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Identidade
RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.
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A investigação retoma, do ponto em que ficara em Tempo e narrativa 3, a questão da identidade narrativa, aquela alcançada pelo sujeito humano através da mediação da função narrativa, na medida em que compreender-se a si mesmo é interpretar-se sob o duplo regime do relato histórico e do relato de ficção.
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O termo idêntico comporta dois sentidos distintos, correspondentes ao latim idem, semelhança imutável no tempo, e ipse, próprio, cujo oposto não é o diferente mas o estranho, sendo objeto desta investigação a identidade a si no sentido de ipseidade, precedida por uma exploração da reflexividade nos domínios da ação, dos atos de linguagem e da imputação moral.
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Com a dimensão narrativa surge a dimensão temporal da experiência humana, ausente das determinações reflexivas anteriores do si-mesmo.
I. A CONEXÃO DE UMA VIDA E A MEDIAÇÃO DO RELATO
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A dimensão linguística proporcionada à dimensão temporal da vida é o relato, único instrumento capaz de conferir sentido, ainda que indireto, ao conceito de história de uma vida.
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A aporia do enlaçamento de uma vida, aquilo que Dilthey chamava Zusammenhang des Lebens, decorre de a reflexão perseguir uma noção de identidade que mistura o si-mesmo e o semelhante, sendo as categorias kantianas de substância e permanência no tempo inadequadas a tal conexão, ainda que se disponha de uma precompreensão dessa mistura de permanência e mudança, à qual o relato oferece sua mediação.
II. A CONFIGURAÇÃO DO RELATO E A IDENTIDADE DA PERSONAGEM
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O relato constrói o caráter durável de uma personagem, sua identidade narrativa, construindo a identidade dinâmica própria da história contada, sendo essa correlação afirmada já por Aristóteles na Poética e confirmada pelo romance moderno segundo o axioma de Frank Kermode de que desenvolver um caráter exige contar mais.
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Seguindo o modelo trágico de Aristóteles, a identidade dinâmica atribuída ao muthos resulta da concorrência entre a exigência de concordância — caracterizada por completude, totalidade e extensão apropriada — e o reconhecimento das discordâncias que ameaçam essa identidade até o fechamento do relato.
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A discordância maior, chamada reversão ou mudança de fortuna, manifesta-se na peripécia trágica, cujos traços de contingência e surpresa se harmonizam com a necessidade ou verossimilhança do conjunto, produzindo a catarse das emoções de medo e piedade.
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A configuração, termo preferido a estrutura para sublinhar seu caráter dinâmico, opera essa mediação entre concordância e discordância, generalizável, segundo o desenvolvimento proposto em Tempo e narrativa 2, pela noção de síntese do heterogêneo, aplicável tanto ao romance quanto ao drama modernos.
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Da subordinação aristotélica do caráter à ação decorre que a identidade narrativa da personagem é o estilo unitário das transformações subjetivas regradas pelas transformações objetivas da intriga, conforme a fórmula de Wilhelm Schapp em Empêtrés dans des histoires: die Geschichte steht für den Mann, a história responde pelo homem.
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A narratologia de Propp articula uma tipologia de sete papéis narrativos sobre uma tipologia de encadeamentos de funções, relação que se complica quando as personagens, como no romance de formação e no romance de fluxo de consciência, se transformam ao ritmo das interações, invertendo o modelo aristotélico ao colocar a intriga a serviço do devir da personagem.
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No limite dessa transformação, como em Robert Musil, cuja obra opõe “o homem sem qualidades” a “um mundo de qualidades sem homens”, a personagem torna-se inidentificável e o próprio relato perde suas qualidades narrativas, aproximando-se do ensaio, como ocorre também em certas autobiografias modernas, a exemplo da de Leiris.
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Mesmo no caso extremo da perda de identidade do herói, o não-sujeito permanece uma figura do sujeito em modo negativo, pois a pergunta “quem sou eu?”, ainda que respondida por “quase nada”, continua sendo resposta à pergunta quem?
III. A APROPRIAÇÃO DA PERSONAGEM: O EU REFIGURADO
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A abordagem narrativa confirma primeiramente o primado da terceira pessoa no conhecimento do homem, já que aprendemos mais sobre o homem pelo Er-Erzählung, o relato em terceira pessoa, do que pela confissão ou autobiografia.
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A personagem confirma ainda que ela é também um corpo, suporte de predicados físicos e psíquicos cujo sentido permanece idêntico seja self-ascribable seja other-ascribable, sendo o repertório do psíquico em grande parte fruto das investigações da alma pelos criadores de intrigas e inventores de personagens.
