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estudos:schurmann:2008:temporalidade

Temporalidade

CRITCHLEY, Simon; SCHÜRMANN, Reiner. Sobre o ser e tempo de Heidegger. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.

1. O primeiro título geral da totalidade estrutural da presença (Dasein), ser-no-mundo, é progressivamente aprofundado pela cura (Sorge), que explicita sua articulação interna e sobretudo revela que a presença sempre antecede a si mesma (sich-vorweg), jamais alcançando enquanto existe uma completude fechada, pois sua totalização efetiva coincidiria justamente com a perda de seu ser-no-mundo e, portanto, com a morte.

  • A cura não substitui o ser-no-mundo, mas torna mais concreta sua estrutura transcendental.
  • O anteceder-a-si-mesmo significa que a presença permanece estruturalmente incompleta enquanto existe.
  • A impossibilidade de alcançar uma totalidade acabada enquanto ente revela negativamente uma estrutura essencial.
  • A morte, enquanto aniquilação completa da presença como ente, torna-se o fenômeno pelo qual a temporalidade dessa incompletude pode ser explicitada.

A função heurística da morte

2. Se a cura exprime o anteceder-a-si-mesmo constitutivo da presença (Dasein), a análise existencial da morte explicita essa estrutura ao mostrar que a presença se relaciona concretamente com seu ainda-não extremo, não como com um objeto futuro ou acontecimento simplesmente dado, mas como com sua possibilidade ontológica mais própria, que ela mesma sempre tem de assumir.

  • A morte pode ser cotidianamente reificada como acontecimento remoto, sobretudo mediante práticas que a apresentam como algo ocorrido aos outros.
  • Exéquias, isolamento de doentes terminais e cálculo da morte em datas podem transformar a morte em objeto e encobrir seu sentido existencial.
  • A morte não é um simples elemento ainda ausente nem a última parcela pendente de uma existência progressivamente completada.
  • Seu caráter impendente (Bevorstand) não é comparável ao de uma tempestade, reforma, visita ou qualquer ente simplesmente dado, manual ou copresente.
  • A morte é uma possibilidade ontológica que a própria presença deve sempre assumir como possibilidade de seu próprio ser.

3. A morte permite explicitar a estrutura prévia segundo a qual a presença (Dasein) sempre antecede a si mesma e, por isso, oferece acesso simultaneamente à estrutura formal do fim e à possibilidade de totalidade, respondendo às questões de como a presença pode estar orientada para um fim e como pode ser compreendida em seu poder-ser-todo.

4. Compreender existencialmente a morte não significa representá-la simplesmente como acontecimento futuro, pois o ainda-não da morte pertence ao presente da existência como possibilidade própria e impendente, de modo que o morrer não significa simplesmente chegar ao término, mas existir constantemente como ser-para-o-fim.

  • O “ainda-não” não designa uma ausência insignificante, mas uma possibilidade que já determina a existência atual.
  • “O findar implicado na morte não significa o ser e o estar-no-fim da presença (Dasein), mas o seu ser-para-o-fim.”
  • “A morte é um modo de ser que a presença (Dasein) assume no momento em que é.”
  • A morte constitui, portanto, uma determinação permanente da presença enquanto existe.

5. A função heurística do ser-para-o-fim consiste em revelar a temporalidade da presença (Dasein), não mediante recordação do passado nem pela sucessão física de antes e depois, mas pela iminência da morte, que torna o futuro decisivo e permite compreender inclusive o nascimento como facticidade histórica de uma tradição, família, comunidade e herança em que a presença já se encontra lançada.

  • A análise da temporalidade não parte do modelo aristotélico do movimento nem da distensão da alma agostiniana.
  • O nascimento adquire sentido existencial a partir do ser-para-a-morte e da facticidade que ele permite compreender.
  • Nascer significa encontrar-se lançado numa herança histórica e comunitária que não foi escolhida.
  • A análise da morte prepara a temporalidade da presença e deveria, por sua vez, preparar uma possível temporalidade do próprio ser.

6. No ser-para-o-fim, a presença (Dasein) encontra-se diante de sua possibilidade mais própria, irremissível e insuperável, na qual aquilo que está em jogo é pura e simplesmente seu próprio ser-no-mundo e diante da qual todas as remissões a outras presenças se desfazem.

