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Entre Retórica e Poética

RICOEUR, Paul. La métaphore vive. Paris: Seuil, 1975.

  • O paradoxo histórico do problema da metáfora é que ele chega aos modernos através de uma disciplina que faleceu no século XIX, a retórica, o que gera perplexidade sobre se o retorno a esse problema não seria uma tentativa vã de ressuscitar uma arte morta.
  • Se o projeto não for insensato, parece conveniente recorrer primeiramente a Aristóteles, que pensou filosoficamente a retórica.
  • Da leitura de Aristóteles recebem-se alguns avisos salutares no início de qualquer empreendimento sobre a metáfora.
  • O simples exame da tabela de conteúdos da Retórica de Aristóteles atesta que a teoria das figuras foi herdada não de uma disciplina morta, mas de uma disciplina amputada, pois a retórica aristotélica cobria três campos – teoria da argumentação, teoria da elocução e teoria da composição – enquanto os tratados posteriores a reduziram a uma “retórica restrita” à elocução e aos tropos.
  • A história da retórica é a história de uma pele de carneiro que se encolhe, e uma das causas de sua morte foi essa redução, que a fez perder o nexo com a filosofia através da dialética, tornando-a uma disciplina errática e fútil quando o gosto de classificar figuras suplantou o sentido filosófico que unificava suas partes.
  • Esse sentimento de perda irremediável se acentua ao considerar que o vasto programa aristotélico representava já uma racionalização de uma disciplina que, em sua origem em Siracusa, se propunha a reger todos os usos da palavra pública.
  • Houve retórica porque houve eloquência pública, e a palavra foi uma arma para influenciar o povo nos tribunais, nas assembleias e nos panegíricos, sendo a retórica uma técnica que se acrescentou à eloquência natural para tornar o discurso consciente de si mesmo e fazer da persuasão um objetivo distinto a ser alcançado por uma estratégia específica.
  • Antes da taxinomia das figuras houve a grande retórica de Aristóteles, e antes desta houve o uso selvagem da palavra e a ambição de capturar sua potência perigosa por meio de uma técnica especial.
  • A retórica dos gregos não tinha apenas um programa mais vasto que a dos modernos, mas tirava de sua relação com a filosofia todas as ambiguidades de seu estatuto, e o corpus aristotélico apresenta apenas um dos equilíbrios possíveis, no meio de tensões extremas, correspondente ao estado de uma disciplina que não é mais simplesmente uma arma na praça pública, mas ainda não é uma simples botânica das figuras.
  • A retórica é tão antiga quanto a filosofia, sendo seu mais velho inimigo e seu mais velho aliado, pois o arte de bem dizer pode sempre se emancipar do cuidado de dizer verdadeiro, dando um poder redobrável a quem a domina, o poder de dispor das palavras sem as coisas e de dispor dos homens dispondo das palavras.
  • Antes de se tornar fútil, a retórica foi perigosa, e por isso Platão a condenava como uma arte de ilusão e de engano, equiparando-a à culinária e ao cosmético, e essa condenação se estende à metáfora quando dela se vê apenas ornamento e deleitação.
  • A filosofia nunca esteve em estado de destruir a retórica nem de absorvê-la, pois os lugares onde a eloquência se desdobra – o tribunal, a assembleia, os jogos públicos – não foram engendrados pela filosofia e não podem ser suprimidos por ela.
  • Uma possibilidade que restava aberta era delimitar os usos legítimos da palavra poderosa, traçar a linha entre o uso e o abuso, e instituir filosoficamente os laços entre a esfera de validade da retórica e aquela onde a filosofia reina, o que a retórica de Aristóteles constitui como a mais éclatante dessas tentativas.
  • A questão que move a empresa é definir o que é persuadir e em que a persuasão se distingue da lisonja, da sedução e da ameaça, o que exige submeter os artes do discurso a uma reflexão filosófica radical que delimite o conceito de “persuasivo”.
  • A lógica oferecia uma solução de recurso, reconhecendo no verossímil um título ao qual podia pretender o uso público da palavra, pois as coisas humanas não são suscetíveis da necessidade que a geometria e a filosofia primeira exigem.
  • Em vez de denunciar a opinião como inferior à ciência, a filosofia pode se propor a elaborar uma teoria do verossímil que arme a retórica contra seus próprios abusos, e o grande mérito de Aristóteles foi elaborar esse elo entre o conceito retórico de persuasão e o conceito lógico de verossímil.
  • O que se lê hoje sob o título de Retórica é o tratado onde se inscreve o equilíbrio entre dois movimentos contrários, o que leva a retórica a se emancipar da filosofia e o que leva a filosofia a reinventar a retórica como sistema de prova de segundo grau.
  • No ponto de encontro da potência perigosa da eloquência e da lógica do verossímil situa-se uma retórica que a filosofia mantém sob vigilância, e é desse conflito íntimo entre a razão e a violência que a história da retórica produziu o esquecimento.
