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Arte da Filosofia

SLOTERDIJK, Peter. Scheintod im Denken: Von philosophischen Räumen. Berlin: Suhrkamp Verlag, 2010.

Introdução: A teoria como forma da vida de exercício

1. A máxima atribuída a Epicuro, segundo a qual quem fala em público deve lembrar que um discurso curto equivale a um longo, serve para preparar uma audiência levemente alarmada para a versão longa que pode substituir a curta sem perda alguma, e, à maneira dos rapsodos de outrora, convém anunciar de antemão, ponto por ponto, o que virá, aliviando desde o início tensões desnecessárias e permitindo acompanhar com perfeita serenidade as intenções quanto a começo, meio e fim.

2. A divisão das ideias em quatro seções revela uma perspectiva alheia à confraria teológica, cujos membros preferem três capítulos por se transporem à interioridade divina regida pela tríade, ou sete quando imitam o criador, ou dez quando emulam o autor das tábuas do Decálogo, apostando-se aqui na clássica quaternidade filosófica, baseada no pressuposto de que, para dizer a verdade, é preciso saber contar até quatro.

3. A ciência acadêmica como prática de antropotécnica é abordada inicialmente em termos factuais e históricos a partir de duas figuras fundadoras do pensamento filosófico: Edmund Husserl, que representa o renascimento moderno da filosofia como teoria rigorosa, e Sócrates, cujo aparecimento há quase 2.500 anos inaugurou a busca antiga da verdade e da sabedoria e criou o fenômeno chamado filosofia, ainda hoje controverso.

4. Em nível propedêutico, discute-se a múltipla contingência da pessoa apta à epoché, expressão que envolve uma proposta de interpretação do bíos theoretikós, a vida reflexiva em suas muitas variações, fenômeno evolutivamente tão improvável e empiricamente tão pesado, que há mais de dois milênios e meio inquieta moralmente e faz avançar cognitivamente as comunidades humanas, razão suficiente para investigar as condições de possibilidade do comportamento teórico.

5. O cerne do tema é a formação ou autogeração da pessoa desinteressada, que exige discutir a teoria, conhecida desde a Antiguidade, da animação suspensa epistêmica dos sábios, mostrando por que a ideia de que o pensador deve ser uma espécie de morto em férias é inseparável da cultura racional europeia antiga, sobretudo da filosofia de inspiração platônica, como na proposição socrática de que os verdadeiros amantes da sabedoria buscam estar tão mortos quanto possível em vida, já que, segundo o idealismo, só os mortos, não no sentido dos agentes funerários, mas os filosoficamente mortos que se despojam do corpo e se tornam intelectos puros, contemplam autopticamente as verdades do além, sugerindo que o estado de morte favorável à teoria pode ser aprendido e que o método é também aproximação a um estado de quase-morte que intensifica a cognição, não a morte própria de Heidegger em Ser e tempo, mas uma morte anonimizadora que submete todo o privado e individual e paga a entrada na grande teoria, de modo que a ars moriendi dos estoicos e de místicos medievais tardios constitui menos heroísmo contemplativo que capítulo central da epistemologia, pois, se o eterno só é reconhecido pelo semelhante, importa ativar em vida a capacidade de perceber o imperecível, morrendo antecipadamente para revelar a imortalidade latente ainda presos ao invólucro mortal, revelando-se o metafísico, nesse contexto, como epistemotanatológico.

6. A tentativa de assassinato do tipo tradicional do homo theoreticus por epistemólogos modernos, naturalistas, ideólogos e espíritos agitados de todos os matizes equivale a matar um aparente morto, drama paradoxal em que não se sabe se ocorre um homicídio ou uma reanimação, revelando uma ambivalência imanente à cultura racional moderna desde que se desvinculou de sua longa fase de estímulo metafísico, pois, se a ressecularização do saber dessecularizado é saudada como ganho civilizatório e oportunidade política e o retorno dos contemplativos ao círculo dos viventes normais é aprovado, pouco se pensou nas implicações de as crenças epistemológicas atuais se fundarem num crime de difícil classificação, a morte da pessoa em animação suspensa, que faz figuras da teoria como Einstein, Max Weber, Lévi-Strauss ou Luhmann parecerem de novo vizinhos de porta.