  • A morte é a possibilidade mais própria porque pertence sempre à própria presença.
  • É irremissível porque ninguém pode assumir a morte de outro em seu lugar.
  • É extrema porque nenhuma possibilidade existencial pode ultrapassá-la.
  • “A morte é, em última instância, a possibilidade da impossibilidade pura e simples da presença (Dasein).”
  • Ela se revela como possibilidade mais própria, irremissível e insuperável.

7. A morte é sempre minha possibilidade própria e rompe com o domínio cotidiano do impessoal (das Man), pois não se pode morrer simplesmente como “se morre”, fazendo do ser-para-o-fim um movimento de recondução ao si mesmo no qual a presença é remetida à possibilidade de apropriar-se de seu próprio poder-ser.

  • A morte não pode ser delegada ou realizada segundo a neutralidade do impessoal.
  • Ela reconduz a presença ao seu próprio si mesmo.
  • Sua transcendência não conduz primeiramente ao mundo cotidiano, mas à apropriação da própria existência.
  • Sua insuperabilidade significa que o ser-para-o-fim envolve a existência inteira, do nascimento à morte.
  • A possibilidade extrema da morte mostra que a possibilidade possui primazia ontológica sobre a simples realidade.

8. O ser-para-o-fim revela primeiramente a temporalidade porque mostra que seu caráter fundamental é o futuro, entendido não como conjunto de acontecimentos ainda inexistentes, mas como o próprio caráter porvindouro da presença (Dasein), que já se antecede constantemente em suas possibilidades.

  • O ser-para-a-morte somente é possível enquanto porvindouro.
  • A futuridade constitui o sentido fundamental da projeção (Entwurf).
  • “O projetar-se ‘em virtude de si-mesmo’, fundado no porvir, é um caráter essencial da existencialidade.”
  • O futuro não é simplesmente aquilo que acontecerá, mas o modo pelo qual a presença vem a si em seu poder-ser.

9. A morte não apenas revela a futuridade estrutural da presença, mas possui também função totalizante, tornando-se ainda mais central que a angústia para explicitar a possibilidade de totalidade da presença.

A função totalizante do ser-para-morte

10. Por ser a possibilidade mais própria, irremissível e insuperável, a morte não constitui uma possibilidade entre outras nem simplesmente um horizonte particular da projeção, mas o horizonte extremo dentro do qual todas as outras possibilidades podem ser assumidas e compreendidas.

  • Toda possibilidade positivamente assumível pela presença tem como horizonte último o ser-para-a-morte.
  • “Insuperável” significa que nenhuma possibilidade pode ultrapassar aquela que abrange e limita todas as demais.
  • A morte atravessa estruturalmente todas as possibilidades da compreensão de ser.

11. A morte constitui assim uma possibilidade fundamental do compreender, pois no ser-para-a-morte a presença já compreende implicitamente que seu próprio ser está em jogo em tudo aquilo que empreende e que sua totalidade só pode realizar-se sob a forma de sua completa impossibilidade.

  • A angústia diante da morte é angústia perante o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável.
  • Aquilo diante do qual a angústia se angustia continua sendo o próprio ser-no-mundo.
  • A angústia abre a presença como ente lançado que existe para seu fim.
  • Aquilo que nela se revela é o próprio poder-ser da presença.

12. Angustiar-se diante do poder-ser da presença significa compreender implicitamente que ela também pode não ser, fazendo com que o anteceder-a-si-mesmo da cura encontre sua concretização mais originária no ser-para-a-morte.

13. A presença nunca é completamente ela mesma enquanto permanece aberta uma futuridade e algo ainda está pendente, ao passo que a morte constitui o ponto no qual nenhuma possibilidade futura permanece e no qual esse ainda-não pode ser experimentado antecipadamente como possibilidade.

  • A futuridade é a abertura pela qual a presença permanece incompleta.
  • A morte é o momento em que nenhuma possibilidade permanece pendente.
  • Esse “momento” deve ser entendido tanto como acontecimento quanto como estrutura existencial.
  • O ser-para-a-morte permite experimentar antecipadamente a possibilidade da supressão da própria futuridade.

14. A totalidade (Ganzheit) da presença não pode ser compreendida como soma dos acontecimentos ocorridos entre nascimento e morte, pois o ser-para-a-morte não totaliza a vida simplesmente acrescentando-lhe um último evento que completa retrospectivamente sua extensão.

15. A morte totaliza a presença como possibilidade estrutural, porque ela existe desde o nascimento como ser-para-a-morte e não como sucessão de realidades momentâneas, permitindo que o poder-ser-todo (Ganzseinkönnen) seja assumido própria ou impropriamente e que a presença transforme seu simples estar-estendida entre nascimento e morte num estender-se a si mesma.

