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estudos:volpi:essencia-verdade

ESSÊNCIA DA VERDADE

VOLPI, Franco; GNOLI, Antonio. La selvaggia chiarezza: scritti su Heidegger. Milano: Adelphi, 2011.

  • O presente volume reúne o texto do curso universitário ministrado por Heidegger em Friburgo no semestre de inverno de 1931/32, configurando um desenvolvimento significativo no caminho aberto pela chamada Kehre, que aprofunda radicalmente e transforma a questão do ser colocada em Ser e tempo (1927), e a relevância “historicamente essencial” desse curso é assinalada por Heidegger em um parágrafo dos Beiträge zur Philosophie. Vom Ereignis, segunda grande obra mantida inédita e publicada postumamente em 1989 por ocasião do centenário de seu nascimento.
    • Friburgo, semestre de inverno de 1931/32.
    • Kehre como aprofundamento e transformação da questão do ser.
    • Ser e tempo (1927) e Beiträge zur Philosophie. Vom Ereignis.
    • Publicação póstuma em 1989 no centenário de Heidegger.
  • As teses desenvolvidas no curso haviam sido esboçadas na conferência homônima sobre A essência da verdade, apresentada no outono e no inverno de 1930 em Bremen, Marburgo e Friburgo, repetida no verão de 1932 em Dresden, publicada apenas em 1943 e posteriormente incluída em Segnavia (Adelphi, Milão, 1987, pp. 133-57).
    • A essência da verdade como antecedente direto do curso.
    • Bremen, Marburgo, Friburgo (1930) e Dresden (1932).
    • Publicação em 1943 e inclusão em Segnavia (Adelphi, Milão, 1987).
  • O curso aqui traduzido também fundamenta as reflexões do ensaio A doutrina platônica da verdade, concebido em 1940 e publicado em 1942 no anuário Geistige Überlieferung dirigido por Ernesto Grassi, depois reeditado em 1947 junto com a Carta sobre o “humanismo”, contribuindo para o relançamento do pensamento heideggeriano no pós-guerra.
    • A doutrina platônica da verdade (1940/1942) e Geistige Überlieferung.
    • Ernesto Grassi como diretor do anuário.
    • Reedição em 1947 com a Carta sobre o “humanismo”.
    • Relação com a retomada do prestígio de Heidegger após a guerra.
  • Duas tarefas são estabelecidas para estas observações preliminares: destacar a crucialidade do problema tratado pelo curso e recordar Hermann Mörchen.
    • Ênfase na centralidade do problema.
    • Comemoração de Hermann Mörchen.
  • A verdade, tema do curso, figura na história do pensamento humano como um conceito fundamental cujo perfil ilumina ou sombreia os demais, pois suas definições, conotações e transformações revelam em cada época um respectivo modo de fundo de relação com o mundo e com tudo o que é, de modo que nenhum pensador digno do nome deixa de confrontar-se com ela e também em Heidegger se reconhece um tema constante de reflexão.
    • Verdade como conceito estruturante de épocas.
    • Relação entre concepções de verdade e atitudes históricas diante do mundo.
    • Continuidade do tema da verdade em Heidegger.
  • Por meio de uma interpretação detalhada do mito da caverna de Platão na República e, em seguida, por uma exegese dos passagens do Teeteto sobre a ciência, o curso dá forma à tese segundo a qual em Platão a essência da verdade sofre um mutamento essencial, passando de determinação inerente ao ser, entendida como “manifestatividade” e “não-latência” (a-letheia), a caráter referido à inteligência humana, transformando-se em orthotes, “correção” da visão e do logos que a apreendem.
    • Platão: República (mito da caverna) e Teeteto.
    • a-letheia como não-latência e manifestação.
    • orthotes como correção do ver e do logos.
    • Conversão do homem à luz do saber como figura interpretativa.
  • Esse mutamento é apresentado como início de um destino marcado pelo projeto de domínio cognitivo e operativo de tudo o que é, pela elevação do homem como “sujeito” sobre os demais entes e pelo cumprimento desse destino na essência da técnica moderna.
    • Domínio do ente como traço destinal.
    • Sujeito como posição soberana do homem.
    • Técnica moderna como consumação.
  • Nesse enquadramento, a concepção predominante de verdade como mera característica do juízo oposta à falsidade é tratada como derivada e redutiva, ao passo que se busca reconduzir à luz a amplitude ontológica originária do fenômeno ainda visível em Platão, recusando tanto a redução ao juízo quanto sua interpretação como “valor cognitivo” de edificação humana, atribuída às retardatárias legiões neohumanistas.
    • Crítica da verdade como atributo exclusivo do juízo.
    • Recuperação de um alcance ontológico originário.
