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Ação

RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.

  • A investigação, de caráter interdisciplinar, articula semiologia e praxeologia para sustentar a tese de que nenhuma ação humana escapa a uma mediação simbólica.
  • Três observações delimitam os termos da pesquisa: a ação é entendida como ação social, mas também analisável a partir de agentes singulares capazes de conferir-lhe sentido.
  • Descarta-se tanto a identificação do símbolo à simples notação leibniziana quanto sua redução a um saber esotérico de sentido oculto, preferindo-se uma definição ampla aparentada à noção cassireriana de forma simbólica.
  • A divisão da investigação em duas partes decorre da distinção entre um simbolismo constituinte, imanente à ação e por vezes inconsciente, e um simbolismo representativo, que encontra linguagem, especialistas e instituições próprias, como o relato e as ideologias.

I. O SIMBOLISMO CONSTITUINTE

  • Neste primeiro nível, não se trata das representações que um grupo faz de sua condição simbólica, mas dessa própria condição, examinada a partir da teoria da ação.

1. Ação e significação prática

  • A noção de ação já pressupõe significação, distinguindo-se do simples acontecimento por implicar uma rede de expressões intersignificantes como intenção, motivo e agente.
  • O motivo situa a intenção singular num campo de disposições e sentimentos que permite a comparação axiológica, enquanto o agente, identificável por um nome próprio, torna-se problemático quando a ação é coletiva ou seus efeitos são distantes e não desejados.
  • A significação da ação resulta do entrecruzamento das perguntas e respostas sobre intenções, motivos e agentes, permanecendo problema com sentido mesmo quando sua resolução é praticamente impossível.
  • A sociologia compreensiva de Max Weber, adotada como referência, distingue a ação do comportamento pela possibilidade de interpretação compreensiva e delimita seu domínio às ações orientadas para outrem, excluindo apenas o encontro puramente acidental.

2. Significação e mediação simbólica

  • O símbolo acrescenta à significação o caráter público da articulação significante, respondendo à objeção de Wittgenstein contra as descrições ostensivas privadas, conforme a fórmula de Clifford Geertz de que a cultura é pública porque a significação o é.
  • O símbolo indica ainda o caráter estruturado do conjunto simbólico, sempre integrado a um sistema, tarefa que compete à análise estrutural evidenciar em sua textura social.
  • O símbolo introduz a ideia de regra ou controle simbólico, comparável, com ressalvas, aos códigos genéticos, já que os códigos culturais se erigem justamente onde o regramento genético se esgota, exigindo intencionalidade e significação.
  • A regra das regras é a troca — de bens, signos ou mulheres, segundo Lévi-Strauss —, que evidencia a constituição semiológica do sistema social e sua parentesco profundo com o sistema linguístico, sem que se deva, contudo, separar os sistemas simbólicos da ação e da forma de vida de que fala Wittgenstein.
  • Um sistema simbólico fornece o contexto que permite ver certo comportamento como significando isto ou aquilo, funcionando como interpretante da ação antes de vir a ser ele próprio interpretado, o que aproxima o símbolo da noção geertziana de thick description.
  • O simbolismo constituinte deságua no simbolismo representativo à medida que se afirma a legibilidade da ação, comparável por Clifford Geertz à leitura de um manuscrito estrangeiro e apagado.
  • Distingue-se o texto propriamente dito, escrito pelo sociólogo, do quase-texto da cultura, cuja legibilidade virtual é reinscrita pela leitura científica, interpondo-se os símbolos representativos pelos quais uma cultura se compreende a si mesma.
  • Toda cultura, ao refletir seus próprios símbolos num metalinguagem, torna a descrição e a interpretação uma luta com e contra os sistemas simbólicos representativos, sem que isso impeça falar de uma cultura como discurso, cuja finalidade é, segundo Geertz, conversar com estranhos.

II. O SIMBOLISMO REPRESENTATIVO

  • O caráter sempre passível de redobramento do simbolismo constitutivo não autoriza concluir que todo simbolismo seja representativo, impondo-se antes mostrar o enraizamento do segundo no primeiro.

1. O afastamento representativo

  • A crítica de Marx aos jovens hegelianos, ao remeter toda consciência ao processo vital dos indivíduos reais, reconhece contudo que a produção de representações está diretamente misturada à atividade material, o que aproxima esse “linguagem da vida real” do simbolismo constitutivo aqui descrito.
  • Recusando o modelo do renversement ideológico como forma canônica, propõe-se o termo mais neutro de afastamento (écart) para designar a passagem de um simbolismo a outro, requerido pela própria natureza da ação, tanto pela representação retrospectiva dos motivos quanto pela antecipação do projeto.
  • A ação individual se representa na medida em que se diz e pode se escrever, tornando-se texto aberto a leituras múltiplas, sobretudo quando ações coletivas de consequências distantes se autonomizam, se sedimentam e se institucionalizam em documentos e arquivos.
  • O afastamento representativo constitui-se também prospectivamente, quando as regras simbólicas da ação, refletidas em si mesmas, tornam-se modelos geradores de séries de ações e premissas de silogismos práticos, o que impede identificar simplesmente o simbolismo representativo com a ideologia.

2. O relato de ficção

  • O relato configura exemplo privilegiado de afastamento representativo por narrar precisamente a ação humana, forjando ficções de caráter heurístico.
  • Segundo o paradoxo aristotélico da Poética, a mimèsis trágica não imita servilmente os eventos, mas transpõe sua estrutura lógica e significação através do muthos, o que leva Aristóteles a considerar a poesia mais filosófica que a história.
  • Todo relato articula uma dimensão episódica e sucessiva com uma dimensão de configuração, exigindo do narrador e do ouvinte a capacidade de apreender em conjunto os eventos dispersos.
  • Transformar a realidade pela intriga não é deformá-la, mas formá-la, cumprindo a função, nas palavras de Nelson Goodman, de reorganizar o mundo em função das obras e as obras em função do mundo.
  • Entre um diverso demasiado “longo” da ação humana e uma lógica demasiado “curta” dos possíveis narrativos, a ficção interpõe seu esquematismo, permitindo uma leitura narrativa da própria vida que é ao mesmo tempo reescritura.

3. A ideologia

  • A ideologia situa-se no leque dos simbolismos representativos, pressupondo o afastamento entre representação e ação e a função heurística da ficção, sem se reduzir à pura dissimulação.
  • Toda comunidade constrói imagens esquemáticas de si mesma a partir do memorial de seus eventos fundadores, e é no afastamento próprio de toda situação de após-o-fato que intervêm as imagens e interpretações que constituem essa ideologia de consolidação.
  • A ideologia vira dissimulação quando mobilizada para preencher o vazio entre a pretensão de legitimidade de um sistema de autoridade e a crença espontânea dos indivíduos nessa legitimidade.
  • As teorias clássicas do interesse, de inspiração marxista, e da tensão, seguindo Talcott Parsons, não bastam para explicar o modo de operação da ideologia, que exige, segundo Clifford Geertz, um processo autônomo de formulação simbólica aparentado aos usos retóricos do discurso, já reconhecidos por Platão e Aristóteles.
  • Esse desvio perverso do simbolismo e do discurso constitui o ponto cego de todo sistema simbólico, ponto em que a missão do sociólogo e do filósofo deixa de ser descrever para tornar-se desmascarar e combater o princípio de mentira que converte o imaginário social em potência de ilusão.
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