1 Síntese fenomeno-lógica
XOLOCOTZI YÁÑEZ, Ángel. Heidegger: lenguaje y escritura. Primera edición ed. Ciudad de México: Editorial Fontamara, 2018.
1. A síntese fenomeno-lógica: experiência vivida, doação da coisa e significação linguística
1. O estranhamento de Husserl diante do conjunto da investigação heideggeriana torna perceptível uma distância em relação à fenomenologia usual maior do que o próprio Heidegger inicialmente reconhecia, indicando uma transformação filosófica que ultrapassa sua consciência imediata do caminho percorrido.
1.1 Introdução
1. As Investigações lógicas abrem uma possibilidade de superar o dogmatismo do psicologismo e do logicismo, bem como a pretensão de primazia da linguagem, ao enfrentar um panorama no qual experiência subjetiva, objetualidade independente e significação linguística eram concebidas como dimensões fechadas que procuravam subordinar umas às outras.
2. A descoberta da intencionalidade permite à fenomenologia partir de uma dimensão aberta, tornando inseparáveis a consciência, a coisa e sua significação linguística e possibilitando investigar o entrelaçamento das diferentes dimensões pelas quais algo aparece ordinariamente.
3. A análise intencional não acrescenta uma dimensão às demais nem simplesmente as justapõe, mas explicita a essência intencional da consciência, inaugurando novas possibilidades de investigação e transformando o sentido de questões tradicionais como o ser e a linguagem.
4. A apropriação heideggeriana da síntese fenomeno-lógica permite pensar a implicação recíproca entre ser e linguagem para além de âmbitos fechados, compreendendo a significação como constitutiva do acesso às coisas e abrindo uma investigação do conhecimento que ultrapassa a construção de uma teoria exterior à experiência.
5. A linguagem somente pode ser tematizada em sua articulação com as vivências e referências intencionais, preservando uma posição irredutível na síntese em que experiência subjetiva, doação da coisa e significação tornam possível o aparecer, de maneira que a concreção fenomenológica exige acompanhar sua copertença sem isolar qualquer dessas dimensões.
1.2 A intuição sensível
1. A intuição husserliana designa um modo determinado de ver cuja função consiste em preencher intenções de significado, devendo ser compreendida no contexto da Sexta Investigação e não como uma apreensão imediata e ingênua que dispensaria a análise das relações constitutivas do conhecimento.
2. A distinção entre sinal e expressão separa a função meramente indicativa da relação propriamente significativa com o objetual, pois a expressão visa algo mediante um significado, enquanto o sinal apenas indica sem realizar essa mesma modalidade de referência.
3. A relação expressiva com o objetual pode permanecer como intenção de significado ou adquirir caráter cognoscitivo mediante o preenchimento intuitivo, no qual qualidade, matéria e plenitude constituem a essência cognoscitiva do ato, realizando uma síntese lógica entre intenção e preenchimento que possibilita o conhecimento como ratio cognoscendi.
4. O preenchimento intuitivo modifica a intenção inicialmente vazia ao fazer coincidir o que era visado com aquilo que se dá, constituindo a evidência como experiência da doação da própria coisa, em vez de uma relação que permaneceria limitada à significação sem apresentação intuitiva do objetual.
5. O conhecimento ocorre na identificação entre o sentido intencional e o sentido que o preenche, permitindo distinguir a consciência em geral da consciência fenomenológica investigada na Sexta Investigação, cuja especificidade reside nessa experiência sintética de identificação.
6. A diversidade de níveis do conhecimento exige reconhecer diferentes tipos de intuição e modos de acesso ao objeto, sendo a intuição sensível o nível inferior em que o objeto real ou sensível pode ser dado em um único grau de atos e reconhecido mediante a síntese entre intenção significativa e apresentação intuitiva.
7. A intuição sensível oferece o objetual real e individual em uma apreensão simples, embora essa doação possa ocorrer como lembrança, expectativa ou percepção, distinguindo-se esta última por apresentar originariamente a coisa em pessoa, segundo a modalidade denominada leibhaftig.
8. A simplicidade da intuição sensível não torna simples a evidência cognoscitiva, pois esta exige a relação entre o visado e o intuído, constituindo um ato composto de identificação entre intenção de significado e preenchimento, que não deve ser confundido com a doação sensível considerada isoladamente.
