Evento e mundo
ROMANO, Claude. L’événement et le monde. Paris: PUF, 1999
Prefácio
Introdução — O problema
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1. — O evento antes de qualquer coisa
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2. — O estatuto metontológico do evento no estoicismo
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3. — O evento à luz da «ontologia» heideggeriana
PRIMEIRA PARTE O evento
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4. — O evento como fato intramundano
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5. — O fato intramundano e o evento no sentido evental
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6. — O problema fenomenológico do «mundo»: fato, contexto e interpretação
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7. — Causalidade e origem
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8. — A impossibilidade de uma datação do evento e seu caráter «inexperimentável»
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9. — A tarefa de uma hermenêutica evental: a elucidação do sentido da aventura humana sob o fio condutor do evento. O adveniente e seus eventais. A temporalidade
SEGUNDA PARTE O adveniente
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10. — A hermenêutica evental e sua delimitação em relação à psicologia ou à antropologia
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11. — A compreensão como evental
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12. — O conceito evental de mundo: o evento como «transição fenomenológica»
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13. — O sentido evental do nascimento
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14. — A acontecibilidade
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15. — Ipseidade e responsabilidade
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16. — O desespero e o pavor
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a. — A possibilidade para o evento e o sentimento
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b. — O desespero como sentimento fundamental
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c. — O pavor e o trauma
17. — Ipseidade e responsabilidade: os fenômenos do luto e do encontro-
a. — O luto e a separação
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b. — O encontro
18. — O adveniente e o sujeitoTERCEIRA PARTE A experiência
A. — O SENTIDO FENOMENOLÓGICO PRIMEIRA DA EXPERIÊNCIA
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19. — A experiência como provação do inexperimentável
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a. — O problema do sentido fenomenológico primeiro da «experiência»
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b. — A ex-per-iência como travessia e perigo
20. — Compreensão e experiência-
a. — O problema da pré-compreensão
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b. — Finitude da compreensão e infinitude do sentido
21. — A experiência como determinação fundamental da humanidade do homem e a questão do empirismo transcendental22. — Experiência e palavra23. — A experiência nos limites: o sofrimento, a morte-
a. — O sofrimento
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b. — A morte
B. — A OCULTAÇÃO DO SENTIDO ORIGINÁRIO DA EX-PER-IÊNCIA E SUA DEGRADAÇÃO: O EMPIRISMO
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24. — A gênese do empirismo
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a. — Experiência e conhecimento
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b. — A degradação do evento em fato intramundano, e o problema do correlato da experiência
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c. — A «empiria», como experiência-sem-mundo
25. — A desmundanização do evento e a informação-
a. — O evento jornalístico, como correlato da ex-per-iência degradada
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b. — O repassamento do tempo e a biografia
26. — Conclusão: a tarefa de uma hermenêutica da temporalidade
INTRODUÇÃO: O PROBLEMA
1. O mundo em que nascemos e que forma o horizonte de todas as condutas humanas não é apenas um mundo de coisas, mas um mundo de eventos, de modo que descrevê-lo fenomenologicamente implica renunciar a toda nomenclatura de objetos para apreender como o mundo, a cada instante, se configura, se advém e se “mundifica”, evento de seu próprio advento, o “há” de tudo o que aí tem lugar, o que impõe à descrição de nossa situação no mundo verbos que assinalam a maneira como as “coisas” se passam, advêm ou sobrevêm ao voltar-se para nós.
2. Em cada um dos eventos descritos, como a chuva noturna ou a explosão da tempestade com o relâmpago e o trovão, já luz um “antes-mundo” ou “pré-mundo” que ele traz e porta consigo, de sorte que esses eventos escandem e ritmam o advento do próprio mundo que neles se abre e se desdobra, restando saber o que dizer propriamente desses eventos, já que a linguagem parece aqui destituída de recursos, salvo para dizer que eles se produzem ou têm lugar, surgindo como rasgos luminosos para logo sucumbirem na noite, ainda que nada nos seja mais familiar do que aquilo que vem perturbar assim a ordem fixa das coisas, introduzindo nela o “movimento”.
