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Sujeito
RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.
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O discurso filosófico sobre o homem distingue-se do discurso científico por sua afinidade com o próprio tema, já que o traço mais incontestável da humanidade é o uso da linguagem articulada em discurso, sem que essa mediação reflexiva possa proceder de modo direto e intuitivo.
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Seguindo Kant, a pergunta “o que é o homem?” só pode surgir ao fim de uma série de questões preliminares — o que posso conhecer, o que devo fazer, o que me é permitido esperar —, propondo-se aqui a construção indireta e progressiva do sentido do termo eu, recorrendo simultaneamente à filosofia analítica e à fenomenologia hermenêutica.
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O itinerário proposto conduz de uma caracterização mais abstrata a uma mais concreta dos seres chamados pessoas, indagando através de quais determinações progressivas a pessoa merece ser chamada um si-mesmo — da pessoa ao si, tal seria o título da investigação.
I. NÍVEL LINGUÍSTICO
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O primeiro nível de análise apoia-se sucessivamente na semântica fregeana e na pragmática de Morris para tratar dos traços universais da linguagem quando falamos significativamente do homem como pessoa e como si-mesmo.
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No plano semântico, a pessoa ainda não pode ser caracterizada como um si-mesmo, mas duas propriedades universais da linguagem — a designação individualizante por descrições definidas, nomes próprios e dêiticos, e a identificação de todo particular como corpo ou pessoa, tema da obra de Strawson — já permitem um discurso filosófico elementar sobre o homem.
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Três restrições ligam-se ao estatuto da pessoa como particular de base: as pessoas devem ser corpos, os predicados psíquicos são atribuídos à mesma entidade que os predicados físicos, e esses predicados psíquicos conservam o mesmo sentido seja atribuídos a si mesmo seja a outrem, ainda que a pessoa, neste nível, não seja tratada como capaz de se autodesignar.
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Cada um desses três traços já sugere, porém, que um discurso filosófico sobre o homem não pode confinar-se à referência identificante da lógica extensional, pois o corpo é sempre meu corpo, a atribuição conjunta de predicados transgride a predicação lógica comum, e a mesmidade dos predicados psíquicos já alude à distinção entre si e outrem.
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A passagem da semântica à pragmática permite tematizar pela primeira vez o eu e o tu implicados na interlocução, como mostra a teoria dos atos de discurso e a força ilocucionária de enunciados como “eu declaro” ou “eu prometo”, estendendo-se por citação essa capacidade de autodesignação também à terceira pessoa nos relatos.
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Esse ato de autodesignação está carregado de paradoxos: o termo eu ora funciona como shifter vazio substituível entre falantes virtuais, ora designa, em uso efetivo, uma perspectiva única e insubstituível, e, mais radicalmente, o ego enquanto centro perspectivo, segundo Wittgenstein, é limite do mundo e não coincide com nenhum de seus conteúdos, o que reaparece na aporia do Tractatus e no Caderno Azul.
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Para religar esse eu-limite do mundo a um nome próprio pertencente ao mundo, recorre-se, à semelhança da datação pelo calendário e da localização pelo mapa, ao procedimento da nomeação, que inscreve o eu na carta social dos nomes e prenomes, constituindo a identificação de si.
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Ao final desta primeira etapa, coloca-se a questão de saber se essas três operações — datação, localização e nomeação — remetem inevitavelmente a uma estrutura ontológica mais ampla, a saber, o pertencimento corporal ao mundo que Husserl chamava Lebenswelt e Heidegger in-der-Welt-sein, de modo que análise linguística e fenomenologia se implicam reciprocamente.
II. NÍVEL PRÁXICO
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A segunda parte torna concreta a caracterização da pessoa como si-mesmo ao ligar o sujeito falante ao sujeito agente e paciente, situando a teoria da ação no cruzamento entre semântica — ação como evento no mundo — e pragmática — ação designada por seu próprio agente.
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A caracterização da ação como intencional, seja no advérbio “intencionalmente”, na locução “com a intenção de” ou na intenção “pura” ainda não realizada, suscita o debate sobre se os motivos devem ser tratados como razões irredutíveis a causas ou como causas no sentido humeano, exigindo o apoio mútuo entre lógica semântica e fenomenologia da intencionalidade, com suas faces noética e noemática.
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Na fronteira da pragmática, a questão desloca-se da relação entre o quê e o porquê da ação para a relação entre o quem e o quê-porquê, problema que a redução davidsoniana das razões a causas tende a ocultar, apesar de o poder de agir exprimir-se correntemente em metáforas de paternidade, domínio e propriedade, como já intuíra Husserl ao falar do ego como polo idêntico.
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Novas apories surgem quanto ao estatuto duplo dos predicados psíquicos, à relação entre ascrição e imputação moral, e à conexão com a terceira antinomia cosmológica kantiana, exigindo, segundo o modelo misto de Von Wright e a fenomenologia do “eu posso” de Merleau-Ponty, uma ontologia do corpo próprio como elo entre o poder de agir e o mundo enquanto campo prático.
III. NÍVEL ÉTICO
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A dimensão moral da imputação enxerta-se na caracterização anterior da pessoa como si-mesmo, consistindo o julgamento moral em atribuir à pessoa a responsabilidade pelas consequências próximas de suas ações, passíveis de louvor ou censura.
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Três expansões da noção de ação preparam essa dimensão ética: a estrutura hierárquica das práticas, que se encaixam em planos de vida; o caráter histórico dessas práticas, articulado narrativamente ao longo de uma vida única, na esteira do que Hannah Arendt observa sobre o “quem da ação” contado em histórias; e a estrutura teleológica ligada à conexão entre meios e fins e ao horizonte da vida boa.
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A primeira componente propriamente ética prolonga essa estrutura teleológica através da avaliação das ações segundo padrões de excelência imanentes às práticas, na linha do que MacIntyre propõe, cabendo a uma ética das virtudes elaborar a tipologia dessas valores e à autointerpretação, nos termos de Charles Taylor, constituir a estima de si como corolário subjetivo dessa avaliação.
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A segunda componente ética decorre da estrutura conflitual da interação, marcada por uma assimetria de poder entre agentes e pacientes que abre a possibilidade da violência, exigindo o acréscimo de uma dimensão deontológica resumida na fórmula kantiana de tratar a humanidade sempre também como fim e nunca só como meio, à qual corresponde o respeito como correlato subjetivo da obrigação moral, incluindo e não abolindo a estima de si, o que esclarece o mandamento de amar o próximo como a si mesmo.
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As etapas sucessivas do percurso devem ser entendidas cumulativamente, pois as dimensões éticas enxertam-se nas práxicas assim como estas nas linguísticas, cabendo à filosofia, e não à ciência, elaborar esse sistema de pressupostos que constitui as condições transcendentais das ciências humanas, resumido na declaração pronunciada com temor e tremor: “Eis-nos aqui, nós os humanos, nós os mortais!”
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