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Ética

RICŒUR, Paul. Écrits et conférences I. Paris: Éd. du Seuil, 2008.

Psicanálise e valores morais

  • Uma investigação sobre psiquiatria e moral deve ser limitada à psicanálise freudiana, pois Freud exerce influência decisiva sobre a cultura contemporânea e desloca radicalmente o modo de interrogar as questões morais.
  • A competência da psicanálise em matéria moral não deriva de uma extensão tardia da psicologia individual à cultura, pois os escritos freudianos sobre arte, moral e religião acompanham desde cedo a formação da própria metapsicologia.
  • Os escritos culturais de Freud não constituem simples psicanálise aplicada, mas pertencem à psicanálise enquanto tal.
  • A legitimidade da psicanálise para tratar de arte, ética e religião decorre de sua intenção originária, não de uma ampliação secundária de seu campo.
  • A interpretação freudiana do mito de Édipo mostra desde o início que a psicanálise descobre simultaneamente o sentido de um sonho privado e de um mito público, tornando-se ao mesmo tempo teoria da neurose e teoria da cultura.
  • A possibilidade dessa articulação exige explicação.
  • O objeto da psicanálise é o desejo humano em relação conflitual com a cultura, pois o desejo aparece sempre mediado por pais, autoridades, proibições, ideais, instituições, obras e signos linguísticos ou pré-linguísticos.
  • A psicanálise é, por razões históricas e sistemáticas, uma teoria da dialética entre desejo e cultura, e nenhum fenômeno humano lhe é estranho quando envolve essa relação.
  • O problema ético não é abordado isoladamente pela psicanálise, mas como aspecto particular da cultura compreendida como totalidade.

1. Um modelo econômico do fenômeno da cultura

  • A pergunta sobre a cultura abre a análise freudiana do fenômeno cultural em seu conjunto.
  • A distinção entre civilização e cultura perde pertinência quando a cultura é examinada segundo o balanço dos investimentos e contrainvestimentos libidinais.
  • A interpretação econômica domina todas as considerações freudianas sobre a cultura.
  • A coerção cultural implica renúncia pulsional, mas a cultura não se reduz à proibição, pois envolve diminuir a carga dos sacrifícios pulsionais, reconciliar os homens com os renunciamentos inevitáveis e oferecer compensações satisfatórias.
  • Essas questões definem uma interpretação econômica que une os ensaios freudianos sobre arte, moral e religião, ligando psicologia individual, psicologia coletiva e metapsicologia.
  • A interpretação econômica da cultura se desdobra em dois momentos: primeiro, uma erótica geral orientada por Éros e pela necessidade; depois, uma teoria trágica da cultura que exige a introdução da pulsão de morte.
  • A cultura dá ao homem poder sobre a natureza, mas não o torna feliz, e as tensões entre libido individual e vínculo social ainda poderiam parecer conciliáveis enquanto permanecem dentro de uma erótica geral.
  • A questão retorna sob a forma da insatisfação do homem enquanto ser de cultura.
  • O mandamento de amar o próximo e os inimigos revela a agressividade humana que ultrapassa uma erótica simples e mostra o homem como inclinado a explorar, humilhar, ferir e matar seu semelhante.
  • A pulsão de morte, como hostilidade primordial do homem contra o homem, perturba a relação humana e exige que a sociedade se constitua como instância repressiva.
  • A introdução da pulsão de morte transforma toda a economia da cultura, pois o trágico cultural revela o antagonismo pulsional que permanecia silencioso no plano biológico e ambíguo no plano psíquico individual.
  • A teoria das pulsões é relida a partir de sua expressão cultural, pois a pulsão de morte só se torna manifesta quando se mistura a Éros em formas como agressividade, sadismo e masoquismo.
  • O sentimento de culpabilidade inverte a relação entre psicologia e teoria da cultura, pois passa a ser o meio pelo qual a civilização combate a agressividade e se torna o problema capital do desenvolvimento cultural.
  • A psicologia do sentimento de culpabilidade só se torna inteligível dentro de uma interpretação econômica da cultura, na qual o supereu interioriza a agressividade e a dirige contra o eu.
  • A explicação estrutural econômica do sentimento de culpabilidade subordina as explicações genéticas parciais, pois o conflito entre Éros e pulsão de morte torna inevitável a culpa na passagem da família à humanidade.
  • A teoria da cultura ainda não determina especificamente a ética, mas estabelece o quadro no qual o problema ético poderá ser colocado como função econômica da cultura.
  • A psicanálise é redutora quando submete os processos culturais ao ponto de vista econômico, mas essa economia só se torna acessível por meio de uma hermenêutica dos fenômenos culturais que dão expressão às forças mudas.