    • Rejeição da verdade como simples valor cultural ou formativo.
  • A verdade é afirmada como evento, o próprio acontecer do ser no qual o homem é envolvido e posto em jogo, implicando necessariamente o risco da queda e do fracasso, isto é, a não-verdade, e por isso o pensamento filosófico que corresponde a essa condição não se reduz a disciplina especializada, nem a visão de mundo, nem a “valor cultural”, nem a passatempo, mas consiste em um domandare radical que transforma desde os fundamentos o Dasein, culminando numa “conversão de toda a alma”, a periaagoge holes tes psyches ensinada por Platão.
    • Verdade como evento e acontecimento do ser.
    • Não-verdade como dimensão necessária do risco.
    • Domandare que transforma o Dasein.
    • periaagoge holes tes psyches como conversão integral.
  • A interpretação proposta da essência da verdade documenta passo a passo o novo desenvolvimento da meditação heideggeriana sobre o ser, tornando visível um deslocamento em relação a Ser e tempo, onde a questão foi posta como pergunta pelo “sentido do ser” para contornar a objeção formalista do círculo do “é”, enquanto aqui se fala de “verdade do ser”.
    • Ser e tempo: “sentido do ser” como estratégia contra objeção formalista.
    • Curso: “verdade do ser” como novo eixo de abordagem.
  • O deslocamento do “sentido” para a “verdade” do ser é atribuído ao recurso ao sentido grego de a-letheia como “não-latência” ou “desvelamento”, que permite evidenciar também o correlato da verdade, isto é, a não-verdade, articulando não apenas a manifestatividade do ser, mas também seu subtrair-se e ocultar-se na dinâmica do acontecer.
    • a-letheia como chave para pensar desvelamento e ocultamento.
    • Complementaridade e alternância de manifestação e ocultamento.
    • Verdade e não-verdade como dupla face do fenômeno.
  • Ao falar de Wesen der Wahrheit, a expressão é tomada tanto no sentido comum de “essência da verdade” quanto no sentido próprio de Wesen entendido verbalmente como modo de apresentar-se e estar essencialmente presente, de tal maneira que seu desdobramento convoca a negação Unwesen e a oposição essencial Gegenwesen, compondo a compreensão de ser e verdade segundo a dinâmica de velamento e desvelamento, latência e manifestação, afirmatividade e negatividade, sob o horizonte de uma finitude radical.
    • Wesen como verbo: presentificar-se.
    • Unwesen e Gegenwesen como contrapartes na dinâmica.
    • Finitude radical como perspectiva estruturante.
  • A insistência na palavra grega a-letheia é vinculada ao fato de que os gregos exprimiam “verdade” por um conceito negativo, formado pelo a privativo e pela base de lanthanein, “estar latente” e “escondido”, enquanto veritas e Wahrheit são conceitos positivos, de modo que a etimologia grega sugere arrancar do ocultamento e conduzir à manifestação.
    • a-letheia: a privativo + lanthanein.
    • veritas e Wahrheit como formas positivas.
    • Desvelar como movimento de retirada do ocultamento.
  • A negatividade de a-letheia é lembrada como tema já assinalado na Antiguidade por Sexto Empírico em Adversus Mathematicos e, na modernidade, por Francois de La Mothe Le Vayer em Dialogues faits à l’imitation des anciens (1632), além de ser enfatizada em Ernst von Lasaulx (1856) e nos dicionários de Wilhelm Pape e Gustav Benseler, bem como na voz aletheia redigida por Rudolf Bultmann para o Theologisches Wörterbuch zum Neuen Testament de Gerhard Kittel, indicado como instrumento lexical particularmente valorizado por Heidegger.
    • Sexto Empírico e Adversus Mathematicos.
    • Francois de La Mothe Le Vayer e Dialogues (1632).
    • Ernst von Lasaulx (1856) e a análise morfológica do termo.
    • Wilhelm Pape, Gustav Benseler, Rudolf Bultmann e Gerhard Kittel.
  • A etimologia de aletheia é situada no contexto de uma controvérsia com o filólogo Paul Friedländer, colega de Heidegger em Marburgo nos anos 1920, pois Friedländer sustentava que, por ocorrer em Homero em conexão com verba dicendi, o conceito seria desde o início ligado ao âmbito do discurso, ao passo que em Heidegger a verdade dos primeiros gregos é entendida como abertura pré-discursiva e ontológica, como caráter dos entes, exemplificada por “ouro verdadeiro”.
    • Paul Friedländer e a leitura homérica ligada ao dizer.
    • Verdade como abertura pré-discursiva e ontológica em Heidegger.
    • “Ouro verdadeiro” como exemplo do caráter do ente.