  • “A presença (Dasein) só existe nascente e é nascente que ela já morre, no sentido de ser-para-a-morte.”
  • O poder-ser-todo não constitui uma possibilidade que possa ser realizada como um estado positivo concluído.
  • A presença pode, contudo, apropriar-se dessa possibilidade como sua.
  • O movimento de estender-se na extensão constitui seu acontecer (Geschehen).
  • A possibilidade da história (Geschichte) funda-se nesse acontecer.
  • O ser-para-a-morte oferece a concreção mais originária da cura e conduz ao todo da presença como temporalidade.

A temporalidade como o “sentido” da cura: as três “ekstases”

16. A cura revelou uma articulação estrutural mais complexa do que o ser-no-mundo, mas sua multiplicidade encontra finalmente sua unidade originária na temporalidade, que constitui o sentido (Sinn) ontológico da cura e o fundamento unificador das determinações existenciais anteriormente analisadas.

17. A temporalidade fornece a constelação reguladora definitiva das determinações da presença e constitui a forma mais originária de sua extensão, aprofundando a tese inicial segundo a qual a essência da presença (Dasein) reside em sua existência.

18. A segunda seção de Ser e Tempo retoma toda a analítica precedente para mostrar que as estruturas fundamentais da presença devem ser concebidas temporalmente, fazendo da temporalidade a chave para reinterpretar projeção, estar-lançado, ser-com e cura.

PROJEÇÃO

19. A projeção (Entwurf) somente é possível sobre a base da futuridade, pois anteceder-se a si mesma exige que a presença (Dasein) possa vir a si em sua possibilidade mais própria, sobretudo no ser-para-a-morte, de maneira que porvir não designa um agora ainda inexistente, mas o advento pelo qual a presença vem a si em seu próprio poder-ser.

  • O deixar-se-vir-a-si na possibilidade extrema constitui o fenômeno originário do porvir.
  • O futuro não é um presente ainda não realizado.
  • Porvir significa a chegada da presença a si mesma em seu poder-ser mais próprio.

20. A futuridade funda existência, cura, ser-no-mundo, transcendência e projeção, constituindo a condição de possibilidade do projeto e assumindo por isso primazia na analítica temporal da presença.

  • Projetar significa encontrar-se antecipadamente como possibilidade.
  • O projetar-se em virtude de si mesmo possui seu sentido primário no porvir.
  • O futuro constitui a dimensão temporal da possibilidade.
  • A presença somente existe enquanto possibilidade.
  • O compreender-se no projeto de uma possibilidade existenciária é um vir-a-si fundado no porvir.

ESTAR-LANÇADO

21. O estar-lançado (Geworfenheit), assim como a projeção, recebe fundamento temporal, pois estar lançado significa já ter sido e carregar consigo uma facticidade que somente pode ser propriamente assumida quando a presença porvindoura retorna ao que ela já sempre foi e faz de seu ter-sido uma possibilidade própria.

  • Assumir o estar-lançado significa assumir o próprio ter-sido.
  • O passado não permanece separado do futuro, mas é retomado a partir dele.
  • A presença pode vir a si porque pode simultaneamente retornar ao que já foi.
  • O ter-sido transforma-se numa possibilidade a ser apropriada e não num destino causal inalterável.

22. O passado da presença não deve ser compreendido como passado simplesmente desaparecido (Vergangenheit), mas como ter-sido (Gewesenheit) que continua atuante enquanto possibilidade, fazendo da facticidade não um peso morto de determinações psíquicas, sociais ou históricas, mas uma herança viva que pode ser assumida na projeção.

  • “Enquanto existe faticamente, a presença (Dasein) nunca é passado, mas sempre o ter sido.”
  • O ter-sido continua vigorando e permanece ativo.
  • O sentido existencial primário da facticidade reside no vigor de ter sido.
  • O passado não é uma carga inerte, mas um campo de possibilidades ainda atuantes.

SER-COM OU JUNTO A

23. O ser-com e o ser-junto aos entes somente são possíveis com base na ekstase temporal do presente, entendida não como ponto imóvel entre passado e futuro, mas como atualização mediante a qual a presença deixa os entes virem ao encontro dentro da situação.

  • Os entes à mão, as coisas e os outros tornam-se copresentes mediante a atualização.
  • O presente possui estrutura processual, não pontual.
  • Atualizar significa deixar que os entes venham ao encontro.
  • Mesmo essa estrutura do presente permanece fundada na abertura das possibilidades e, portanto, na primazia do porvir.

