milagre do deslumbramento em algo a ser esquecido e abrindo o abismo do esquecimento que conduz ao cuidado ansioso, à luta e à agonia, sem poder abolir a promessa do nascimento que une fim e princípio, enquanto uma centelha de fogo-luz pode mover a respiração inteira e fazer do ser uma aurora.
    • O existir precipita o ser para fora do solo natal.
    • O tempo impõe medida e obrigação.
    • A luz é reduzida para tornar as coisas nítidas e utilizáveis.
    • O deslumbramento é recusado como perigo.
    • O esquecimento inicia-se como desconhecimento.
    • A luta nasce do esquecimento da dívida ao nascimento.
    • A promessa do nascimento permanece indestrutível.
    • A centelha de fogo-luz acompanha a respiração plena.
    • A aurora figura como destino possível do despertar.
  • A inspiração é o primeiro ato do respirar, e cada expiração deixa algo do alento inicial alimentando um fogo sutil, enquanto o suspirar tenta restituir o sopro lavado pelo fogo invisível da vida, prendendo o indivíduo ao respirar do todo e ao centro escondido, ao mesmo tempo em que o ser individual arrisca o vazio entre excesso e carência, suspira invocando nova inspiração capaz de atravessar as camadas que envolvem seu arder oculto e sustentar o peso do que sobre ele se apoia.
    • Inspiração inaugura e expiração conserva.
    • O fogo invisível aparece como substância do viver.
    • O indivíduo oscila entre excesso e vazio.
    • A invocação chama por nova inspiração sustentadora.
  • A palavra desperta indecisa e mal articulada, como se não pudesse orientar-se no espaço humano que toma posse do ser desperto, enquanto o fluir temporal permanece em atraso e o ser guarda um tempo próprio depositado, e a palavra nasce de uma confiança radical do coração humano que se une à raiz da palavra para erguer a condição humana.
    • O espaço humano acomete como definidor do ser.
    • O tempo próprio permanece retido e confiado.
    • A confiança radical é condição de possibilidade da fala.
    • Confiança e palavra aparecem como união originária.
  • A docilidade da palavra manifesta-se no despertar como balbucio e susurro, semelhante a ave ignorante pronta a levantar voo sem saber para onde ir.
    • Palavra inicial é frágil e apenas audível.
    • O movimento sugere voo incipiente.
  • A palavra nascente é substituída pela palavra intencional da inteligência como ordem que toma posse diante do espaço e do dia e instala a série das ações, recolhendo a primeira palavra ao seu vagar silencioso sem perder a marca de sua diafaneidade, que atravessa como susurro de confiança as cadeias das palavras intencionais e por instantes as afrouxa.
    • Palavra intencional impõe comando e ação.
    • A palavra primeira não desaparece, apenas se recolhe.
    • A confiança atravessa e solta as palavras por instantes.
  • Na breve aurora sente-se o germinar lento da palavra no silêncio, e a palavra se desprende na frágil claridade da liberdade antes da irrupção da realidade, de modo que palavra e liberdade precedem a realidade estranha que irrompe diante do ser ainda não acabado de despertar no humano.
    • O silêncio é solo de germinação.
    • Liberdade aparece como frágil clarear.
    • A realidade irrompe após palavra e liberdade.
  • Quando a realidade acomete o despertar, a verdade assiste com sua simples presença, pois sem essa presença originária a realidade não seria suportável nem se apresentaria como realidade ao homem.
    • A verdade é condição de suportabilidade do real.
    • A realidade exige presença originária da verdade.
  • A verdade chega como amor e como morte, sendo pressentida e sentida antes de percebida, e sua aparição é vivida como chegada final de algo engendrado secretamente no ser em sonho, como promessa de revelação e garantia de vida e conhecimento, de modo que despertar como reiterar o nascer implica estar no amor e, sem sair dele, na presença da verdade.
    • Verdade é anterior ao reconhecimento.
    • Sonho figura como incubação da revelação.
