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estudos:romano:si:si-mesmo

O que é o si-mesmo?

ROMANO, Claude. Être soi-même: une autre histoire de la philosophie. Paris: Gallimard, 2018.

1. O sentido normativo e axiológico do “si mesmo”, subjacente à ideia de existência “à altura de si mesmo” ou em conformidade com o ser verdadeiro, não é estranho aos textos mais antigos da cultura filosófica e foi em parte elaborado por Heidegger com vistas a permitir, no quadro de sua ontologia fundamental, a refundição do motivo socrático do cuidado de si (epimeleia heautou).

  • Quando Sócrates, no Alcibíades, busca “o que é o si-mesmo em si mesmo” (auto to auto) e responde que esse si-mesmo é, para cada um, a parte soberana em nós, de modo que “o homem é a alma” (ton anthropon he psychen), não se trata de referir-se a um núcleo de identidade infrangível que assegurasse nossa permanência no tempo, algo como um self, mas de circunscrever o lugar em que cada homem existe na plenitude de sua essência, notando-se, como observa Jean-Pierre Vernant, a ausência de qualquer possessivo diante de alma, já que para o pensamento grego a psyche é entidade impessoal ou suprapessoal, sendo antes a alma em mim do que minha alma.
  • Quando Aristóteles, na Ética a Nicômaco, pergunta retoricamente se o intelecto (noûs) não somos nós mesmos, seu propósito não é localizar um eu, mas sublinhar que só somos plenamente nós mesmos e existimos em conformidade com nossa própria natureza quando existimos sob a condução do noûs, de modo que conduzir uma vida regrada pelo intelecto é conduzir ao mesmo tempo uma vida plenamente humana e uma vida que eleva o homem acima de si mesmo, identificando-o com o que nele há de mais divino.
  • A relação primeira consigo repousa sobre um ideal a atingir, não havendo relação a si que não seja, por essência, de natureza prática e axiológica, como observa Alain Petit ao afirmar que o si-mesmo possui estatuto não estritamente metafísico ou ontológico, mas antes um estatuto axiológico, pois reivindicar-se de si mesmo ou tender a estar à altura de si mesmo, percebendo simultaneamente que isso não ocorre, significa visar em si aquilo que há de melhor, donde a qualificação de “divino” aplicada a esse si-mesmo.
  • A fórmula de Epicteto, segundo a qual eu me encontro onde se encontra a decisão (prohairesis), confirma que o si-mesmo não é uma espécie de coisa nem um núcleo de identidade a si, condição de nossa continuidade através do tempo, mas o ideal de uma auto-posse plenamente realizada, e portanto de uma elevação acima de nossa particularidade e contingência, permitindo coincidir com aquele que somos chamados a nos tornar, tal como expressa Sêneca ao convidar a voltar o olhar para o bem verdadeiro e a ser feliz do próprio fundo (de tuo), sendo esse fundo o próprio si-mesmo (te ipso) e a melhor parte de si, aquela que conduz à plenitude da própria essência.
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