24. Porvir, vigor de ter sido e atualidade constituem os três modos fundamentais da abertura (Erschlossenheit) e, quando explicitamente assumidos pela presença, convertem-se em modos da decisão (Entschlossenheit), razão pela qual a autenticidade poderá ser determinada como decisão antecipadora e não como voluntarismo arbitrário ou decisão de impor-se aos outros.

  • A decisão constitui uma modificação própria da abertura.
  • Não significa decisionismo nem exercício soberano da vontade.
  • A temporalidade própria reúne porvir, vigor de ter sido e atualidade.
  • “Vindo-a-si mesma num porvir, a decisão atualiza-se na situação.”
  • “O vigor de ter sido surge do porvir.”
  • Temporalidade designa o fenômeno unitário no qual o porvir atualiza o vigor de ter sido.

25. A temporalidade explicita o tríplice desprender-se da presença em porvir, vigor de ter sido e atualidade, constituindo a raiz temporal respectivamente da projeção, do estar-lançado e do ser-com ou ser-junto.

26. A existencialidade revela-se agora como estrutura ek-stática, pois ser-no-mundo significa literalmente estar fora de si (ek-stare), fazendo do porvir, do vigor de ter sido e da atualidade modos originários desse desprendimento.

  • Porvir significa ser-para-si-mesmo.
  • Vigor de ter sido significa retornar-a.
  • Atualidade significa deixar-vir-ao-encontro.
  • Cada dimensão temporal exprime uma direção constitutiva da abertura da presença.

27. Porvir, vigor de ter sido e atualidade manifestam a temporalidade como o ekstatikon puro e simples, isto é, como o originário estar-fora-de-si da presença que permanece simultaneamente orientado para si mesma.

  • “Temporalidade é o ‘fora de si’ e para si mesmo originário.”
  • Porvir, vigor de ter sido e atualidade são as ekstases da temporalidade.

28. A temporalidade transforma radicalmente a problemática transcendental porque a condição possibilitadora da cura já não se encontra num sujeito isolado, mas na conexão temporal entre presença e mundo, fazendo da finitude o núcleo da existência e situando nas próprias formas temporais a origem mais profunda das estruturas antes atribuídas ao sujeito.

  • A condição transcendental não é uma subjetividade atemporal.
  • A conexão entre presença e mundo é intrinsecamente temporal.
  • Ser inteiramente temporal significa ser radicalmente finito.
  • A temporalidade constitui a concreção mais originária da cura e revela a finitude integral da presença.

29. A temporalidade ek-stática rompe com os dois principais modelos tradicionais de tempo — o fisicalista, que define o tempo como número do movimento segundo antes e depois, e o mental, que o compreende como distensão da alma — porque ambos conservam a primazia do presente como modo orientador.

  • O modelo aristotélico deriva o tempo da medida do movimento segundo anterior e posterior.
  • O modelo agostiniano define-o como distentio animi.
  • Em Agostinho, passado, presente e futuro aparecem como presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras.
  • Em ambos os modelos, o presente permanece como referência fundamental para compreender as outras dimensões temporais.

30. Heidegger rompe com a representação linear do tempo ao recusar a primazia do presente e, consequentemente, a compreensão de passado e futuro como extensões de um agora originário, afastando-se também da temporalidade husserliana fundada no fluxo de vivências, na presença originária (Urpräsenz) e na organização de retenções e protensões em torno do agora.

  • A tradição metafísica associa preeminência do presente, representação linear do fluxo temporal e derivação de passado e futuro a partir do presente.
  • Husserl conserva esse esquema ao conceber retenção e protensão a partir da presença originária.
  • Kant procura articular aspectos aristotélicos e agostinianos mediante a permanência (Beharrlichkeit), enquanto Husserl retorna predominantemente à tradição interiorista de Agostinho.

31. A representação linear é substituída pela temporalidade ek-stática, na qual o porvir recebe primazia sem transformar passado e presente em derivados secundários, pois as três ekstases permanecem cooriginárias e igualmente constitutivas da unidade temporal.

A temporalidade ek-stática como condição para a história

32. A temporalidade não é um ente nem algo que aconteça dentro de um tempo previamente existente, mas temporalização na unidade das ekstases, sendo originária relativamente ao tempo vulgar entendido como sucessão de agoras, que surge somente quando a estrutura ek-stática é nivelada e suas dimensões são tomadas isoladamente.