    • Amor e verdade se implicam no despertar-nascimento.
  • A assistência da verdade, ao manter-se como ela mesma, faz-se sentir invulnerável e desperta temor no ser que acorda inerme, pois revela vulnerabilidade e provoca retraimento e desejo de voltar ao antro escondido, exigindo comparecer como si mesmo, e levando a olhar desde um recinto que se transforma em lugar próprio onde se ergue um castelo de razões para defender-se da verdade.
    • A invulnerabilidade da verdade revela a vulnerabilidade humana.
    • O retraimento produz recinto e interioridade defensiva.
    • O castelo de razões figura a defesa racional.
  • A verdade resiste como inviolável presença inicial, mas o homem pode opor-se a ela com ciência e perder a visão originária, defendendo-se do amor que a verdade inspira e fixando-se no temor de ser iniciado e conduzido por ela.
    • Ciência pode converter-se em arma contra a verdade.
    • O amor inspirado pela verdade é recusado pela defesa.
    • A iniciação pela verdade é temida e evitada.
  • A perda da iniciação pela verdade instala o perguntar infatigável até que o homem se converta em pergunta, figurado pela Esfinge diante de Édipo, cuja resposta geral sobre o homem não lhe permitiu saber-se a si mesmo no escondido do ser, permanecendo oculto até ser exposto sem valimento, enquanto a verdade só se dá ao que permanece inerme diante dela e a segue sem estar diante dela.
    • A pergunta devora quem pergunta.
    • Édipo e a Esfinge exemplificam saber geral sem autoconhecimento.
    • A verdade exige seguimento e não afrontamento.
  • O ser sempre esteve escondido e por isso o homem pergunta por ele, movido pelo sentimento de um ser próprio oculto, de modo que o conhecimento objetivo nasce do anseio de dar-se a conhecer, presente mesmo nas formas mais acabadas do saber.
    • A pergunta nasce da ocultação sentida.
    • O anseio de revelar-se acompanha o saber objetivo.
  • Em cada despertar o ser preexistente emerge como chamado por uma luz invisível que toca certa profundidade do ninho onde alenta, anunciando padecer e graça da luz, que aparece como a priori do ser humano e talvez de todas as criaturas.
    • A luz é anterior e constitutiva.
    • O ninho e o alento figuram interioridade originária.
    • Padecer e graça são efeitos da luz.
  • Os movimentos essenciais do ser humano dão-se em função de uma luz que chega e deve ser anelada, e por um instante quase imperceptível o encontro ocorre como mínima revelação, pois o ser apetece dar-se na luz que o sustente como alimento, derramando paz e leveza de ser sustentado sem flutuar à mercê do oceano da vida.
    • A revelação aparece como chispa mínima.
    • Orexis é nomeado como apetite do ser pela luz.
    • A paz vem de sentir-se ao descoberto sem confronto.
    • Sustento difere de flutuação sem apoio.
  • Após o acender da luz na manhã ou no centro da noite, o ser recai e volta a esconder-se, e a consciência assiste a essa recaída, mas permanece a experiência de ter evitado o flutuar solitário, porque se encontra o lugar escuro onde brota a fonte tímida da vida, gerando sustento intermitente entre sede, escuridão e instantes de plenitude no esquecimento de si que reacendem o anseio.
    • A fonte aparece como caudal escasso e decisivo.
    • A plenitude é intermitente e reanimadora.
    • O viver humano se descreve como anelar apaziguado por instantes.
  • O tempo nacente brota sem figura e sem aviso, não mede movimento nem abriga sucessos, não se mostra sucessivo nem interrompível, e aparece como tempo puro e divino, semelhante a pulsação e presença que palpita como vida.
    • Não há imagem nem cronologia.
    • O tempo é presença pulsante.
    • O divino é associado à não objetificação.
