Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:romano:si:fazer-eu

"Fazer eu" - modos de ser, modos de viver

ROMANO, Claude. Être soi-même: une autre histoire de la philosophie. Paris: Gallimard, 2018.

1. A pesquisa incide sobre o que se convencionou chamar, desde Kant, de “o sujeito”, mas apenas na medida em que esse sujeito é posto em jogo em sua operação de verdade, tema próximo da questão diretriz dos últimos cursos de Foucault no Collège de France, organizados em torno da tríade sujeito, poder, verdade, segundo a qual o sujeito ocidental só se relaciona consigo mesmo e se constitui como tal por meio de um conjunto de práticas de verdade que vão da parrhesia democrática e filosófica ao exame de consciência estoico e à exomologesis e exagoreusis cristãs.

  • É legítimo perguntar por que Foucault escolhe o termo “subjetividade” para guiar suas pesquisas, visto que uma história da subjetividade se organiza a partir dos grandes conceitos da metafísica que compõem a sequência hypokeimenon-ousia-substantia-subjectum, sequência à qual Foucault dedica atenção muito reduzida, quando não nula, sem mencionar sequer a concepção aristotélica do hypokeimenon em seus vínculos com a ousia, ponto de partida obrigatório de toda história do sujeito.
  • Uma versão clássica dessa história do sujeito foi fornecida por Heidegger, e mais recentemente Alain de Libera a retomou em obras notáveis, colocando em questão algumas de suas premissas antes tidas por bem estabelecidas.

2. Ao batizar sua investigação de “história da subjetividade”, Foucault parece ter lançado mais obscuridade do que luz sobre seu objeto principal e ter contrariado suas próprias intenções, uma vez que, em passagem decisiva de O Governo de Si e dos Outros [Le Courage de la vérité], ele sublinha a heterogeneidade entre duas grandes vias que percorrem a história do pensamento ocidental como respostas à questão socrática sobre aquilo de que nos ocupamos quando nos ocupamos de nós mesmos.

  • A primeira via, originada no Alcibíades, sustenta que aquilo de que nos ocupamos é a alma (psyche), dando origem às grandes metafísicas da alma e, por herança, às metafísicas do eu e da subjetividade, conduzindo a filosofia como disciplina puramente teorética.
  • A segunda via, que se configura a partir do Laques, não se funda na descoberta de uma psyche como realidade ontologicamente distinta do corpo, mas em uma maneira de ser e de agir da qual é preciso prestar contas ao longo de toda a existência, dando origem ao que Foucault chama, na esteira de Hadot, de “espiritualidade”, isto é, uma transformação da vida (bios) em vista de nela realizar obra de verdade.
  • Somente essa segunda via interessa a Foucault, o que torna problemático o próprio título “hermenêutica do sujeito”, assim como seria impróprio falar de “história do eu”, visto que o eu constitui invenção tardia devida a Descartes e Pascal e se vincula sem ambiguidade à primeira via, colocando-se então a questão de como qualificar uma história que tomasse por objeto as maneiras de ser ou de viver que consistem em fazer a verdade na própria vida.

3. A resposta arriscada é a de que tal história deveria ser chamada de história da ideia de ser si mesmo, uma história da ipseidade, expressão cujo sentido não é evidente, já que “ser si mesmo” parece tautológica, visto que ninguém poderia ser outra coisa senão si mesmo, e o domínio da tautologia corresponderia, segundo Wittgenstein, ao das expressões vazias de sentido (sinnlos).

  • Se ser é necessariamente ser o mesmo que si mesmo, segundo a fórmula de Quine “no entity without identity”, não se vislumbra como seria possível alcançar ser si mesmo nem como se poderia falhar em sê-lo, de modo que a injunção pareceria uma absurdidade, disfarçando sob falsa profundidade a mais completa ausência de pensamento, tal como exploram slogans publicitários contemporâneos.
  • Tal análise da expressão “ser si mesmo” é insustentável, pois repousa no que Wittgenstein chamaria de uma ilusão gramatical, isto é, um desconhecimento do modo como essa expressão corrente é efetivamente empregada, já que, como indica Lucien Tesnière, em expressões como “Ele volta a ser ele mesmo”, “ele mesmo” não desempenha função pronominal que exigisse identificação, mas função de atributo que forma com o verbo uma unidade indissolúvel, tornando-se um equivalente estrutural do verbo.
  • O problema deixa de ser saber quem é aquele que volta a ser si mesmo, questão absurda, para tornar-se o de saber quais características essa pessoa recebe, ou antes, de que maneira ela passa a existir, a saber, em conformidade consigo mesma ou com seu ser verdadeiro, sendo que uma conformidade não é uma identidade.
estudos/romano/si/fazer-eu.txt · Last modified: by 127.0.0.1