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estudos:werner-marx:sentido-necessidade-ousia
SENTIDO DA NECESSIDADE DA OUSIA
MARX, Werner. Heidegger and the tradition. Theodore Kisiel. Evanston: Northwestern Univ. Pr, 1971.
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O padrão cósmico de uma “ordem movida”, que predeterminou o sentido de “eternidade” como traço básico de ousia, imprime também seu selo no sentido do segundo traço básico de ousia, a necessidade, como indicam passagens em que Aristóteles vincula ex anankēs a aei.
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“Ordem movida” como molde do sentido de eternidade e necessidade.
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Evidência textual na coocorrência de ex anankēs e aei em Aristóteles.
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Necessidade apresentada como traço básico de ousia sob marca cósmica.
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Na seção V do Livro V da Metafísica, necessidade é definida como o que “não pode ser de outro modo”, e o necessário em sentido estrito (anankaion) é identificado com o simples (to haploun), isto é, o que-é indivisível do ente, a ousia, que por não admitir mais de um estado não pode ser “de um modo e de outro”.
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Necessário como impossibilidade de ser de outro modo.
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anankaion como necessidade em sentido estrito.
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to haploun como simplicidade e indivisibilidade do que-é.
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Ousia como não-admissão de estados múltiplos.
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Exclusão do “ser de um modo e de outro” como marca da necessidade.
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A determinação da necessidade de ousia esclarece-se pela contraposição à alterabilidade, pois os entes alteráveis, os endechomena allōs echein, comportam modos de ser hoje ditos “possibilidade”, “contingência” e “acidentalidade”, de modo que a necessidade da essência significa primeiramente inalterabilidade.
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Alterabilidade como complementação contraposta ao necessário.
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endechomena allōs echein como entes com modos de ser variáveis.
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Possibilidade, contingência e acidentalidade como modos categoriais da alterabilidade.
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Necessidade como inalterabilidade em contraste com tais modos.
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A alterabilidade é entendida como “tornar-se outro e outro” em passagem interminável, mas Aristóteles identifica também uma alteração em que o movimento “retorna a si mesmo”, realizando uma condição já predeterminada no que-é por fases ordenadas até uma completude predeterminada pelo início, e essa alteração pertence à essência, à própria ousia.
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Alterabilidade interminável como passagem de um outro a outro.
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Retorno a si mesmo como modalidade distinta de alteração.
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Realização de condição predeterminada no que-é.
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Fases ordenadas e completude predeterminada pelo começo.
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Presença dessa modalidade na ousia como traço interno.
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Essa alteração interna aparece como telos, fim firmemente circunscrito e predeterminado no que-é, simultaneamente fim do movimento e começo, como causa em vista da qual a condição predeterminada se realiza por estágios, e ousia como telos realiza-se também ao tornar-se propósito de outro ente, retornando a si na relação entre “o um e seu outro”, estrutura da conexão interna e da ordem teleológica.
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telos como fim limitado e predeterminado.
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Telos como fim e começo do mesmo movimento.
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Causalidade “em vista de” como motor da realização por estágios.
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Telos como propósito para outro ente e retorno a si nessa relação.
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“O um e seu outro” como forma do retorno.
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Ordem teleológica como estrutura de conexão interna.
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No movimento pelo qual telos se relaciona consigo, com suas fases e com “o outro”, instala-se um modo específico de obrigação e constrição, e é nessa obrigação que reside o sentido positivo do traço básico da necessidade de ousia.
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Obrigação e constrição como traço do movimento teleológico.
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Relação de telos consigo e com as fases como fonte da obrigação.
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Relação de telos com “o outro” como ampliação da constrição.
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Sentido positivo de necessidade fundado nessa obrigação.
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O sentido positivo de necessidade como derivado de telos mostra-se no conceito de “necessidade por hipótese” (ex anankēs ex hypotheseōs), segundo o qual, para que um ente natural (physei on) ou produzido (technei on) venha ao ser e à essência, as quatro causas devem estar presentes, mas o ocorrer é necessário apenas sob a hipótese da presença de uma delas, telos.
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ex anankēs ex hypotheseōs como figura da necessidade condicionada.
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physei on e technei on como dois âmbitos do vir-a-ser.
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Quatro causas como condição do vir ao ser e à essência.
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Necessidade vinculada à hipótese de telos como causa determinante.