9. A coisa sensível apresenta-se como unidade idêntica mesmo quando é percebida por diferentes perfis ou perspectivas, porque os atos parciais se fundem em uma unidade fenomenológica que oferece uma única coisa, sem introduzir ainda a estrutura relacional própria de uma objetualidade categorial.
1.3 A intuição categorial
1. As expressões que articulam conjunção, atribuição, localização ou relações entre partes e todo revelam elementos que não podem receber preenchimento suficiente na intuição sensível simples, exigindo atos nos quais se apresenta uma objetualidade que não estava dada dessa maneira nos atos sensíveis fundantes.
2. A tradição de Locke a Brentano procurou explicar o categorial pela reflexão como percepção interna, contraposta à percepção externa, enquanto Kant radicalizou sua vinculação ao sujeito ao compreender as categorias como determinações não sensíveis do entendimento e, portanto, não intuitivas.
3. A intuição categorial husserliana recusa reduzir ser, unidade e pluralidade a produtos subjetivos ou a resultados da reflexão sobre atos psíquicos, reconhecendo-os como correlatos próprios de atos determinados e como algo efetivamente dado em uma intuição não sensível, o que abre uma dimensão que ultrapassa a simples interioridade subjetiva.
4. A nova objetualidade categorial constitui-se mediante um excedente de intenções fundado na objetualidade sensível, de maneira que a relação de fundação preserva a referência ao que aparece nos atos inferiores sem reduzir a manifestação categorial ao conteúdo desses atos.
5. A fundação significa que o categorial não subsiste desligado do sensível, embora possua uma objetualidade própria que não pode ser apreendida pela percepção simples, constituindo uma síntese fenomênica na qual o objeto sensível é aberto de outra maneira mediante atos que nele se fundam.
6. A intuição categorial articula o preenchimento de uma intenção significativa com uma síntese fundada na intuição sensível, tornando acessível o estado de coisas (Sachverhalt) como correlato do juízo pleno e reunindo, em um único ato, a apreensão do todo e a de seus momentos constitutivos, em vez de estabelecer uma mera sucessão de vivências desconectadas.
7. A complexidade da investigação husserliana reside na relação entre a doação intuitiva da coisa e a intenção linguística que nela procura preenchimento, pois a intuição sensível oferece o nível mais simples dessa doação, enquanto o excedente categorial torna manifestas as relações que constituem o correlato objetual de um juízo pleno.
8. O conhecimento fenomenológico exige uma síntese completa entre a síntese lógica, que identifica intenção de significado e preenchimento intuitivo, e a síntese fenomênica, que apresenta a objetualidade categorial fundada no sensível, articulando ratio cognoscendi e ratio essendi em uma síntese propriamente fenomeno-lógica.
1.4 O paralelismo com Husserl
1. A aproximação entre Husserl e Heidegger pode ser desenvolvida mediante o paralelismo entre a síntese fenomenológica husserliana e as primeiras preleções heideggerianas em Friburgo, especialmente aquelas reunidas nos volumes 56/57 e 58 da edição integral.
2. A experiência de entrar na sala de aula e dirigir-se ao lugar habitual já inclui o docente e sua relação com a cátedra, que aparece para ele como o lugar de onde fala e para os estudantes como o lugar de onde lhes é dirigida a palavra, revelando uma experiência inseparável dessas referências.
3. A questão decisiva consiste em esclarecer o que se vê nessa experiência, distinguindo possíveis interpretações do encontro com a cátedra e interrogando a primazia atribuída à percepção de propriedades sensíveis ou de uma coisa material isolada.
4. A experiência originária não apresenta inicialmente superfícies marrons ou caixas sobrepostas às quais se acrescentaria uma função, mas a própria cátedra na relação em que já se encontra com docente e estudantes, sem exigir uma construção fundada em dados previamente isolados.
5. A ruptura com a primazia do teórico não pretende simplesmente substituí-la pela primazia do prático, mas mostrar que a própria atividade teórica remete a um âmbito pré-teorético, reconhecível no encontro imediato com a cátedra em sua significação vivida.