  • Na terceira edição de sua obra, Friedländer reconhece em parte as razões de Heidegger (Platon, de Gruyter, Berlim, vol. I, 1964, p. 233), e também Heidegger recua parcialmente ao afirmar em Zur Sache des Denkens (Niemeyer, Tübingen, 1969, p. 78) que a Aletheia como “radura” da presença foi experimentada desde cedo e apenas como orthotes, de modo que já não se sustenta a tese de um mutamento essencial da verdade do desvelamento para a correção.
    • Friedländer: Platon, de Gruyter, Berlim, 1964.
    • Heidegger: Zur Sache des Denkens, Niemeyer, Tübingen, 1969.
    • Reavaliação da tese do mutamento essencial de a-letheia para orthotes.
  • Quanto ao curador alemão do volume, Hermann Mörchen é lembrado como discípulo privilegiado de Heidegger, nascido em 27 de abril de 1906 e coetâneo de Hannah Arendt, tendo frequentado os cursos em Marburgo (1923-1928) e considerado essa experiência decisiva, recebendo de Heidegger a tarefa de aprofundar o estudo da imaginação na Crítica do juízo e na Antropologia pragmática de Kant, o que gerou a tese Die Einbildungskraft bei Kant (1928), publicada no Jahrbuch für Philosophie und phänomenologische Forschung de Husserl (Niemeyer, Halle, vol. XI, 1930, pp. 311-495) e reeditada em livro (Niemeyer, Tübingen, 1970), sendo o único trabalho de um aluno citado por Heidegger na Prefácio à quarta edição de Kant e o problema da metafísica.
    • Hermann Mörchen: 27/04/1906 e Marburgo (1923-1928).
    • Hannah Arendt como coetânea mencionada.
    • Kant: Crítica do juízo e Antropologia pragmática.
    • Husserl e o Jahrbuch (Niemeyer, Halle, 1930); reedição (Niemeyer, Tübingen, 1970).
    • Citação por Heidegger em Kant e o problema da metafísica.
  • Mörchen acompanhou Heidegger nas escolhas políticas de 1933, foi posteriormente incorporado ao exército, feito prisioneiro na Rússia e mantido também no pós-guerra, e em condições extremas de cativeiro meditou repetidamente a morte, mantendo-se vivo com as poesias de Rilke repetidas de memória e com bilhetes escritos por Heidegger, retornando depois à Alemanha, seguindo carreira como professor de alemão e fixando-se em Frankfurt.
    • 1933 como referência às escolhas políticas.
    • Prisão na Rússia e prolongamento no pós-guerra.
    • Rilke e bilhetes de Heidegger como sustentação no cativeiro.
    • Retorno e docência de alemão em Frankfurt.
  • Em 1958, a relação de Mörchen com Rilke deságua no livro Rilkes Sonette an Orpheus (Kohlhammer, Stuttgart), e mais tarde o contato com Adorno conduz ao estudo aprofundado de seu pensamento com simpatia por sua visão política, preservando-se contudo um vínculo privilegiado com Heidegger e um esforço de sondar os motivos filosóficos do não-diálogo entre ambos como mestres, culminando em Macht und Herrschaft im Denken von Heidegger und Adorno (Klett-Cotta, Stuttgart, 1980) e na monografia Adorno und Heidegger. Untersuchung einer philosophischen Kommunikationsverweigerung (Klett-Cotta, Stuttgart, 1981), com remissão ao texto Adorno e Heidegger: um dialogo postumo? em Il Pensiero, n.s., XXIII, 1982, pp. 87-110.
    • Rilke: Rilkes Sonette an Orpheus (Kohlhammer, Stuttgart, 1958).
    • Adorno como novo interlocutor estudado por Mörchen.
    • Klett-Cotta, Stuttgart, 1980 e 1981.
    • Il Pensiero, n.s., XXIII, 1982, pp. 87-110.
  • O contato com Mörchen é situado no período de preparação desses estudos, com correspondência epistolar dedicada a discussões filosóficas, visitas em Niederrad, bairro de Frankfurt, e uma viagem dele à Itália apesar da idade, incluindo acompanhamento do trabalho de edição do curso aqui publicado, do qual se destacam conversas, lembranças autobiográficas e cadernos de notas como fonte de uma imagem viva do ensino e da personalidade de Heidegger, encerrando-se o relato com a notícia de sua morte em 6 de maio de 1990, comunicada no mesmo mês.
    • Niederrad como bairro de Frankfurt associado a Mörchen.
    • Edição do curso como trabalho acompanhado em sua preparação.
    • Cadernos de notas e memórias autobiográficas como material transmitido.
    • Morte em 6 de maio de 1990.
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