Ser-com
(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:37-38)
(…) O grave, no entanto, é que se pode ser autêntico de diferentes maneiras: uma delas consiste em ser autêntico na forma de se deixar-ser a partir do estar-com os outros (Mitsein). Esse estar-com os outros é constitutivo do Dasein. O Dasein é sempre ele mesmo ao estar com os outros. Nunca é ele mesmo em uma espécie de solidão ontológica. A própria “solidão” que um ser humano pode experimentar deve ser entendida como solidão em relação aos outros. Estar sozinho é estar sozinho em relação aos outros. Ou seja, estar sozinho é sempre um estar-com no qual faltam os outros. Quando Adão foi criado no Paraíso, ele começou por se sentir sozinho: sentiu que lhe faltava um apoio, uma “ajuda semelhante a ele”. Então, Deus faz passar diante dele os animais que criou, para que Adão os experimente em seu ser (no ser deles) ou, como diz o texto da Bíblia, para que “lhes dê nome”. E, depois de ter dado nome a todos os animais, Adão continua se sentindo sozinho. Isso significa que, já em seu próprio ser, Adão era um ser junto com outros seres humanos, só que esses outros ainda não haviam aparecido. Somente quando Deus cria a mulher e a apresenta a Adão, este reconhece nela o que antes experimentava como ausência. E por isso exclama: “Esta sim é carne da minha carne e osso dos meus ossos”, ou seja, “esta sim é semelhante a mim”. Se Adão fosse heideggeriano, teria exclamado: “Isso sim é um Dasein, finalmente outro Dasein!”. O que mostra, em um exemplo extra-filosófico, mas no qual se manifesta uma (37) experiência muito profunda do ser humano, que o homem é, por essência, um estar-com-outros, um estar com os demais, mesmo que seja apenas na forma de sentir saudades deles.