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Cabe perguntar se o que chamamos, por falta de termo melhor, de “evento” não seria simplesmente uma mudança que sobrevém no ordenamento das coisas, o que os gregos nomeavam kosmos, mudança que modifica essa ordem sem contudo transtorná-la, produzindo-se sempre, por conseguinte, no horizonte do mundo.
3. Essa solução só seria válida se soubéssemos o que entender por “coisa” e por “mudança”, e se esses dois fenômenos não tivessem sido compreendidos, desde a aurora do pensamento grego, um em relação ao outro, sendo a mudança sempre interpretada no horizonte de uma coisa que muda, expressa por um substantivo, como a alteração (alloíosis) ou a mutação (metabolé) afetando a estância (ousía) daquilo que é, de modo que cabe perguntar se o evento, puro ter-lugar, puro jorrar, expresso gramaticalmente por um verbo, se deixa apreender à medida de tais conceitos, ou se, ao contrário, ele obriga a uma reforma profunda de nosso modo de pensar, dando-se como “puro devir”, “devir sem coisa que muda”, segundo a fórmula de Bergson, mutação em si mesma imóvel, mudança que, nessas condições, teria menos relação com o ser do que se anunciaria, livre de todo vínculo com o ser, como o próprio relâmpago do tempo.
4. Pensar o evento antes de toda coisa configura um desafio quase impossível de assumir, pois, tão logo se busca apreender o evento tal como advém em si mesmo, somos quase imediatamente absorvidos por outra coisa, pelas próprias “coisas”, fixadas diante do olhar como por um olhar de Medusa, buscando sempre a esse evento uma causa que o vincule a algo.
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Ao dizer “está noite” ou “está chovendo”, buscamos de imediato o que faz a noite ou que coisa seria a chuva; ao ver o relâmpago luzir, perguntamos o que é isso que assim luz e lhe atribuímos uma causa chamada fogo, raio ou eletricidade; ao dizer que a noite exala perfume, buscamos localizar um fenômeno sensível olfativo, como se ainda se tratasse de coisas e de causas, sem perceber o que assim advém, se produz ou sobrevém: o evento neutro do “chove”, do “está noite”, do “isto exala perfume”.
5. Ao fixarmos o evento com outro olhar, mostra-se algo inteiramente distinto, pois nenhuma coisa aqui se interpõe entre ele e o olhar, mas antes uma epifania que precede toda coisa, traduzida linguisticamente por um verbo, na maioria das vezes sob forma neutra (“chove”, “está noite”) ou pessoal (“a tempestade tempestar”, “o sol ensolarar”, a lua “ilunar” segundo Rimbaud), agir sem agente, pura eficácia, mudança sem coisa que muda, puro relâmpago de um tempo sem duração que ressoa no verbo do qual o próprio substantivo parece, por sua vez, derivado, não sendo a “lua” nada além daquilo que lunar, e o “sol” a causa substantivada de uma eficácia neutra, o ensolarar.
6. Resta então perguntar em que consiste propriamente a fenomenalidade do evento tal como este se manifesta antes de toda coisa, e como descrevê-la em uma língua isenta de pressupostos metafísicos, sendo tal empreendimento apenas possível se a distinção gramatical entre verbo e substantivo, que a princípio guiava a análise, revelar-se de imediato difícil de manejar, uma vez que todo verbo parece dizer-se sempre de um substantivo, o que leva a perguntar se apreender o evento em si mesmo não seria libertar a verbalidade do verbo de todo substantivo e pensar a essência do substantivo a partir da verbalidade do verbo, verbalidade essa que absorveria então o substantivo e nele se redobraria até a tautologia, como em “o sol ensolarar” ou “a lua ilunar”.
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