  • O tempo comum como sequência de agoras constitui uma derivação nivelada do tempo originário.
  • A temporalidade ek-stática possibilita passado, presente e futuro.
  • Ela deixa o próprio tempo surgir (entspringen).
  • Por isso deve ser compreendida como tempo originário (ursprüngliche Zeit).

33. A temporalidade não resulta da soma de três ekstases separadas, pois temporaliza-se inteiramente em cada uma delas, fazendo com que porvir, vigor de ter sido e atualidade estejam intrinsecamente entrelaçados e que cada uma sustente conjuntamente a estrutura da cura.

  • Não existe um futuro, passado ou presente absolutamente isolado.
  • Cada ekstase contém a unidade das outras duas.
  • A existência funda-se primordialmente na futuridade.
  • A facticidade funda-se no vigor de ter sido.
  • A decadência funda-se na atualidade.
  • Cada determinação da cura somente é possível em conexão com as demais, assim como cada ekstase temporal é sustentada pelas outras.

34. O tempo originário distingue-se da sequência indefinida de agoras porque a compreensão de ser da presença produz futuridade ao antecipar seu ter-que-ser, retoma como vigor de ter sido as determinações de sua herança e atualiza os entes e outros que vêm ao encontro, fazendo das três ekstases dimensões interligadas da própria abertura em que a presença está em questão para si mesma.

  • O futuro surge do anteceder-se próprio de um ente que tem de ser.
  • O ter-sido nasce da determinação fática da presença por nascimento, herança e cultura.
  • O futuro retorna ao ter-sido ao apropriar-se daquilo que a presença já foi.
  • O presente constitui a abertura aos entes e aos outros que comparecem conjuntamente no mundo.

35. A compreensão de ser (Seinsverständnis) revela-se assim como temporalidade originária, pois existência significa abertura radical e desprendimento de si na unidade das três ekstases, e a temporalidade ek-stática ilumina originariamente o “aí” (Da) da presença ao funcionar como princípio unificador de todas as suas estruturas.

  • “A temporalidade ek-stática ilumina originariamente o ‘pre’ [Da].”
  • Ela desempenha, em Ser e Tempo, uma função estrutural comparável àquela da apercepção transcendental em Kant, mas em sentido radicalmente diferente.
  • A apercepção kantiana permanece desmundanizada e atemporal, enquanto a temporalidade heideggeriana é mundana, finita e ek-stática.
  • A temporalidade constitui previamente a condição de possibilidade do ser-no-mundo.

36. A existência exprime, portanto, a direcionalidade temporal tríplice da compreensão do próprio ser e esclarece por que ela pôde funcionar desde o início da analítica como ideia orientadora para uma compreensão genuína da presença (Dasein).

37. A constituição ek-stática da presença funda também a possibilidade da história, pois, diferentemente da apercepção transcendental kantiana, uma existência cujo núcleo é simultaneamente mundano e temporal pode acontecer historicamente e constituir-se através desse acontecer.

38. A substituição da apercepção transcendental pela temporalidade permite compreender a própria compreensão de ser como acontecimento (Geschehen), de modo que ser deixa de funcionar apenas como substantivo estático e adquire uma dimensão verbal e processual ligada ao acontecer da presença.

39. A compreensão de ser acontece ainda como ser-com, pois a presença já está lançada entre outros e sua facticidade concretiza-se historicamente numa comunidade, fazendo de seu acontecer um acontecer-com (Mitgeschehen) e de seu destino individual (Schicksal) uma participação num envio comum (Geschick).

  • A presença historicamente situada existe essencialmente como ser-no-mundo e ser-com.
  • Seu acontecer é também acontecer-com.
  • O envio comum (Geschick) designa o acontecer histórico de uma comunidade ou povo.
  • Estar lançado numa comunidade limita a autonomia da presença mediante possibilidades historicamente herdadas.
  • O destino funciona assim como princípio fático de limitação das possibilidades projetivas.

40. A historicidade somente pode ser ontologicamente compreendida a partir da temporalidade ek-stática, pois a projeção histórica retorna ao ter-sido e assume sua herança (Erbe) como campo de possibilidades, fazendo da retomada (Wiederholung) não uma repetição regressiva do passado, mas uma resposta às possibilidades que ainda atuam nele.