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A personagem confirma, por fim, que a designação em terceira pessoa deve poder ser complementada pela autodesignação, o que a arte narrativa ilustra através de procedimentos como o monólogo citado e o discurso indireto livre, ou “monólogo narrativizado” na terminologia de Dorrit Cohn, fundindo a terceira pessoa referencial com a primeira pessoa reflexiva.
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O relato contribui também à avaliação moral das personagens e à problemática da imputação, já observada por Aristóteles quanto às personagens “melhores” ou “piores” que nós, alquimia que se complica progressivamente na história do romance e do teatro sem que a personagem escape inteiramente à imputação.
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O caráter fictício da personagem, decorrente da definição da intriga como mimèsis da ação, implica que o relato reinterprete, redescreva ou, como se propôs em Tempo e narrativa 3, refigure a ação efetiva dos homens, colocando o problema original da apropriação, pelo leitor real, das significações ligadas ao herói fictício.
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A refiguração pelo relato revela que o si não se conhece imediatamente, mas apenas indiretamente pelo desvio de signos culturais, de modo que a autoapropriação da identidade da personagem fictícia pelo leitor faz do si-mesmo, narrativamente interpretado, um eu figurado.
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A apropriação por identificação submete o próprio sujeito ao exercício de variações imaginativas sobre si mesmo, verificando-se a fórmula de Rimbaud “eu é um outro”, jogo equívoco e não isento de perigo.
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A equivocidade reside em que a figuração de si numa construção pode, segundo a hermenêutica da suspeita — de Sartre à “transcendência do ego” e a Lacan sobre o imaginário fantasioso, passando por Freud —, tornar-se fonte de ilusão, como ilustram dentro da própria ficção Dom Quixote e madame Bovary, ainda que essa suspeita só valha se puder ser oposta a uma identificação autêntica, na qual construir-se seja tornar-se o que se é.
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O perigo reside ainda na errância entre modelos concorrentes de identificação e na hipótese da perda de identidade, a Ichlosigkeit que atormentou Musil, hipótese que, longe de nada dizer, mostra que “eu não sou nada” mantém sua forma paradoxal, pois nada deixaria de significar algo se não fosse atribuído a um eu, um si privado do socorro da mesmidade.
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Esse grau zero da permanência revela a total inadequação da categoria de substância à problemática do si, funcionando como prova purgativa, análoga à casa vazia das transformações de Lévi-Strauss, atravessada nos relatos de conversão, de modo que a resposta nula à pergunta quem sou eu remete não à nulidade mas à nudez da própria pergunta, permitindo à dialética de concordância e discordância, transferida da intriga à personagem e desta a si mesmo, recomeçar com nova esperança de significância.
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A exploração de paradoxos da identidade possui valor didático próprio a uma pesquisa em que o mais valioso a trocar entre filósofo e psiquiatra são justamente as apories, propondo-se examinar três desses paradoxos.
I. O PRIMEIRO PARADOXO DIZ RESPEITO AO RAPPORT AO TEMPO, À ESTRUTURA TEMPORAL DA IDENTIDADE
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A busca da identidade visa traços de estabilidade e imutabilidade do mesmo — numérica, ontogenética ou estrutural —, mas a pessoa humana só satisfaz parcialmente essa mesmidade, pois no domínio psicológico dos desejos e crenças a variabilidade serviu a Hume e a Nietzsche para negar um eu permanente.
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Ainda assim, esperamos que outrem responda por seus atos passados como o mesmo autor de hoje e mantenha no futuro a palavra dada, o que remete não à identidade-idem, modelada na substância imutável, mas à identidade-ipse, modelada na promessa mantida, noção que Dilthey chamava conexão da vida.
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O paradoxo reside em habitarmos os dois lados dessa cisão conceitual, sendo a pergunta pertinente quem sou eu, e não o que sou, admitindo uma resposta equívoca e cindida entre o caráter, que marca a permanência do idem, e a promessa, que ilustra a manutenção do ipse, sem que coisas e pessoas se repartam de um lado só.
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A mediação narrativa, pelo procedimento da intriga, integra o tempo na identificação ao compor uma história cujas peripécias, seguindo a Poética de Aristóteles, conjugam concordância e discordância numa inteligibilidade narrativa aplicável tanto às personagens quanto à história contada, retomando o conceito diltheyano de conexão de uma vida.