  • O tempo como sopro e respiro é presença que não se exterioriza, sentida com o sentir-se de si, como ferida sem bordas que converte ser em vida e oferece um dom ilimitado recebido como próprio, alento congênito ao nascimento que sustenta a visão e permite aceitar a luz sem temor, com alusão a Emilio Prados.
    • O sentir e o sentir-se se unem recolhidamente.
    • A ferida sem bordas figura transformação em vida.
    • A visão é sustentada pelo alento.
    • Emilio Prados é citado como imagem do deus congênito.
  • Enquanto o ser recebido tende a esconder-se, algo nomeável como alma tende a sair do recinto, e a psicologia e outras ciências evitam essa noção por ser obstáculo à razão analítica, já que o conceito de alma pode ser analisado, mas a alma como movimento singular não se deixa situar em nós nem em si.
    • A alma é tratada como suposto metafísico e vínculo da mística.
    • A ciência prefere o que é estático e disponível.
    • O movimento da alma é descrito como ir e vir por si.
  • A psique responde a estímulos e parece estática mesmo na subconsciência, enquanto a alma responde a chamada, invocação e conjuro, aparentando parentesco íntimo com a palavra e certos modos da música, e figurando como fundamento de liturgia.
    • Resposta ao estímulo distingue-se de resposta ao chamado.
    • Palavra, música e liturgia são aproximadas da alma.
    • A alma não se exalta como a psique.
  • A alma tem condição alada e itinerante como pomba, volta até o dia em que parte levando o ser onde estava alojada, e sua ausência deixa o ser fixo em prisão sem orientação, de modo que qualquer resquício de luz ou voz funciona como ponto de orientação e vigília.
    • A partida da alma é evento decisivo.
    • A prisão é definida pela perda de orientação.
    • Luz e voz são sinais de esperança no encierro.
  • O despertar com a alma faz o ser orientar-se e abrir-se sem sair de si, renascendo ao deixar a guarida do sonho e do não-ser, e quando a alma abandona, deixa-se entrever a vocação extática do voo que nenhum análise científica alcança.
    • Renascimento se dá pela orientação da alma.
    • A ausência revela vocação extática.
    • O voo escapa ao alcance do método analítico.
  • Na diferença entre a vida toda e a exigência de existir abre-se a inteligência como ação mesmo quando passiva, não como emanação orgânica, pois a sensibilidade converte em vida o que toca e prepara revelação, enquanto o existente, ao exteriorizar-se pela inteligência, arrisca esvaziar-se da vida primeira e tratar a entraña como objeto sob claridade exterior.
    • Inteligência é ação e aptidão para revelar.
    • Sensibilidade é vida em forma primeira.
    • A exteriorização arrisca perda do interior vital.
    • Entraña aparece como interior sagrado resistente à objetificação.
  • A inteligência estabelece um dintel separador dentro do próprio ser que entende, apropriando-se paradoxalmente da objetividade sem sacrifício e afastando-se do amor preexistente e da vida recebida de que é depositário.
    • O dintel cria separação interior.
    • A apropriação da inteligência se dá sem sacrifício.
    • O afastamento do amor preexistente acompanha a objetificação.
  • A imagem é sempre múltipla e chega como duplo que altera quem a recebe, pretendendo existir como se escapasse de um reino onde cabem apenas ser e vida, enquanto a realidade oferecida ao humano é quase sempre imagem e não consegue permanecer como nuda realidade, pedindo ser e verdade que lhe faltam.
    • A imagem aparece como potência de domínio.
    • A realidade exige complemento para ser completa.
    • A realidade é descrita como meio real e por vezes irreal por excesso.
  • A realidade suplica e acomete ao mesmo tempo, como se quisesse recuperar o ser perdido e fundar outro reino, figurada pela serpente e pela lua que possui órbita mas não plenitude, e assim a realidade pede ao homem menos sua imagem do que sua órbita.
    • A serpente simboliza busca rasteira do ser.
    • A lua exemplifica plenitude apenas imagética.
    • A órbita é apresentada como exigência mais profunda que a aparência.
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