  • A retórica dos gregos tinha não apenas um programa mais vasto, mas uma problemática mais dramática que a moderna teoria das figuras, e no entanto ela não cobria todos os usos do discurso, deixando de fora a poética.
  • Esse desdobramento da retórica e da poética interessa particularmente porque a metáfora, em Aristóteles, pertence aos dois domínios.
  • A dualidade da retórica e da poética reflete uma dualidade no uso e nas situações do discurso, pois a retórica visa à persuasão, enquanto a poética visa à purificação das paixões de terror e piedade.
  • A metáfora tem um pé em cada domínio, pois, embora sua estrutura seja uma única operação de transferência de sentido, sua função segue os destinos distintos da eloquência e da tragédia, havendo uma estrutura única mas duas funções, uma retórica e uma poética.
  • Essa dualidade de função traduz uma diferença mais fundamental ao nível da intenção, pois a retórica é a arte de inventar provas, enquanto a poesia não quer provar nada, mas sim compor uma representação essencial das ações humanas por meio da ficção e do mito trágico.
  • A tríade poíesis-mímesis-catharsis descreve o mundo da poesia de maneira exclusiva, sem confusão possível com a tríade retórica-prova-persuasão.
  • É preciso, portanto, recolocar a estrutura única da metáfora sucessivamente sobre o pano de fundo das artes miméticas e sobre o das artes da prova persuasiva.
  • Os problemas postos pela dupla inserção da metáfora na Poética e na Retórica podem ser provisoriamente colocados entre parênteses, pois a Retórica adota pura e simplesmente a definição de metáfora segundo a Poética, e em ambas as obras ela é colocada sob a mesma rubrica da lexis.
  • A diferença entre os dois tratados porta sobre a função poética de um lado e retórica de outro da lexis, e não sobre a pertença da metáfora aos procedimentos da lexis.
  • Na Poética, Aristóteles começa por descartar uma análise da lexis regulada pelos “modos de elocução”, remetendo essa questão à retórica, e introduz em seguida uma outra análise que porta sobre as “partes” da elocução.
  • A diferença entre essas duas análises é importante, pois os “esquemas” da elocução são fatos de discurso, enquanto as “partes” da elocução são uma segmentação do discurso em unidades menores ou iguais à frase.
  • O termo comum à enumeração das partes da elocução e à definição de metáfora é o nome, o que sela para séculos o destino da metáfora como vinculada não ao discurso, mas a um segmento de discurso.
  • Na análise da elocução em partes, o nome é o pivô da enumeração, sendo definido como um som complexo dotado de significação, o que faz dele a primeira entidade semântica, em oposição à letra, sílaba, conjunção e artigo.
  • A posição chave do nome na teoria da elocução é decisiva, pois é sobre esse núcleo semântico que será grefada a definição de metáfora como transferência de significação dos nomes.
  • O verbo e a locução, embora definidos como sons complexos dotados de significação, não deslocam o privilégio do nome, pois a locução, que cobre a definição e a frase, não tem nenhum privilégio na teoria semântica.
  • Duas reservas, no entanto, podem ser feitas a essa conclusão: a locução é uma unidade própria que não deriva da do nome, e a expressão “som complexo dotado de significação” pode designar um núcleo semântico comum ao nome, ao verbo e à locução.
  • Essas reservas poderiam servir de base a uma crítica interna do privilégio do nome e permitir uma teoria da metáfora menos tributária do nome, mas a teoria explícita da lexis visa a isolar as partes e, entre elas, uma parte cardinal que é o nome.
  • É do nome que se diz, após a análise em partes da lexis e antes da definição da metáfora, que todo nome é ou corrente, ou insigne, ou metáfora, ou de ornamento, ou formado pelo autor, ou alongado, ou encurtado, ou modificado.
  • A definição da metáfora apresenta quatro traços principais: o primeiro é que ela é algo que acontece ao nome, orientando a história da teoria dos tropos para as figuras de palavras.
  • O segundo traço é que a metáfora é definida em termos de movimento, por “epiphora”, o que, ao designar a transposição como gênero, prepara uma reflexão global sobre a figura e preserva um interesse pelo processo de transposição.
  • Essa noção de epiphora traz também uma perplexidade, pois ao explicar a metáfora, Aristóteles cria uma metáfora emprestada da ordem do movimento, o que mostra que não é possível falar não metaforicamente da metáfora.
  • O terceiro traço é que a metáfora é a transposição de um nome “estrangeiro”, oposto ao nome “corrente” ou “usual”, o que anuncia uma teoria geral dos desvios.
  • A ideia de empréstimo, implícita no termo “estrangeiro”, não implica necessariamente a oposição entre sentido próprio e figurado, embora a retórica posterior tenha feito esse passo.