7. Esse pensamento adentra um território raramente visitado e menos ainda explorado, pois quase ninguém pergunta por que o cuidado e a preservação de ilustres aparentemente mortos foram tão importantes para a cultura teórica europeia antiga quanto o culto dos santos para a Igreja medieval, e, assim como ainda se está longe de tirar todas as conclusões de Deus está morto, está-se longe de compreender as implicações de o observador puro está morto, já que a secularização dos processos cognitivos exige mais tempo do que previram positivistas do século XIX, físicos nucleares do século XX e neurocientistas do século XXI, sendo a morte do monstro sagrado que era a pessoa cognoscente apenas o começo, de resultados ainda incertos, e praticamente impossível atribuir a parcela exata de culpa a cada um dos dez assassinos que, com motivos e instrumentos variados, se uniram no ato.

8. O crime constitui um angelicídio jamais investigado oficialmente, porque promotores e epistemólogos não admitem a existência de anjos nem os consideram sujeitos assassináveis, e sua casuística se complica pela ausência de corpus delicti, já que, havendo motivos e suspeitos de sobra, não há cadáver semelhante a um anjo, restando, onde se liquidam os anjos teorizantes, homens e mulheres reais demais em salas de aula, laboratórios, bibliotecas e intermináveis reuniões de faculdade, vítimas da desangelização que poderiam queixar-se de terem sido devolvidas da elevada irrealidade à existência profana, pois nem todos os reanimados celebram seu retorno pleno à vida, e alguns teóricos contemporâneos talvez lamentem ter sido arrancados do belo estado mortiço do desinteresse para a arena da realpolitik cognitiva.

9. Tudo o que se segue só pode ser compreendido se o termo prática for levado a sério em todas as suas implicações, inclusive como exercício ou treino, categoria negligenciada, quando não desprezada, pelo modernismo teórico, cujo alto estatuto Você tem de mudar sua vida! Sobre antropotécnica procurou restaurar, contra as lacunas sistemáticas do vocabulário da filosofia moderna e os pontos cegos das teorias sociológicas da ação dominantes, mostrando que a distinção tradicional entre vita activa e vita contemplativa, inicialmente relativa apenas aos monges, tornou invisível, se não impensável, a dimensão do exercício, pois ao aceitar essa diferença como alternativa exclusiva e total perde-se de vista um complexo substancial do comportamento humano que não é nem meramente ativo nem meramente contemplativo: a vida de exercício.

10. A vida de exercício é por natureza um domínio misto, contemplativo sem renunciar à atividade e ativo sem perder a perspectiva contemplativa, a mais antiga e consequente forma de treino autorreferencial, cujos resultados não afetam objetos externos, como no trabalho ou na produção, mas desenvolvem o próprio praticante e o põem em forma como sujeito-que-pode, manifestando-se em sua condição atual de capacidade, chamada conforme o contexto constituição, virtude, virtuosismo, competência, excelência ou fitness, assegurada por exercícios de manutenção e potenciada por exercícios de desenvolvimento, sendo a askesis clássica dos atletas gregos, modelo dos primeiros monges atletas de Cristo, sempre híbrida, de modo que forçar o exercício nas distinções entre teoria e prática, vida ativa e contemplativa, ou ainda entre ação comunicativa e instrumental, trabalho e interação, torna invisível seu valor intrínseco.

11. A extensão, o peso e a variedade de formas da vida de exercício evocam a observação de Nietzsche de que, vista do universo, a Terra da era metafísica pareceria quase o astro ascético, onde a luta da nação descontente dos sacerdotes ascéticos contra sua natureza interior é um dos fatos mais difundidos e duradouros, sendo hora de abandonar o ascetismo que embrutece a vida e recuperar as artes positivas da afirmação há muito obsoletas.

12. A intervenção de Nietzsche teve efeito largamente paradoxal, pois filósofos sociais, teóricos críticos e psicólogos sociais continuam cegos ao trabalho dos habitantes da Terra sobre si mesmos, seu ascetismo, treino e esforço para entrar em forma, e A condição humana de Hannah Arendt nem sequer menciona a vida de exercício, resultado curioso para quem promete explicar a condição humana, enquanto os cidadãos modernos, imunes à cegueira adquirida dos teóricos, abriram as comportas às práticas de treino oficialmente ignoradas, fazendo dos aperfeiçoamentos ascéticos postulados por Nietzsche, sob nomes como formação continuada, treino, fitness, esporte, dietética, autodesign, terapia e meditação, o modus vivendi dominante das subculturas ocidentais de desempenho, e tudo indica que as antigas grandes potências de exercício da Ásia Oriental, China e Índia, seguindo o modelo japonês, completaram a transição para formas de treino globalmente orientadas, inaugurando um regime agressivo de desempenho que provavelmente superará os europeus enfastiados.