  • As teorias e filosofias da história constituem tematizações derivadas dessa estrutura temporal originária.
  • Existir historicamente de maneira explícita significa assumir a herança e recolher dela possibilidades para a projeção.
  • A retomada é o retorno às possibilidades da presença que vigoram no ter-sido.
  • Retomar o passado significa responder ao que nele ainda age.
  • O envio comum do destino pode tornar-se explícito mediante a apropriação da herança recebida.
  • A própria história da presença funda-se em sua abertura ek-stática no tempo.

41. A analítica transcendental alcança seu nível mais profundo na temporalidade ek-stática, pois ser-no-mundo, cura e temporalidade constituem graus sucessivos de explicitação da compreensão de ser, até que os múltiplos existenciais sejam reunidos no núcleo temporal em que a futuridade manifesta do modo mais concreto que o próprio ser da presença está em questão.

As modificações ônticas da compreensão de ser

42. A passagem da tríade disposição, compreender e fala para a tríade disposição, compreender e decadência na segunda seção de Ser e Tempo acompanha a interpretação temporal dos existenciais, na qual o porvir possibilita o compreender, o vigor de ter sido possibilita a disposição e a atualidade fornece o sentido existencial da decadência.

  • Essa mudança constitui uma dificuldade para qualquer tentativa de sistematizar rigidamente a arquitetura conceitual de Ser e Tempo.
  • Na análise posterior, compreender, disposição e decadência tornam-se modos privilegiados de explicitar as três dimensões temporais.

43. A fala (Rede) adquire nesse contexto uma significação particularmente abrangente quando sua temporalidade é identificada à temporalidade da presença em geral, sugerindo que ela já não constitui apenas um existencial paralelo à disposição e ao compreender, mas pode exprimir a própria constituição temporal na qual significações e conceitos tornam-se possíveis.

  • O sentido ontológico do “é” não pode ser esclarecido por uma teoria artificial da proposição ou do juízo que o reduza a mera cópula.
  • O surgimento da significação e a possibilidade da elaboração conceitual devem ser compreendidos com base na temporalidade da fala.
  • Essa aproximação entre fala e constituição temporal antecipa motivos posteriormente aprofundados no pensamento heideggeriano da linguagem.

44. A substituição metodológica da primeira tríade pela segunda pode ser compreendida supondo-se que a fala passe a designar a constituição temporal da presença em geral, enquanto a decadência representa especificamente a estrutura da cura enraizada na ekstase da atualidade.

45. A temporalização dos existenciais permite relacionar os momentos fundamentais da cura, as três ekstases em que se fundam e suas possíveis modificações ônticas, próprias ou impróprias, preparando a análise da autenticidade e da inautenticidade.

46. A distinção entre autenticidade e inautenticidade emerge da própria modificabilidade da compreensão de ser (Seinsverständnis), pois a analítica parte de uma compreensão cotidiana, implícita e pré-ontológica para mostrar como aquilo que já é compreendido pode tornar-se explícito e ser assumido pela presença de maneira distinta.

  • A passagem da pré-compreensão para a compreensão explícita mostra que a relação da presença com seu próprio ser é modificável.
  • O questionamento filosófico explícito constitui uma possibilidade existenciária da própria presença.
  • A ontologia fundamental somente é possível porque a presença possui previamente uma predisposição estrutural para modificar sua compreensão de ser.
  • Essa predisposição articula-se sobretudo através do poder-ser-todo (Ganzseinkönnen) e da projeção (Entwurf).

47. Poder-ser-todo e projeção tornam-se inevitáveis quando a presença é compreendida como suas próprias possibilidades, pois possibilidade já não se opõe à realidade como categoria lógica, mas constitui o próprio modo de ser da presença, que pode escolher-se, ganhar-se, perder-se ou ainda não ter-se conquistado.

  • A presença relaciona-se com seu próprio ser como sua possibilidade mais própria.
  • “A presença (Dasein) é a sua possibilidade.”
  • Por ser possibilidade, ela pode apropriar-se de si ou perder-se.
  • Autenticidade e inautenticidade surgem precisamente dessa estrutura de poder apropriar-se ou não de seu próprio ser.
  • A presença somente pode perder-se porque, segundo seu modo de ser, é chamada a apropriar-se de si mesma.

48. O passo seguinte consiste em acompanhar a estrutura formal fundamental até suas concretizações existenciárias, reconduzindo aquilo que se originou (Entsprungene) à sua origem (Ursprung) e mostrando como a estrutura neutra da presença adquire concretamente as modificações próprias e impróprias de sua compreensão de ser.

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