  • A ideia de substituição, associada à de empréstimo, também não deriva necessariamente desta, pois Aristóteles menciona o caso em que não existe um nome corrente para substituir o metafórico.
  • O quarto traço é a tipologia da metáfora, que a classifica conforme o transferência se dá do gênero à espécie, da espécie ao gênero, da espécie à espécie ou por analogia.
  • Os pólos entre os quais a transposição opera são pólos lógicos, e a metáfora consiste em uma violação dessa ordem lógica, uma transgressão categorial.
  • A ideia de transgressão categorial convida a considerar a metáfora não apenas como deslocamento de um nome único, mas como uma operação que envolve uma dupla de termos ou dupla de relações, o que sugere que o fenômeno é de essência discursiva.
  • A transgressão categorial permite ir além da ideia de desvio lexical, vinculando-a a uma produção de sentido que é heurística, pois a metáfora não desfaz uma ordem senão para inventar outra.
  • A hipótese mais extrema é a de que a metafórica que transgride a ordem categorial é a mesma que a engendra, sugerindo que a própria ordem lógica e a classificação procedem de uma constituição metafórica dos campos semânticos.
  • Essa hipótese é autorizada pela afirmação de Aristóteles sobre a importância de “ser metafórico” como um dom natural, e por sua definição de “bem metafórico” como “bem aperceber as semelhanças”.
  • A Retórica, ao estabelecer um paralelo entre metáfora e comparação, oferece um ensinamento rico para uma interpretação da metáfora em termos de discurso, pois o traço essencial da comparação é seu caráter discursivo.
  • Embora Aristóteles subordine a comparação à metáfora, considerando-a uma metáfora desenvolvida, a análise da comparação revela que a metáfora, assim como ela, procede de uma assimilação que funda o transporte de uma denominação.
  • A superioridade da metáfora sobre a comparação reside na sua brevidade e no fato de que, ao dizer “isto é aquilo”, ela provoca a busca e proporciona uma instrução mais rápida.
  • O rapprochement com a comparação permite retomar a questão da epiphora, mostrando que o transferência se dá entre dois termos, sendo um fato de discurso antes de ser um fato de denominação.
  • A função da metáfora na retórica deve ser compreendida a partir da inserção da lexis nesta disciplina, que, como arte da persuasão, visa à maestria da palavra pública e cobre os campos da argumentação, composição e elocução.
  • O traço de gênio de Aristóteles foi colocar a retórica como “replicante” da dialética, ou seja, como uma técnica da prova no domínio do verossímil.
  • A retórica distingue-se da dialética por aplicar-se a situações concretas e por estar voltada para o ouvinte, considerando as emoções e as crenças, o que a vincula a uma tópica de lugares comuns.
  • A teoria da lexis na retórica tem uma função de “manifestação” do discurso, mas seu vínculo com a prova é tido como frágil, refletindo a instabilidade da própria retórica entre a prova e a persuasão.
  • As “virtudes” da lexis na retórica, como a clareza, a nobreza, a conveniência e a elegância, guiam a estratégia de persuasão, e é sobretudo a virtude da elegância que a metáfora serve, pois ela instrui pelo prazer de aprender.
  • A metáfora retórica não só instrui, mas também “coloca sob os olhos”, significando as coisas em ato, um poder de visualização que está a serviço da persuasão do ouvinte.
  • Na Poética, a lexis é uma das seis partes constitutivas da tragédia, e sua função é a de exteriorização e explicitação da ordem interna do mythos, que é o elemento central da imitação.
  • O mythos é a “imitação das ações” e seu traço fundamental é a ordem e a coerência, o que faz da poesia algo “mais filosófico” que a história, pois trata do universal e do verossímil.
  • O conceito aristotélico de mímese é frequentemente mal compreendido como cópia, mas, no contexto da Poética, ele designa um processo criador de composição, sendo a construção do mito que constitui a imitação.
  • A mímese é definida por sua estrutura e, na tragédia, ela é uma imitação que “magnifica”, representando os homens como superiores ao que são na realidade.
  • Recolocada no fundo da mímese, a metáfora perde seu caráter gratuito, pois a subordinação da lexis ao mythos e deste à mímese confere ao procedimento de estilo uma visada global.
  • A função de sobrelevação do sentido própria à mímese trágica encontra um paralelo no deslocamento de sentido operado pela metáfora, sugerindo que a metáfora é o instrumento privilegiado para a promoção de sentido que caracteriza a imitação.
  • Embora a mímese seja, em última análise, “mímese da natureza”, essa referência à natureza serve para distinguir o fazer humano da produção natural, e não para impor uma contrição ao poema.
  • O conceito de “natureza” na expressão “mímese da natureza” não deve ser entendido como uma realidade inerte, mas como uma natureza viva, o que permite que a imitação seja criadora e que a metáfora, ao “significar as coisas em ato”, esteja ligada à revelação do Real como Ato.
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