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estudos:rivera:zubiri:queda-verfallen

Queda

(RIVERA, Jorge Eduardo. Heidegger y Zubiri. 1. ed ed. Santiago de Chile: Ed. Universitaria, 2001:38)

Por enquanto, o Dasein existe, em geral, de tal maneira que, sem sequer perceber, falsifica seu próprio ser. De forma imediata e constante, o Dasein compreende a si mesmo de maneira inadequada, e isso significa: interpreta seu ser (não apenas teoricamente, mas, sobretudo, vitalmente) de um modo que o oculta. O Dasein interpreta a si mesmo a partir dos entes com os quais tem de lidar em seu estar-no-mundo (In-der-Welt-sein), ou seja, interpreta a si mesmo como mais um dos entes do mundo. E, com isso, seu ser mais próprio e peculiar fica velado e se oculta. O Dasein está aberto ao seu próprio ser, mas, ao mesmo tempo, o encobre, o distorce.

Heidegger fala, a esse respeito, de uma tendência essencial do Dasein que o leva a falsificar a si mesmo. A essa tendência à autofalsificação, Heidegger chama de queda ou movimento de queda (Verfallen). De que queda se trata? Trata-se de uma tendência a absorver-se de tal forma nos entes que aparecem no mundo, que somente eles se apresentam em primeira instância. Ao apresentarem-se esses entes como a única coisa importante, o Dasein mergulha totalmente neles e esquece o ser. O que há de mais próprio do Dasein, sua abertura para o ser, fica oculto e dissimulado. Está lá, mas, ao mesmo tempo, está oculto. A interpretação espontânea do Dasein ocorre a partir dessa situação de ocultação e, assim, o Dasein não percebe seu ser mais próprio. Em vez disso, tende a compreender a si mesmo em função dos entes em relação aos quais o Dasein existe no mundo. “Um” é o que faz, “um” vale o que possui, “um” é um ente determinado por seu comportamento em relação aos entes com os quais lida. Esse modo de existir no esquecimento do que há de mais próprio é o que Heidegger denomina existência im-própria ou simplesmente impropriedade (Uneigentlichkeit). Quando se traduz Uneigentlichkeit por “inautenticidade”, corre-se o risco de ignorar o fato de que, na im-propriedade, perde-se, de certa forma, a relação própria consigo mesmo: é-se si mesmo, ou seja, de si mesmo, deixando-se levar pela interpretação comum e superficial do próprio ser.

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