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A fabricação humana ocorre “necessariamente” apenas sob a hipótese de que o telos de uma casa acabada determine e guie as outras três causas, de modo que hylē, arche e morphē/eidos são causas necessárias porque o telos, a casa acabada enquanto tal, se relaciona a elas em um vínculo que tem caráter de “deve”.
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Telos da casa acabada como guia das demais causas.
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hylē como tábuas ou tijolos na produção.
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arche como início do trabalho.
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morphē e eidos como figura e forma.
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Relação do telos com as três causas como estrutura do “deve”.
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A constrição de telos não possui a severidade do “deve” que mais tarde designa, na ciência natural, a conexão de “causa e efeito” e de “fundamento e consequência”, pois na relação teleológica de physis reconhece-se a possibilidade de falhas (hamartēmata) e impedimentos, bastando que as coisas naturais alcancem sempre ou “na maior parte das vezes” seu cumprimento predeterminado.
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“Deve” teleológico distinto do “deve” causal-mecânico posterior.
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physis como âmbito de relação teleológica com margem de falha.
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hamartēmata como possibilidade de fracassos.
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Impedimentos como fatores reconhecidos.
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Regra do “sempre” ou do “na maior parte das vezes” no cumprimento.
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A ocorrência natural, não menos que a produção humana, é poiesis, e a compreensão aristotélica do elemento criador e poético em physis e technē aparece ligada à constrição de necessidade, pois na natureza há um poiein que deixa o ente particular, começando de si, avançar ao telos “por hipótese, necessariamente”, e há também um poiein que opera sobre outro ente particular conduzindo-o à sua essência.
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Poiesis como caracterização de ocorrência natural e produção humana.
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physis e technē como campos do poético ligado à necessidade.
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poiein “a partir de si” como auto-início do ente rumo ao telos.
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Necessidade “por hipótese” como forma do avançar ao telos.
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poiein que atua sobre outro ente conduzindo-o à essência.
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A teleologia aristotélica e o tipo de necessidade nela fundado determinaram o pensamento ocidental até hoje, e mesmo após a vitória galileano-cartesiana da causa efficiens sobre a causa final e a redução ao absurdo da ordem teleológica, a estrutura de telos permaneceu viva no pensamento escatológico, formalmente decisiva para a escatologia cristã e também para a escatologia marxista do materialismo histórico.
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Teleologia como matriz de longa duração no Ocidente.
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causa finalis como causa teleológica suplantada.
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Persistência formal de telos em escatologias.
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Escatologia cristã como continuidade formal.
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Escatologia marxista do materialismo histórico como continuidade formal paralela.
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A “necessidade filosófica” contemporânea manifesta-se em filósofos que retornam conscientemente à teleologia aristotélica e ao tipo de necessidade nela apoiado por impulso antirrelativista e antihistoricista e por desejo de uma nova “ordem de essências”, embora permaneça em questão a possibilidade de retorno simples após o descrédito completo do modelo cósmico dessa ousiologia.
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Retorno contemporâneo como resposta a um diagnóstico de necessidade filosófica.
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Impulso antirrelativista e antihistoricista como motivação.
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“Ordem de essências” como objetivo do retorno.
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Modelo cósmico desacreditado como obstáculo ao retorno direto.
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Ousiologia aristotélica como horizonte problemático de reapropriação.
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Em contraste, Heidegger busca outro caminho ao procurar “outro sentido de ser e essência”, esforçando-se por superar interpretações de essência e substância fundadas em ousia aristotélica, de modo que esse outro sentido não pode sustentar os traços básicos que caracterizavam ousia e impõe a questão de saber se o ser é determinado por “necessidade” e por qual tipo de necessidade.
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Outro sentido de ser e essência como orientação distinta.
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Superação de interpretações assentadas em ousia.
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Impossibilidade de manter os traços básicos de ousia nesse novo sentido.
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Necessidade como problema reaberto e qualificação do seu tipo como questão.
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A estrutura referencial de telos, a partir da qual se determinou o sentido de necessidade, remete a um terceiro traço básico de ousia, a mesmidade consigo mesma.
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Telos como fonte do sentido de necessidade já estabelecido.
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Estrutura referencial como caminho para o próximo traço.
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Mesmidade consigo mesma como terceiro traço básico anunciado.
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