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Esse paradoxo não se resolve, mas se reformula em dialéticas fecundas: mesmos eventos podem ser narrados de formas diversas e com efeitos diferentes, histórias contadas por nós e por outros sobre nós divergem, e identidade-caráter e identidade-promessa podem chegar à ruptura, como no romance O homem sem qualidades de Musil, cujo herói busca em vão sua identidade-promessa sob os traços da identidade-mesmidade, originando o que se chama, erroneamente, “perda de identidade”.
II. O SEGUNDO PARADOXO DA IDENTIDADE PRENDE-SE À RELAÇÃO ENTRE SI E O OUTRO
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Contra o discurso hoje banalizado em favor da alteridade, defende-se o paradoxo segundo o qual deve primeiro existir um sujeito capaz de dizer eu para poder viver a prova do confronto com o outro, remontando-se à noção leibniziana de mônada, cada alma vendo a mesma cidade apenas de um ângulo, e ao caráter intransferível da memória que levou Locke a fazer dela o critério da identidade.
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Sobre essa singularidade pré-reflexiva da alma se erguem os graus de autorreferencialidade, das fórmulas em “eu posso” ao cogito cartesiano, que se define como coisa que duvida, concebe, afirma, nega, quer, imagina e sente, sobre o qual se enxertam as formulações éticas da cultura do eu, do exame socrático ao cuidado de si platônico, da Aufklärung a Kierkegaard e ao último Foucault, culminando no elogio da estima de si e na epígrafe do Diário de um pároco de aldeia de Bernanos: “é mais fácil do que se crê odiar-se”.
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Em contrapartida, desde o nível pulsional a vida só é vida humana pela mediação da linguagem — o desejo humano é desejo do desejo do outro —, tendo cada um “sido falado” antes de falar, apoiando-se a própria memória em relatos alheios e na memória coletiva de que fala Halbwachs, e estendendo-se o primado da alteridade às identificações a heróis, modelos e normas que, segundo Bourdieu, remodelam o imaginário privado pela inculturação e pela violência simbólica, processo em que Freud via a formação do supereu.
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A identidade de cada um constrói-se entre esses dois polos — pensar por si mesmo e o domínio do outro —, sem que se disponha, além da mediação narrativa já proposta, de outra saída além do reconhecimento do caráter conflitual das estruturas intersubjetivas, como mostra a visão trágica que Freud dá da infância, marcada por incesto e parricídio fantasiados, e as descrições da crise mimética por René Girard, sendo a educação, no grande sentido da Bildung, o único meio pragmático de conquistar a justa distância entre identificação fusional e separação pelo ódio, desprezo ou medo.
III. O TERCEIRO PARADOXO PODE SER COLOCADO SOB O TÍTULO: RESPONSABILIDADE E FRAGILIDADE
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A identidade pessoal afirma-se como potência de existir, no vocabulário do conatus de Spinoza, exprimindo-se tanto no registro da capacidade de fazer — poder dizer, agir, reunir a própria vida num relato — quanto no da imputabilidade, definida pelos teóricos do direito das gentes como capacidade de estar submetido à obrigação jurídica, capacidade reflexiva de segundo grau que se pode chamar responsabilidade.
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Contra essa afirmação de potência ergue-se a confissão da fragilidade, interessando igualmente ao psiquiatra e ao penalista, começando pela impotência de dizer que a psicanálise enfrenta no recalque, interpretado por Lorenzer e Habermas como dessimbolização, e prosseguindo pelas incapacidades de agir infligidas pela doença, o envelhecimento e o abuso do poder de outrem, e pela incapacidade de narrar, agravada nos sobreviventes dos campos de concentração confrontados a lembranças inenarráveis.
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Esse paradoxo não se confunde com a antinomia clássica entre livre-arbítrio e determinismo, própria da cosmologia racional kantiana, pois responsabilidade e fragilidade pertencem a um único universo de discurso, o da ação humana, sendo o mesmo homem responsável e frágil.
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A fragilidade insinua-se no próprio coração da responsabilidade, conferindo-lhe estatuto ambíguo de pressuposição e de tarefa a um só tempo, paradoxo já presente em Kant, para quem a autonomia é ao mesmo tempo juízo sintético a priori segundo a Crítica da razão prática e conquista de um combate histórico segundo Que é o Iluminismo?, resumido no sapere aude.
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A mediação entre responsabilidade e fragilidade não se encontra em nenhuma solução especulativa, mas apenas na gestão pessoal e institucional do paradoxo, seja pela transformação dos antigos espaços de reclusão do asilo e da prisão em vista da reabilitação e ressocialização, seja pelo esforço cotidiano de médicos e magistrados para associar paciente e detido à reconquista de sua autonomia, único caminho para transformar essa aporia intelectual paralisante em estímulo à prática.
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