2. A economia dos fenômenos éticos

  • A interpretação freudiana dos fenômenos morais pode transformar o próprio vivido moral, mas esse novo olhar é inicialmente recebido como agressão e trauma.
  • A análise dos fenômenos morais deve passar pelo plano descritivo-clínico, pelo plano explicativo-genético e pelo plano teórico-econômico.
  • No plano descritivo, Freud aplica à moralidade instrumentos forjados na clínica da neurose obsessiva, da melancolia e do masoquismo, fazendo a moralidade parecer anexada à esfera patológica.
  • A segunda tópica permite pensar o supereu como instância inconsciente repressora e desloca o problema da consciência para o problema do eu em suas relações de dependência diante do isso, do mundo e do supereu.
  • O supereu é clinicamente descrito como ideal do eu, consciência moral e auto-observação.
  • A observação designa o desdobramento pelo qual o sujeito se sente vigiado, criticado e condenado pelo supereu.
  • A consciência moral revela a crueldade do supereu como instância que proíbe, reprova e maltrata o eu, à maneira de um outro interior e superior.
  • O ideal do eu introduz a exigência de aperfeiçoamento, mas recebe uma coloração patológica quando associado à observação e à condenação.
  • A moralidade aparece inicialmente como alienada e alienante, pois a patologia do dever prolonga a patologia do desejo e faz do supereu um país estrangeiro interior.
  • A psicanálise não oferece o fundamento do problema ético, mas sua fonte e sua gênese, deslocando a atenção para o processo de interiorização pelo qual uma autoridade externa se torna interior.
  • A descrição clínica do fenômeno moral apresenta a moralidade como dependente de uma interpretação econômica do eu submetido a seus diversos senhores.
  • A descrição clínica exige uma explicação genética, pois a realidade moral aparece como derivada, e a gênese passa a ocupar o lugar de fundamento.
  • O freudismo é uma forma de genetismo moral, mas sua própria explicação se torna cada vez mais problemática à medida que é desenvolvida.
  • A explicação genética não esgota a autoridade, pois o supereu da criança deriva do supereu parental e transmite tradições e valores perpetuados de geração em geração.
  • A explicação genética repousa sobre a convergência entre ontogênese e filogênese, isto é, entre a psicanálise da criança e a das sociedades primitivas.
  • A descoberta do Édipo aparece de modo fulgurante como drama individual, destino coletivo, fato psicológico, origem da neurose, origem da cultura e fonte da moralidade.
  • O segredo individual torna-se destino universal e ético pela mediação da instituição, pois o incesto sonhado encontra seu correlato cultural na proibição do incesto.
  • A filogênese parece inicialmente poder avançar além da ontogênese por meio da aproximação entre proibição do incesto, tabu e neurose obsessiva.
  • Totem e tabu oferece uma interpretação psicanalítica da etnologia, reencontrando em escala coletiva aquilo que a psicanálise já sabia pela clínica.
  • A analogia entre tabu e neurose obsessiva se sustenta por proibições imotivadas, necessidade interna, deslocabilidade, contagiosidade e ações cerimoniais derivadas.
  • A ambivalência afetiva do tabu, simultaneamente atraente e temido, ilumina a psicologia da tentação e aproxima Freud de Paulo, Agostinho, Kierkegaard e Nietzsche.
  • A ambivalência não explica a consciência moral, mas mostra como certas relações são vividas depois de instituída a interdição, deixando sem tematização a origem da autoridade e da instituição.
  • Freud recorre ao mito do parricídio originário para preencher a lacuna da instituição e explicar a cicatriz histórica da humanidade.
  • O mito freudiano do assassinato do pai torna mais agudo o problema da instituição, pois a questão decisiva passa a ser como o parricídio poderia dar origem à proibição do fratricídio e à passagem da violência ao direito.
  • A descrição clínica e a explicação genética devem ser integradas ao ponto de vista econômico já formulado no nível global da cultura.
  • A explicação econômica da moralidade deve mostrar como a autoridade se diferencia no interior do fundo pulsional e como a introjeção histórica corresponde a uma repartição de investimentos.
  • O conceito de identificação desempenha papel decisivo na explicação econômica da moralidade.
  • A identificação percorre a obra freudiana desde sua aproximação com a idealização até a interiorização do objeto perdido e a ligação intersubjetiva com uma pessoa tomada como modelo.
  • O Moi e o ça reúne essas descobertas ao perguntar como o supereu, historicamente herdado da autoridade parental, retira economicamente suas energias do isso.
  • A identificação por abandono do investimento objetal aparece como processo frequente pelo qual o eu instala o objeto em si e conserva a história dos objetos abandonados.
  • O abandono do objeto de desejo, que inicia a sublimação, coincide com uma regressão econômica da libido de objeto à libido narcísica.
  • A transformação da libido objetal em libido narcísica sugere que toda sublimação passa pelo eu, que converte a libido sexual objetal em libido narcísica antes de propor-lhe outro fim.
  • O esforço freudiano consiste em fazer entrar a identificação ao pai da pré-história individual e coletiva no esquema da identificação por abandono do investimento objetal, de modo que o supereu apareça como precipitado de investimentos de objetos abandonados.
  • A doutrina converge entre descrição clínica da moralidade, explicação genética dessa formação e explicação econômica dos processos mobilizados por essa gênese.