13. O foco no aspecto exercitante da existência humana considera um fato aparentemente trivial mas de efeitos imprevisivelmente amplos: tudo o que as pessoas fazem e sabem fazer é realizado melhor ou pior, de modo que adeptos e jogadores estão constantemente envolvidos numa classificação espontânea de suas habilidades e ações, expressão da tensão vertical inerente à existência humana, e a definição técnica de exercício, segundo a qual toda execução condiciona as execuções posteriores, abre um primeiro acesso a essa verticalidade involuntária, podendo-se dizer que toda vida é acrobacia, embora apenas uma ínfima parte das expressões vitais seja percebida como aquilo que realmente é: resultado de exercício e elemento de um modus vivendi na corda bamba da improbabilidade.

14. Os antigos sistemas de exercício ligados ao surgimento da ética radical na era axial de Karl Jaspers, cesura civilizatória marcada pela criação imperial e crítica do império da visão de mundo do primeiro milênio antes de Cristo, foram sobretudo sistemas de autotransformação ética destinados a alinhar o humano a uma constituição cósmica ou a um cânone divino, prescrevendo frequentemente ascetismo físico e mental excessivo, e foram agrupados na Europa moderna sob o rótulo enganoso de religiões, termo romano-cristão neutralizado pelo Iluminismo em categoria antropológico-cultural que mal faz justiça aos sistemas indiano, chinês, iraniano, judaico e filosófico europeu antigo de condução da vida, importando agora apenas saber se a compreensão das estruturas implícitas e explícitas da vida de exercício reveladas na ética antiga pode estender-se ao comportamento teórico, questão de resposta afirmativa sem a qual a investigação teria de ser interrompida.

15. Uma extensão análoga da zona do exercício permite reformular a história da arte como história do ascetismo artístico ou virtuosístico, pois, assim como a história da ciência pressupõe que os cientistas já existem, a história da arte supõe desde sempre que os artistas são protagonistas naturais e preexistentes da produção de obras, e girar o palco conceitual noventa graus em ambos os casos permitiria observar os artistas em seu esforço para tornar-se artistas, obtendo, ao lado da história das obras acabadas, uma história do treino que possibilitou a arte e do ascetismo que formou os artistas, e, ao lado da história da ciência como história de problemas, discursos e resultados, uma história das práticas e exercícios que possibilitaram a erudição, isto é, uma história da autoconquista que permite a quem usava a linguagem normal pré-teórica ingressar na confederação do pensamento teórico, distanciamento que caracteriza a tarefa da história do ascetismo.

16. A mudança de perspectiva aparece num comentário a Imagem e culto de Hans Belting, cuja magnífica história da imagem antes da arte pode ser lida como história do ascetismo produtor de imagens, já que, se a tradição pictórica europeia começa com a pintura de ícones do culto cristão helenizado, encontra-se desde o início uma prática em que arte e ascese formam unidade perfeita, com o pintor de ícones repetindo por toda a vida um repertório mínimo de motivos, crente de ser mero instrumento de uma luz-imagem sobrenatural que flui por sua mão, pressupondo que a imagem original autêntica poderia projetar-se no mundo visível mesmo sem mediação humana, como um diapositivo divino descido do céu, de que Cristo foi exemplo tridimensional e capaz de sofrer e o véu de Verônica exemplo bidimensional e impassível, sendo as pinturas humanas boas apenas na medida em que se assemelham abnegadamente aos originais não pintados, de modo que a história da arte europeia pode ser descrita como enorme acumulação de exercícios de habilidade, excelência formal e ascese técnica culminando nas célebres formas supremas, preparando a expansão contínua dos métodos artísticos e ideias infladas sobre a importância do artista, com uma autorreferencialidade crescente da excelência artística até a ruptura no início da era moderna que levou ao declínio da consciência do exercício nas artes visuais.

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