6. O encontro com a cátedra deve ser compreendido a partir das relações em que a vida já se encontra imersa, de maneira que ela aparece de imediato em sua referência ao docente, inclusive como alta demais para ele, em vez de surgir primeiro como um objeto material posteriormente interpretado.
7. A apreensão que acompanha originariamente o vivido recebe a designação de intuição compreensiva ou hermenêutica, indicando um modo de acesso que preserva a experiência em sua realização, sem convertê-la previamente em objeto de uma percepção teórica.
8. O ver compreensivo designa inicialmente a maneira não explícita pela qual se vive no mundo circundante, onde a significatividade não é acrescentada a coisas previamente dadas, mas constitui aquilo que se oferece de imediato, fazendo com que a experiência já se realize entre significações no acontecer expresso por es weltet.
9. A primazia da significatividade questiona a fundação do acesso ao mundo na intuição sensível, mas não autoriza identificar a proposta heideggeriana com a intuição categorial, ainda situada no horizonte cognoscitivo, nem elimina a proximidade com Husserl, pois Heidegger preserva a importância do retorno intuitivo originário aos próprios fenômenos.
10. A síntese que articula doação da coisa, apreensão vivida e linguagem como intenção de significado oferece um caminho para compreender o acesso fenomenológico em ambos os pensadores, preservando uma estrutura de aproximação sem desconsiderar suas diferenças.
11. Aquilo que pertence ao mundo circundante (Umweltliches) aparece originariamente como significativo no trato, e não como objeto perceptivo simplesmente presente, de maneira que as primeiras preleções privilegiam a intuição compreensiva e a significatividade antes da elaboração sistemática do caráter instrumental das coisas em Ser e tempo.
12. A experiência do mundo circundante realiza-se como intuição compreensiva na qual aquilo que se encontra é vivido em seu caráter significativo, tornando a significatividade constitutiva do próprio encontro com os objetos mundanos.
13. A articulação entre experiência do entorno, intuição compreensiva e significatividade procura ultrapassar a associação entre percepção e conhecimento sob o predomínio do teórico, abrindo a possibilidade de compreender intuitivamente e intuir compreensivamente antes da tematização das coisas como objetos cognoscíveis.
14. A compreensão realiza-se na intuição e constitui a base dos desenvolvimentos posteriores sobre o acesso à vida fáctica e ao Dasein, de maneira que a investigação fenomenológica parte da compreensão e se desdobra em uma articulação de momentos de apreensão e expressão.
15. A passagem da compreensão à expressão não deve ser interpretada como retorno à fundação anteriormente criticada, pois ambas pertencem à experiência originária do mundo circundante, na qual a estrutura do compreender possibilita apreender fenomenologicamente a própria vida e seu vivenciar.
16. A interpretação constitui uma intensificação ou desenvolvimento da compreensão, tornando explícita uma orientação já operante na familiaridade com os entes, de modo que a relação entre compreender e interpretar apresenta uma proximidade estrutural com a articulação entre intuição sensível e categorial, sem transformar a expressão em um acréscimo exterior à experiência.
1.5 Conclusão
1. Husserl e Heidegger reconhecem na intuição um elemento decisivo do acesso fenomenológico, mas enquanto o primeiro articula sínteses lógica e fenomênica no conhecimento, o segundo transforma a doação e a apreensão da coisa ao compreendê-las a partir da significatividade da vida fáctica, na qual o mundo circundante antecede a constituição de objetos teóricos.
2. A intuição hermenêutica transforma conjuntamente a doação da coisa, sua apreensão e a linguagem, pois aquilo que se encontra no entorno é descoberto compreensivamente como significativo, fazendo da significação a articulação entre a experiência do mundo circundante e sua compreensão.
3. A síntese fenomenológica permite investigar a doação da coisa, sua apreensão e a linguagem sem eliminar dimensões nem impor subordinações injustificadas, oferecendo uma aproximação entre o âmbito perceptivo husserliano e o hermenêutico heideggeriano, mesmo diante dos problemas que cada percurso desenvolverá posteriormente.
4. A preservação da copertença entre doação, apreensão e linguagem constitui um compromisso comum a Husserl e Heidegger, realizado por caminhos distintos que permanecem paralelamente fenomenológicos.