3. Ética e psicanálise

  • A pergunta por uma ética da psicanálise deve receber resposta negativa quando ética significa prescrição de deveres, embora a crítica psicanalítica da moralidade possa implicar uma nova maneira de pensar o ético.
  • A psicanálise não prescreve porque seu estatuto teórico, suas descobertas sobre a moralidade e sua técnica terapêutica impedem que ela se torne moralizante.
  • O estatuto teórico da psicanálise impede a prescrição, pois sua explicação econômica da moralidade só permite uma crítica de autenticidade, não uma crítica de fundamento.
  • A psicanálise desmascara falsificações do desejo na vida moral, mas não resolve o fundamento do poder, da autoridade ou dos valores.
  • A sublimação marca o limite do ponto de vista econômico, pois este explica a filiação energética dos investimentos, mas não a novidade axiológica do valor promovido.
  • A psicanálise possui a força do suspeita, não a da justificação, da legitimação ou da prescrição.
  • As descobertas psicanalíticas sobre a moralidade impedem a psicanálise de moralizar, pois revelam que o homem é primeiramente mal acusado e que é preciso acusar a acusação.
  • Freud não acusa a acusação como Nietzsche ou Hegel, mas a compreende e torna públicos sua estrutura e seu estratagema, abrindo caminho para uma ética em que a crueldade do supereu ceda à severidade do amor.
  • A técnica terapêutica da psicanálise exige a neutralização do ponto de vista moral, pois a cura é trabalho de perlaboração das resistências e manejo das forças liberadas pelo transferência.
  • A luta contra as resistências por meio do transferência introduz a veracidade como única valor ético diretamente implicado pela técnica analítica.
  • A psicanálise é uma técnica da veracidade, pois conduz da méconnaissance ao reconhecimento de si por si, tendo como modelo trágico o reconhecimento de Édipo.
  • A técnica analítica opera no campo da palavra e busca o acesso ao discurso verdadeiro, que não deve ser confundido com adaptação ao discurso idealizado da ordem estabelecida.
  • A psicanálise deve suspender o restante da moral, mas a veracidade contém em germe novas atitudes nascidas do fim da dissimulação.
  • A vulgarização da psicanálise transforma a desocultação em falação sobre a libido e em esquemas redutores que reforçam o desencantamento moderno da cultura.
  • O mal-entendido acompanha inevitavelmente a tomada de consciência, pois a cultura moderna só compreende a psicanálise por meio de representações truncadas suscitadas pelas resistências de seu próprio narcisismo.
  • A consciência comum procura na psicanálise vulgarizada justificações para posições morais não transformadas pela crítica psicanalítica, ora em favor de uma educação sem constrangimento, ora em favor da moral tradicional.
  • A revolução freudiana é a do diagnóstico, da lucidez fria e da verdade laboriosa, não a de uma pregação moral ou de uma nova ética diretamente ensinada.
  • Freud pode transformar indiretamente a ética porque não é moralista, mas pensador não profético que muda a consciência ao revelar algumas de suas astúcias.
  • Freud é trágico demais para ser moralista, pois mostra a dureza da vida e o caráter necessário dos conflitos humanos antes de qualquer consequência ética imediata.
  • A sabedoria instruída pela psicanálise começa pelo conhecimento lúcido do conflito, expresso por Freud nos mitos trágicos de Édipo, Narciso, Éros, Anangkê e Thanatos.
  • A nova ética não deve ser derivada imediatamente de Freud, mas preparada pela instrução não ética da psicanálise e pela dolorosa tomada de consciência que humilha o narcisismo e ensina, segundo Ésquilo, a compreender pelo sofrer.
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